Ano VI, nº 112, 16 de outubro de 2025
Por Andressa Francisca Martins da Cunha, Caio Vinicius Higa, Jéssica Carolyne de Almeida, Nicolas de Paula Silva Ferreira, Rafael Alves Fernandes (Imagem: Rodrigo Solden/Flickr)
A transição energética será um dos temas centrais da COP 30, que acontecerá em novembro em Belém (PA). Nesse cenário, a energia nuclear retorna como grande aposta para se atingir as metas de descarbonização como fonte de energia limpa. Apesar dos investimentos em energia nuclear terem crescido nos últimos anos, ainda há desafios a serem superados. Custos elevados, gestão dos resíduos radioativos, resistência da opinião pública e preocupações com a proliferação de armas nucleares são questões a serem consideradas quando se trata de retomar a era da energia nuclear.
Introdução
A busca por alternativas aos combustíveis fósseis no cenário de mudanças climáticas faz com que a energia nuclear entre novamente em cena, sendo fomentada ainda mais com avanços tecnológicos como os pequenos reatores modulares (Small Modular Reactors – SMRs). Estes funcionam como pequenas usinas nucleares e são apresentados como alternativas a grandes usinas por serem mais flexíveis. Além dos custos reduzidos, eles requerem menor necessidade de área, podem ser instalados próximos aos centros consumidores e operam em lugares remotos. Isso contribui não só na redução de custos, como também para atender comunidades isoladas sem acesso à energia. A Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) enfatiza a necessidade de incluir a energia nuclear no rol de energias renováveis, tendo em vista suas potencialidades para a transição energética.
Um elemento importante são os investimentos elevados necessários para a construção de uma usina nuclear. Quando se fala em custos da energia nuclear é necessário levar em conta que isso varia com base em fatores que vão desde a construção de novas usinas a custos reparatórios em casos de acidentes. O estudo True Costs of Nuclear Power (Os verdadeiros custos da Energia Nuclear), do Instituto Austríaco de Ecologia, traz um panorama geral de quais são os principais fatores a se considerar nos cálculos. Destaca-se a construção de uma nova usina, representando o custo mais elevado, e inclui-se variáveis como taxas de juros, custos de operação e manutenção, custos com combustível, além de custos como a contratação de seguros preventivos.
Outros aspectos a serem avaliados são os impactos causados pela mineração do urânio, representando custos ambientais que seriam repassados à sociedade, e as preocupações em torno dos depósitos de resíduos radioativos, que impactam a confiabilidade na energia nuclear. Segundo a World Nuclear Organization, 97% dos resíduos gerados são classificados como de baixa ou média atividade (LLW ou ILW), sendo que os resíduos de alta atividade (HLW) representam uma parcela ínfima da quantidade total gerada. A entidade sustenta ainda que a tecnologia para o descarte seguro dos HLW já se mostra bastante avançada no campo científico, o que reforça o argumento de que se trata de uma fonte de energia segura.
A preocupação com a segurança da energia nuclear se justifica pelo histórico de acidentes ocorridos em Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e em Fukushima, no Japão, em 2011. Classificada como o maior acidente nuclear em todos os tempos, a tragédia ocorrida em Chernobyl foi causada pela explosão de um dos reatores da usina. Já o acidente em Fukushima foi causado pelo terremoto e tsunami Tōhoku. Ainda assim, quando comparada às energias fósseis, a taxa de mortalidade por unidade de eletricidade da energia nuclear está entre as mais baixas, com cerca 0,03 em contraposição ao carvão marrom (32), carvão (24) e petróleo (18).
O Brasil possui a sétima maior reserva de urânio no mundo e domina todo o ciclo do combustível nuclear, desde a mineração até o enriquecimento, ainda que por motivos de viabilidade econômica opte por manter o enriquecimento nas mãos de países europeus. Apesar da reserva expressiva, o Brasil apresenta menos de 1% da produção mundial de urânio. Assim, vale entender o percurso da energia nuclear no tempo e seu debate atual, seja a respeito do seus avanços científicos ou da sua geopolítica.
Histórico e conjuntura atual
A trajetória da energia nuclear é intrinsecamente marcada por uma dualidade persistente. De um lado, o notável potencial de gerar muita energia, com baixa emissão direta de gases de efeito estufa. Do outro, os riscos associados a acidentes catastróficos, à gestão de resíduos radioativos e à preocupante proliferação de armamentos nucleares.
