Atuação militar dos EUA na América Latina alerta o Itamaraty

Ano VII, nº 120, 12 de março de 2026


Por Alexandre Favaro Lucchesi 

(Imagem: Os chefes de Estado na Cúpula Escudo das Américas em Doral (Flórida), nos EUA, em 7 mar. 2026 / Foto de Daniel Torok, divulgação da Casa Branca)

                

Entre 2025 e 2026, a crescente presença militar dos EUA na América Latina indica uma mudança de escala na política hemisférica de segurança, acentuada pela cúpula do “Escudo das Américas”. A agenda de cooperação intra-Mercosul e de aproximação bilateral com outros países da região, a classificação de organizações narcotraficantes brasileiras como organizações terroristas pelos EUA e o incidente diplomático envolvendo Franklin Martins impõem atenção ao Itamaraty

   

Política de segurança hemisférica dos EUA em ação

     

Em março de 2026, forças estadunidenses iniciaram operações conjuntas com o Equador para combater redes de narcotráfico, com apoio logístico e de inteligência do Comando Sul. No mesmo período, o Paraguai aprovou acordo que permite presença temporária de militares dos EUA em seu território para exercícios e cooperação em segurança.

     

As operações militares conjuntas no país equatorial miram redes de narcotráfico e organizações classificadas como “narcoterroristas”, sob coordenação do Comando Sul dos EUA. A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla de combate ao narcotráfico e à mineração ilegal, em um momento em que o Equador se tornou um importante corredor logístico do tráfico de cocaína proveniente da Colômbia e do Peru. Essas operações representam um aprofundamento da cooperação militar, com treinamento, assistência e apoio logístico dos EUA às forças equatorianas, embora as autoridades tenham evitado divulgar detalhes sobre a extensão do envolvimento operacional dos EUA. O movimento também reflete um debate interno no Equador sobre a presença de forças estrangeiras no país. O governo de Daniel Noboa chegou a defender a possibilidade de instalar bases militares estrangeiras para enfrentar o crime organizado, proposta que gerou forte controvérsia política e foi rejeitada em referendo nacional.

        

Quase simultaneamente, o Senado do Paraguai aprovou um acordo que autoriza a presença de militares dos EUA e de pessoal do Departamento de Defesa no país. Segundo o texto aprovado, tropas estadunidenses podem atuar em território paraguaio em atividades de cooperação, com imunidade diplomática e liberdade para portar armas, o que gerou críticas de setores da oposição e de movimentos sociais que questionam possíveis implicações para a soberania nacional. Historicamente, o Paraguai já foi considerado um ponto estratégico para operações de segurança hemisférica por sua proximidade com a região da Tríplice Fronteira e o aquífero Guarani, além de sua posição geográfica no centro do continente.

         

A combinação de operações no Equador e abertura institucional no Paraguai indica que a política dos EUA na América do Sul está incorporando mais explicitamente a dimensão militar e securitária, complementando instrumentos econômicos e diplomáticos. Para países como o Brasil, isso reforça a necessidade de avaliar a autonomia regional em matéria de segurança, o papel de mecanismos como o Mercosul, a CELAC e mesmo a UNASUL, além da relação entre agendas de segurança, comércio e política externa hemisférica.

       

Essa reconfiguração da agenda de segurança regional ganhou novo impulso com a realização do encontro denominado “Escudo das Américas”, reunião voltada à coordenação de políticas de combate ao narcotráfico e ao crime transnacional envolvendo autoridades de segurança de diversos países latino-americanos em cooperação com os EUA. O encontro ocorreu à revelia do Brasil e sem articulação institucional com o Mercosul, o que chamou a atenção de analistas diplomáticos. Embora apresentado como iniciativa de cooperação técnica, o formato do encontro reforça a tendência recente de bilateralização das agendas de segurança hemisférica, nas quais os EUA articulam coalizões operacionais específicas com países da região fora dos mecanismos tradicionais de coordenação regional.

        

Essa tendência ganhou contornos ainda mais amplos com o debate recente nos EUA sobre a classificação de organizações criminosas latino-americanas como grupos terroristas. Autoridades estadunidenses passaram a considerar a possibilidade de incluir cartéis e facções transnacionais nessa categoria jurídica, o que ampliaria significativamente os instrumentos legais disponíveis para operações de segurança e cooperação internacional. Caso se confirmem os estudos para aplicar essa classificação a organizações atuantes no Brasil, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, abrir-se-iam precedentes impensáveis em termos de soberania e jurisdição extraterritorial, reforçando a percepção de que a agenda de segurança hemisférica está se expandindo para além dos mecanismos tradicionais de cooperação policial e militar e avança sobre um debate de criminalização transnacional (Bigo, 2002).

           

Os movimentos dos EUA podem ser interpretados à luz da literatura sobre hegemonia regional. Segundo Ikenberry (2011), potências hegemônicas frequentemente utilizam alianças de segurança para consolidar influência geopolítica. Para o Brasil, historicamente, a política externa ancorou-se em princípios de não intervenção e de autonomia regional, buscando evitar a militarização excessiva do continente.

