Copa América no Brasil: como um torneio internacional se tornou uma inflexão ética e política

14 de junho de 2021

Por Ana Beatriz Aquino, Gustavo Mendes de Almeida, Mirella Acioli, Rafael Osório Reis Sales, Nicole Lima

Há um cenário de hipermercantilização do futebol moderno e valorização do esporte dentro da lógica da indústria do entretenimento e na promoção de grandes eventos. Questões sanitárias e de proteção à saúde e direitos humanos são deixadas em segundo plano, a fim de atender aos interesses da cadeia empresarial envolvida no grande negócio futebolístico.

A decisão de aceitar a realização da Copa América no Brasil é mais uma das ofensivas do governo Bolsonaro, que segue com ações negacionistas e contrárias às medidas de contenção da pandemia do novo coronavírus. A situação já ceifou a vida de mais de 470 mil brasileiros e brasileiras e ainda parece longe de acabar. Segundo especialistas, o país se aproxima da sua terceira onda de contágios e aceleração do número de óbitos, com o dia 9 de junho contabilizando 2.693 mortos, o maior em 34 dias. Apesar de ter chegado até aqui com uma uma base apoiadora forte, Jair Bolsonaro vê sua popularidade gradualmente cair enquanto assiste à CPI que investiga as ações do governo durante a pandemia, assim como sente os efeitos das manifestações populares da oposição do último dia 29 de maio. A Copa América surge assim como um atalho para se recuperar pontos na popularidade presidencial. 

Futebol e política

A realização de espetáculos esportivos na maioria dos países sempre teve um caráter político, ainda que de modo subjetivo. A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 foram pensadas quando os governos petistas gozavam de altos picos de popularidade. O resultado foi para lá de duvidoso. Assim, a realização do torneio continental é também uma aposta arriscada. 

É comum que figuras públicas apareçam em finais de campeonatos e também façam coro com reações e gritos de manifestações por parte do público presente. Para o governo brasileiro, a realização da Copa em seu solo não traria grandes abalos para a opinião pública, uma vez que há a ocorrência de outras disputas em curso, como o Brasileirão, principal certame a nível nacional 

A instituição responsável pela organização e realização da Copa América é a Conmebol. Para conseguir a autorização do governo, a confederação contou com a intermediação da CBF, órgão autônomo politicamente mas que foi capaz de convencer o governo a sediar o campeonato. Contudo, a própria Conmebol (Confederação Sulamericana de Futebol) passou por fatos controversos envolvendo questões políticas.

Em 2016 o atual mandatário, Alejandro Domínguez, foi eleito para a presidência da Conmebol, uma entidade privada, que passou por períodos conturbados nos anos que antecederam sua posse. Houve sérias denúncias de corrupção por parte do núcleo dirigente, presidida por quase três décadas pelo paraguaio Nicolás Leoz. O novo mandatário prometeu reformular a entidade, elevar o nível das competições e restaurar a credibilidade da instituição. 

Até o ano de 2019 é possível avaliar a gestão como positiva, com melhoras no formato das competições, aumento das premiações para os clubes e maior transparência na entidade. Entretanto, a partir de 2020, em âmbito geral, a Confederação tomou uma série de decisões equivocadas, como a volta precoce do futebol em uma das regiões que mais sofrem com a pandemia. A realização de partidas da Libertadores na Colômbia, em meio às manifestações populares e muito gás lacrimogêneo, além da final da Libertadores de 2020, com presença de público e realizada no Maracanã, dão mostras que a vinculação de esportes com saúde está longe de ser automática.

A Copa América, que antigamente ocorria a cada quatro anos, passou a ser disputada com maior frequência na gestão do novo mandatário. O campeonato foi disputado em 2015, 2016 e 2019. A edição do ano passado foi adiada para 2021. Apesar da impossibilidade de se contar com torcida presencial nos estádios, o incremento do calendário visa compensar a perda de ingressos com a manutenção de patrocínios e direitos de transmissão que recheiam os cofres da entidade. Além disso, o torneio vai abastecer as contas das federações nacionais com premiações, somando-se mais um fator de pressão para a realização da Copa América. Há um fator adicional: o intuito de se alinhar o calendário da confederação com o da UEFA (União das Associações Europeias de Futebol)  em relação à Eurocopa. Esta também foi adiada no ano passado e ocorrerá também neste mês.

