De Washington a Caracas: os limites da diplomacia brasileira 

Ano VI, nº 111, 02 de outubro de 2025

      

Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva, Julia Lemos, Julia Rodrigues Silva, Lucca León Franco, Luiza Rodrigues Oliveira e Maria Clara de Faria Lima (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

      

Entre Washington e Caracas, o Brasil tenta se equilibrar em meio à crise venezuelana e à pressão dos Estados Unidos. No terceiro mandato, Lula buscou inicialmente reaproximar-se de Nicolás Maduro, sinalizando disposição de reintegrar a Venezuela ao diálogo regional. Contudo, diante das supostas irregularidades eleitorais e do custo político de sustentar apoio irrestrito ao chavismo, a diplomacia brasileira inflexionou, evidenciando o pragmatismo de sua política externa. A imprensa brasileira, por sua vez, reflete essa disputa de narrativas, oscilando entre a denúncia do imperialismo norte-americano, críticas ao autoritarismo chavista e cobranças de coerência ao governo brasileiro. O resultado é a projeção de uma imagem ambígua do Brasil como mediador regional.

    

Introdução

   

As relações entre Brasil e Venezuela, sob ondas crescentes de pressões dos Estados Unidos, assumem centralidade para a compreensão da política regional na América do Sul. Nesse contexto, a prolongada crise venezuelana, marcada por disputas eleitorais contestadas por diversos países – inclusive com exclusão de candidaturas opositoras – e por um intenso isolamento diplomático, soma-se à postura intervencionista de Washington. Os Estados Unidos, assim, ampliaram sua política de coerção, antes apoiada em sanções econômicas e agora com demonstrações militares, reafirmando seu protagonismo intervencionista no hemisfério e buscando o enfraquecimento do governo de Nicolás Maduro.

   

A Venezuela, por sua vez, converte-se em ponto de fragilidade regional, abrindo espaço tanto para a ingerência norte-americana como para a atuação de outras potências extrarregionais, como Rússia e China, cuja presença redefine os equilíbrios políticos e estratégicos no continente.

   

O Brasil, por outro lado, tenta posicionar-se como mediador, em sintonia com sua tradição diplomática de defesa da estabilidade e da não intervenção, mas enfrenta desafios nesse cenário de disputas entre grandes potências. Assim, a política externa brasileira, nesse caso, deve ser entendida menos como ambígua e mais como pragmática, voltada tanto para interesses externos, como de preservação de sua liderança regional, quanto internos, relacionados à manutenção de legitimidade perante setores domésticos. Esse pragmatismo, como observado, se expressa em duas fases: uma primeira tentativa de reaproximação, simbolizada pela recepção de Maduro em Brasília, que buscava favorecer a regularização e reinstitucionalização das relações sul-americanas. E, de forma oposta, diante das irregularidades no processo eleitoral venezuelano do último ano e dos custos políticos de sustentar apoio irrestrito ao governo chavista, houve uma inflexão na postura brasileira, marcada pelas críticas do Itamaraty ao processo eleitoral. Tal mudança já havia sido ensaiada no episódio de Essequibo, quando o governo brasileiro condenou as tentativas de ingerência da Venezuela na Guiana e exerceu papel decisivo na elaboração da Declaração de Argyle.

    

É nesse contexto que a imprensa brasileira desempenha um importante papel na disputa de narrativas. Portanto, o presente artigo tem como objetivo analisar como populares veículos enquadram as tensões entre Washington, Caracas e Brasília, buscando demonstrar como a mídia, atravessada por orientações ideológicas distintas, informa, pressiona e condiciona a política externa. Ao projetar a crise venezuelana sob diferentes prismas – ora enfatizando o imperialismo norte-americano, ora denunciando o autoritarismo de Maduro, ora cobrando coerência do governo brasileiro – esses veículos participam ativamente da construção de sentidos sobre o lugar do Brasil no âmbito internacional.

     

O papel dos EUA e as tensões com a Venezuela

   

A relação entre Washington e Caracas está em estado de choque há duas décadas e, neste momento da história, atingiu um novo patamar de tensão com operações navais, acusações de narcotráfico e uma recompensa por uma suposta captura do presidente venezuelano, o que oficializa a hostilidade, colocando a região em alerta. A história diplomática entre Estados Unidos e Venezuela no século XXI é um longo capítulo de desconfiança e confronto, cujo início remonta à ascensão de Hugo Chávez ao poder em 1999, quando implementou a Revolução Bolivariana com forte retórica anti-imperialista e alinhamento com rivais de Washington.

