A Ofensiva de Trump: Ucrânia na Mesa de Negociação, Venezuela na Mira Militar

Ano VI, nº 109, 04 de setembro de 2025

   

Por Flávio Rocha de Oliveira, Abner Carvalho e Souza, Ana Carolina Vieira de Souza, Antonio Pedro B. Mello de Miranda, Camila Alves M. Silva, Gabriela Oliveira Ferreira, Iago Carriço dos Santos Abreu, Julia J. Egito do Amaral, Marcella Oliveira Burgato, Maria C. Reis Maciel, Rennan William, Roberto Tadeu da Silva, Ronaldo Galdino e Tarcízio Rodrigo Melo

(Imagem: Daniel Torok/ Fotos Públicas)

      

Encontro de Trump com Zelensky e líderes europeus, e com Putin no Alasca

 

Na segunda-feira (18/08), o presidente americano Donald Trump recebeu Volodymyr Zelensky na Casa Branca, juntamente com outros 7 líderes, e estavam todos contra a posição da Rússia na Guerra contra a Ucrânia: o chanceler alemão, Friedrich Merz; o presidente francês, Emmanuel Macron; o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer; a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni; o presidente da Finlândia, Alexander Stubb; o secretário-geral da Otan, Mark Rutte; e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. 

  

A reunião de Trump e Zelensky foi iniciada com uma conversa entre os presidentes em frente às câmeras.. Ao contrário do primeiro encontro arquitetado por Trump, ocorrido em fevereiro, ambos os líderes procuraram apresentar um clima de amizade e cooperação. 

  

No que concerne ao futuro das relações entre os países e a Guerra da Ucrânia, o presidente Trump deixou claro que quer o fim do conflito, e sugere que os Estados Unidos podem estar prontos para ajudar a Ucrânia. No entanto, não deixou claro de que forma trabalharia para garantir a segurança do país. Além disso, o dirigente estadunidense se mostrou contra um cessar-fogo imediato, apesar de esperançoso por um encontro tripartite com Zelensky e Putin, além da possibilidade de firmarem um acordo entre os países.   

  

O encontro com Zelensky ocorreu três dias depois do encontro de Trump e Putin no Alasca, o qual, segundo as palavras do próprio Trump, teria sido “extremamente positivo”, porém sem grandes considerações acerca do fim da Guerra na Ucrânia. O local escolhido para a reunião foi a Base Conjunta Elmendorf-Richardson, uma instalação militar estadunidense no extremo norte do Alasca, território que é vizinho da Rússia, separado apenas pelo Estreito de Bering. A promessa de pôr fim a guerra entre Moscou e Kiev no seu segundo mandato, apesar de ter sido feita com arroubos pretensamente heróicos, segue sendo uma das principais agendas de Donald Trump,  que acredita ser possível um acordo de paz com a mediação dos EUA. 

  

Reações da mídia internacional e líderes ao encontro de Putin e Trump

  

A intensa atividade diplomática em torno do encontro entre as lideranças políticas envolvidas na guerra européia causou diversas repercussões na mídia internacional, com reações que oscilaram entre a aprovação e a desaprovação.

  

Na mídia russa, as reações tiveram dois eixos diferentes. Por um lado, blogueiros russos de assuntos militares,  notadamente conhecidos como “comunidade Z”, reagiram de forma negativa ao encontro, uma vez que defendem, entre outras coisas, uma guerra total contra a Ucrânia, sendo avessos a negociações, ainda mais intermediadas pelos norte-americanos. Para estes agentes midiáticos, o fato da reunião ter  ocorrido no Alasca, que um dia foi território russo, soa como zombaria, e um possível acordo de paz seria uma derrota. Por outro lado, a mídia oficial russa, em canais como o portal Zvezda e RIA demonstrou satisfação com o resultado da reunião, visando uma maior aproximação entre Washington e Moscou para as negociações, sem a exigência de que as investidas russas contra a Ucrânia cessem para o estabelecimento de um diálogo. Além disso, figuras governamentais não perderam a oportunidade de criticar o papel da União Europeia em meio à situação, julgando-a como isolada e inútil. Segundo Vladimir Dzhabarov, membro da Câmara do Parlamento Russo, o bloco deveria seguir o exemplo dos EUA e buscar uma aproximação com a Rússia se quiser realmente pôr um fim ao conflito.