        

O Paraguai é membro fundador do Mercosul, criado pelo Tratado de Assunção de 1991, que estabeleceu um projeto de integração econômica e política entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A presença militar estadunidense em um país do bloco tem implicações importantes. O Mercosul tradicionalmente buscou manter coordenação política entre os membros em temas sensíveis de segurança e política externa. Quando acordos militares são firmados bilateralmente com os EUA, reduz-se a coordenação regional e aumentam as assimetrias estratégicas entre os membros. Isso pode enfraquecer a capacidade do bloco de atuar como ator coletivo na política internacional. O interesse dos EUA no Paraguai abrange desde o combate ao narcotráfico até a atuação de organizações criminosas na região da Tríplice Fronteira. Em última instância, isso dialoga diretamente com preocupações de segurança e interesses geopolíticos e geoeconômicos sobre a presença chinesa no Cone Sul.

                

O papel do Itamaraty

      

Esse contexto também começou a produzir repercussões no debate político brasileiro. O caso da deportação, pelo Panamá, do ex-ministro Franklin Martins, amplamente repercutido na imprensa, ilustra o aumento das tensões diplomáticas em torno da agenda de segurança hemisférica e da atuação estadunidense na região. Embora o governo brasileiro tenha buscado preservar uma postura cautelosa e institucional por meio do Itamaraty, episódios dessa natureza evidenciam que a ampliação da presença estratégica dos EUA na América Latina passou a ocupar um lugar mais central no debate público sobre política externa no Brasil.

        

A estratégia brasileira tem sido mais pragmática e bilateral. Os principais interesses do Brasil em relação ao Paraguai incluem a cooperação policial contra o crime organizado, a gestão compartilhada de Itaipu e a própria estabilidade política no Mercosul. Assim, mesmo diante da aproximação militar dos vizinhos com os EUA, a tendência brasileira tem sido a de manter diálogo direto para evitar confrontos diplomáticos públicos, numa postura coerente com a lógica de que o Paraguai é parceiro estrutural do Mercosul, cuja estabilidade interessa diretamente.

          

Historicamente, o Brasil tem procurado manter uma posição de cautela diante de intervenções militares externas na região. Um exemplo recente foi a posição brasileira em relação à Venezuela, quando o presidente Lula alertou que uma intervenção militar externa poderia gerar “catástrofe humanitária” na região. Essa postura reflete os três princípios tradicionais da diplomacia brasileira de não intervenção, solução diplomática de conflitos e de prezar pela autonomia regional em matéria de segurança.

          

As relações Brasil–Equador atravessaram momentos delicados recentemente. Após a invasão da embaixada do México em Quito em 2024, o Brasil condenou a ação e destacou que o episódio representava grave violação da Convenção de Viena sobre relações diplomáticas. O posicionamento reforçou a defesa brasileira de respeito às normas diplomáticas internacionais e de uma solução institucional de crises regionais. Ao mesmo tempo, o Brasil tem mantido diálogo político com o governo equatoriano, evitando escaladas diplomáticas que poderiam prejudicar a cooperação regional.

         

Com a reativação da agenda de segurança dos EUA calcada em ampliar cooperação militar na América Latina, especialmente sob a justificativa de combate ao narcotráfico, ocorre uma fragmentação das respostas regionais. A cooperação ocorre principalmente de forma bilateral, não por meio de instituições, e isso pressiona os mecanismos existentes que são voltados para projetos de integração política latino-americana. Para o Brasil, o desafio estratégico é equilibrar um diálogo bilateral com o Paraguai e o Equador de modo a defender soluções regionais e multilaterais e preservar a autonomia sul-americana em segurança.

            

A operação militar dos EUA no Equador e o acordo militar com o Paraguai são parte de uma reorganização mais ampla da presença estadunidense na América do Sul. Para o Brasil, esses eventos têm relevância não apenas no plano de segurança, mas também para a coesão do Mercosul e para a condução da política externa regional. O Itamaraty tem buscado responder com cautela diplomática, mantendo diálogo com parceiros, reafirmando princípios de não intervenção e tentando evitar que disputas geopolíticas externas comprometam os mecanismos de integração sul-americana.

          

Em vez de reagir de forma confrontacional à agenda estadunidense, a diplomacia brasileira tem privilegiado uma combinação de coordenação regional no Mercosul, intensificação do diálogo bilateral com parceiros sul-americanos e defesa do multilateralismo comercial. Busca, principalmente, evitar a fragmentação do processo de integração regional e a escalada de tensões geopolíticas, seguindo a tradição da política externa brasileira frequentemente descrita na literatura como “autonomia pela diversificação” (Vigevani, Cepaluni, 2007), na qual o Brasil procura ampliar suas margens de manobra no sistema internacional por meio da multiplicação de parcerias e da preservação de mecanismos regionais de concertação. Nesse sentido, a resposta brasileira aos recentes movimentos dos EUA não se traduz em alinhamento automático tampouco em oposição aberta, mas sim em uma tentativa de reafirmar o papel do Brasil como eixo de estabilidade política e econômica na América do Sul, preservando simultaneamente a coesão do Mercosul e a capacidade de interlocução com potências externas.