   

A relação deteriorou-se rapidamente após o apoio norte-americano a uma tentativa de golpe de Estado em 2002, e desde então os EUA passaram a considerar o governo venezuelano como uma ameaça ao modelo liberal-ocidental e aliado de nações vistas como inimigas tais como Rússia, China e Irã. Com a morte de Chávez, em 2013, e a eleição de Nicolás Maduro, a crise se aprofundou. A partir de 2015, diante da escalada da crise política, econômica e humanitária, os EUA deixaram de reconhecer Maduro como presidente legítimo da Venezuela. Em janeiro de 2019, seguindo a linha de outros países, os EUA reconheceram o líder oposicionista Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, como presidente interino, apostando em uma estratégia de pressão externa baseada em sanções econômicas devastadoras e apoio diplomático à oposição para estimular uma transição política pacífica.

    

Essa estratégia de “máxima pressão” não conseguiu destituir Maduro, que manteve o controle das Forças Armadas e das instituições, enquanto a oposição foi se fragmentando e sendo fortemente reprimida. Com isso, os EUA iniciaram uma cautelosa reaproximação, flexibilizando algumas sanções em troca do compromisso do governo Maduro de realizar eleições presidenciais livres em 2024. Contudo, esse processo rapidamente se deteriorou: nos últimos meses, Maduro descumpriu acordos eleitorais, como a garantia de condições para que candidatos oposicionistas pudessem concorrer, levando os EUA a reinstaurar sanções.

     

A resposta norte-americana, entretanto, foi além das medidas econômicas. Nas últimas semanas, o Comando Sul anunciou o envio de navios militares, incluindo o destróier USS Lake Erie e o submarino nuclear USS Newport News, para realizar exercícios no mar do Caribe. A justificativa oficial foi o combate ao narcotráfico, mas a iniciativa também representou uma clara demonstração de força e intimidação militar. Maduro classificou a ação como uma ameaça belicista e ordenou a mobilização das Forças Armadas para exercícios de defesa.

    

O pano de fundo para essa pressão renovada são as acusações de narcotráfico. Em março de 2020, o Departamento de Justiça dos EUA apresentou uma acusação formal contra Maduro e outros altos funcionários de seu governo, alegando que comandavam uma “empresa de narcoterrorismo” em conluio com guerrilhas colombianas, com o objetivo de inundar os Estados Unidos de cocaína. Como parte das ações, Washington ofereceu uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levassem à captura de Maduro e um total de US$ 55 milhões por outros membros de sua cúpula. Mais recentemente, em agosto de 2025, os EUA aumentaram essa recompensa, oferecendo US$ 50 milhões por informações que levem à prisão de Maduro.

    

Nesse contexto, líderes da oposição venezuelana, como Edmundo González Urrutia e María Corina Machado, declararam apoio à presença militar dos EUA no Caribe. González, que afirma ter vencido Maduro nas últimas eleições presidenciais, classificou o cerco naval americano como uma medida necessária para desmantelar a “estrutura criminosa” do chavismo e restaurar a soberania popular. A posição da oposição se alinhou ao governo Trump, que confirmou ter recebido uma carta de Maduro em busca de negociação, mas reiterou que não alterará sua política de pressão contra Caracas. 

     

Além disso, a Venezuela solicitou à ONU a investigação de ataques a barcos no Caribe, alegando que as vítimas eram pescadores e não narcotraficantes, como afirmado pelos EUA. Esses eventos refletem uma escalada nas tensões e destacam a complexidade da situação política e diplomática entre os dois países.

    

As contradições da relação Brasil-Venezuela

     

A política externa do terceiro governo Lula para a Venezuela representou uma reversão imediata da postura de confronto e isolamento do governo anterior, buscando reposicionar o Brasil como um mediador relevante na crise do país vizinho através do diálogo e da normalização das relações. Contudo, essa abordagem pragmática rapidamente expôs profundas contradições, gerando um descompasso entre a diplomacia presidencial de Lula com sua base político-ideológica anti-imperialista e a posição institucional do Itamaraty, pautada pelo direito internacional e pela preservação dos imperativos históricos da instituição. Esse contraste gerou dilemas significativos para a projeção do Brasil no cenário regional.

