Iniciativas contemporâneas da Política externa entre Brasil e Nigéria

Ano VI, nº 110, 18 de setembro de 2025

 

Por Ana Carolina Cardoso, Gabriel Gesteira e Nathalia de Andrade Costa (Imagem: Apex/Brasil)

 

1 – Um breve panorama histórico das relações entre Brasil e Nigéria

Ao longo das últimas décadas, o continente africano assumiu diferentes significados na política externa brasileira, sendo ora valorizado como parceiro estratégico, ora relegado a segundo plano. Contudo, em determinados períodos, as relações com os países africanos ganharam protagonismo na agenda diplomática do Brasil. Dentre essas nações, a Nigéria emerge como um ator de singular importância. Dotada da segunda maior economia do continente (BANCO AFRICANO DE DESENVOLVIMENTO, 2024), o país não só é um polo de desenvolvimento, mas também detém vastas riquezas em matérias-primas, notadamente petróleo. A relação Brasil e Nigéria desdobra-se em diversas esferas, incluindo comércio, energia, educação e domínio da cooperação para desenvolvimento e cultura, caracterizando-se como uma parceria estratégica de atuação bilateral e multilateral.

No entanto, o marco fundamental das relações Brasil-Nigéria remonta à década de 1960, período que representou uma verdadeira inflexão na política externa brasileira para o continente africano. Foi nesse contexto que o Brasil passou a reconhecer as múltiplas potencialidades da Nigéria, impulsionado não apenas pelo tamanho de seu vasto mercado consumidor, mas também pela sua estratégica capacidade como fornecedor de petróleo.

Contudo, o golpe militar de 1964 representou um revés, tendo seus dois primeiros governos marcados por um distanciamento em relação ao país africano (Pereira, 2020). Uma reaproximação efetiva foi vista apenas no governo Médici (1969-1974), impulsionada pelo “milagre econômico” e a necessidade de busca por mercados e matérias-primas, especialmente petróleo, e Geisel (1974-1979) com a política de “Pragmatismo Responsável” (Pereira, 2020, p.8). Nesse contexto de retomada, a Nigéria destacou-se como um parceiro prioritário, dada a sua vasta produção de petróleo, uma matéria-prima crucial para o projeto desenvolvimentista brasileiro. 

Seguindo o histórico de aproximação/distanciamento, com a posterior ascensão de governos neoliberais a partir de 1990 (Collor e FHC), somados ao contexto do fim da Guerra Fria e da criação do Mercosul, “em 1991, a África foi considerada um cenário secundário, nos marcos de uma diplomacia baseada numa visão primeiro-mundista e neoliberal da globalização” (Pereira, 2020. p.10). Contudo, no governo Itamar Franco (1992-1994) e no segundo mandato de FHC, houve uma “certa inflexão”, com foco em países-chave como a Nigéria contando com a reativação da Zopacas[1] e apoio a processos de paz na região.

Entretanto, sob a égide do retorno a agenda neoliberal no governo de Michel Temer, houve uma clara mudança de retórica e um arrefecimento no número de projetos de cooperação e no engajamento político nas relações Brasil-Nigéria. Essa tendência de desvalorização aprofundou-se no governo de Jair Bolsonaro, marcado pela ausência de engajamento, retórica insensível e escolhas diplomáticas que comprometeram o histórico de aproximação construído por governos anteriores.

 

2 – Estratégias recentes de Diplomacia do Brasil para a Nigéria

 

A cooperação de duas das maiores economias da América Latina e da África, Brasil e Nigéria se restabelece após mais de uma década. Em 24 e 25 de junho de 2025, o Brasil retoma as relações diplomáticas com a Nigéria, organizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), e liderada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) do Brasil, Geraldo Alckmin (PSB), e pelo vice-presidente nigeriano Kashim Shettima. Depois de um intervalo de doze anos, a agenda integra-se novamente com a Segunda Sessão do Mecanismo de Diálogo Estratégico Brasil-Nigéria, realizada em Abuja, na Nigéria, tratando-se sobre os temas de defesa, agricultura, comércio, energia,  cultura e de ações afirmativas em prol da igualdade racial.

 

A retomada da relação bilateral entre Brasil e Nigéria, trata-se de um passo histórico que fortalece a cooperação Sul-Sul e reconhece o papel central da Nigéria na reforma da governança global, e fundamentada na recente incorporação da Nigéria como país parceiro do BRICS desde janeiro de 2025[2]. Através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil vem projetando uma neoindustrialização e buscando uma transição ecológica.

 

É certo dizer, que diante iminentes medidas de protecionismo e unilateralismo que vem ressurgindo no mundo, e de ameaças e pressões políticas impostas pelo governo americano, do presidente Donald Trump (Republicano), foi também a motivação  necessária em retomar uma diversificação de parcerias estratégicas, exposto em discurso por Floriano Pesaro, diretor de Gestão Corporativa da ApexBrasil:

A ApexBrasil acredita que a intensificação do comércio e da cooperação com países africanos, especialmente com a Nigéria, que tem a maior população do continente, é estratégica para diversificarmos nossas parcerias e ampliarmos a presença internacional das empresas brasileiras[3].

Nos meses seguintes, essa parceria se formalizou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebendo a visita de estado do  presidente Bola Tinubu, da Nigéria, no Palácio do Planalto, que participou das atividades de encerramento do Fórum Empresarial Nigéria-Brasil. Nesta visita o presidente Lula, ressalta a dívida histórica do país com o  o continente africano, em decorrência dos 350 anos de escravidão a que o povo negro foi submetido no território brasileiro[4], sendo dever brasileiro manter uma relação  “solidária, fraterna e igualitária”. Além disso, destaca o interesse nacional em transferir tecnologia para o continente africano e conhecimento agrícola que o Brasil vem desenvolvendo há anos. 

 

Um balanço dos frutos da visita e de possíveis desdobramentos futuros

 

Na segunda-feira, 25 de agosto, o presidente nigeriano Bola Tinubu foi recebido por Lula no Palácio da Alvorada. De acordo com o presidente Lula, a visita do homônimo da Nigéria é um marco na retomada da cooperação entre os dois países, que na última década se reduziu drasticamente. Lula criticou os últimos governos que enfraqueceram as relações com o continente africano. Ainda, o presidente brasileiro afirmou que duas das maiores economias de seus respectivos continentes deveriam ter um intercâmbio muito maior, desejando retomar o número de 10 bilhões no intercâmbio comercial alcançado  em 2014 com a Nigéria (Gov.br, 2025; Mazui, 2025). 

 

Essa tentativa de reaproximação é reforçada também pelos acontecimentos contemporâneos das Relações Internacionais. O tarifaço de Trump afetou diversos países, e a Nigéria como maior mercado da África também foi um deles. Em resposta, os líderes dos dois países mostram que seguem pelo caminho do livre comércio em oposição ao unilateralismo e protecionismo trumpista. O Presidente Lula, sem citar Trump, afirmou que os líderes estão empenhados em construir um mundo pacífico e livre de imposições, hegemônicas. O Brasil foi taxado em 50% e a Nigéria em 15% (Mazui, 2025).

 

Enquanto o Presidente Lula reforçou parcerias nas áreas da tecnologia, economia, energia, agricultura, pecuária e medicamentos, Tinubu citou em especial o desejo de que a Petrobras seja parceira da Nigéria, que possui reservas de gás natural. O presidente nigeriano afirmou que os dois países crescerão juntos, enquanto Lula afirmou que a Nigéria cumpre as credenciais para se tornar um membro pleno do G20, o que demonstra o apoio mútuo e espírito de cooperação entre os dois líderes (Mazui, 2025). Lula também destacou a importância da cooperação entre os maiores países de população negra do mundo e que há muitas possibilidades de sinergia. 

 

Como desdobramento da visita de Lula, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, esteve num evento do SEBRAE onde celebrou e destacou o aprofundamento das relações entre os dois países como possibilidade para diversos investimentos e comércio bilateral. A visita em si do presidente nigeriano foi retribuição à visita de Alckmin (a pedido de Lula) ao país africano, onde também houve a assinatura de acordos e aumento da cooperação (Gov.br, 2025). 

 

Já dentre os acordos assinados na visita de Tinubu ao Brasil, um deles visa a colaboração no setor de aviação, com o anúncio de um voo direto entre Lagos e São Paulo; foram assinados memorandos de entendimento em áreas estratégicas, em áreas da diplomacia e política. Um memorando importante foi o de cooperação em ciência, tecnologia e inovação, que inclui pesquisas em várias áreas como biotecnologia, energia, desenvolvimento espacial e etc. Por fim foi assinado também um memorando entre o BNDES e o Banco de Agricultura da Nigéria, visando o comércio e desenvolvimento através da área financeira (Agência Gov, 2025). Com esses diversos acordos é possível visualizar no futuro uma retomada das relações Brasil-Nigéria incentivadas ativamente pelo próprio presidente Lula e que se desdobrará em diversas áreas, com atenção especial nos setores de energia e aviação. 

 

Referências

 

AGÊNCIA GOV. Brasil e Nigéria: “Muitas possibilidades de sinergia entre os dois maiores países de população negra do mundo”. Agência Gov, 25 ago. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202508/201csao-muitas-as-possibilidades-de-sinergia-entre-os-dois-maiores-paises-de-populacao-negra-do-mundo201d-diz-lula-ao-receber-presidente-da-nigeria. Acesso em: 17 set. 2025.

 

APEXBRASIL, Comunicação (org.). Brasil e Nigéria reforçam parcerias em setores estratégicos. 2025. Disponível em: https://apexbrasil.com.br/content/apexbrasil/br/pt/conteudo/noticias/brasil-e-nigeria-reforcam-parcerias-em-setores-estrategicos.html. Acesso em: 11 set. 2025.

 

BANCO AFRICANO DE DESENVOLVIMENTO. Banco Africano de Desenvolvimento divulga os destaques do seu relatório sobre paridade do poder de compra de 2021. Comunicado de imprensa, 10 jun. 2024. Disponível em: https://www.afdb.org/pt/noticias-e-eventos/comunicados-de-imprensa/banco-africano-de-desenvolvimento-divulga-os-destaques-do-seu-relatorio-sobre-paridade-do-poder-de-compra-de-2021-71713

BRASIL. Brasil e Nigéria firmam acordos bilaterais durante visita de Estado. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-08/brasil-e-nigeria-firmam-acordos-bilaterais-durante-visita-de-estado>. Acesso em: 11 set. 2025.

 

Brasil e Nigéria reforçam parceria com novos acordos em defesa, agricultura, comércio, energia e cultura. Disponível em: <https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/06/brasil-e-nigeria-reforcam-parceria-com-novos-acordos-em-defesa-agricultura-comercio-energia-e-cultura>. Acesso em: 11 set. 2025.

 

GOV.BR. Brasil e Nigéria fortalecem parceria com foco em aviação, agronegócio e saúde. Portal Gov.br, 26 ago. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/planaltoxbox/pt-br/vice-presidencia/central-de-conteudo/noticias/brasil-e-nigeria-fortalecem-parceria-com-foco-em-aviacao-agronegocio-e-saude. Acesso em: 17 set. 2025.

 

MAZUI, Guilherme. Brasil e Nigéria defendem livre comércio contra protecionismo, diz Lula. G1, 25 ago. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/08/25/em-busca-de-novos-negocios-na-africa-lula-tem-reuniao-com-presidente-da-nigeria-no-planalto.ghtml

 

PEREIRA, Analúcia Danilevicz. As Relações Brasil-África: do nexo escravista à construção de parcerias estratégicas. Revista Brasileira de Estudos Africanos. Porto Alegre. v. 5, n. 9, Jan./Jun. 2020. p. 11-32

 

Relações Brasil-Nigéria (1960-2002): do pós-guerra ao pós-lulismo. Disponível em: <https://opeb.org/2021/10/16/relacoes-brasil-nigeria-1960-2002-do-pos-guerra-ao-pos-lulismo/>. Acesso em: 11 set. 2025.

 

VENCESLAU, P. Alckmin lidera missão brasileira na África. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/pedro-venceslau/politica/alckmin-lidera-missao-brasileira-na-africa/>. Acesso em: 11 set. 2025.


[1] Estabelecida em 27 de outubro de 1986, por iniciativa do Brasil e apoiada pela Argentina, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) foi criada por meio da Resolução 41/11, da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países[1] sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram a tal projeto.” Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/assuntos/relacoes-internacionais/foruns-internacionais-1/zona-de-paz-e-cooperacao-do-atlantico-sul-zopacas. Acesso em 16/09/2025.


[2] Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/06/brasil-e-nigeria-reforcam-parceria-com-novos-acordos-em-defesa-agricultura-comercio-energia-e-cultura 


[3] Disponível em: https://apexbrasil.com.br/content/apexbrasil/br/pt/conteudo/noticias/brasil-e-nigeria-reforcam-parcerias-em-setores-estrategicos.html 


[4] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-08/brasil-e-nigeria-firmam-acordos-bilaterais-durante-visita-de-estado 



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