Ano VI, nº 106, 24 de julho de 2025
Por Camila Gonçales, Gustavo Botão, Roberto Dalla e Tuany Nascimento
(Imagem: Fotos Públicas – Foto: Daniel Torok/ Oficial Casa Branca)
A ameaça de tarifas de 50% sobre o Brasil vem em um contexto de enfraquecimento relativo do bolsonarismo, de expansão dos BRICS, crescente interesse das Big Techs no Brasil e de oposição interna às políticas de Trump.
Introdução
No dia 10 de julho de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (2025-2029), anunciou uma nova rodada de tarifas contra o Brasil, impondo alíquotas de até 50% sobre todas as importações brasileiras. A medida foi anunciada pela rede social de Trump, a Truth Social, e é descrita como uma resposta estratégica ao processo judicial movido contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) e a uma suposta desvantagem comercial em desfavor dos Estados Unidos, marca uma escalada nas tensões comerciais entre os dois países. Embora Trump já tivesse adotado uma postura protecionista anteriormente, quando impôs tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o restante dos produtos brasileiros, o novo tarifaço tem escopo e impacto significativamente maiores, seguindo o ritmo que Trump tem ditado ao longo deste ano.
A decisão foi impulsionada por uma combinação de fatores geopolíticos e econômicos, como a mais recente Cúpula dos BRICS, que reforçou a expansão do bloco, aprofundou debates acerca da redução de risco ao dólar e criticou, ainda que sem mencionar o envolvimento estadunidense no caso, os ataques de Israel ao Irã em junho. O interesse das Big Techs no Brasil também influenciou na tomada de decisão de Trump.
Trump já havia ameaçado tarifar todos os países membros em 10% logo após o encerramento da Cúpula. Uma clara ameaça política, mas nada comparado ao anúncio de tarifas de 50% exclusivamente para produtos brasileiros, que veio em seguida. A decisão é considerada economicamente controversa, já que, em 2024, os Estados Unidos registraram um superávit comercial superior a US$ 43 bilhões em bens e US$ 165 bilhões em serviços com o Brasil, sendo um dos maiores em sua balança bilateral. O Brasil também fornece insumos essenciais para cadeias produtivas dos EUA, de commodities agrícolas máquinas e equipamentos. A indústria estadunidense, que Trump tenta fortalecer, pode ser uma das principais prejudicadas pelas novas tarifas.
A repercussão também teve efeitos institucionais. Em 17 de julho, o governo estadunidense abriu uma investigação comercial formal, no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, contra o Brasil, alegando práticas desleais e barreiras a empresas dos EUA, com a plataforma PIX virando um dos alvos. O governo Trump entende que o amplo uso do PIX no Brasil prejudica plataformas de pagamentos de empresas estadunidenses, como o Whatsapp Pay, da Meta, e o PayPal.Outro fator que não pode ser ignorado, especialmente considerando as movimentações recentes, é o apoio de Donald Trump ao ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que sofre um processo que Trump considera injusto o tratamento dado a Bolsonaro.
Além das tarifas ao Brasil, também foram anunciadas para 1º de agosto novas taxas contra o México, Canadá, União Europeia, Japão e Coreia do Sul, países historicamente próximos dos Estados Unidos. Trump anunciou em 11 de julho novas tarifas de 30%, interrompendo a normalidade de cadeias transatlânticas de valor e produção.
O México também recebeu, no mesmo dia, uma nova tarifa de 30%, tensionando novamente as negociações entre esses dois países e conturbando, ainda mais, a parceria central de livre comércio entre os dois países que molda o processo produtivo na América do Norte. O Canadá teve sua taxa ampliada para 35% e sofreu ameaças de aumento da alíquota em caso de retaliação canadense. Os aliados asiáticos Coreia do Sul e Japão foram tarifados em 25%, demonstrando também o afastamento das parcerias no leste-asiático e a contraditória estratégia protecionista na guerra comercial de Trump.
As novas investidas protecionistas de Trump agravaram a perspectiva de insegurança e instabilidade da dinâmica internacional, evidenciando cada vez mais o rompimento com o modelo liberal de globalização e as práticas de comércio e transnacionalização da produção. Ao passo que a guerra comercial e tarifária buscada por ele desorganiza a economia global, atacando ao mesmo tempo desde o Brasil, quanto a China, em teoria seu principal rival, e até mesmo seus aliados mais próximos como Canadá e Japão.
Impactos econômicos para ambos os países
Brasil
O novo tarifaço anunciado por Trump gerou preocupação em diferentes setores industriais, os quais passaram a se posicionar de forma contrária às medidas e a buscar diálogo com o governo brasileiro, na tentativa de reverter ou atenuar os impactos sobre as exportações nacionais.
O comércio entre Brasil e EUA é bastante expressivo, sendo os EUA o segundo maior parceiro comercial do país. Em 2024, as exportações brasileiras para o mercado estadunidense somaram US$40,4 bilhões, com destaque para óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos, café não torrado, produtos semi-acabados de ferro ou aço, aeronaves e equipamentos, insumos para indústria de transformação, celulose, sucos de frutas e carne bovina. Esses setores tendem a ser os mais afetados pelas tarifas recentemente impostas por Donald Trump.
Tabela 1 – Produtos brasileiros mais afetados pelo tarifaço de Trump (Valores em US$, ano-base de 2024).
Produto | Setor | Valor |
Café não torrado | Agropecuária | 1,17 bilhão |
Carne | Ind. Transformação (Agroindústria) | 971 milhões |
Suco de laranja | Ind. Transformação (Agroindústria) | 743 milhões |
Petróleo | Ind. Extrativa | 2,4 bilhões |
Aeronaves | Ind. Transformação | 1,044 bilhão |
Semimanufaturados de ferro e aço | Ind. Transformação | 1,95 bilhão |
Madeira | Ind. Transformação | 370 milhões |
Materiais de construção | Ind. Transformação | 425 milhões |
Fonte: elaboração própria, com base em dados do ComexStat.
Logo após o anúncio, entidades como Fiesp, Fiesc Firjan e Fiemg — que juntas representam a produção de maior parcela de produtos exportados aos EUA — se manifestaram prontamente. De forma geral, condenaram a atitude do governo estadunidense que, além de ter motivações político-ideológicas, gerou acréscimo de tarifas a commodities que já haviam tido um aumento anterior de tarifas. Além disso, pediram ao governo brasileiro pela manutenção do diálogo e da cooperação com as autoridades estadunidenses.
Também reagiram a Abrafrutas e a CitrusBr, que representam, respectivamente, os setores de exportação de frutas e suco de laranja, destacando os prejuízos inesperados, uma vez que o curto prazo da tarifa prejudica diretamente os produtos perecíveis. No caso da Embraer, as estimativas apontam que as perdas de receitas podem ter impactos comparáveis àqueles causados pela pandemia de Covid-19.
Já a Abiec, associação que representa os frigoríficos de carne bovina, decidiu suspender a produção de carne para a exportação dos EUA, redirecionando a produção para o abastecimento dos mercados asiáticos. Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, a estratégia da entidade evita o acúmulo de estoques de carne que não seriam vendidas, além de entender que os EUA possuem uma demanda interna constante por carne destinada à produção de hambúrgueres, que não será plenamente atendida com a suspensão das exportações brasileiras. Ou seja, é um posicionamento claro do setor que deseja demonstrar que os EUA também sairão prejudicados com as tarifas.
Geraldo Alckmin, Vice-presidente e Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), se reuniu mais de uma vez com empresários de variados segmentos da indústria para discutir a pauta das tarifas anunciadas por Donald Trump. De forma geral, os empresários pediram ao governo que negocie pelo menos 90 dias de adiamento do início das tarifas, em consonância com cautela no diálogo com a administração estadunidense. No entanto, a preocupação com a possibilidade de retaliação, dada a aprovação da Lei de Reciprocidade, preocupou alguns segmentos do empresariado. A reação foi mais contundente entre representantes de segmentos mais ideologicamente alinhados à direita dentro do setor agropecuário, como evidenciado em nota da CNA, que atribuiu ao governo brasileiro a responsabilidade pelas tarifas, ao mencionar a “reabertura de feridas políticas”. Já a Fiesp e a CNI, por outro lado, afirmaram confiar na capacidade de negociação do governo capitaneada pelos ministérios das Relações Exteriores (MRE) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Estados Unidos
Os impactos econômicos da ameaça de tarifas ao Brasil já podem ser sentidos no encarecimento de produtos que fazem parte da alimentação dos estadunidenses como café, suco de laranja, ovos e carne. O encarecimento desses produtos no mercado dos Estados Unidos possui impactos diretos nos níveis de inflação do país e no custo de vida de grande parte do eleitorado de Trump. Além disso, as tarifas podem afetar as cadeias de produção automotivas estadunidenses e a construção civil do país, dependentes de peças de automóveis e madeira brasileiras, respectivamente, colocando em risco empregos relacionados a esses setores.
Trump tem passado por uma crescente desaprovação perante o eleitorado em razão da incapacidade de controlar a inflação, dos conflitos políticos internos em torno da imigração, de seu autoritarismo e, mais recentemente, do escândalo relacionado a Jeffrey Epstein. A ofensiva aberta contra o Brasil criou efeitos econômicos negativos que podem se somar aos problemas já enfrentados por Trump.
A enxurrada de “cartas tarifárias” enviadas por Trump também causou reação negativa entre importantes grupos empresariais estadunidenses. As respostas assertivas da União Europeia e do Brasil, somadas à possibilidade de retaliações por parte dos países atingidos, tornaram-se motivo de apreensão para variados segmentos industriais exportadores dos EUA. É o caso da indústria química e de plásticos, que vinha ampliando sua presença nos mercados brasileiro e europeu ao longo dos últimos anos e agora se vê diante de riscos concretos de perda de competitividade.
Em nota conjunta, a U.S. Chamber of Commerce, principal associação empresarial dos EUA e a Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil), maior Câmara Americana de Comércio fora dos EUA, afirmaram que a imposição de tarifas afetaria produtos essenciais consumidos pelos cidadãos estadunidenses “reduzindo a competitividade de setores produtivos estratégicos dos Estados Unidos.” Ao final da nota, pediram por “uma solução negociada, pragmática e construtiva — que evite a escalada da atual situação e garanta a continuidade de um comércio bilateral mutuamente vantajoso.”
A indústria de cobre também vê com alarme as tarifas impostas por Trump. Isso porque os EUA, apesar de produzirem o metal, não são capazes de refinar todo o material que consomem – essa capacidade levaria anos para ser adquirida. O presidente da Codelco, maior produtora mundial de cobre, afirmou não compreender os objetivos dos Estados Unidos com o anúncio. Caso as tarifas entrem em vigor em 1º de agosto, o impacto sobre a indústria nacional — que utiliza o cobre como insumo central em setores estratégicos, como data centers e o setor automotivo — tende a ser bastante significativo.
Possíveis desdobramentos comerciais para o Brasil
Uma possível retaliação brasileira pode levar a uma escalada nas medidas unilaterais de Trump, com alguns setores como a indústria e o agronegócio defendendo a resolução da questão por meio de negociações. Em entrevista, o ex-embaixador brasileiro em Washington, Roberto Abdenur defende que o governo trave “uma espécie de guerra de guerrilha no território inimigo, mediante diversas ações”, visando fazer com que a oposição e o empresariado estadunidense se oponham ao ataque ao Brasil na política doméstica dos Estados Unidos. No dia 17 de julho, o presidente Lula concedeu uma entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Estados Unidos, criticando a ofensiva de Trump contra o Brasil para o público estadunidense.
Em caso de imposição das tarifas a partir do dia 1º de agosto, o governo brasileiro admite que poderia aplicar os termos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/2025), aprovada ainda durante a primeira rodada de tarifas de Trump em abril, que visa estabelecer critérios para a resposta a políticas ou práticas unilaterais de país ou bloco econômico que impactam negativamente a competitividade internacional brasileira.
A lei pode ser utilizada em caso: i) de interferência em escolhas legítimas e soberanas do Brasil por meio de aplicação ou ameaça de aplicação unilateral de medidas comerciais, financeiras ou de investimentos; ii) de violação ou inconsistência com as disposições de acordos comerciais ou, de outra forma, neguem, anulem ou prejudiquem benefícios ao Brasil sob qualquer acordo comercial; iii) e de configuração de medidas unilaterais com base em requisitos ambientais que sejam mais onerosos do que os parâmetros, as normas e os padrões de proteção ambiental adotados pelo Brasil.
As contramedidas previstas pela lei são: i) a imposição de direito de natureza comercial incidente sobre importações de bens ou de serviços de país ou bloco econômico; ii) a suspensão de concessões ou de outras obrigações do País relativas a direitos de propriedade intelectual; iii) outras medidas de suspensão de concessões ou de outras obrigações do País previstas em quaisquer acordos comerciais de que o Brasil faça parte.
A regulamentação desta lei foi realizada via decreto (Decreto 12.551/2025) dia 15 de julho, criando um comitê interministerial composto pelo MDIC, pela Casa Civil, pelo Ministério da Fazenda (MF) e pelo MRE. O comitê será presidido pelo MDIC, chefiado pelo ministro e vice-presidente Geraldo Alckmin. Entre as opções de retaliação avaliadas pelo governo brasileiro, a antecipação da expiração de direitos de propriedade intelectual é o foco do grupo técnico encarregado de analisar como o Brasil responderá à guerra tarifária de Trump. Essa medida pode incidir, por exemplo, sobre patentes de medicamentos, abrindo caminho para a comercialização de medicamentos genéricos mais baratos e produzidos por empresas brasileiras. Outra opção de retaliação avaliada pelo governo é a taxação de Big Techs, afetando um setor chave para o apoio político a Trump e que está descontente com a regulamentação do setor decidida pelo Supremo Tribunal Federal.
Independentemente do resultado final, a ofensiva de Trump pode afastar o Brasil dos Estados Unidos e aproximar o país dos BRICS. Um afastamento em relação aos Estados Unidos também pode acelerar a busca brasileira pela criação de meios de pagamento alternativos ao SWIFT e pela desdolarização.
Outro movimento a ser considerado é a busca pela diversificação de parcerias por meio da abertura de novos mercados para produtos brasileiros, com destaque para o Vietnã e outros países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), Canadá e Oriente Médio. Com relação à Europa, o acordo comercial entre Mercosul e a EFTA (Associação Europeia de Livre-Comércio) foi concluído ainda em julho deste ano e as discussões em torno do Acordo Mercosul-União Europeia podem ganhar novo fôlego.