           

É fundamental assinalar, também, que os acontecimentos indicam reconfigurações territoriais que afetam diretamente as rotas migratórias. A literatura recente sobre migração na América Latina sugere que a região entrou em uma nova era migratória caracterizada por fluxos mais voláteis, multidirecionais e politicamente sensíveis. Nas últimas duas décadas, o número de migrantes na região praticamente dobrou, com deslocamentos associados a crises econômicas, colapso institucional e violência organizada. Uma das mudanças mais significativas ocorreu na política migratória estadunidense após 2025. Atos administrativos e restrições ao sistema de pedidos de asilo provocaram um colapso do fluxo migratório rumo ao norte, levando milhares de migrantes a interromper ou reverter suas jornadas. Mais de 14 mil migrantes retornaram ao sul após a mudança nas políticas de entrada nos EUA, e a travessia do Darién, principal corredor migratório entre América do Sul e Central, caiu cerca de 97% em 2025.

            

Essas operações ocorrem em um momento em que o Equador se tornou um dos principais corredores logísticos do tráfico internacional de cocaína, com gangues locais operando redes que conectam produção andina e mercados internacionais. A militarização do espaço regional provoca deslocamento interno de populações afetadas pela violência.

               

Embora não seja o principal destino migratório da região, o Brasil tornou-se um polo importante de acolhimento para migrantes venezuelanos, haitianos e cubanos. Ao mesmo tempo, o país tem buscado preservar uma abordagem relativamente aberta e humanitária à migração regional, especialmente em comparação com políticas mais restritivas adotadas em outras partes do continente. O Mercosul também desempenha papel importante na governança migratória regional. Desde os anos 2000, o bloco estabeleceu mecanismos que permitem livre residência e mobilidade para cidadãos dos países membros e associados, facilitando processos de regularização migratória. Essas políticas são frequentemente citadas na literatura como exemplos de regionalismo social (Riggirozzi, Tussie, 2012), no qual a integração vai além do comércio e inclui direitos de mobilidade e cidadania regional.

              

A nova agenda hemisférica dos EUA, combinando tarifas comerciais, cooperação militar e endurecimento migratório, está contribuindo para uma reorganização espacial da América Latina. A ausência de coordenação com o Mercosul ou com fóruns regionais mais amplos evidencia a crescente dissociação entre essa agenda e os mecanismos políticos de integração sul-americana. 

          

Para além da diversificação de parcerias econômicas e diplomáticas e do diálogo bilateral com países-chave da região, é provável que o Itamaraty continue defendendo mecanismos regionais de governança da mobilidade humana, incluindo a consolidação dos acordos de residência do Mercosul e iniciativas de cooperação humanitária, como forma de lidar com os novos fluxos intrarregionais decorrentes do endurecimento das políticas migratórias estadunidenses. Em síntese, a tendência é que o país procure reafirmar sua posição tradicional de estabilizador regional.

          

Referências


BIGO, Didier. Security and immigration: toward a critique of the governmentality of unease. Alternatives, v. 27, Special Issue 63-92, 2002. Disponível em: https://migrantsproject.eu/wp-content/uploads/2020/08/Bigo_Security-and-Immigration.pdf Acesso em: 9 mar.2026

     

CHADE, Jamil. EUA devem designar PCC e CV como “terroristas” e Brasil ameaça virar alvo militar. ICL Notícias, 9 mar.2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/pcc-e-cv-devem-ser-designados-como-terroristas-e-brasil-vira-alvo-militar-dos-eua/ Acesso em: 9 mar.2026

      

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IKENBERRY, G. J. Liberal Leviathan. Princeton: Princeton University Press, 2011.

         

JANETSKY, Megan. 14,000 US-bound migrants have returned south since Trump border changes, UN says. AP News, World, Sep. 2nd, 2025. Disponível em: https://apnews.com/article/migration-venezuela-darien-gap-trump-colombia-dc7eab62980c98eba5c65ed591a2836f Acesso em: 6 mar.2026

        

PHILLIPS, Tom. UN chief joins condemnation of Ecuadorian raid on Mexican embassy. The Guardian, World, Apr 8th, 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2024/apr/07/latin-american-governments-condemn-ecuador-after-police-raid-mexican-embassy Acesso em: 6 mar.2026

         

RIGGIROZZI, Pia; TUSSIE, Diana. (Eds.) The Rise of Post-Hegemonic Regionalism: The Case of Latin America. Dordrecht: Springer, 2012.

             

TADDEO, Luciana. Senado paraguaio aprova presença de militares dos EUA no país. CNN Brasil, Internacional, 4 mar.2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/senado-paraguaio-aprova-presenca-de-militares-dos-eua-no-pais Acesso em: 6 mar.2026

            

VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação. Contexto Internacional, v. 29, n. 2, p. 273–335, jul. 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-85292007000200002 



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