Ano VI, nº 104, 26 de junho de 2025
Por Isabella Barbosa Loiola, Rafael Alves Fernandes, Levi Manoel dos Santos, Rafael Alexandre Silva de Moraes, Ana Izadora Rodrigues Bezerra
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
O BRICS assume uma posição cada vez mais estratégica na geopolítica energética mundial. Combinando vastos recursos naturais, grande capacidade de produção e consumo de energia, e um papel central na cadeia global de minerais críticos, o bloco possui todos os elementos necessários para liderar uma transição energética mais justa e inclusiva. No entanto, para que isso se concretize, será preciso enfrentar as contradições internas que ainda marcam as trajetórias energéticas de seus membros, como a forte dependência de combustíveis fósseis e as desigualdades no acesso à energia limpa.
Desde sua criação em 2009, o BRICS vêm se consolidando como um dos principais mecanismos de cooperação entre economias em desenvolvimento. Após a última expansão a articulação agora conta com 11 países membros, sendo eles os quatro originais (Brasil, Rússia, China, Índia), África do Sul, que entrou em 2011, e os outros seis que aderiram posteriormente: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Esse agrupamento de países representa uma parcela significativa da economia mundial, destacando-se no comércio global, na produção e no consumo de energia, além de incluir entre seus membros países com grande disponibilidade de recursos naturais estratégicos. Agregam-se aos membros do BRICS nove países parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Nigéria. No conjunto, membros regulares e parceiros constituem o BRICS+.
Os países membros do BRICS+ representam hoje 48,5% da população mundial, com uma representação equilibrada nos continentes. Já olhando para sua economia, eles representam 40% da economia global, pelo conceito do PIB per capita PPC (Paridade do Poder de Compra), uma métrica que ajusta o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de um país considerando o custo de vida e o poder de compra da moeda local, o que permite uma comparação mais precisa do padrão de vida entre diferentes nações, pois leva em conta as diferenças de preços. A projeção é que esse grupo de países alcance 41% ainda neste ano, com um crescimento médio acima da média global em 2024. Além disso, os integrantes do BRIC+ representam 25% do comércio global, sendo fornecedores centrais de alimentos, petróleo e gás e minerais. Os recursos energéticos também são muito relevantes. Juntos, corresponderam em 2024 a 43,6% da produção de petróleo, 36% da produção de gás natural e 78,2% da produção mundial de carvão. O bloco BRICS+ já detém quase a metade da capacidade instalada de geração de energia mundial, com 4,2 terawatts (TW) dos 9,0 TW globais. Além dessa expressiva participação, o grupo lidera os investimentos em energias renováveis, com projeções indicando que os projetos em construção e planejados podem triplicar sua capacidade instalada de fontes limpas até 2030.
Esse crescimento potencial em renováveis tem sido acelerado principalmente pelos pesados investimentos da China (explicados pela sua alta demanda de energia), mas também pelos esforços de outros membros do bloco, em particular Índia, Brasil e mais recentemente Arábia Saudita. Várias dessas iniciativas contam com financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição financeira do grupo conhecida informalmente como Banco dos BRICS. Cabe destacar que essa instituição fundada em 2016 e idealizada como uma alternativa às mais tradicionais instituições multilaterais de financiamento, como o Banco Mundial, no seu pouco tempo de atuação já demonstrou uma postura inovadora, com metas de aumentar o seu portfólio sustentável para 40% até 2026, com foco em projetos de descarbonização e eficiência energética.
Diante dessa realidade, uma articulação mais efetiva dos BRICS na política energética teria impactos significativos. Para compreender esse potencial, é essencial analisar a capacidade energética do bloco tanto em seu conjunto quanto em suas dinâmicas internas. Essa análise deve considerar as grandes disparidades entre os países membros, a elevada dependência de combustíveis fósseis em suas economias e os possíveis caminhos para uma agenda energética comum que supere as contradições internas. Tais desafios ganham especial relevância durante a atual presidência brasileira, pois o Brasil, ao mesmo tempo que pode influenciar as discussões no grupo, é responsável por sediar a COP 30 e tem a oportunidade de se posicionar como um líder no combate às mudanças climáticas.
Transição energética no BRICS
Os BRICS+ exercem um papel estratégico na transição energética global. O grupo possui um grande potencial e já é reconhecido por avanços importantes na área. Contudo, esse protagonismo é acompanhado por contradições expressivas. Somados, os países membros respondem por quase a metade da produção global de energia a partir do petróleo e por cerca de 48% das emissões mundiais de dióxido de carbono. A produção de petróleo dos BRICS atingiu 36,7 milhões de barris por dia (bpd), o que corresponde a 45% da extração mundial, estimada em 81,2 milhões de barris/dia. Esses dados evidenciam o desafio central: como conciliar o peso atual dos combustíveis fósseis na matriz energética do bloco com a urgência de uma transição para fontes mais limpas e sustentáveis?
Esse desafio se torna ainda mais complexo ao se observar a composição energética de alguns dos principais produtores dentro do grupo BRICS. A Arábia Saudita sozinha responde por cerca de 13% da produção global de petróleo, com um volume diário próximo ao da Rússia, que ainda ocupa a liderança no grupo. Juntos, Emirados Árabes Unidos e Irã somam mais 8% do total mundial — produção pouco superior à do Brasil, mas com destaque na extração de gás natural. Os iranianos detêm 6% da oferta global de gás natural, enquanto a Rússia, sozinha, produz 15% dos 1,437 trilhões de m³ desse combustível gerados anualmente no mundo.
Para além do BRICS, no cenário global também impõe desafios e condicionantes importantes à transição energética. Os Estados Unidos, maior produtor de petróleo e gás do mundo, após a posse de Trump têm explorado ainda mais sua capacidade de produção de energia de combustíveis fósseis, que no presente ano atingiu o pico de 13,5 milhões de barris por dia (b/d). O interesse do governo estadunidense em aumentar a produtividade é uma resposta ao crescimento da demanda por eletricidade, especialmente para a operação e refrigeração de centros de dados impulsionados pelo boom da inteligência artificial. O Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou, no entanto, que o país terá uma queda a partir do segundo trimestre de 2025 para cerca de 13,3 milhões de b/d no quarto trimestre de 2026 devido aos baixos preços, que desestimulam os investimentos.
Os EUA também se mantêm como os maiores consumidores globais de petróleo, seguidos pela China, responsável por 15% do consumo mundial, e pela Índia, com 8%. Ambos os países asiáticos enfrentam limitações em sua produção doméstica de combustíveis fósseis, o que os torna dependentes da cadeia global de suprimentos para abastecer suas refinarias.
A China, embora tenha sido um dos maiores motores do consumo de combustíveis fósseis nas últimas décadas, com um crescimento médio de 4,6% ao ano na sua demanda entre 2013 e 2023 de acordo com o Statistical Review of World Energy, trabalha com a perspectiva de gradualmente a diminuir o crescimento da sua demanda por petróleo, impulsionada pela transição energética. Um dos principais fatores dessa mudança é o rápido crescimento das vendas de veículos elétricos, que já representam 20% dos carros vendidos no mundo, com projeção de alcançar 50% até 2030. Além disso, a China está expandindo sua rede de transporte ferroviário de alta velocidade e substituindo frotas pesadas por veículos movidos a gás natural liquefeito (GNL), reduzindo ainda mais a necessidade de derivados de petróleo. A competitividade dos preços dos carros elétricos no mercado doméstico tem sido fundamental para acelerar essa transformação.
Na Índia, o consumo de combustíveis fósseis cresceu 8% em 2023, ultrapassando a soma do consumo europeu e norte-americano. Com uma alarmante dependência de 85% de importações desses combustíveis, o país enfrenta um dilema energético: como manter seu acelerado crescimento econômico – que pode elevar seu PIB de US$ 4 trilhões para US$ 20 trilhões nas próximas duas décadas – ao mesmo tempo em que precisa reduzir urgentemente suas emissões de carbono? Essa contínua dependência dos combustíveis fósseis mostra-se cada vez mais insustentável tanto economicamente quanto ambientalmente.
No Brasil, os debates sobre transição energética ganharam muita força, mas os investimentos em petróleo e gás seguem em alta. O governo federal destinou R$ 335 bilhões através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), enquanto a Petrobras planeja aplicar R$ 73 bilhões até 2028 na extração desses combustíveis. Esses recursos sustentam parte significativa da matriz energética nacional: 31,1% do petróleo e 23% do gás natural, além de gerar receitas fiscais para financiar setores prioritários como saúde e educação.
Entre dependência e autonomia tecnológica
O bloco é composto por potências energéticas com diferentes trajetórias na adoção de fontes limpas, refletindo realidades econômicas, sociais e geopolíticas distintas. Ainda assim, o BRICS tem consolidado um protagonismo crescente e estratégico na geopolítica energética global, tanto pela sua capacidade de produção quanto pelo seu peso no consumo mundial de energia.
O Brasil é uma liderança internacional com aproximadamente 50% de sua oferta energética proveniente de fontes renováveis, enquanto sua matriz elétrica chega a quase 90% de renováveis (a matriz elétrica é um conceito que se refere ao total das fontes de energia usadas especificamente na geração de eletricidade). Enquanto isso, a China lidera a produção mundial das energias solar e eólica, detendo cerca de 37% da capacidade global da solar e 30% da eólica. Índia e África do Sul também tem buscado ampliar seus investimentos em renováveis, seja por questões ambientais, seja pela necessidade de redução de dependência de importações e da diversificação da matriz para garantia de acesso à energia.
A Rússia é altamente dependente de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão. Embora detenha um potencial significativo em energia hidrelétrica e capacidade para ampliar suas fontes renováveis, o avanço dessas tecnologias tem se limitado pela falta de incentivos e por prioridades políticas voltadas à manutenção de sua posição como uma potência exportadora de energia fóssil. A Rússia se destaca pelo fato de que, nesse país, as renováveis representam apenas uma fração marginal da matriz energética. Juntos, os países dos BRICS representam 36,4% do fornecimento de energia primária global e devem aumentar essa participação para 40 a 50% até 2040.
A configuração assimétrica entre um alto potencial renovável e uma persistente dependência de energias fósseis demonstra as contradições entre diferentes estágios da transição energética no interior do bloco. Essa situação heterogênea dos membros do BRICS, de um lado, enfraquece o papel desse agrupamento de países na formulação de uma possível governança global de energia, na medida que dificulta as propostas conjuntas. Por outro lado, essa mesma realidade ressalta a importância do bloco nos debates globais sobre energia e meio ambiente, pois as decisões de seus países membros podem influenciar de maneira decisiva as políticas globais que envolvem clima, justiça climática e transição energética.
Ao mesmo tempo, a corrida mundial por metais estratégicos para a eletrificação do transporte intensificou-se nos últimos anos, e os países do BRICS detém uma posição privilegiada nessa cadeia de valor global. Segundo a IEA Global Critical Minerals Outlook 2025, publicação da Agência Internacional de Energia (AIE), a China domina a produção global de materiais refinados que são essenciais para a transição energética, liderando a produção e/ou processamento de cinco dos seis minerais críticos nessa área: terras raras, lítio, cobalto, níquel, grafite e platina (a exceção, aqui, é o cobre). A Rússia também é um fornecedor considerável de níquel e platina. O Serviço Geológico dos Estados Unidos divulgou que o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com aproximadamente 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China.
Além dos avanços em energias renováveis, alguns países do BRICS têm ampliado significativamente sua capacidade nuclear, tanto para fins civis quanto militares. A Rússia se destaca pela Rosatom, empresa que é lider global na construção de usinas nucleares e exportação de tecnologia nuclear civil do setor, especialmente no mercado internacional de novos reatores. Em maio deste ano, tiveram início negociações entre Brasil e Rússia para construção de pequenos reatores nucleares terrestres e flutuantes com o objetivo de ampliar o uso de minerais estratégicos, como o urânio.
De acordo com a Associação Mundial Nuclear, havia, em março de 2025, 66 usinas nucleares em construção no mundo — incluindo Angra 3, no Brasil. Dessas 66, 30 estavam sendo construídas na China, representando 48% da nova capacidade instalada. A China projeta tornar-se o maior produtor de energia nuclear até o final da década, superando os EUA e a França. Isso deve ajudar o país a equilibrar sua rede elétrica diante da intermitência das fontes solar, eólica e até mesmo hídrica.
Também a Índia tem buscado reduzir sua dependência do carvão, ainda dominante em sua matriz energética, por meio do investimento em reatores pressurizados pesados (PHWRs). Essa estratégia visa diversificar suas fontes de geração elétrica, ao mesmo tempo que reduz a necessidade de importações e reforça a segurança energética nacional.
Já o tema da energia nuclear no Irã é especialmente complexo e se situa no centro do atual conflito militar que opõe esse país, integrante dos BRICS, aos EUA e Israel, que questionam o direito iraniano de uso pacífico da energia nuclear. Todas as informações disponíveis, inclusive o posicionamento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), instituição responsável por fiscalizar o programa nuclear iraniano, indicam que o Irã não está nem estava desenvolvendo nas últimas duas décadas projetos voltados para a fabricação de armas nucleares. É que se depreende das declarações do diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, ao informar que não foram reunidas provas que confirmem um “esforço sistemático do Irã para construção de uma bomba atômica”. Portanto, as acusações dos governos ocidentais e de Israel nesse sentido são, claramente, mentirosas. Ao contrário de Israel, que possui um estoque de armas nucleares estimado em centenas de unidades, o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). O governo brasileiro condenou os ataques militares de Israel e EUA ao Irã, posição compartilhada com a maioria dos países integrantes do BRICS.
Olhando-se para a posição estratégica dos países do BRICS na geopolítica global da energia e dos recursos naturais, notam-se dilemas e contradições importantes. Apesar do potencial desse bloco para liderar a transição energética, grande parte dos seus países membros permanecem em papéis subordinados nas cadeias produtivas globais envolvidas na transição energética — como meros fornecedores de matérias-primas —, enquanto os países centrais (e mais a China) detêm o controle das tecnologias e capturam o maior valor agregado.
Ademais, a intensificação da extração de minerais críticos, essenciais para tecnologias limpas como baterias e turbinas eólicas, tem aberto novas frentes de conflitos ambientais e sociais, sobretudo em territórios vulneráveis. A pressão sobre comunidades locais, a degradação de ecossistemas e a falta de mecanismos robustos de governança representam desafios significativos.
Diante desse cenário, talvez um dos principais obstáculos para os BRICS seja superar a lógica extrativista tradicional e avançar rumo a um modelo de desenvolvimento que incorpore princípios de justiça socioambiental, soberania energética, domínio tecnológico e governança territorial. Há, portanto, uma oportunidade concreta para que o bloco construa uma agenda coordenada de desenvolvimento industrial e científico baseada em materiais críticos para a transição energética. Essa articulação poderia unir os objetivos de combate à crise climática com o fortalecimento da autonomia dos países membros, ampliando seu protagonismo global de forma mais equitativa e sustentável.
Brasil e a diplomacia climática e energética
O Brasil desempenha um papel estratégico na construção de uma agenda comum do BRICS. Nos últimos meses, o país vem se esforçando para encontrar denominadores comuns nos temas energéticos com os demais integrantes do grupo, aproveitando o momento singular de sua dupla presidência em fóruns internacionais, como presidente rotativo da Cúpula dos BRICS e também como país-sede da COP 30. A Cúpula, que ocorre nos dias 6 e 7 de julho, será o principal fórum de articulação política do BRICS anterior à COP 30. Nesse espaço, o Brasil terá a oportunidade de apresentar as resoluções aprovadas nas reuniões dos grupos temáticos do BRICS realizadas ao longo dos primeiros meses do ano, consolidando assim seu papel de liderança na promoção de uma transição energética alinhada à justiça climática e à cooperação Sul-Sul.
Dentre esses encontros, o mais relevante ocorreu em 19 de maio: a 10ª Reunião Ministerial de Energia do BRICS, encontro anual dos membros da sigla para discutir e coordenar políticas e estratégias energéticas. Aqui, foi aprovado o Comunicado Conjunto que versa sobre as políticas conjuntas do bloco no que tange às energias renováveis, reafirmando o compromisso dos países com uma transição energética justa, ordenada e inclusiva. Dentre os temas que integram o Comunicado, um dos mais importantes é o Roadmap da Cooperação Energética do Brics 2025–2030, documento que estabelece as políticas bases para a atuação conjunta dos países do bloco nos próximos cinco anos. Além de destacar as diversidades e disparidades das diversas nações do BRICS com relação ao acesso e desenvolvimento das energias renováveis, o documento propõe medidas coordenadas para expandi-las, ao mesmo tempo que reconhece a necessidade do uso dos combustíveis fósseis para uma transição mais justa, afirmando sua importância para os países da coalizão.
O Comunicado também aborda outras áreas sensíveis nos temas de transição, como seu financiamento, visando garantir o acesso universal à energia. Uma das recomendações é estimular as parcerias público-privadas e mobilizar recursos financeiros com apoio do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Ainda sobre financiamento, foi realizada em 28 de maio a Reunião de Alto Nível sobre Mudança do Clima e Desenvolvimento Sustentável do BRICS, onde se aprovou a nível de vice-ministros a Declaração Quadro para Líderes do BRICS sobre financiamento climático, documento que orienta as atividades de orçamento e investimento climático do bloco. O documento versa sobre temas importantes na arquitetura econômica global, como a reforma dos bancos multilaterais e questões regulatórias dos fluxos financeiros internacionais, enfatizando a importância do cumprimento dos acordos e da atuação das convenções, organizações e instrumentos multilaterais para alcançar as metas globais de descarbonização. Todos esses temas têm sido, historicamente, importantes na política externa energética brasileira.
Também estão sendo preparados dois relatórios técnicos conjuntos: um sobre transição energética e combustíveis sustentáveis, e outro com propostas para expandir o acesso à eletricidade e reduzir a pobreza energética. Segundo Mariana Espécie, assessora do Ministério de Minas e Energia, o segundo relatório destaca iniciativas brasileiras, como o projeto Luz para Todos, como modelo para os outros países. O objetivo é mapear as políticas públicas dos países do bloco nessa área, incluindo descarbonização e uso de biocombustíveis. Esse é um importante movimento para expandir as ações de sustentabilidade e inclusão social por parte do governo brasileiro, que visa trazer mais robustez à sua voz na COP 30.
Em junho, Brasília também sediou a 7ª Cúpula de Energia da Juventude do BRICS, reunindo jovens e especialistas da BRICS Youth Energy Agency para definir o conteúdo do Panorama Energético da Juventude BRICS 2025, a ser lançado na COP 30. O documento visa ampliar a participação das novas gerações na construção de uma transição energética sustentável, promovendo inovação, cooperação entre governos, empresas e academia, e atração de investimentos.
Entre os temas prioritários estão combustíveis sustentáveis, financiamento verde, acesso à energia e tecnologias de baixo carbono, com foco em soluções práticas para o Sul Global. Aqui, o Brasil não apenas cedeu seus espaços simbólicos para as discussões e resoluções do grupo (que ocorreram no Palácio do Itamaraty), mas também incentivou a participação de uma parcela importante da sociedade brasileira nas discussões sobre a colaboração internacional nos temas energéticos, demonstrando seu interesse em formar líderes para atuar nesses espaços.
Agregadas, essas políticas são de fundamental importância para a presidência brasileira na COP 30, pois posicionam o país como líder do BRICS nas questões de energia e, mais amplamente, de sustentabilidade e conservação. A articulação política brasileira visou agrupar declarações conjuntas do bloco, buscando fortalecer sua posição intrabloco como articulador e extrabloco como representante e protagonista na COP 30.
Considerações finais
Diante do panorama apresentado, é possível afirmar que o BRICS assumem uma posição cada vez mais estratégica na geopolítica energética mundial. Combinando vastos recursos naturais, grande capacidade de produção e consumo de energia, e um papel central na cadeia global de minerais críticos, o bloco possui todos os elementos necessários para liderar uma transição energética mais justa e inclusiva. No entanto, para que isso se concretize, será preciso enfrentar com seriedade as contradições internas que ainda marcam as trajetórias energéticas de seus membros, como a forte dependência de combustíveis fósseis e as desigualdades no acesso à energia limpa.
Nesse sentido, a recente articulação política promovida durante a presidência brasileira do BRICS representa um avanço importante. A aprovação do Roadmap da Cooperação Energética 2025–2030 e da Declaração Quadro sobre Financiamento Climático demonstra que há um esforço real para construir convergências e fomentar iniciativas conjuntas voltadas ao desenvolvimento sustentável. Além disso, a ênfase no papel do Novo Banco de Desenvolvimento como agente mobilizador de recursos para projetos sustentáveis indica um caminho promissor para financiar a transição sem comprometer o crescimento dos países em desenvolvimento.
Ainda assim, é fundamental que o BRICS avance não apenas em infraestrutura e financiamento, mas também em governança e soberania tecnológica. A consolidação de uma agenda energética que incorpore os princípios da justiça climática e da inclusão social depende da capacidade dos países do bloco de se posicionarem de forma coordenada frente às pressões externas e à lógica extrativista tradicional. Isso implica fomentar a industrialização local, desenvolver tecnologias limpas próprias e garantir que os benefícios da transição cheguem às populações mais vulneráveis.
Por fim, o papel do Brasil neste processo é especialmente relevante. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e crescente protagonismo internacional na pauta climática, o país tem a oportunidade de liderar pelo exemplo. A COP 30, que será realizada em solo brasileiro, será um momento decisivo para consolidar essa liderança. Ao articular compromissos concretos entre os membros do BRICS e demonstrar avanços reais em inclusão energética e descarbonização, o Brasil poderá não apenas fortalecer a coesão do bloco, mas também ampliar sua influência nas negociações globais sobre o futuro energético do planeta.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte
