Ano VI, nº 98, 03 de abril de 2025
Por Eloisa Ferreira Goes, Carlos Eduardo Ramos Sanches, Nathalia de Andrade Costa e Isabella Werneck Zanon
(Imagem: Pixabay)
Passados quase 14 anos do início da Primavera Árabe, a Líbia ainda luta por uma estabilização política. Entretanto, após sucessivos conflitos e diferentes alianças internacionais, o país sofre com a expectativa de novos conflitos armados.
Era Gaddafi
O governo de Muammar al-Gaddafi na Líbia teve início com o golpe de Estado de 1º de setembro de 1969, quando ele e um grupo de jovens oficiais conhecidos como os “Oficiais Livres” derrubaram a monarquia de Idris I, estabelecida desde a independência do país em 1951. Antes da ascensão de Gaddafi, a Líbia era marcada por uma profunda desigualdade social e por grande descontentamento popular, que era agravado pela falta de apoio à causa árabe especialmente com relação ao conflito árabe-israelense.
Com a queda da monarquia, Gaddafi proclamou a República Árabe Líbia, consolidando um regime centralizado e que buscava se distanciar das influências ocidentais. Ele buscou legitimar seu governo através da elaboração de uma ideologia própria, que misturava elementos do nacionalismo árabe e princípios islâmicos, culminando na elaboração da “Terceira Teoria Universal”. Em 1973, Gaddafi promoveu a Revolução Cultural e Popular, que reforçava a identidade islâmica e árabe e propunha um modelo de governo que promovesse uma maior participação popular.
Em 1977, com a proclamação da Jamahiriyya, Gaddafi introduziu o conceito de “estado das massas”, onde teoricamente o poder deveria ser exercido pelo povo. Ele também fechou bases militares estrangeiras e estreitou laços com a União Soviética, adotando uma política externa anti-imperialista. A nacionalização das reservas de petróleo fortaleceu a economia e reduziu a dependência externa, mas também gerou hostilidade por parte das potências ocidentais, que viam suas ações como uma ameaça aos seus interesses econômicos e estratégicos.
Na década de 1980, as relações com os Estados Unidos se deterioraram devido às suspeitas de envolvimento da Líbia em atos de terrorismo, o que resultou em sanções e crescente hostilidade direcionados ao país. Nos anos 1990 e 2000, Gaddafi buscou reverter o isolamento diplomático da Líbia, e colaborou na luta contra o terrorismo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Essa mudança de postura tinha como objetivo normalizar as relações com as potências ocidentais e atrair investimentos para o país, especialmente para o setor petrolífero. Contudo, suas reformas também resultaram no aumento do desemprego e no agravamento do descontentamento popular. Gaddafi também tentou promover a integração africana, propondo a criação de uma moeda única para o continente e influenciando a formação da União Africana, mas encontrou resistência e acabou fracassando em suas ambições.
Impacto da Primavera Árabe
Em dezembro de 2010, o jovem tunisiano Mohammed Bouazizi, um vendedor de rua de 26 anos, indignado com a alta dos preços de alimentos e o regime repressivo de Zine El Abidine Ben Ali, incendiou seu próprio corpo como protesto, criando o estopim para sucessivas agitações que se alastraram para além da Tunísia. O levante popular se prolongou até a derrubada de Ben Ali do poder depois de 23 anos. O evento ficou marcado no país como a Revolução de Jasmim, sendo um dos primeiros levantes a ocorrer entre os países do Grande Oriente Médio, e influenciando demais regiões, como Egito, Iêmen, Arábia Saudita, Bahrein e a Líbia de Muammar al-Gaddafi, originando a Primavera Árabe.
O impacto das manifestações na Tunísia, no Egito e regiões vizinhas estimularam as primeiras manifestações no território líbio em fevereiro de 2011, por meio de um levante armado contra o governo de Gaddafi na cidade de Benghazi, a segunda maior do país, localizada no leste, região caracterizada por diferenças históricas. Dessa forma, o movimento se estabeleceu na área das principais reservas de petróleo, adotando um caráter cada vez mais violento de manifestantes armados contra as forças de repressão do governo e dominando algumas regiões da Líbia. Alarmados com o conflito, as potências ocidentais intervieram no país através da OTAN e do Conselho Nacional de Transição (CNT) com posições anti-Gaddafi. Foram oito meses de intensos ataques e bombardeios, somente cessando em outubro do mesmo ano, quando Kadafi foi capturado e teve sua morte filmada e veiculada pela internet. As potências justificaram seus ataques apoiando-se na justificativa de proteção dos civis e de intervenção humanitária sobre o princípio da Responsabilidade de Proteger (R2P, sigla em inglês), adotado pela ONU. Foi o fim da Primavera Árabe na Líbia, mas o começo pela disputa do poder no país, desdobrando-se em uma Guerra Civil.