       

Essa tensão ficou explícita em maio de 2023, durante a visita de Nicolás Maduro a Brasília, antecedendo a reunião de presidentes sul-americanos, quando Lula afirmou que as acusações sobre a falta de democracia na Venezuela eram uma “narrativa política” dos inimigos do país vizinho. A declaração gerou forte repercussão negativa e desconforto entre outros líderes da região. Em contraste, à medida que o governo Maduro descumpria os compromissos do Acordo de Barbados — firmado em outubro de 2023 para garantir participação da oposição e observação internacional nas eleições presidenciais venezuelanas — principalmente ao inabilitar candidatas da oposição, a diplomacia de Estado, conduzida pelo Itamaraty, adotou uma postura mais crítica. Em março de 2024, o Ministério das Relações Exteriores emitiu uma nota expressando “preocupação” e afirmando que o impedimento da candidatura de Corina Yoris “não é compatível com os acordos de Barbados”.

      

A crise venezuelana também evidencia dissidências na postura da esquerda brasileira diante do processo eleitoral. O próprio governo Lula mudou de posição, deixando de manter uma atitude de solidariedade a Maduro após as denúncias de fraudes eleitorais. Especialistas como o professor Igor Fuser classificam a fraude como “incontestável”, enquanto Gilberto Maringoni adota uma posição mais cautelosa, afirmando ser “difícil determinar quem venceu aquele pleito. O governo não apresentou evidências e a oposição tampouco consegue provar seu desempenho”, embora ambos critiquem duramente a política imperialista dos Estados Unidos na região.

      

A política de reaproximação de Lula, atrelada ao sucesso do Acordo de Barbados, colocou o Brasil em uma “armadilha diplomática”. Quando Maduro supostamente violou os termos do acordo, minou não apenas a oposição, mas também a credibilidade da estratégia brasileira, que se viu encurralada entre endossar um aliado político-ideológico ou admitir o fracasso de sua abordagem.

       

A postura do Brasil após as eleições de 28 de julho de 2024 aprofundou essas contradições. O governo, por meio do Itamaraty, se recusou a reconhecer o resultado sem a divulgação das atas de votação, adotando uma postura inédita de inflexão em relação à tradição diplomática brasileira de não intervenção e respeito à autodeterminação dos povos. No entanto, essa posição crítica contrasta com a manutenção de relações normais com outros governos da região que também chegaram ao poder em circunstâncias controversas, como no Peru, após a destituição de Pedro Castillo em 2022 em um processo amplamente tratado como golpe parlamentar, e no Equador, cujos resultados eleitorais foram questionados em meio ao cenário de violência interna, revelando um “duplo padrão”.

      

O principal desafio para a política externa brasileira reside na dificuldade de conciliar três objetivos conflitantes: a defesa de princípios democráticos, a garantia da estabilidade em sua fronteira norte e a ambição de atuar como um líder e mediador confiável na América do Sul. A crise venezuelana demonstra que é impossível alcançar os três simultaneamente no momento atual.

     

O silêncio do Brasil diante da ofensiva dos EUA à Venezuela reflete uma postura ambígua, com o país evitando tomar partido no conflito. O presidente Lula afirmou que o Brasil “ficará do lado da paz”, enfatizando que “não tem contencioso internacional” e que “a guerra não leva a nada, a não ser à matança e ao empobrecimento”. Além disso, Lula declarou que “não pretende se envolver na disputa entre Estados Unidos e Venezuela”, priorizando questões internas como a regulação das redes sociais. No entanto, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU em 23 de setembro de 2025, Lula condenou o uso de força letal em situações que não constituem conflitos armados, afirmando que “outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar, com graves consequências humanitárias”, e reiterou que “a via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela”. 

    

Essa postura, no entanto, evidencia os limites do pragmatismo brasileiro. O distanciamento e o alinhamento cauteloso diante do governo Maduro se mostraram antifuncionais, minando a capacidade de intermediação que historicamente caracterizou a diplomacia do país. Ao invés de consolidar o Brasil como mediador, sua influência diminui, tornando-o refém de uma crise que expõe dilemas estratégicos: a escolha de quais objetivos priorizar e a que custo definirá não apenas o futuro da relação bilateral com a Venezuela, mas também o papel do Brasil no cenário regional e internacional.

      

A cobertura da imprensa brasileira

      

Em um contexto de mídias polarizadas, a cobertura sobre a Venezuela evidencia diferentes formas de abordagem: o Jornal Brasil de Fato possui caráter progressista e popular, sendo um veículo de comunicação identificado com a esquerda, enquanto a Revista Oeste tem caráter conservador e liberal, alinhado à direita no espectro político-ideológico, além de adotar uma postura crítica em relação à esquerda, a governos de viés progressista (como os de Lula e Maduro) e a políticas que ampliem o papel estatal na economia ou na sociedade.

      

Assim, ambos os veículos buscam noticiar os acontecimentos mais relevantes para o Brasil e o mundo, ainda que a partir de perspectivas divergentes. No último mês, o Brasil de Fato destacou que a Venezuela buscou apoio do Brasil diante do cerco dos EUA, interpretando o movimento como tentativa de legitimar a ameaça norte-americana e obter respaldo diplomático, enquanto o Brasil se divide entre solidariedade internacional e cautela, já que também sofre pressões do governo Trump e enfrenta questionamentos à sua soberania.

       

Além disso, noticiou que  o governo brasileiro vem sofrendo pressões internas de movimentos sociais, sindicatos e grupos políticos, que protocolaram um pedido formal para que o Estado se posicione de forma clara e pública (não apenas nos bastidores) contra o deslocamento de navios militares dos EUA no sul do Caribe – esses atores interpretam tal movimentação, somada às declarações de Trump, como uma ameaça não apenas à Venezuela, mas a toda a América Latina, usando de instrumento de pressão política para fortalecer uma narrativa de solidariedade com a Venezuela e de crítica a uma possível intervenção ou ameaça externa.

      

Sob outra ótica, a Revista Oeste abordou o posicionamento do presidente Lula, que afirmou que o Brasil não possui “contenciosos internacionais” em relação ao conflito entre EUA e Venezuela, destacando que o país permanecerá do “lado da paz”. O discurso é interpretado como uma defesa de postura menos confrontativa e de possível mediação, ou pelo menos de neutralidade, em um momento de tensão que pode gerar instabilidade regional.

    

Refletindo essa visão, a Oeste ressaltou ainda as críticas de setores da própria esquerda latino-americana ao governo Maduro, intensificadas após a prisão de Martha Lía Grajales, líder da ONG SurGentes e ex-apoiadora de Chávez, que se distanciou do regime após a repressão violenta às manifestações de julho de 2024 que contestavam as eleições do mesmo ano, denunciadas como fraudulentas. A revista classificou as reações críticas da esquerda como “inéditas”, sinalizando fissuras no apoio regional a Maduro.

       

Paralelamente, a Revista Oeste destacou o comunicado do Partido dos Trabalhadores (PT — partido do atual presidente do Brasil), no qual repudia as movimentações militares dos EUA no Mar do Sul do Caribe e manifesta apoio à Venezuela. Para a publicação, tal posicionamento explicita a inserção do Brasil no embate diplomático e geopolítico entre EUA e Venezuela, quando, na visão da revista, o país deveria adotar neutralidade diante da ameaça em suas fronteiras. A revista também apontou o caráter autoritário do governo venezuelano e sugeriu que o episódio sirva de alerta para evitar deriva militar em outros países da região.

      

Apesar de tanto o Brasil de Fato quanto a Revista Oeste defenderem a paz como valor central, ambos apresentam recortes distintos sobre os acontecimentos na Venezuela, as implicações das ações dos EUA e os reflexos no Brasil, além de opiniões divergentes sobre como o governo brasileiro deve agir diante da crise em território vizinho. Cada veículo, à sua maneira, contribui para moldar a opinião pública, articulando política interna e pressionando a diplomacia externa, não apenas informando, mas também construindo narrativas.

      

A leitura integrada do jornal A Folha de S. Paulo e da Revista Veja revela duas estratégias editoriais distintas para narrar o triângulo Brasil-Estados Unidos-Venezuela. Na Folha, a reportagem que abre o dossiê – “Trump ameaça Venezuela com consequências incalculáveis” – apresenta o envio de navios e caças norte-americanos ao Caribe, contabiliza mortos em operações antidrogas e registra a ausência de provas que sustentem as acusações de Washington. A escolha de vocabulário é reveladora: o diário registra que Trump escreve em “letras maiúsculas” e, enquanto relata a movimentação militar dos Estados Unidos, lembra que o governo venezuelano iniciou exercícios em La Orchila. Dessa forma, a Folha atribui agência aos dois lados, mas realça o ímpeto beligerante da Casa Branca, alertando para o risco de que a retórica antimigratória se converta em incidente armado de escala hemisférica.

       

O veículo de imprensa também cobre as restrições de locomoção impostas pelo governo Trump ao ministro brasileiro Alexandre Padilha, que aprofunda essa chave de interpretação. Ao comparar o tratamento concedido ao Brasil com o destinado a delegações do Irã, da Rússia ou da Coreia do Norte, a Folha sugere que o atrito bilateral desce a um patamar sem precedentes, configurando violação do Acordo de 1947 que obriga o país-sede da ONU a conceder plenos meios de atuação diplomática. A menção reiterada ao relatório da própria organização reforça um padrão: o jornal confere legitimidade a organismos multilaterais e deixa implícito que o governo Trump, ao instrumentalizar a questão de vistos, sabota as regras que lhe deram suporte histórico.

        

A coluna “Já dá para chamar Trump de ditador?” traduz a linha editorial em forma opinativa. O articulista enumera ofensas à Primeira Emenda, prisão de imigrantes sem julgamento e ataques à liberdade acadêmica para sustentar a tese de erosão institucional interna nos Estados Unidos. Ao colocar Trump no mesmo espectro de Maduro ou Putin, a Folha dilui a exceção democrática norte-americana e desloca o eixo tradicional de comparação, marcado pelo contraponto “democracias consolidadas versus regimes iliberais”, para uma topografia cinzenta onde todos os atores são avaliados à luz de parâmetros universais de direitos.

     

Acerca da conduta de Maduro, na reportagem “Maduro anuncia que militares treinarão civis em comunidades”, a Folha conserva o rótulo de “ditador” para caracterizar o venezuelano, indica que o anúncio ocorre “um dia após” exercícios em La Orchila e detalha o valor da recompensa oferecida por Washington pela captura de Maduro. A narrativa incorpora temporalidade e números como antídotos contra qualquer acusação de complacência com Caracas, mas reforça a tese de que a militarização da Venezuela está diretamente condicionada à pressão crescente imposta pelos Estados Unidos.

     

A tensão diplomaticamente institucionaliza-se, no relato da decisão do Itamaraty de acionar o secretário-geral António Guterres contra as restrições a Padilha. O jornal explica, com base em cláusulas do tratado de 1947, por que Lula recorre à ONU e destaca que a sobretaxa de cinquenta por cento sobre exportações brasileiras funciona como pano de fundo econômico da disputa. A sexta publicação — perfil interpretativo da política externa conduzida por Marco Rubio, chanceler de Trump — articula o fio estratégico da série: segundo o texto, tarifas, migração, guerra a cartéis e contenção da China são tratados pelo Departamento de Estado como peças de uma engrenagem coercitiva. O Brasil surge, nas palavras do repórter, como “laboratório” no qual se aferirá o grau de eficácia desse método.

       

A Folha encerra o arco narrativo ao projetar o discurso de Lula na Assembleia-Geral — centrado em Palestina, democracia e clima, exatamente os pontos de fricção com Trump — o jornal enfatiza a soberania brasileira e apresenta o púlpito da ONU como espaço de contraposição simbólica a Washington. No dia a dia doméstico, essa postura se corporifica na fala presidencial durante o lançamento do linhão Manaus-Boa Vista, quando Lula declara que o Brasil é “dono do próprio nariz” e ironiza um possível “linhão até Nova York”. A Folha conecta o episódio à ameaça da Casa Branca de usar “poder econômico e militar” em defesa da liberdade de expressão, sugerindo que a disputa retórica já transbordou dos salões diplomáticos para a opinião pública.

       

A sequência da Revista Veja parte de um enquadramento mais direto, marcado por verbos de ação e por um interesse constante no bolso do leitor e nos custos políticos de cada movimento. Sobre os asilados na embaixada da Argentina em Caracas, a revista expõe o drama humanitário de famílias que vivem há mais de quatrocentos dias sem água e energia, responsabiliza Maduro pelas ameaças e, sobretudo, cobra uma resposta imediata do governo Lula. Para Veja, a brandura da diplomacia brasileira diante do chavismo deteriora-se em dano reputacional: se o Planalto prefere a reaproximação, precisa provar que ela se converte em resultados concretos, caso contrário, transforma-se em cumplicidade com violações de direitos humanos.

      

O raciocínio fiscal aparece quando a Veja qualifica a inadimplência venezuelana de “calote” de 1,7 bilhão de dólares ao BNDES. A revista sublinha que o Tesouro cobre o rombo, que o contribuinte brasileiro paga a conta e que o governo “hesita” em reagir com mais firmeza para não agravar a instabilidade regional. Ao adotar esse ângulo, Veja reforça sua tradição liberal-fiscalista: não discute apenas a legitimidade do regime de Maduro, mas o impacto direto no orçamento brasileiro de uma política externa que, na avaliação da publicação, prioriza laços ideológicos em detrimento da prudência financeira.