Recusa de países vizinhos 

A Copa seria sediada em dois países, Argentina e Colômbia. Todavia, às vésperas de seu início, a série de protestos contrários a gestão do atual presidente Iván Duque Márquez eclodiu na Colômbia, obstáculo sério para a realização dos jogos. A Conmebol e o governo colombiano envidaram esforços conjuntos para evitar a suspensão do evento, uma vez que a gestão de Duque acreditava que isso representaria uma clara vitória aos movimentos populares

A realização do evento no país logo perdeu apoio entre as nações participantes – a Venezuela era a única que acreditava na realização em solo colombiano -, e a entidade foi duramente criticada pela exposição dos atletas a mais um fator de risco. 

A partir desse momento, instaurou-se uma queda de braço entre a organização e o governo local para determinar quem seria o responsável por anunciar o cancelamento, já que o presidente Iván Duque não estava disposto a assumir um desgaste político e arcar com os impactos financeiros daí decorrentes. No fim, a Conmebol resolveu anunciar a desistência, quando o governo do país sugeriu um adiamento para novembro.

Com a Colômbia fora de campo, a instituição começou a investigar soluções para realizar a disputa. A princípio, considerou-se a utilização da estrutura remanescente da Copa América de 2015, realizada no Chile – país sul-americano líder na vacinação. Entretanto, a possibilidade foi descartada por questões econômicas, e a Argentina passou a concentrar todas as apostas da organização. Em um primeiro momento, o país garantiu que conseguiria absorver as partidas e que disponibilizaria mais quatro estádios na região de Buenos Aires, evitando grandes deslocamentos por parte das seleções. Todavia, o agravamento da pandemia e a rejeição da realização do evento por parte da população fizeram com que Alberto Fernández suspendesse a realização do evento. Assim, a possibilidade de sediar o evento foi apresentada ao governo brasileiro.

Repercussões 

Houve diversas manifestações contrárias à Copa América nas redes sociais e a seleção brasileira também se mostrou preocupada com o evento, chegando a ameaçar não participar dos jogos. Entretanto, tal opinião durou pouco. Seja pelo escândalo após as denúncias de assédio sexual contra Rogério Caboclo, presidente da CBF, logo afastado de seu posto, seja pela falta de apoio das seleções estrangeiras, o fato é que o assunto morreu nos vestiários da seleção.  

A Conmebol chegou a publicar um texto no qual elenca sua versão sobre a Copa América. Segundo a organização, o Brasil não é o pior país do mundo para receber o evento,  já que possui as menores taxas de infecção da América Latina. A constatação, no entanto, é errônea e desrespeitosa, dado que a América do Sul é uma região que está sendo negligenciada na busca por vacinas e nas políticas de contenção do vírus, por motivos de grave crise econômica que, em alguns países, como o Brasil, vem acompanhada de profunda crise política. Ainda assim, vale a pena ressaltar que o Brasil é o segundo país do mundo em número de mortes e a média diária de óbitos ainda se encontra acima dos 1000, configurando uma situação descontrolada na contenção do vírus.

No mesmo texto, a Conmebol afirma que a oposição à realização do torneio é subjetiva e baseada em preconceitos, já que os jogos eliminatórios e demais campeonatos disputados no país não tiveram o mesmo questionamento. A oposição, no entanto, não parte do inexistente preconceito elencado pela organização, mas sim da revolta contra o aspecto de falsa normalidade que a concretização da Copa pode trazer a um país em crise. 

Não há indícios concretos de que a realização de campeonatos como o Brasileirão tenham trazido aumento do número de casos no Brasil, uma vez que as ocorrências são mais observadas entre os próprios jogadores. 

A diferença entre os outros campeonatos e a Copa América, em termos de perigos para o aumento do número de casos, poderá ser observada a partir do aumento do deslocamento de pessoas vindas de outros países. Cada delegação contará com no máximo 65 pessoas, segundo a Conmebol, e, ao todo, 10 seleções disputarão o torneio continental. 

No entanto, além desse número, ainda há todos os trabalhadores que atuam na organização do acontecimento, como jornalistas, seguranças e equipes de limpeza. Não pode ser excluído desse raciocínio o encontro entre os torcedores, como ocorreu na final entre São Paulo e Palmeiras, episódio no qual entusiastas se aglomeraram na frente do estádio do Morumbi para comemorar a vitória tricolor. Seja pela conhecida irresponsabilidade de muitos jogadores, já flagrados e detidos em festas clandestinas, ou pela falha de protocolo da CBF, o fato é que o Brasil não está em condições para receber um evento desse porte. 

Protocolos 

Em entrevista coletiva no dia 7 de junho, o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, deu maiores detalhes acerca do protocolo a ser seguido para a realização da Copa América no Brasil. Os testes do tipo RT-PCR deverão ser feitos a cada 48 horas e as delegações, de até 65 membros, deverão ser mantidas isoladas em hotéis nas cidades em que as respectivas seleções atuarem, sendo liberada a saída apenas para treinamentos, jogos ou questões de saúde.

Entretanto, o que chama atenção é a questão da vacinação. No dia 4 de junho, o Ministro-Chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, garantiu que a condição para a realização da Copa América no Brasil seria a completa vacinação de todas as delegações participantes. Contudo, na referida entrevista, Queiroga retirou essa imposição, alegando que não há tempo hábil para que a imunização seja completa antes do início da competição, podendo ainda, segundo o ministro, causar reações e prejudicar o ritmo de competitividade dos atletas. Até o momento, seis das dez seleções participantes tiveram seus atletas completamente vacinados. 

Em abril de 2021, a Conmebol anunciou que a biofarmacêutica Sinovac doaria 50 mil doses da Coronavac para a entidade. A negociação foi intermediada pelo presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, e pelo embaixador uruguaio em Pequim, Fernando Lugris. No fim do mesmo mês, as doses chegaram ao país, e passaram a ser aplicadas na sede da Conmebol em Luque, no Paraguai. O imunizante é oferecido a atletas dos principais clubes que disputam competições de clubes da Conmebol, árbitros, staff da entidade e, claro, as seleções que irão disputar a Copa América. Entretanto, receber o medicamento é algo opcional. Clubes brasileiros como Fluminense e Internacional, por exemplo, recusaram em um primeiro momento.

A partir desse cenário, é possível notar uma aproximação entre a alta cúpula da Conmebol e o presidente uruguaio Lacalle Pou. Além da intermediação nas tratativas em relação às doações de vacinas da SINOVAC, as finais da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana de 2021 serão realizadas no Estádio Centenário, em Montevidéu, no mês de novembro, onde segundo Sebastián Bauza, secretário dos Esportes do Uruguai, haverá público nas arquibancadas, sendo essa uma condição exposta no contrato firmado com a Conmebol. 

Conclusão 

A popularização do futebol fez com que a prática esportiva se institucionalizasse  através das organizações como a FIFA, Conmebol, CBF e outras organizações – cada uma em seu nível regional e em suas hierarquias de atuação. Por mobilizar grandes públicos e realizar eventos, cada campeonato realizado é capaz de movimentar cadeias para além do esporte, como a economia local, o ramo turístico, mobilidade urbana, transportes e etc. Dessa forma, há um grande interesse por parte dos governos em sediar os campeonatos e, para isso, observa-se uma aproximação política e estratégica entre os órgãos públicos e as instituições desportivas, sobretudo futebolísticas. 

A realização dos campeonatos internacionais possibilita investimentos nacionais e estrangeiros em infraestruturas locais, o que fomenta o financiamento em obras públicas. Ou seja, quando se fala em sediar campeonatos é preciso sempre ressaltar que há interesses financeiros e políticos por trás de todo o processo, seja a longo prazo – como no caso de investimentos em obras públicas – ou a curto prazo, em relação ao fomento da economia local. 

Há, portanto, um cenário de hipermercantilização do futebol moderno e valorização do esporte dentro da lógica da indústria do entretenimento no que se refere à promoção de grandes eventos. Questões sanitárias e de proteção à saúde e direitos humanos são deixadas em segundo plano, a fim de atender aos interesses da cadeia empresarial envolvida no grande negócio futebolístico, na qual governos não estão alheios. Interesses econômicos e políticos atropelam questões éticas sobre a realização da Copa América no Brasil, seja pela tentativa desesperada e desmedida do governo em se autopromover, seja pela pela pressão econômica do empresariado e de instituições como a Conmebol.

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