Dentre os motivos principais para a Europa e os EUA intervirem na Líbia, podem ser destacados dois pontos: o primeiro está centrado nos interesses no setor energético. O petróleo líbio foi descoberto em 1957, transformando o país em uma das maiores reservas de hidrocarbonetos da África, atraindo, com isso, o interesse de diversas empresas multinacionais do ramo petrolífero, que passam a atuar no país em busca de oportunidades de empreendimentos desde a segunda metade do século XX (SILVA, ABREU e MENEM, 2021). A transnacional “Sete Irmãs” passa a tomar o controle da produção, até terem suas operações interrompidas pela ascensão de Muammar al-Gaddafi através de um golpe militar que nacionaliza o petróleo líbio. E o segundo ponto, pode-se atribuir ao contexto de crise econômica que já vinha abalando a União Europeia (UE) desde 2007, que ainda não havia sido superada, em contraponto a uma crescente inserção dos países emergentes no continente africano que vinha ocupando espaços que até então eram reservados ao Ocidente (OLIVEIRA, 2015).
Guerra Civil
A Líbia, situada no norte da África, possui uma posição geoestratégica relevante e é detentora de vastas reservas de petróleo, fatores que historicamente a colocam no centro das atenções internacionais. Desde a queda do regime de Muammar Gaddafi em 2011, o país tem enfrentado uma série de conflitos internos que resultaram em duas guerras civis e uma contínua instabilidade política.
Após a deposição de Gaddafi, a Líbia enfrentou desafios significativos na construção de um Estado funcional. A ausência de instituições sólidas e a proliferação de milícias armadas dificultaram a governança. A realização de eleições para o Congresso Geral Nacional (CGN), em 2012, representou uma tentativa de transição democrática, mas o CGN não conseguiu consolidar sua autoridade.
Como aponta Berrettini (2017), o papel das potências ocidentais no período pós-Gaddafi manteve a lógica de dominação imperialista, disfarçada sob o discurso da reconstrução e da democratização.
Em 2014, divergências políticas e ideológicas levaram à formação de governos rivais: de um lado, o Governo de Acordo Nacional (GAN), estabelecido em Trípoli e reconhecido internacionalmente; do outro, a Câmara dos Representantes, sediada em Tobruk e apoiada pelo Exército Nacional Líbio (ENL), liderado pelo general Khalifa Haftar.
A escalada do conflito envolveu potências regionais e internacionais, aprofundando a fragmentação do país. Em 2019, Haftar lançou uma ofensiva para capturar Trípoli. A intervenção militar da Turquia em apoio ao GAN, aliada à presença de mercenários e armamentos estrangeiros, agravou o cenário. Em outubro de 2020, um cessar-fogo foi assinado, e um governo provisório foi formado em março de 2021. No entanto, as eleições previstas para dezembro do mesmo ano foram adiadas, prolongando a instabilidade.
A Líbia continua dividida entre governos paralelos e grupos armados. As tensões internas e a competição por recursos, especialmente o petróleo, mantém o país em estado de alerta. Conforme a DW (2024), analistas identificam sinais claros de que o país pode estar às vésperas de um novo conflito armado de grande escala. A Libya Review (2024) reforça essa análise ao destacar que a transição para um governo unificado em 2025 é incerta, diante da fragilidade institucional e da desconfiança entre as lideranças políticas.
O que esperar
Amparada por um cessar-fogo mediado pela ONU e assinado em 23 de Outubro de 2020, a paz na Líbia se mostra ainda muito distante em razão dos múltiplos interesses geopolíticos envolvidos no conflito. O país encontra-se dividido entre a Câmara dos Representantes da Líbia à leste e pelo Governo de Unidade Nacional à oeste com o extremo sul sob controle de tribos e milícias, além da atuação grupos extremistas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.
Com eleições previstas desde 2021, mas postergadas continuamente em razão da instabilidade política, o último levantamento de candidaturas contabilizou 98 nomes registrados para a disputa do cargo de Presidente, dentre os quais encontram-se: Seif al-Islam Gaddafi, filho do falecido Muammar Gaddafi; Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional Líbio que é vinculado à Câmara dos Representantes da Líbia e Abdul Hamid Dbeibeh, atual Primeiro-Ministro do Governo de Unidade Nacional.
Paralelamente à instabilidade institucional interna, os interesses estrangeiros também atuam como desorganizadores dos processos que visam o alcance da paz no país, caracterizando aquilo que nas Relações Internacionais é tido como uma Proxy War (Guerra por Procuração). Ainda durante a queda de Muamar Gaddafi, a Líbia sofreu uma intervenção da OTAN com ataques pontuais à alvos do regime, o que auxiliou na derrubada da ordem vigente. Posteriormente, com o advento do Estado islâmico em muitos territórios do Oriente Médio, Estados Unidos e Egito também estiveram presentes através de ataques aéreos e eventualmente, com tropas em campo.
Nos enfrentamentos pré acordo de paz em 2020, a Turquia enviou tropas para a costa leste da Líbia, evitando que o General Haftar unificasse o país à força numa operação apoiada por Rússia, Emirados Árabes Unidos e Egito, o que prorrogou a crise até os dias atuais. Em recente comunicado no Conselho de Segurança da ONU, a representante especial para assuntos líbios afirmou que a situação atual pode estar novamente declinando para novos enfrentamentos armados em razão de eventos bélicos isolados que foram observados em Fevereiro, demonstrando que a realização de eleições continua sendo um evento incerto no país.
Referências
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