      

Quando aborda a revelação, feita pelo New York Times, de que Trump teria assinado ordem secreta permitindo uso de militares contra cartéis latino-americanos, Veja manifesta preocupação com o potencial desestabilizador da medida. A revista reprova a lógica de guerra infinita exportada dos Estados Unidos, mas faz isso sem recorrer à linguagem jurídica ou multilateral típica da Folha de S.Paulo. A crítica é pragmática: uma ação militar desse tipo espalharia mais insegurança e, possivelmente, engolfaria o Brasil em conflitos que não são seus.

      

O tom mais agressivo  retorna com o registro da fala de Lula na cúpula virtual do BRICS. A Veja retrata o presidente brasileiro “alfinetando” Trump ao condenar “chantagem tarifária” e “conduta belicosa”. O verbo escolhido explicita a interpretação da revista: Lula usa o foro do BRICS mais para sinalizar posição política do que para oferecer mecanismos concretos de retaliação. Ao leitor, fica a impressão de que a disputa entre os dois líderes tem forte componente de marketing internacional, com ganhos retóricos ainda incertos para o Brasil.

    

Se vistas em conjunto, as reportagens da Folha de S.Paulo constroem a ideia de que o sistema internacional enfrenta uma corrosão de normas liderada pelo governo Trump, de que a Venezuela reage de forma defensiva — embora autoritária — e de que o Brasil, ao insistir em mecanismos multilaterais, tenta resguardar algum espaço de negociação racional em meio ao fogo cruzado. Revista Veja, por sua vez, enxerga o mesmo triângulo por lentes de custo-benefício: o chavismo é fonte de passivo financeiro e de constrangimento moral para Brasília, ao passo que a política coercitiva de Trump, embora arriscada, funciona como lembrete contundente de que o país precisa preparar estratégias de autoproteção econômica e de segurança. Assim, enquanto a Folha adverte para o rompimento de regras e a convergência de autoritarismos, Veja traduz o cenário em termos de perdas tangíveis – dinheiro público, direitos de asilados, tarifas contra exportações – e cobra rapidez e firmeza do governo brasileiro. 

      

Considerações finais

      

As relações diplomáticas entre o Brasil e a Venezuela, iniciadas em 1830, passam por um período complexo, permeadas por contradições entre a retórica presidencial e o pragmatismo da diplomacia profissional brasileira. Em seu terceiro mandato, o presidente Lula tenta retomar o diálogo com a região e projetar o Brasil como potência e mediador regional, contudo, o Itamaraty adota uma postura mais cautelosa, fundamentada no princípio de não-intervenção, diante das violações dos compromissos diplomáticos pelo governo Maduro. 

     

Nos últimos anos, a Venezuela enfrenta um cenário de isolamento político e certo afastamento do governo brasileiro, evidenciado pelo veto brasileiro à entrada da Venezuela nos BRICS em 2024, caracterizado pelo governo Maduro como um “gesto hostil” do Itamaraty. Com a recente ofensiva militar dos EUA, com o envio de navios de guerra e submarinos para a costa venezuelana, Caracas reaproximou-se do Brasil por uma dor em comum: a ameaça de sua autonomia pelo governo norte-americano. 

     

A crise venezuelana, o papel dos EUA e a posição de Brasília configuram um tema de constante presença  no debate doméstico. Os veículos de imprensa acompanhados pelo Grupo de Trabalho “Imprensa e Política Externa Brasileira” divergem nos temas enfatizados e nas recomendações sobre a postura a ser adotada pelo governo brasileiro. Veículos mais progressistas tendem a criticar o imperialismo norte-americano e destacar a solidariedade internacional, enquanto veículos mais conservadores destacam o autoritarismo de Maduro e questionam o não-distanciamento brasileiro de Caracas.  

      

Diante das ofensivas trumpistas em relação a Caracas e a Brasília, a preocupação com a paz no eixo sul e com a defesa da autonomia política são temas centrais, ao lado das projeções sobre a atuação diplomática do país. 

    

Permeada por tensões, a relação Brasil-Venezuela, costeada pelos EUA, representa um ponto de inflexão para o país: é possível que o Brasil intermedie o diálogo entre os atores e consolide sua posição como mediador regional, fortalecendo-se em um cenário de crescente competição geopolítica? Ainda não é possível afirmar, no entanto, o desafio brasileiro consiste na conciliação entre a defesa da democracia, a estabilidade regional e sua autonomia diante das pressões estadunidenses.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *