Ano VII, nº 120, 12 de março de 2026
Por Ana Carolina Chida Lorca, Andressa Francisca Martins da Cunha, Isabela Pereira de Oliveira, Nicolás Alejandro Malinovsky, Thalita Santos Bernaldo (Imagem: Localização do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico/ Google Maps)
Diante dos ataques aéreos dos EUA e do Israel, o estreito se tornou uma vantagem geopolítica para o Irã que detém a capacidade de tornar a passagem militarmente insegura e com isso controle da circulação no canal. Este artigo examina os principais fluxos do Estreito nos últimos anos, bem como as consequências do seu “fechamento”. Embora a dependência direta dos EUA do petróleo e do gás que passam pelo estreito seja pequena, o impacto sobre os preços da gasolina na bomba pode ter um efeito explosivo para Trump em ano eleitoral.
No cenário internacional, algumas áreas são consideradas estratégicas por serem pontos fundamentais na circulação de mercadorias e recursos energéticos. Isso vale para canais artificiais, como o de Suez, localizado no Egito e responsável por interligar o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, e o Canal do Panamá, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. Vale também para estreitos, canais naturais que fazem a ligação entre mares e oceanos: o estreito de Malaca, rota mais movimentada do comércio entre os oceanos Índico e Pacífico; o estreito de Gibraltar, ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico; e o estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden. Mas nenhum deles tem a importância estratégica para o transporte de petróleo que possui o estreito de Ormuz.
O Estreito de Ormuz é uma das principais passagens marítimas do mundo. Ele separa a Península Arábica do Irã e conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. É uma artéria comercial crítica e a principal rota de exportação de petróleo e gás natural produzidos pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait, Catar, Iraque, Bahrein e Irã. Ele o tem um comprimento de cerca 167km e uma largura mínima de cerca 33km, mas apenas dois corredores principais de navegação para entrada e saída.
A importância estratégica do Estreito de Ormuz não é um fenômeno recente. Historicamente, a região sempre foi cobiçada como rota comercial e palco de disputas territoriais. No entanto, foi a partir da segunda metade do século XX, com a crescente dependência global dos hidrocarbonetos da bacia do Golfo Pérsico, que o estreito adquiriu sua dimensão crítica contemporânea. A vulnerabilidade dessa rota marítima a interferências, conflitos regionais ou ataques assimétricos tem implicações imediatas para a segurança energética de potências ocidentais e asiáticas, influenciando a estabilidade dos preços do petróleo e, por conseguinte, a economia mundial.
Portanto, analisar o Estreito de Ormuz como área estratégica implica compreender a interconexão entre geografia, recursos naturais, comércio global e rivalidades de poder.
O corredor energético do Golfo
Em 2024, o fluxo de petróleo através do estreito atingiu uma média de 20 milhões de barris por dia (b/d), o equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo, mantendo-se números semelhantes em 2025. Nesse mesmo ano, cerca de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) passou pelo Estreito de Ormuz, principalmente proveniente do Catar (EIA, 2025).
Nessa imagem constam os volumes médios diários de petróleo que passam pelos vários pontos de potenciais estrangulamento, chamado “chokepoints”
Fonte: Energy Information Administration (2026)
Além disso, aproximadamente 84% do petróleo e 83% do GNL comercializados através do Estreito de Ormuz foram destinados aos mercados asiáticos em 2024. China, Índia, Japão e Coreia do Sul foram os principais destinos, provavelmente estes seriam os mercados mais afetados por eventuais interrupções no abastecimento em Ormuz.
Lembrando que o próprio Irã fica em nono lugar entre os maiores produtores mundiais, com 3,99 milhões de barris por dia (b/d) (EIA, 2023).