Desde sua aplicação inicial na Segunda Guerra Mundial, com as devastadoras bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, a energia nuclear nunca conseguiu se desvincular completamente de suas origens militares. A tênue fronteira entre o uso civil e o uso bélico permanece como um dos maiores desafios para a governança internacional neste campo. Durante o período da Guerra Fria, o desenvolvimento de programas nucleares civis esteve profundamente entrelaçado com a corrida armamentista. As superpotências da época, Estados Unidos e União Soviética, investiram maciçamente em reatores, tanto para a geração de eletricidade quanto para a produção de plutônio, um componente essencial para armas nucleares.
O Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), estabelecido em 1968, visou conter o avanço das armas nucleares e, simultaneamente, permitir o uso pacífico da energia atômica. Contudo, a assimetria entre países “nucleares” e “não nucleares” persiste até hoje, refletindo um regime de acesso desigual à tecnologia e ao combustível. Os grandes acidentes nucleares, como o de Three Mile Island (1979), nos Estados Unidos, e os já citados acidentes de Chernobyl e Fukushima, redefiniram drasticamente a percepção pública e política sobre a segurança nuclear. Cada um desses eventos, ocorridos em contextos históricos distintos, expôs vulnerabilidades estruturais e falhas humanas na operação das usinas, gerando forte desconfiança social e uma consequente retração de investimentos em diversos países. O caso de Fukushima, em particular, marcou uma virada significativa. O Japão, antes considerado uma referência mundial em segurança tecnológica, viu-se obrigado a desligar temporariamente todos os seus 54 reatores, mergulhando em uma crise energética sem precedentes.
Apesar desses traumas históricos, a energia nuclear tem se mostrado uma alternativa viável para países com alta dependência de importação de energia fóssil ou com baixa disponibilidade de recursos naturais. É o caso da França, que desde a crise do petróleo de 1973 adotou um ambicioso programa de independência energética baseado na energia nuclear. Atualmente, cerca de 70% da eletricidade francesa provém de reatores nucleares, o que confere ao país um dos menores níveis de emissão de carbono da Europa.
Na Finlândia, a motivação mais recente foi geopolítica: reduzir a dependência energética da Rússia, agravada pela guerra na Ucrânia. Em 2023, o país inaugurou Olkiluoto 3, o maior reator europeu em operação, após quase duas décadas de atrasos e custos multiplicados. Essa decisão reflete a busca por autonomia estratégica em um cenário de instabilidade regional e aumento da demanda energética.
Contudo, é a China que assumiu a liderança nesse processo. Como parte de sua política de reduzir rapidamente a dependência do carvão na geração elétrica, o país caminha para se tornar o maior produtor de energia nuclear até o final desta década, superando os Estados Unidos e a França. Das 66 usinas nucleares atualmente em construção no mundo, 30 estão sendo erguidas na China, o que representa 48% da nova capacidade instalada.
O Japão e a Coreia do Sul representam o caso de países asiáticos que retomaram, com cautela, seus programas nucleares. Após Fukushima, o Japão reativou parte de seus reatores, argumentando que a crise energética global e a meta de descarbonização exigem a reintegração da energia nuclear à matriz nacional. Já a Coreia do Sul, além de utilizar a energia nuclear como componente essencial de sua matriz elétrica, transformou-se em exportadora de tecnologia nuclear, tendo construído reatores nos Emirados Árabes Unidos, consolidando sua presença em um mercado altamente sensível e estratégico.
Por outro lado, a energia nuclear permanece no centro das disputas geopolíticas mais delicadas do sistema internacional. A proliferação nuclear, ou seja, o uso da tecnologia civil para o desenvolvimento de armas, é uma preocupação constante. Casos como o do Irã e da Coreia do Norte demonstram os limites da arquitetura de controle global. O Irã, signatário do TNP, insiste em seu direito ao uso pacífico da energia nuclear, enquanto enfrenta sanções e desconfianças do Ocidente. Já a Coreia do Norte se retirou formalmente do tratado e realizou testes nucleares, rompendo abertamente com o regime internacional.
Essa tensão intrínseca entre o acesso à tecnologia e a segurança internacional revela o caráter paradoxal da energia nuclear. Ela é, ao mesmo tempo, instrumento de soberania e fator de vulnerabilidade. No século XXI, o retorno da energia nuclear se justifica não apenas pela promessa de descarbonização, mas também pela busca de autonomia estratégica, uma lógica que se insere plenamente na competição geoeconômica entre as potências.
A crescente demanda por urânio e o domínio das etapas do seu ciclo de enriquecimento transformaram esse mineral em um ativo geopolítico crucial. Países como Cazaquistão, Canadá, Austrália, Rússia e Namíbia concentram a maior parte da produção global, enquanto potências emergentes tentam assegurar acordos bilaterais para garantir seu fornecimento. Essa dinâmica amplia o risco de uma nova forma de dependência energética, agora centrada em um combustível estratégico de uso duplo, civil e militar. Dessa forma, o atual “renascimento nuclear” não pode ser compreendido apenas como uma resposta tecnológica à crise climática, mas como um fenômeno geopolítico complexo. Ele reflete as tensões entre segurança energética, soberania nacional e regulação internacional. O desafio é o de equilibrar a necessidade premente de reduzir emissões e garantir estabilidade energética, sem reabrir os dilemas éticos, ambientais e de segurança que marcaram o passado da era atômica.
Avanço tecnológico
A gestão dos resíduos nucleares sempre foi o ponto mais sensível da energia atômica. Esse é um tema marcado por avanços técnicos e por desconfiança social. Durante décadas, a discussão oscilou entre a promessa da segurança absoluta e o temor de um risco invisível. Hoje, o cenário é mais concreto. Embora o princípio técnico continue o mesmo, baseado em armazenar o combustível irradiado em formações geológicas estáveis por milhares de anos, há uma mudança decisiva no estágio de implementação. Segundo a World Nuclear Association (WNA), as soluções de longo prazo para o armazenamento já são tecnicamente comprovadas e o consenso internacional aponta o depósito geológico profundo como a melhor alternativa. Esses repositórios utilizam sistemas de múltiplas barreiras, que combinam aço, argila e rocha cristalina para conter o material radioativo até que sua periculosidade se dissipe. Como mais de 90% do volume total de resíduos radioativos no mundo é de baixa ou média atividade, este material já possuiria destino seguro em depósitos superficiais. O restante, que representa cerca de 3% do volume total, concentra aproximadamente 95% da radioatividade e é o que exige armazenamento profundo. Esse pequeno percentual continua a ser o desafio central do setor, mas também o campo onde se observam os maiores avanços técnicos das últimas décadas.
A gestão de resíduos passou a ser tratada sob uma lógica mais ampla no período recente. Países europeus começaram a aplicar princípios da economia circular, recuperando metais, concreto e componentes de usinas descomissionadas. Essa abordagem reduz custos e tenta reconfigurar a imagem de um setor historicamente associado ao risco. A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) sustenta que o sucesso de qualquer programa de armazenamento depende não apenas da tecnologia, mas também da aceitação das comunidades locais.
Enquanto a engenharia se dedica a resolver o problema do “lixo acumulado”, a indústria tenta desenhar seu próprio futuro com uma nova solução, os já citados Small Modular Reactors. Esses reatores compactos, com potência de até 300 megawatts, foram concebidos para serem produzidos em série e instalados em módulos padronizados, o que diminuiria os custos e prazos de construção. A Agência Internacional de Energia (IEA) informa que mais de setenta modelos estão em desenvolvimento em dezenove países e que os primeiros projetos comerciais devem entrar em operação até o início da próxima década. China e Rússia lideram esse movimento. A China já opera o HTR-PM, um reator de alta temperatura com dois módulos conectados à rede elétrica, enquanto os russos mantêm em funcionamento o Akademik Lomonosov, a primeira usina flutuante do mundo. Juntas, essas duas potências respondem por quase metade dos reatores atualmente em construção.
Os SMRs se destacam pela promessa de maior segurança, uma vez que utilizam sistemas de resfriamento passivo capazes de conter o calor residual sem necessidade de intervenção humana. O volume reduzido de combustível também limita o risco de superaquecimento e praticamente elimina a possibilidade de explosões semelhantes às observadas em reatores de grande porte. Mesmo assim, engenheiros e reguladores mantêm o conceito de “risco residual” como parâmetro de segurança, reconhecendo que nenhuma tecnologia é absolutamente infalível.
Do ponto de vista econômico, os SMRs representam uma tentativa de tornar o setor nuclear competitivo em um mercado cada vez mais dominado por fontes renováveis. A IEA estima que o investimento global anual em energia nuclear ultrapassou 60 bilhões de dólares em 2023, um aumento de 50% desde 2020, impulsionado pela expansão dos SMRs e pela extensão da vida útil de reatores existentes. O custo por quilowatt instalado ainda é elevado, mas tende a cair com a padronização de projetos e a produção em série. A agência projeta que a capacidade instalada de SMRs poderá alcançar 40 gigawatts até 2050 e triplicar se forem mantidas políticas de incentivo e estabilidade regulatória.
A WNA observa que a maior parte do custo de uma usina nuclear está concentrada na construção, que representa cerca de 60% do investimento total. A modularidade dos SMRs e o uso de componentes fabricados em série buscam reduzir essa parcela e encurtar o intervalo entre o início da obra e o retorno financeiro. Essa lógica aproxima o setor nuclear de empreendimentos como parques eólicos offshore e grandes hidrelétricas, tornando-o mais atraente para o capital privado. Ainda assim, a competitividade depende de cadeias de suprimento estáveis e de padronização técnica, condições que China e Rússia dominam com vantagem. Dos 52 reatores iniciados desde 2017, 25 seguem projetos chineses e 23 utilizam tecnologia russa. Essa concentração tecnológica, alerta a IEA, representa um risco estratégico para países que buscam diversificar suas fontes e reduzir dependências.
Apesar do entusiasmo tecnológico, o desafio mais persistente continua sendo a percepção pública. Pesquisas recentes mostram que a aceitação da energia nuclear cresce quando associada à segurança energética e à descarbonização, mas diminui diante da lembrança de acidentes e do medo da radiação. Estudos indicam que o medo da energia nuclear tem raízes emocionais profundas, ligadas à repulsa a riscos invisíveis e à sensação de contaminação, mais do que à informação técnica. É uma resistência de natureza simbólica, difícil de ser revertida apenas com dados científicos.
Diante desse cenário, governos e agências buscam reconstruir uma narrativa de normalidade em torno da energia nuclear. A IEA resume o argumento central ao afirmar que a energia nuclear é uma das poucas fontes capazes de garantir fornecimento contínuo, limpo e em larga escala de eletricidade, em um cenário de demanda crescente. O paradoxo é evidente, já que o setor nuclear, que durante décadas simbolizou o perigo, volta a ser visto como sinônimo de estabilidade e segurança. O que ainda falta, e talvez seja o elemento mais difícil de conquistar, é a confiança pública que permita transformar esse avanço técnico em consenso social.
O ciclo do urânio e os debates internos brasileiros
No Brasil, o domínio do ciclo do urânio é um dos temas mais estratégicos da política energética e tecnológica. Desde a década de 1970, o país busca autonomia em todas as etapas que envolvem a produção de combustível nuclear, da mineração ao enriquecimento, com fins pacíficos e sob salvaguardas internacionais. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil possui uma das maiores reservas de urânio do mundo, estimadas em mais de 300 mil toneladas, com potencial para dobrar após a conclusão de novas prospecções geológicas (MME, Plano Nacional de Mineração 2050). A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) opera a extração em Caetité (BA) e prepara a reativação do projeto de Santa Quitéria (CE), em parceria com a iniciativa privada, mas sob controle estatal. Já o enriquecimento isotópico, realizado na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN) de Resende, é conduzido pela Marinha do Brasil e pela INB, utilizando tecnologia nacional de ultracentrifugação, reconhecida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) como de uso exclusivamente pacífico. O monopólio sobre a extração de urânio e outros processos da produção de energia nuclear no Brasil continua nas mãos da União, segundo a Constituição Federal de 1988, a Lei nº 14.514/2022 e o Decreto 51.726/1963.
Entretanto, há um ponto de tensão na política nuclear brasileira: a não ratificação do Protocolo Adicional ao TNP, documento que amplia os poderes de inspeção da AIEA e exige maior transparência dos Estados signatários. O Itamaraty argumenta que o Brasil já cumpre todas as obrigações do Acordo Quadripartite (1991), firmado entre o país, a Argentina, a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) e a própria AIEA. Esse acordo é considerado um dos mais rigorosos do mundo, garantindo que todo material nuclear brasileiro seja destinado a fins pacíficos. Assim, segundo o governo, a assinatura do Protocolo Adicional não é necessária e poderia representar uma limitação de soberania, sobretudo enquanto as potências nucleares não cumprirem suas obrigações de desarmamento previstas no próprio TNP. Já a adesão poderia reduzir resistências a projetos como o do submarino nuclear brasileiro, parte do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), frequentemente questionado por envolver tecnologia sensível de enriquecimento de urânio.
O debate, portanto, reflete um dilema clássico entre soberania e integração internacional. De um lado, o Brasil busca preservar sua autonomia tecnológica e sua capacidade de desenvolver energia nuclear de forma independente; do outro, enfrenta pressões por maior transparência e alinhamento com os mecanismos de controle global. A ausência de consenso interno entre o MME, o Itamaraty, a CNEN e setores políticos mantém a questão em aberto.
Atualmente, o Brasil mantém em operação as usinas Angra I e Angra II, responsáveis por cerca de 3% da eletricidade gerada no país. A Angra III, entretanto, segue paralisada há anos devido a impasses financeiros, licitatórios e ambientais, segundo relatório da Eletrobras Eletronuclear de 2024. Apesar disso, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e o MME defendem que a continuidade do programa nuclear é essencial para a segurança energética e para a redução das emissões de carbono. O domínio completo do ciclo do urânio, portanto, representa não apenas uma conquista tecnológica, mas também um ativo estratégico para a transição energética e a soberania nacional. Esperava-se que o impasse em torno de Angra III fosse resolvido na atual gestão do presidente Lula.
Conclusão
A energia nuclear se apresenta na atualidade não só como uma alternativa à descarbonização no setor de energia, mas como tema central na segurança energética e na geopolítica. Observa-se uma retomada do debate e da produção da energia nuclear, com países como França e Finlândia mantendo-a como base de suas matrizes, e potências como China e Rússia liderando a fronteira tecnológica, desenvolvendo desde grandes instalações até os reatores menores, capazes de reduzir custos e facilitar o acesso a essa modalidade de energia.
No cenário brasileiro, esse avanço esbarra em paradoxos. Apesar dos esforços para dominar a cadeia produtiva, notadamente no enriquecimento de combustível, o país ainda depende de países da Europa para etapas cruciais do processo, e a usina de Angra III permanece paralisada.
Outro desafio para o avanço da energia nuclear no Brasil é a opinião pública. Enquanto o governo chinês, em seu 11º Plano Quinquenal, declarou a energia nuclear como “limpa, eficiente e confiável”, o Brasil ainda não decidiu sobre a conveniência de nuclear como alternativa para assegurar a produção de energia constante e sem emissões, muito em função dos custos envolvidos.
É claro que o histórico brasileiro de uma matriz elétrica renovável, sobretudo por conta do peso da hidreletricidade, mantém o país em uma posição confortável, inclusive nos debates da COP30, mas contrasta com a sua dependência dos derivados de petróleo na matriz de transportes, cuja principal promessa de descarbonização reside na eletrificação da frota de caminhões. Com a demanda atual do país, o suprimento de energia necessário à eletrificação dos transportes pode não ser assegurado através das fontes renováveis convencionais, de caráter intermitente. Nesse cenário se destaca o papel da energia nuclear, com sua constância no fornecimento assim como a sua possibilidade de instalação próximo aos mercados consumidores, como um fator estratégico no processo de transição dos combustíveis fósseis a fontes menos emissoras de gases do efeito estufa.
No Brasil e no mundo, o avanço da energia nuclear depende do equilíbrio entre segurança, sustentabilidade e viabilidade tecnológica. Como vimos, os desafios da opinião pública, dos custos iniciais elevados, da deposição de resíduos radioativos e da proliferação nuclear persistem, e estão sendo encarados por meio da ampliação da segurança no setor e pela necessidade de energia estável e mais limpa. Cabe ao Brasil, como um dos protagonistas da geopolítica energética, assegurar suas potencialidades na fonte nuclear, cuja participação ganha relevância no seu processo de transição energética.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte
