Ano VI, nº 105, 10 de julho de 2025
Por Ana Beatriz Santos, Gustavo Botão, Letícia Lelis e Roberto Dalla
(Imagem: Unsplash)
O choque tarifário de Trump tem levado a efeitos econômicos adversos, forçando o presidente dos Estados Unidos a se sentar à mesa de negociações.
Introdução
As tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (2025-2029), a dezenas de países no chamado “Dia da Libertação”, em 2 de abril, marcaram uma nova fase no comércio mundial, revertendo a tendência de abertura comercial iniciada ainda na segunda metade do século XX. Previsões da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estimam uma desaceleração da economia mundial de 0,4%. É também esperada uma possível recessão nos Estados Unidos após o recuo de 0,3% do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre de 2025. A diminuição dos fluxos de comércio com os Estados Unidos resultou em uma queda no tráfego dos portos na Costa Oeste do país e à falta de produtos nas prateleiras dos mercados, levando à queda na aprovação do presidente estadunidense. Contrariando as previsões de Trump, a produção industrial nos Estados Unidos diminuiu 0,4% no mês de abril, puxada pela incerteza econômica.
Além dos ataques ao sistema multilateral de comércio, a postura agressiva de Trump tem afastado aliados tradicionais dos Estados Unidos, como Canadá, União Europeia e México. Esses efeitos vão na direção contrária à promessa de Trump de fortalecer os Estados Unidos diante da China e de reindustrializar o país, forçando o presidente estadunidense a sentar-se à mesa de negociações e buscar mitigar os danos à economia do país.
Reconfiguração do comércio mundial
Os ataques de Trump ao sistema multilateral de comércio revertem uma tendência de abertura comercial iniciada durante a Rodada Kennedy, nos anos 1960, no âmbito do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, em inglês), que reduziu barreiras comerciais e não-alfandegárias em um contexto de transnacionalização produtiva (outsourcing) e de capital. A partir de então, os diferentes governos estadunidenses pressionaram diversos países para abrir seus mercados para produtos, serviços e empresas do país, criando cadeias produtivas complexas em diversos países, especialmente no Sul Global, e dando início à globalização neoliberal.
Mesmo junto a narrativa oficial de globalização e as práticas do Consenso de Washington a partir dos anos 1990, os Estados Unidos, historicamente, é um país o qual atuou recorrentemente com tendência ao protecionismo, seja pela questão industrial ou pela questão da segurança interna, como evidente na doutrina do “grande porrete” (“big stick”) promovida pelo presidente T. Roosevelt no início do século passado. Os princípios da chamada Escola Americana de Economia Política, baseados no programa econômico advogado por Alexander Hamilton (1755-1804), foram aplicados nos Estados Unidos pelos membros do Partido Republicano e de agremiações anteriores (Partidos Whig e Nacional Republicano) desde meados do século XIX até metade do século XX. Esta escola defendia a adoção de políticas de altas tarifas para a proteção de uma indústria nascente, a criação de infraestruturas (obras públicas e ferrovias) e o estabelecimento de um sistema financeiro (Banco Central) e contribuíram fortemente com a industrialização do país.
Desde a Crise de 2008, discussões acerca dos benefícios da globalização têm ganhado cada vez mais espaço nos Estados Unidos, com a defesa da reindustrialização do país se tornando um tema bipartidário. Trump se inspira no presidente protecionista Republicano Willian McKinley (1897-1901) ao implementar suas tarifas e busca recuperar indústrias que se beneficiaram da abertura de comercial e de fluxos de capital iniciada nos anos 1960, em um processo conhecido como reshoring (repatriação industrial). O último esforço tarifário traçado por Donald Trump foi a ameaça de uma taxação adicional de 10% a países que se alinharem às propostas dos BRICS, anunciada após a cúpula do bloco em que países sancionados (especialmente Rússia) apresentaram interesse em um sistema comercial fora do dólar. Demonstrando com isso a polarização da disputa contra a influência chinesa e seu poder de troca, em uma tentativa protecionista de defesa do valor do dólar forte e do papel americano na dinâmica comercial.
EUA x China e recuo de Trump
O alvo central do processo de reshoring defendido por Trump é a China, principal beneficiada pela transnacionalização produtiva e comercial promovida pelos Estados Unidos. Nos últimos anos, entretanto, a rivalidade comercial entre Estados Unidos e China têm moldado significamente boa parte das dinâmicas econômicas globais. Esse embate começou oficialmente em 2018, durante o primeiro governo Trump, e foi retomado em seu segundo mandato. O governo do Democrata Joe Biden (2021-2025) também adotou uma política agressiva de incentivo à repatriação industrial de empresas que estavam na China, aumentou tarifas sobre veículos elétricos de origem chinesa e apoiou a proibição do aplicativo TikTok no país.
As tarifas impostas por Trump contra a China levaram a uma escalada na rivalidade entre ambos os países. Em resposta às tarifas do “Dia da Libertação”, o governo chinês retaliou os Estados Unidos com tarifas de 34%, seguidas de um aumento para 84% após outra retaliação de Trump que havia elevado as tarifas para 104%. Pequim afirmou que lutará “até o fim” contra as tarifas e a guerra de retaliações continuou até as tarifas chegarem a 145% por parte dos Estados Unidos e 125% por parte da China, o que tornou o comércio entre os países proibitivo. No final de abril, Trump anunciou que o governo chinês o havia procurado para negociar as tarifas, o que foi prontamente desmentido pelo Ministério do Comércio da China.
Após muita incerteza, e buscando conter os efeitos negativos para as economias de ambos os países, representantes de Washington e Pequim se reuniram em Genebra, na Suíça, para discutir um acordo comercial. No dia 12 de maio foi anunciado um acordo, que não avançou por acusações dos governo Trump de que os chineses não estavam respeitando os termos acordados. Em 27 de junho, as partes chegaram a um novo acordo em Londres, Reino Unido, prevendo tarifas de 55% sobre importações estadunidenses da China e 33% sobre importações chinesas de produtos dos Estados Unidos. O texto também prevê uma flexibilização no fornecimento chinês de terras raras aos Estados Unidos.
Negociações bilaterais para a diminuição das tarifas
Outros países, como o Reino Unidos e a Suíça, não partiram para o confronto com os Estados Unidos devido à proximidade econômica com o país, preferindo se submeter às negociações bilaterais propostas por Trump.
O governo britânico liderado pelo Trabalhista Keir Starmer (2024-atualmente) iniciou as negociações com Trump após o tarifaço, quando teriam recebido um tratamento prioriário, de acordo com o secretário do Tesouro estadunidense, Scott Bessent. Em 16 de junho, os dois governos anunciaram a conclusão de um acordo, previsto para entrada em vigor no dia 30 de junho, que prevê cotas para a entrada de carros, aeronaves e alumínio britânicos nos Estados Unidos em troca da facilitação da entrada de produtos como carne bovina e etanol estadunidenses no Reino Unido. As tarifas sobre o aço britânico estão mantidas.
Após uma dura resposta europeia no em abril, a União Europeia tem buscado negociar com o presidente estadunidense, que suspendeu a aplicação das tarifas até o dia 9 de julho. Enquanto negocia com os Estados Unidos, os europeus buscam acelerar a conclusão definitiva do Acordo Mercosul-UE. Em junho, o presidente francês, Emmanuel Macron (2017-atualmente), admitiu que pode aceitar o Acordo caso os países do Mercosul aceitem a inclusão de cláusulas-espelho e de salvaguarda para produtos agrícolas do bloco.
Impactos para o Brasil
Após o anúncio das tarifas de Trump no começo de abril, o Brasil passou a ter que lidar com o cenário de desorganização econômica instaurado. No primeiro momento a percepção foi de que o país teria saído como um dos menos afetados pelo “tarifaço”, com seus efeitos sendo, em sua maioria, indiretos.
Apesar disso, o governo brasileiro tomou ações em resposta ao tarifaço, entre elas: i) recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), apesar do enfraquecimento do organismo; ii) apostar em novas oportunidades para o Brasil, como nos setores automotivo e agropecuário, a partir de uma aproximação com a China iii) e aprovar uma Lei de Reciprocidade Econômica, que prevê contramedidas como restrição a importações de bens e serviços e suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de obrigações relativas a direitos de Propriedade Intelectual.
Apesar de projeções iniciais apontarem para um menor impacto no comércio brasileiro, supondo que poderia afetar apenas 0,03% do PIB, a queda em alguns dos principais produtos exportados levanta alerta para o risco setorizado, marcando diminuição na exportação de produtos como aço, ferro, celulose e combustíveis. Ao que parece, ainda é possível dizer que o Brasil se saiu menos afetado do que países que sofreram com impostos maiores, contudo, mesmo com a tarifa mínima, o país não passa ileso pela desconstrução do comércio mundial iniciada por Trump, com a imposição das tarifas de 10% sobre todas as importações somada a de 25% sobre o aço. Além do aço, os setores mais afetados são o de etanol, café e têxtil, com impactos também em outros produtos, como semimanufaturados de ferro e aço, aeronaves, materiais de construção, madeira e petróleo.
Buscando aliviar as tarifas, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reuniu com o secretário do Tesouro estadunidense, Scott Bessent. O encontro marcou, segundo o ministro, a abertura americana para o diálogo sobre a situação das tarifas e possíveis acordos bilaterais, possibilitando um processo de solução e reaproximação entre os lados. O principal argumento utilizado pelo governo brasileiro é o de que o Brasil é deficitário comercialmente com os EUA e que, por isso, tarifas para impedir a importação de produtos brasileiros não fariam sentido.
Recuos de Trump e impactos gerais do tarifaço
Apesar das promessas de reindustrialização, é possível que o tarifaço de Trump não leve aos efeitos esperados. O comércio mundial atual, fruto da globalização neoliberal, é muito diferente daquele vigente durante o processo de industrialização nos Estados Unidos da virada dos séculos XIX para o XX. As cadeias produtivas atuais estão espalhadas por diversos países e são interdependentes, com partes e acessórios de um mesmo produto sendo produzidas em várias localidades diferentes. Um exemplo de empresa com uma complexa cadeia de produção é a Apple, cujos produtos foram ameaçados por Trump de serem tarifados em 25% caso não levasse sua produção para os Estados Unidos.
Embora pareça, à primeira vista, que a guerra tarifária de Trump promove um rechaço ao livre-comércio e ao neoliberalismo, suas medidas refletem uma reconfiguração das relações dos Estados Unidos e suas empresas com o comércio mundial, ainda inserida na globalização neoliberal, buscando obter, agressivamente, vantagens comerciais sobre o resto do mundo por meio de políticas comerciais conhecidas como “empobrecer seu vizinho” (beggar-thy-neighbour), que consistem em políticas tarifárias e de desvalorização monetária visando aumentar a produção interna e diminuir importações. Essas políticas foram adotadas pelos Estados Unidos na década de 1930 e agravaram os efeitos da Grande Depressão. Assim como ocorrido nos anos 1930, o amplo tarifaço de Trump tem levado à perda de confiança nos Estados Unidos e a efeitos recessivos na economia mundial, levando o mandatário a sentar-se à mesa de negociações.