De acordo com a EIA (2025), atualmente existem três rotas alternativas para os países que exportam petróleo e gás através do Estreito de Ormuz. A primeira é o oleoduto Este-Oeste, operado pela Saudi Aramco, com capacidade de transporte de 5 milhões de barris por dia. No entanto, há um antecedente: em 2019, ele operou com uma capacidade ampliada de até 7 milhões de b/d, após converter alguns gasodutos de gás natural líquido para transportar petróleo bruto. A segunda alternativa é o oleoduto Habshan-Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, com capacidade para 1,8 milhão de barris por dia para o Golfo de Omã. No entanto, essa infraestrutura já opera como rota alternativa para evitar os custos de seguro associados ao trânsito por Ormuz. Por último, há o oleoduto Goreh-Jask do Irã, que se conecta ao terminal de exportações de Jask, no Golfo de Omã, evitando a passagem pelo Estreito de Ormuz. A capacidade efetiva do óleo é de cerca de 300.000 barris por dia. No entanto, durante o verão de 2024, o Irã exportou menos de 70.000 barris por dia pelos portos de Bandar-e-Jask e Kooh Mobarak utilizando esse sistema, e deixou de carregar cargas após setembro de 2024. Esses dados evidenciam que, embora existam alternativas logísticas para contornar o estreito, sua capacidade ainda é limitada, mantendo Ormuz como principal via de escoamento da produção de energia. Fora disso, essas alternativas também têm suas vulnerabilidades diante de agressões militares, venham de quem vier.
Além do petróleo e do gás natural, o estreito também desempenha um papel fundamental no transporte de outros insumos, alguns dos quais também de grande importância para a economia global. Em particular, a região do Golfo concentra algumas das maiores fábricas de fertilizantes do mundo, fazendo com que o Estreito de Ormuz canalize aproximadamente um terço do comércio marítimo global desses produtos, incluindo amônia, ureia e fosfatos. Nesse contexto, os preços dos fertilizantes já estavam elevados antes da recente escalada das tensões no Oriente Médio, situação que coincide com um momento crucial do calendário agrícola, quando as produções do hemisfério norte iniciam a aplicação desses nutrientes em seus trabalhos (Bloomberg, 2026). Essa centralidade econômica do estreito ajuda a explicar porque, ao longo das últimas décadas, o Irã tem recorrido à ameaça de “fechamento” do Estreito de Ormuz como ferramenta de dissuasão geopolítica.
A ameaça de “fechamento”
O “fechamento” se daria pelo afundamento de qualquer navio que passasse pelo estreito, e não por um bloqueio naval propriamente dito, como a palavra poderia sugerir. Há três formas pelas quais as forças armadas iranianas poderiam atuar: mísseis antinavio lançados a partir da costa; pequenas lanchas rápidas armadas com foguetes ou explosivos; e a colocação de minas marítimas nos canais de navegação.
O Irã vem se organizando para que essa ameaça seja crível desde a Guerra Irã–Iraque, na década de 1980. A ameaça retornou com força à retórica das lideranças iranianas no final de 2011 e ao longo de 2012, durante o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Naquele momento, o aumento das sanções internacionais contra o programa nuclear iraniano levou o Parlamento do país a aprovar uma lei simbólica que autorizava o “fechamento” do estreito, medida que tinha um caráter mais político do que prático. Em 2019, a ameaça foi novamente utilizada, desta vez como resposta à campanha de “pressão máxima” imposta pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A estratégia americana buscava restringir as exportações de petróleo iraniano ao punir países importadores, atingindo diretamente a principal fonte de receita do Irã, o que levou Teerã a recorrer, mais uma vez, à ameaça de “fechar” o Estreito de Ormuz (Terceño, Teresa, 2021). Hoje, especialistas militares do ocidente consideram muito difícil imaginar que as forças aéreas dos Estados Unidos e de Israel possam neutralizar antecipadamente essa capacidade iraniana. A ideia de escoltar os navios também não resolve.
Como vimos, a ameaça de obstrução do estreito já foi feita anteriormente; porém, o seu fechamento efetivo não havia ocorrido até este ano. Um bloqueio marítimo completo do Estreito de Ormuz seria impossível diante da força militar aérea e naval combinada dos Estados Unidos e de Israel. O que tem impedido a passagem de navios comerciais pela região são as ameaças de ataque. Além disso, embarcações modernas são vulneráveis a interferências no sinal do Sistema de Posicionamento Global (GPS). Durante o último conflito entre Irã e Israel, diversos navios sofreram interrupções de navegação no estreito (Bloomberg,2026).
Diante as ameaças do Irã de atacar com misseis os navios que que passam pelo Estreito de Ormuz, as maiores seguradoras marítimas suspenderam sua cobertura para danos de guerra, que inclui prejuízos causados por terceiros em contextos de conflito armado, terrorismo e pirataria, para as embarcações que entrem no Golfo Persico, a decisão afeta exclusivamente a cobertura relacionada a prejuízos de guerra (Bloomberg, 2026). Em pronunciamento feito em 3 de março o presidente Donald Trump sugeriu que os EUA poderiam oferecer garantias de seguro e escolta naval para navios que se arriscassem a passar pelo Estreito de Ormuz, e apesar da declaração a maioria das empresas de transporte marítimo permanecem céticas quanto a viabilidade de uma passagem segura pela região (Bloomberg,2026).
Nesse contexto, qualquer interrupção prolongada no Estreito de Ormuz teria efeitos diretos sobre a oferta global de energia e sobre a estabilidade dos mercados internacionais, gerando preocupação quanto à segurança energética mundial. Segundo estimativas da Reuters, com base em dados da plataforma MarineTraffic, em 4 de março havia cerca de 200 navios ancorados por vários dias nas proximidades do estreito aguardando condições mais seguras para navegação. Mesmo sem ataques efetivos, a simples expectativa de risco já afeta os mercados, gerando volatilidade nas bolsas, valorização de ativos considerados seguros, como o dólar e o ouro, e pressão sobre os preços do petróleo e do gás, com potencial para ultrapassar a marca psicológica de US$ 100 por barril.
A duração de um eventual bloqueio é um fator central para determinar a magnitude dos impactos econômicos. Interrupções de curta duração tendem a provocar instabilidade temporária nos preços, enquanto bloqueios prolongados poderiam levar a Agência Internacional de Energia (IEA) a coordenar a liberação de reservas estratégicas de petróleo, mecanismo já utilizado em crises anteriores para compensar perdas de oferta global (Webinar sobre segurança energética no Estreito de Ormuz, 2026). Inclusive, porque os países produtores da região não têm capacidade de armazenamento suficiente; logo, começam também a diminuir a produção, o que significa uma demora para estabilizar a oferta, mesmo depois da retomada da livre navegação.
Os impactos, no entanto, variam de acordo com o grau de dependência energética de cada região. A Europa, que já enfrentou uma crise energética em 2022, relacionada à Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, observa com preocupação a possibilidade de novos aumentos nos preços da energia. O continente europeu tornou-se particularmente sensível a choques no Estreito de Ormuz devido à crescente dependência do gás natural liquefeito (GNL) proveniente do Catar. Após a redução do fornecimento de gás russo em 2022, a Europa ampliou as importações provenientes do Oriente Médio. O problema é que cerca de 90% das exportações de GNL catarianas passam pelo Estreito de Ormuz, o que torna a região altamente vulnerável a instabilidades nessa rota (Discovery Alert, 2026). Embora existam alternativas, como o aumento das importações da GNL dos Estados Unidos ou a reorganização de contratos e rotas comerciais, essas soluções tem seus limites e exigem tempo. No curto prazo, o impacto tende a se manifestar principalmente por meio da elevação dos preços.
Na Ásia, a situação também é delicada, já que a região é a principal destinatária do petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz. Entre os maiores importadores, o Japão apresenta uma grande dependência do Oriente Médio: cerca de 95% do petróleo consumido no país provém da região (Reuters, 2026). Para reduzir riscos, o país mantém reservas estratégicas suficientes para aproximadamente 250 dias de consumo. A China, por sua vez, depende de Ormuz para cerca de 40% a 45% das suas importações de petróleo.
A China possui reservas estratégicas às quais se juntam grandes quantidades de reservas comerciais estimadas entre equivalente a 110 e 140 dias de consumo. Em caso de um bloqueio prolongado os países asiáticos precisariam buscar fornecedores alternativos, no caso da China uma opção é o aumento das importações da Rússia. A Índia, entretanto, figura entre as economias mais vulneráveis a um choque prolongado. O país importa cerca de 55% do seu petróleo do Oriente Médio e possui reservas estratégicas suficientes para apenas 20 a 25 dias de consumo (Reuters, 2026). Assim, para grande parte da Ásia, um bloqueio do estreito representativo não seria apenas uma questão de preços, mas um desafio direto à segurança energética.
Os Estados Unidos, por sua vez, apresentam uma dependência direta muito menor dessa rota. Em 2024, o país importou aproximadamente 0,5 milhão de barris por dia de petróleo provenientes do Golfo Pérsico através do Estreito de Ormuz, o que correspondeu a apenas 2% do consumo interno. (EIA, 2024). Há que se lembrar que os Estados Unidos, com a exploração do xisto, tornaram-se o maior produtor de petróleo e de gás do mundo. Somado ao acesso às importações do Canadá, o país é praticamente autossuficiente e ainda exporta grandes quantidades de GNL, principalmente para a Europa. Ainda assim, por estar inserida no mercado energético global, a economia estadunidense também seria impactada por eventuais aumentos nos preços internacionais do petróleo. Há que se considerar o oportunismo das empresas petrolíferas e de toda a cadeia até a bomba de gasolina, que podem aproveitar a situação para aumentar suas margens de lucro, algo que já vimos em outras ocasiões, por exemplo, em 2022–2023, com o impacto da Guerra na Ucrânia. E tudo isso refletindo-se nos custos dos combustíveis e na inflação geral, algo extremamente sensível em um ano eleitoral.
Por fim, é importante destacar que o próprio Irã também enfrentaria custos significativos em caso de “fechamento” prolongado do Estreito de Ormuz. Embora a ameaça de bloqueio seja frequentemente utilizada como instrumento de pressão geopolítica, sua implementação poderia prejudicar a própria economia iraniana, dificultando tanto a exportação de petróleo quanto o acesso do país a produtos importados, como alimentos e remédios, cuja escassez pode aumentar a insatisfação popular.
Conclusão
Diante dos elementos analisados, torna-se evidente que o Estreito de Ormuz ocupa uma posição central na geopolítica contemporânea da energia. Situado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o estreito constitui um dos principais “choke points” do sistema energético global, isto é, um ponto de estrangulamento estratégico por onde transitam fluxos essenciais para a economia mundial. Qualquer instabilidade na região provoca reações imediatas nos mercados financeiros e nas cadeias de abastecimento global, agravadas por movimentos especulativos e oportunistas. Além do petróleo, o estreito também desempenha papel fundamental no transporte de gás natural liquefeito (GNL). Uma guerra prolongada gera pressões inflacionárias nos mercados de energia e afetar cadeias produtivas estratégicas, desde a indústria pesada até a produção agrícola dependente de fertilizantes derivados de gás natural.
Regiões altamente dependentes do fornecimento energético do Persian Gulf, como Ásia e Europa, figuram entre as mais vulneráveis, o que reforça a dimensão sistêmica das possíveis consequências de tensões na região. Do ponto de vista político, porém, o aumento da gasolina na bomba nos EUA tem um custo elevado diante das eleições de meio de mandato de novembro, que vão determinar se Donald Trump mantém ou não a maioria em ambas as casas (Congresso e Senado).
Ao longo das últimas décadas, o Irã tem utilizado a ameaça de interrupção da navegação como instrumento de dissuasão estratégica, especialmente em momentos de escalada de sanções econômicas ou pressões militares externas. Entretanto, é a primeira vez que há, de fato, uma paralisação da navegação no estreito pela ameaça de ataques com mísseis. E os EUA e Israel não têm como garantir uma passagem segura, nem a capacidade de destruir o vasto arsenal de mísseis de curto alcance de que o Irã dispõe para esse fim.
De outro lado, um bloqueio prolongado também acarreta custos significativos para o próprio país. A economia iraniana depende da exportação de hidrocarbonetos e do acesso a bens importados que transitam pela mesma rota marítima, o que torna essa estratégia um instrumento de pressão que envolve riscos consideráveis para todas as partes envolvidas.
Por fim, a persistência de tensões no Golfo Pérsico, associada à crescente competição entre potências regionais e globais, indica que o Estreito de Ormuz continuará sendo um espaço de vigilância constante no sistema internacional. Embora existam rotas alternativas, como oleodutos que conectam os campos petrolíferos do Golfo ao Mar Vermelho ou ao Golfo de Omã, sua capacidade combinada de escoamento permanece significativamente inferior ao volume atualmente transportado pelo estreito. Assim, mesmo diante de avanços na diversificação energética e na construção de novas infraestruturas logísticas, a dependência estrutural dessa rota estratégica continuará representando, no curto e médio prazo, um dos principais vulnerabilidades do sistema de transporte energético global.
Agradecimentos ao professor Giorgio Romano Schutte