   

Canais de notícia norte-americanos concordam que a reunião entre os líderes teve um resultado positivo no quesito da aproximação entre as potências, mas sem grandes avanços para um cessar-fogo definitivo, como afirma o jornal The New York Times

   

O jornal britânico The Guardian ecoou a posição do governo dos EUA, de que deve haver uma paz imediata, incitando Zelensky a ceder nas negociações.Trump chegou a dizer que iria “tomar uma decisão sobre o que faremos, e será uma decisão muito importante. Será uma decisão sobre se iremos impor sanções massivas ou se não faremos nada e diremos que a luta é de vocês”, sinalizando um ultimato às partes envolvidas no conflito.

    

Antes da reunião entre Trump, Zelensky e os demais líderes europeus, estes últimos reagiram em suas contas na rede social “X”, reforçando em tom geral o posicionamento da União Européia como aliada da Ucrânia, saudando as intenções de Trump ao se encontrar com Putin e reafirmando a importância de trabalhar para um fim pacífico do conflito, mas que, ao mesmo tempo, ofereça reais garantias de segurança à Ucrânia.

  

Uma semana após a reunião de Putin e Trump, e logo em seguida de Trump com Zeleksy e demais líderes europeus, o cenário diplomático permaneceu incerto. O presidente dos EUA se mostra frustrado com o fato de não haver nenhum cessar-fogo no horizonte e com a recusa de Putin de se encontrar com Zelenksy. O presidente norte americano informou que um encontro trilateral entre os líderes poderia vir a ocorrer, mas não informou grandes detalhes de como isso poderia acontecer, ou quando. Trump segue tentando cumprir com sua promessa de campanha de pôr fim ao conflito Rússia-Ucrânia, e conta com aliados do Ocidente para fazer com que isso ocorra.

    

Falta, obviamente, combinar essa intenção com os russos.

  

Ameaças dos EUA contra a Venezuela

   

Para além da questão ucraniana, outro local em que as tensões internacionais vêm crescendo é a Venezuela. Nas últimas semanas o governo estadunidense enviou navios de guerra com 4500 militares, além de um destroier, um submarino nuclear e aviões de espionagem para próximo da Venezuela, sob o pretexto de estar combatendo o tráfico de drogas.

    

Esse conflito entre Venezuela e EUA não é novo e vem ocorrendo desde a época de Hugo Chavéz. Contudo, foi durante os mandatos de Trump, como também na gestão de Biden, que esse tensionamento se acirrou, especialmente a partir de 2019 quando são rompidas relações diplomáticas entre os dois países. Houve o desastrado reconhecimento de Juan Guaidó como presidente e por parte de Washington e, em maio de 2020, a operação Gideão em que paramilitares tentaram derrubar o governo de Maduro. Neste atual mandato de Donald Trump houve desde o início do ano momentos de tensão com o governo Maduro, envolvendo questões de deportação de imigrantes venezuelanos, troca de prisioneiros e, mais recentemente, a acusação de que o governo da Venezuela e seu presidente estariam vinculados ao tráfico internacional de drogas, com os EUA oferecendo uma recompensa de U$ 50 milhões por informações que levassem à captura de Maduro.

   

Somado a isso também há a designação de grupos narcotraficantes como organizações terroristas, o que permitiria ao governo estadunidense a intervenção e uso de força militar contra esses grupos. Isso ficou exemplificado na fala da secretária de imprensa da Casa Branca: “O presidente [Donald] Trump tem sido muito claro e consistente. Ele está preparado para usar todos os elementos do poder americano para parar as drogas de inundação em nosso país e levar os responsáveis à justiça.”

   

O que isso simboliza , na verdade,  o interesse de Washington em intervir militarmente na Venezuela, utilizando-se da desculpa de combate ao narcotráfico. Já em seu primeiro mandato,  Trump falava abertamente em mudança de regime na Venezuela. Para além disso, não é a primeira vez que a justificativa de combate às drogas foi utilizada pelos EUA para invadir outro país para garantir seus interesses políticos e econômicos, como foi o caso da invasão do Panamá no governo de George H. Bush em 1990, que derrubou o governo do ditador Manuel Noriega, acusado de ser chefe de quadrilha envolvida no narcotráfico.

   

É possível, frente a esse deslocamento de tropas, traçar alguns cenários de ação dos EUA frente à Venezuela: 

  

– O primeiro seria uma tentativa de bloqueio e de limitação da navegação de navios venezuelanos na tentativa de reduzir as exportações de petróleo, objetivando enfraquecer ainda mais a economia da Venezuela; 

 

– O segundo seria a tentativa de realizar ataques localizados contra o governo de Maduro na tentativa de desestabilizá-lo e provocar uma reação interna que levasse a sua derrubada e a instalação de um governo pró-EUA.

  

– Por fim, o terceiro cenário, e talvez o mais improvável, é o de uma operação militar envolvendo diretamente tropas norte-americanas para depor o governo venezuelano e instalar um governo fantoche pró-EUA.

   

A Venezuela não ficou passiva com a movimentação naval dos Estados Unidos no Mar do Caribe. Após esse deslocamento de navios e tropas estadunidenses, o presidente Maduro convocou a população para um alistamento nas milícias bolivarianas.

   

As milícias bolivarianas são um dos braços das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), composto por civis com treinamento militar (especialmente em táticas de guerrilha), que foram formadas em 2008 no governo Hugo Chavez, quando a Venezuela passava por um processo de reforma do seu aparato securitário. Durante esse processo de reforma houve uma reformulação dos planos de defesa nacional, com o estabelecimento do “Plan Sucre” ou “Plan de Desarrollo de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana 2007 – 2013”. Este plano visava a reformulação e desenvolvimento das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) tendo como principal hipótese de conflito a possibilidade de uma intervenção por parte dos EUA. Com essa reformulação, foram estabelecidos princípios de atuação concreta em caso de invasão. (Venezuela, 2007). 

   

Um dos fundamentos desse plano foi o eixo doutrinário que defende a criação de uma doutrina militar autóctone chamada “Nuevo Pensamento y Doctrina Militar Bolivariana” que seria sustentada nos ideários bolivarianos e em consonância com o conceito de Guerra Popular Prolongada1 (Venezuela, 2007). A partir de uma lógica de guerra de guerrilha, desenvolvida para enfrentar um adversário consideravelmente mais forte em termos militares, as milícias bolivarianas ganhariam destaque como uma parte essencial da defesa nacional. 

   

Segundo o governo venezuelano o objetivo é mobilizar 4,5 milhões de milicianos para defender o país. Independente da qualidade das forças armadas venezuelanas, se essa quantidade de pessoas forem realmente mobilizadas para participar das milícias, qualquer tentativa de invasão ou de mudança de regime seria extremamente custoso para qualquer força invasora. Esta última teria que lidar com um grande contingente de milicianos com preparo e treinamento para executar uma resistência efetiva, com capacidade de causar baixas significativas em qualquer potência externa agressora.

   

Por fim, cabe aqui destacar os posicionamentos de alguns Estados sobre a atual situação envolvendo EUA e Venezuela. Há os países, no continente americano, que aderiram ao posicionamento estadunidense e reconheceram o governo Maduro como sendo vinculado ao narcotráfico, caso de Equador, Paraguai, Guiana e Argentina. Do outro lado há os países da região que criticaram com maior intensidade a movimentação de tropas e navios, o que é o caso da Colômbia e do México, o que também pode ser explicado pelo fato de que esses estados foram alvo de ataques recentes do governo Trump. Outro país que se posicionou sobre a atuação estadunidense contra a Venezuela foi a China, que se opôs ao uso de força contra o país latino americano. O caso que causa um certo estranhamento é o quase silêncio do Brasil sobre o assunto, que não tomou uma posição contundente sobre a questão, especialmente quando historicamente o Brasil, e mais especificamente o governo Lula, foi contra a intervenção por potências na região por considerar como uma ameaça a sua própria segurança, fato esse apontado no próprio Plano Nacional de Defesa, que entende a América do Sul como uma área de interesse prioritário e entorno estratégico do país.

  

Até o momento em que essa análise está sendo feita, o governo brasileiro segue sem nenhuma declaração contundente sobre a ação dos Estados Unidos contra Caracas. 

  

Referências

 

BBC News Brasil. As promessas de Trump e uma vitória para Putin: o saldo da reunião na Casa Branca para a Guerra na Ucrânia. BBC News Brasil, 18 de agosto de 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1lez753mdmo. Acesso em: 25 de ago, 2025. 

   

BBC News Brasil. Trump acusa Zelensky de jogar com a 3° Guerra Mundial; ucraniano depois disse que a relação com os EUA pode ser salva. BBC News Brasil, 18 de fev 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy0dxg0xzn1o. Acesso em: 25 de ago, 2025.

   

BBC News Brasil. Trump e Putin encerram reunião sem anunciar acordo sobre Guerra na Ucrânia: Não chegamos lá. BBC News Brasil, 15 de agosto 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c17np7178k8o. Acesso em: 25 de agosto, 2025. 

   

BBC. What do we know about the Trump-Putin meeting in Alaska. BBC, 15 de agosto 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/crev9ep2vdgo. Acesso em: 28 de agosto, 2025. 

  

CNN Brasil. Após encontro com Zelensky, Trump se reúne com líderes europeus. CNN Brasil, 18 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/apos-encontro-com-zelensky-trump-se-reune-com-lideres-europeus/. Acesso em: 28 ago. 2025.

  

CNN Brasil. Trump expressa frustração com negociações de paz. CNN Brasil, 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/em-conversa-com-putin-trump-expressa-frustracao-com-negociacoes-de-paz/ . Acesso em: 28 ago. 2025

  

MATTHIJS, Matthias. Major Takeaways From Trump’s Meeting With Zelenskyy and European Leaders. Council on Foreign Relations, 18 ago. 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/article/major-takeaways-trumps-meeting-zelenskyy-and-european-leaders. Acesso em: 28 ago. 2025.

   

PUTIN e Trump: mídia russa reage de forma negativa ao encontro de presidentes no Alasca. Exame, 20 ago. 2025. Disponível em: https://www.google.com/amp/s/exame.com/mundo/blogueiros-russos-reagem-ao-encontro-de-putin-com-trump-no-alasca-e-negociacoes-de-paz-com-zelensky/amp/. Acesso em: 28 ago. 2025.

   

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Veja reações de líderes europeus ao encontro de Trump e Putin no Alasca. CNN Brasil, 16 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/veja-reacoes-de-lideres-europeus-ao-encontro-de-trump-e-putin-no-alasca/ . Acesso em: 28 ago. 2025

   

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UKRAINE talks: Trump arranging Zelenskyy-Putin meeting as European leaders push for US security guarantees. The Guardian, 18 ago. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2025/aug/18/trump-zelenskyy-meeting-ukraine-putin. Acesso em: 28 ago. 2025.

   

VENEZUELA. “Plan Sucre”. Líneas generales del Plan de Desarrollo de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana para la Defensa Integral de la Nación. 2007. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/399807875/PLAN-SUCRE-pdf


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