Ano VI, nº 110, 18 de setembro de 2025
Por Gustavo Botão, Rafaela Galhumi e Roberto Dalla (Imagem: Official White House Photo by Daniel Torok)
As discussões acerca da chamada “desdolarização” têm avançado no âmbito do BRICS apesar das dificuldades, levando a reações agressivas por parte dos Estados Unidos de Donald Trump.
Introdução
A “desdolarização” do Sistema Financeiro e Monetário Internacional (SFMI) é um tema que tem se popularizado nos últimos anos, em especial depois das sanções aplicadas pelos Estados Unidos e seus aliados contra a Rússia em resposta à invasão da Ucrânia, em 2022, em que o dólar foi utilizado como arma de guerra (weaponization). Este evento, somado a críticas já existentes à dominância que o Norte Global impõe ao SFMI levou países emergentes do Sul Global, no âmbito do BRICS, a buscar a redução de risco (derisking) ao dólar ao procurar i) estabelecer plataformas de pagamentos alternativas ao sistema de mensageria interbancária SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication); ii) ampliar o uso de moedas de países-membros do BRICS para transações; iii) e proteger ativos denominados em dólar de sanções unilaterais estadunidenses. Essa iniciativa do BRICS, no entanto, tem levado a reações dos países do Norte Global, em especial dos Estados Unidos, que veem a redução de risco ao dólar como uma forma de desafiar a hegemonia estadunidense.
Discussão acerca da redução de risco ao dólar
Os debates em torno dos riscos do uso do dólar como moeda de reserva internacional são antigos, remontando à criação do sistema de Bretton Woods, em 1944. Este sistema monetário e financeiro internacional garantiu aos Estados Unidos um “privilégio exorbitante”, por meio do qual o Tesouro estadunidense pode emitir dólares para financiar seus gastos e pagar suas dívidas, enquanto os outros países enfrentam restrições externas de dólares. Os Estados Unidos podem realizar políticas fiscais (emissão de moeda) mais estimulantes, sem maiores preocupações com o nível de suas reservas cambiais ou taxas de câmbio, financiando o excedente comercial mundial e se tornando o maior importador do mundo a partir dos anos 1980, no movimento chamado de déficits gêmeos.
Essa situação, embora vantajosa para os Estados Unidos, levanta o seguinte dilema: ao emitir dívidas (títulos), mais moeda (dólares) entra em circulação na economia. No entanto, o nível da dívida deve corresponder ao nível da receita e do tamanho real da economia para não haver uma crise de credibilidade da dívida estadunidense, que destrua a confiança dos credores na moeda. Desde o início do Século XXI, a dívida dos Estados Unidos tem crescido rapidamente, levantando dúvidas quanto uma possível inadimplência do governo, levando ao rebaixamento da nota de crédito do país. A dívida ao final de cada governo deste século pode ser vista na tabela abaixo:
Tabela 1 – Dívida dos Estados Unidos ao final de cada governo
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Governo |
Dívida |
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George W. Bush (2001-2009) |
US$ 10 trilhões |
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Barack Obama (2009-2017) |
US$ 20 trilhões |
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Donald Trump I (2017-2021) |
US$ 26 trilhões |
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Joe Biden (2021-2025) |
US$ 34 trilhões |
O uso do dólar como arma também tem corroído a credibilidade da moeda. Os primeiros casos de uso do dólar como arma (weaponization) foram contra a Coreia do Norte em 2005 e o Irã, de 2007 a 2015, e novamente em 2018. As sanções contra a Rússia em 2022, que envolveram o confisco de US$ 300 bilhões em ativos do Banco Central da Rússia, não asfixiaram a economia do país, mas reacenderam o debate acerca da desdolarização no âmbito do BRICS. A Declaração Final da Cúpula do Rio tratou da intensificação do uso de moedas locais para pagamentos entre países e do avanço na criação de meios de pagamento alternativos ao SWIFT.
As preocupações com o uso político do dólar não estão limitadas aos países do Sul Global, com Heiko Maas, Ministro dos Negócios Exteriores da Alemanha, de 2018 a 2021, defendendo a criação de um sistema de pagamentos exclusivamente europeu em resposta ao uso do sistema SWIFT pelos Estados Unidos em relação ao Irã.
Nesse contexto, diversificação de reservas e acordos de swap cambial têm se intensificado. Apesar disso, a moeda estadunidense se mantém como a mais utilizada na composição monetária das reservas cambiais oficiais ao redor do mundo, de acordo com o gráfico abaixo:
Gráfico 1 – Porcentagem da composição monetária oficiais das reservas cambiais entre 2011 e 2024 (Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves, COFER)
Fonte: elaboração própria, com base em dados do Fundo Monetário Internacional (https://data.imf.org/en/Data-Explorer?datasetUrn=IMF.STA:COFER(7.0.0)).
Acordo de swap cambial entre Brasil e China
O Brasil tem se aproximado cada vez mais de países do BRICS em temas financeiros, com destaque para operações de swap cambial com a China. No dia 13 de maio de 2025, em Pequim, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, assinou um contrato de swap cambial com o presidente do Banco Popular da China (People’s Bank of China, PBoC, em inglês), Pan Gongsheng. O contrato pretende oferecer maior liquidez para o mercado cambial e possui um limite de R$ 157 bilhões para as operações feitas a partir deste contrato, que terá validade de 5 anos.
O termo “Swap” (do inglês, “troca”), é um mecanismo utilizado pelos Bancos Centrais (BC) para a estabilização do mercado cambial. Nas palavras do próprio BC brasileiro, a operação baseia-se na “troca e na concessão de ativos financeiros aos agentes econômicos”. Quando há maiores interesses na compra do dólar, o valorizando e gerando fortes oscilações no mercado cambial, o BC procura mobilizar-se para garantir estabilidade desse mercado.
Em termos gerais, o swap cambial é, de acordo com o Banco Central, um derivativo financeiro responsável pela promoção da troca de fluxos de caixa futuros em moedas diferentes. Quando aplicado ao Brasil, isso acontece quando o BC não possui interesse em vender suas reservas de dólares, porém, ao mesmo tempo, procura manter o cenário brasileiro com menores riscos para o investidor. Para isso é feito o acordo “swap” que garante que cada valorização do dólar será paga pelo BC ao investidor com o acréscimo de juros, no caso será acrescida a taxa SELIC. Portanto, este mecanismo de troca permite a manutenção do capital no Brasil e, na escala mundial, garante a fluidez do mercado cambial. Assim, diante do acordo China-Brasil, a China receberá em reais, que então serão creditados de maneira equivalente às taxas cambiais em uma conta própria para o tipo de transação no BC brasileiro.
Brasil e China, já possuem acordos deste tipo. Enquanto a China já estabeleceu mais de 40 acordos tipos swap, com países como Japão, Reino Unido, África do Sul e Chile, o Brasil mantém um acordo semelhante com o Banco Central dos Estados Unidos, o FIMA (Foreign and International Monetary Authorities Repo Facility), que confere títulos de acesso monetário a ambos países.
Dentre outros esforços brasileiros para aprofundar as relações comerciais com a China (atualmente o maior parceiro comercial do Brasil), os Panda Bonds foram alvo de discussão. Panda Bonds são títulos de dívidas determinados em renminbi, vendidos por emissores estrangeiros no mercado da China, como bancos ou governos, a fim de suprir a demanda de financiamentos e diversificar suas fontes. A estratégia também representa a ampliação da influência da moeda chinesa no cenário econômico internacional.
O esforço é reflexo do tarifaço de Trump, que teve profundo impacto no mercado cambial. Durante a visita do presidente Luís Inácio Lula da Silva a Pequim, o acordo de swap cambial e a estratégia comercial dos Panda Bonds foram destaque.
Plataformas de pagamentos entre membros do BRICS
Na Cúpula do Rio de Janeiro, em julho de 2025, os países-membros do BRICS declararam continuar as discussões iniciadas na Cúpula de Cazã, em 2024, acerca da Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do agrupamento. Esta iniciativa tem sido levada a cabo pela Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS. Embora não tenham apresentado os detalhes dos avanços no sistema de pagamentos, a declaração cita esforços do Banco Central do Brasil nos estudos acerca da redução de risco ao dólar e lista a preferência dos países do agrupamento para facilitar “pagamentos transfronteiriços rápidos, de baixo custo, mais acessíveis, eficientes, transparentes e seguros”
O encontro realizado no Brasil também aprofundou as discussões em relação ao aprimoramento do Arranjo Contingente de Reservas (ACR) agrupamento, propondo maior flexibilidade e a “inclusão de moedas de pagamentos elegíveis e gerenciamento de risco aprimorado”. Essa diversificação de moedas pode levar ao uso ampliado de reais, rublos, rúpias e renminbi entre os países-membros.
Além do desenvolvimento de plataformas de pagamentos alternativas ao SWIFT no âmbito do BRICS, China e Rússia implementaram sistemas de pagamentos transfronteiriços. O sistema chinês, conhecido como CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) foi lançado em 2015 para realizar transações em renminbi e tem sido amplamente utilizado pelo governo chinês para negociar com países inseridos na Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, BRI, em inglês). Dado o grande controle de capitais imposto pelo governo chinês, as transações necessitam de aprovação do PBoC para terem efeito, levando a uma maior lentidão no procedimento. Este controle de capitais impõe limites a uma maior internacionalização da moeda chinesa. Além disso, embora o CIPS seja uma plataforma de mensageria e compensação de transações – diferentemente do SWIFT, focado em mensageria – o sistema chinês ainda utiliza amplamente o SWIFT para a mensageria interbancária.
O sistema russo, conhecido como SPFS (System for Transfer of Financial Messages) também é outra alternativa ao SWIFT, como plataforma mensageira, tendo sido iniciado pelo Banco Central Russo em 2014 e ganhado recentemente grande destaque como opção após as grande sanções impostas à Rússia por Estados Unidos e União Europeia e principalmente após o país ser banido da plataforma SWIFT. O SPFS representa, então, um equivalente autônomo e viável ao sistema financeiro internacional monopolizado pelo dólar, permitindo à Rússia manter parcerias e trocas comerciais de maneira independente e uma maior resiliência econômica.
Assim, a alternativa russa passou a se expandir de 2022 em diante, se mostrando como uma opção confiável para trocas bilaterais em moedas próprias, e diminuindo os efeitos das sanções e tentativas de isolamento dirigidas pelo ocidente. Se mostrando, com isso, um dos primeiros exemplos de uma possível nova configuração do comércio exterior e do sistema financeiro, o qual permitiria o aprofundamento de relações mais descentralizadas. Atualmente, além da importante e marcante presença da China, o SPFS conta com a participação de 25 países e mais de 170 instituições, demonstrando uma gradual consolidação.
Reações dos Estados Unidos sob Trump
Em resposta à declaração da Cúpula do Rio, Donald Trump (2025-2029) ameaçou impor tarifas de 10% sobre os países-membros dos BRICS caso busquem substituir o dólar como moeda padrão global. Trump já havia criticado o BRICS em outras oportunidades, afirmando que o agrupamento “é basicamente um grupo de países que são anti-Estados Unidos“, e que a busca por alternativas ao dólar “é um ataque ao dólar, e não vamos deixar ninguém atacar o dólar.”
As sanções econômicas aplicadas contra o Brasil na forma de tarifas tinham, além de motivações políticas em relação ao apoio a Jair Bolsonaro, motivações de ordem econômica centradas nos avanços das discussões no BRICS e ao incômodo de empresas estadunidenses com a plataforma de pagamentos PIX. As sanções da Lei Magnitsky aplicadas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, também preveem o desligamento de instituições bancárias que mantiverem relações financeiras com o sancionado do SWIFT, embora a instituição que gerencia o sistema, sediada na Bélgica, tenha negado que as sanções de Trump possam afetar o Brasil.
Além do Brasil, as tarifas lineares de 50% aplicadas por Trump contra a Índia aproximaram o país do restante do BRICS, podendo facilitar discussões futuras no agrupamento, já que as decisões tomadas no BRICS dependem do consenso entre todos os seus membros.
