Geração Z e a África em Ebulição

Ano VI, nº 113, 01 de novembro de 2025

        

Por Danilo Faustino, Isabella Werneck Zanon, Matheus Albuquerque, Gabriel Gesteira e Nathalia de Andrade Costa

(Imagem: Monitor do Oriente/ Abu Adem Muhammed/Agência Anadolu)

          

Deixe de lado aquela ideia antiquada de um continente muitas vezes esquecido nas grandes discussões mundiais, pois a África de hoje está se mexendo de uma forma muito rápida e que faz muito barulho, sendo empurrada para frente por jovens que, usando a internet e sabendo muito bem dos problemas e das injustiças que sempre existiram ao seu redor, tomaram a decisão juntos de que não vão mais ficar de braços cruzados esperando por mudanças que nunca chegam. Nós estamos vendo agora mesmo, ao vivo, uma mudança social muito grande e profunda, na qual a Geração Z, as pessoas que já nasceram e cresceram com a internet, aparece como a principal força de um novo jeito de protestar e pedir por política, querendo ser ouvida, ter seu espaço e, mais importante que tudo, ter uma chance de um futuro próspero em seu próprio país.

         

O ponto principal mais recente e que talvez melhor mostre essa agitação toda dos jovens tem sido, sem dúvida, o Marrocos, onde um movimento forte e muito bem organizado, que usa o nome digital “Gen Z 212”, tomou conta das ruas de cidades muito importantes para a vida e a economia do país, como Rabat, Casablanca e Tânger. Essa turma mostrou que sabe se organizar e que tem o apoio de muita gente, o que não só pegou de surpresa quem olha de fora, mas também bateu de frente com quem está no poder, forçando o governo a responder de um jeito que muitos acharam exagerado. As coisas que esses jovens manifestantes estão pedindo são um retrato bem claro dos problemas sociais que o país enfrenta há muitos anos, e eles não estão falando de coisas vagas ou ideias difíceis, mas sim focando em pedidos bem reais e que não podem esperar mais.

          

No centro de tudo o que eles querem está um pedido muito alto por uma melhora rápida e urgente dos serviços públicos, principalmente nas áreas da saúde e da educação, que são vistas por essa geração como as coisas mais básicas para alguém conseguir melhorar de vida ou ter o mínimo de respeito. Ao mesmo tempo, os protestos no Marrocos viraram um grande grito de todo mundo pedindo por responsabilidade e pelo fim da sensação de que ninguém é punido, exigindo uma luta de verdade contra a corrupção que parece estar em todo lugar e que, segundo eles, suga o dinheiro que deveria ser usado para o país crescer, enquanto também pedem que soltem imediatamente as pessoas que foram presas durante as manifestações.

           

O que talvez tenha começado como alguns protestos aqui e ali por causa de serviços ruins e falta de dinheiro acabou crescendo muito rápido, ganhando a forma de uma crise política muito mais séria e que mexe com a base de tudo, com os jovens pedindo claramente que o primeiro ministro e todo o seu governo saiam do poder. A resposta do governo tem sido bem dura, com notícias mostrando que mais de 1.500 pessoas, a maioria delas jovens que estavam nesses protestos, agora estão respondendo a processos na justiça, um número que assusta e que parece só deixar as pessoas com mais raiva ainda. Essa situação tensa, que infelizmente também acabou levando a brigas e destruição de coisas públicas em algumas cidades depois de muitos dias de pressão, mostra exatamente o que muitos especialistas da região estão começando a chamar de um pesado “ambiente de fim de ciclo”, um momento em que a paciência dos jovens com o jeito que as coisas estão simplesmente acabou de vez.

                

A situação do Marrocos, por isso, não deve ser olhada como uma coisa que só aconteceu lá ou algo fora do normal, mas sim como um sinal claro e um exemplo muito forte de uma mudança bem maior que está acontecendo em todo o continente, onde a Geração Z africana, com seus celulares, redes sociais e um sentimento muito forte de que as coisas precisam mudar agora, algo que as gerações passadas talvez não tivessem com tanta força, não aceita mais de jeito nenhum aquela história antiga de que o progresso tem que ser devagar ou que os governos não precisam dar satisfação. Esses jovens querem transparência, querem mudanças estruturais e querem ver resultados logo, não como um favor, mas como a única coisa que pode garantir um futuro estável, provando que a verdadeira mudança na África hoje fala a língua digital do mundo todo, mas anda com os pés bem firmes no chão de seus problemas locais.

            

Reivindicações da geração Z marroquina

        

As manifestações organizadas pela geração Z (pessoas entre 15 e 30 anos) marroquina utilizou-se de plataformas online como Tik Tok, Instagram e Discord. Sendo o último, o Discord, o meio de comunicação mais popular entre os jovens nas mobilizações, por meio do servidor GenZ 212, que referencia o prefixo de chamadas telefônicas internacionais de Marrocos (+212). O servidor chegou a ter 130 mil membros até a primeira semana de outubro e se inspira nas manifestações que ocorrem paralelamente na Ásia e na América Latina.

           

O conflito teve como estopim a notícia de que oito mulheres morreram em trabalho de parto cesáreo no hospital Hassan II, na cidade de Agadir, em Marrocos, em 14 de setembro. Acusa-se que os motivos derivam da falta de insumos adequados do hospital. Esse evento provocou uma onda de insatisfação na população, que havia testemunhado nas semanas anteriores à inauguração do renovado estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat, obra avaliada em 4,2 bilhões de euros construídos para a Copa de 2030, em conjunto com Espanha e Portugal (Diário de Notícias, 2025).

             

Dentre as principais reivindicações dos jovens estão a melhoria na educação e saúde e redução do desemprego, bem como a demissão do chefe de governo, Aziz Akhannouch. A iniciativa privada hoje corresponde a mais de um terço das escolas e leitos hospitalares, uma mudança que agravou ainda mais as desigualdades socioeconômicas do país (Arab Reform Initiative, 2025).

           

As redes sociais foram elemento fundamental para as mobilizações, servindo de plataforma para compartilhar histórias, coordenar táticas e promover a troca de experiências com jovens de outros países. Dentre os elementos visuais que mais chamou atenção, foram as bandeiras piratas levantadas pelos manifestantes, inspiradas pelo mangá One Piece e pela mais recente série da Netflix, que se popularizou muito entre a geração Z, no qual o jovem protagonista Luffy luta junto com sua tripulação contra o governo totalitário da Marinha. Também chamou a atenção os cânticos de protestos como “dignidade, liberdade e justiça social”, “os estádios estão aqui, mas onde estão os hospitais?” e “o governo é corrupto” (Arab Reform Initiative, 2025). As manifestações possuem caráter descentralizador, não buscando estabelecer coalizões ou construir uma rede organizacional, também evitam estruturas hierárquicas e qualquer que seja cooptação partidária do movimento, assim permanecendo comprometidos em manter-se independentes.

              

Segundo pesquisadores, esses protestos representam uma continuidade aos eventos da Primavera Árabe, de 15 anos atrás. Diferentemente de outras regiões onde ocorreram movimentos árabes, Marrocos teve uma resolução singular, as mobilizações em maioria pacíficas, não resultaram na queda do governo vigente. De modo geral, exigiam democracia e menos poder para o monarca Mohammed VI, em resposta, o governo estabeleceu uma nova emenda constitucional e eleições parlamentares, limitando assim, o poder do rei. Contudo, a Constituição de 2011, vem falhando em manter um Estado democrático, plural, com boa governança e capaz de garantir segurança, liberdade, igualdade de oportunidades e  justiça social (Constitute, 2025).

             

Panorama de manifestações no Quênia

          

Desde o final de junho de 2024, a população queniana vem promovendo diversos protestos de grande escala em diversas cidades do país, contra o então presidente William Ruto e toda a cúpula governamental. Dentre as reivindicações iniciais, estavam a revogação de um projeto de lei que visava o aumento do imposto (IVA) sobre diversos produtos da cadeia de consumo populacional, como o trigo, e também o corte de subsídios nos combustíveis. Para além do projeto promulgado, havia insatisfação quanto à destinação das verbas públicas em obras sequer iniciadas, inacabadas e de baixa qualidade em estrutura. Segundo as reportagens da DW¹ e BBC², mesmo com o investimento em obras de infraestrutura, o resultado e o reflexo em empregos e geração de renda para os civis não foram perceptíveis, desencadeando grande adesão da população mais jovem aos protestos. 

              

Os protestos atingiram a marca de milhares de civis nas ruas e a ideia central de tomada do parlamento em 25/06/2024 (BBC,2024). As forças armadas responderam severamente aos manifestantes, causando dezenas de mortes naquele dia (BBC,2024). 

           

Em 27 de junho, o presidente William Ruto, impactado pela onda de protestos, optou por tratar com o líder do parlamento sobre a revogação de seu projeto fiscal que visava cortar gastos públicos e aumentar a incidência de impostos à população. Apesar da grande vitória para a população, dois dias após a grande manifestação, a brutalidade policial aos manifestantes impulsionou novas tomadas de ruas pelos populares. Inspirados pelos grandes protestos da década de 1990, em prol do multipartidarismo e da queda do presidente Daniel Arap Moi à época, a Geração Z promoveu no período de um ano diversas manifestações em Nairóbi e outras cidades do país. Sob o lema “Ruto deve sair”, a população, jovem em grande parte, lutava e clamava por melhores condições de vida, oportunidades de emprego, melhores prestações de contas acerca dos gastos públicos e a reversão de um possível aumento no custo de vida local (BBC, 2024). Pouco mais de um ano depois, no segundo semestre de 2025, os quenianos seguem combativos e reivindicando seus interesses populares frente ao presidente eleito até 2027 (Al Jazeera,2025). O que se busca é um novo horizonte para toda a população, para além de acordos institucionais comuns aos cidadãos. 

             

Reivindicações Geração Z – Quênia 

            

No Quênia, a morte do professor Albert Omondi Ojwang foi o evento que iniciou a organização de manifestações nas ruas. O educador de trinta e um anos foi preso no dia 6 de junho na cidade de Kakoth Village, localizada a mais de 200 km de Nairóbi, pela acusação de ter ofendido um oficial da polícia em rede social. Dois dias depois, o pai de Albert foi chamado à capital para reconhecer o corpo do filho, que, segundo a primeira versão oficial, teria se matado na prisão.

            

Porém, como aponta a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, Ojwang não havia sido levado para julgamento e nem estaria respondendo juridicamente contra algum crime. Além disso, a Comissão (2025) destaca que “considera particularmente preocupantes e perturbadoras as conclusões da autópsia realizada no corpo da vítima, que revelou golpes na cabeça e morte provavelmente causada por agressão, o que indica a culpabilidade dos responsáveis pelo seu tratamento enquanto esteve detido.” 

            

O abuso de poder e policial durante o governo de William Ruto tem sido um tema recorrente no país desde a posse do presidente em 2022. Em 2024, a população foi para as ruas protestar no que ficou conhecido como “Protestos da Lei Financeira”, onde o povo queniano questionou a aprovação da lei orçamentária que aumentava os impostos e mantinha as regalias políticas das elites. Na época, as manifestações convocadas principalmente pela disseminação de informações nas redes sociais, foram respondidas com violência por parte das forças de segurança e pelo menos 39 pessoas foram mortas, além de outras centenas de feridos. O povo queniano saiu vitorioso com a revogação da lei, mas carregou consigo as marcas da brutalidade das forças do Estado. 

                 

Os protestos que se iniciaram após a morte de Albert Ojwang ilustram a persistência do abuso de poder por parte das forças de segurança. A resposta do governo às manifestações também corroboram o sentimento de revolta da população. Segundo o Independent Policing Oversight Authority, organismo criado pelo Parlamento em 2011, a polícia matou 65 civis e deixou ao menos 342 feridos durante os quatro grandes protestos nos meses de junho e julho que também tinham como temática o aniversário de 1 ano  dos Protestos da Lei Financeira. 

             

As redes sociais cumpriram um papel central para a articulação da juventude queniana, especialmente o TikTok e o X. Como aponta Judy Mbugua (2025), o que foi visto inicialmente como apenas manifestação de descontentamento online, logo se concretizou em uma oposição popular crítica ao governo. Mbugua argumenta que a administração de Ruto passou a monitorar e atacar nomes ligados aos protestos que expunham seu descontentamento nos fóruns virtuais. 

                

Algo importante a ser destacado é que, como demonstrou o jornal local The Star (2025), William Ruto, um político visto como “outsider” teve como plataforma de campanha o crescimento econômico por meio da criação de empregos para a juventude e o fim da brutalidade policial. Segundo o censo de 2019, a população queniana em sua maioria está na faixa de até 35 anos de idade. Nesse sentido, a campanha de Ruto tinha como objetivo representar uma “nova” fase para a nação. Três anos depois, porém, as promessas não foram cumpridas e o descontentamento da população tem se tornado cada vez mais latente, buscando novas ferramentas e configurações para garantir que suas demandas sejam ouvidas não só pelo governo mas pelo mundo. 

              

Panorama das Manifestações em Madagascar

        

As manifestações em Madagascar tiveram como pautas iniciais os cortes de água e energia. O movimento foi liderado pela Geração Z que era protagonista dos protestos contra o presidente Andry Rajoelina mas que ganhou novo patamar com apoio da unidade militar de elite de Madagascar, a Capsat que terminou com a mudança de regime(BCC, 2025; DW, 2025). Houve também a participação de Ongs e Sindicatos (Visão da África, 2025).

            

O início das manifestações foi em 25 de setembro, com protestos massivos tomando conta das ruas do país iniciado pelos jovens (DW, 2025). Especialistas indicam que os protestos podem ter se inspirado na recente onda de manifestações da Geração Z, como no Nepal e na Indonésia, e que pode vir a influenciar outros países do continente africano. Os protestos se concentraram na capital, mas também estavam presentes em outras cidades. Como a repressão policial foi fortíssima, com cerca de 22 mortos e mais de 100 feridos ao final de setembro, o presidente Andry Rajoelina se sentiu forçado a se posicionar na televisão. Ele repudiou a violência contra os manifestantes, mas também se posicionou contra os saques e buscou um tom neutro. A intenção de Rajoelina era se mostrar como alguém “fora” dessa conjuntura problemática, por isso ele culpou o governo (primeiro-ministro e seu gabinete) pelos problemas e repressão passando uma imagem de que não fazia parte desse governo e por isso ele demitiria todo o conjunto governamental e indicaria um novo primeiro-ministro. Porém, essa tentativa de Rajoelina de desvincular sua imagem como alvo de protestos e sair ileso não funcionaria (Visão da África, 2025).

           

Em Madagascar o clima de agitação política e social é mais comum do que em comparação com outros países africanos. Há maior facilidade de mobilização e organização espontânea no país (Visão de África, 2025). O próprio Rajoelina chegou ao poder através de um golpe apoiado pelo exército, o que comprova esse fenômeno. Posteriormente, ele seria reeleito em 2018 e 2023, mas as eleições seriam contestadas e boicotadas pela oposição por acusações de fraudes (BBC, 2025). Logo, devido a força da mobilização social malgaxe os protestos continuaram, não aceitando a versão do presidente sobre os fatos e pedindo que ele também renunciasse. Os protestos queriam a troca efetiva de regime e mudanças nas estruturas político-econômicas.

           

A Geração Z, à frente dos protestos, também clamou pela participação de outras gerações, que também possuíam importante histórico de mobilização social. Com isso, no começo de outubro os movimentos sindicais apoiaram as manifestações, reforçando o movimento. O Presidente então acusou as manifestações de serem manipuladas por agências estrangeiras, que estariam inclusive utilizando-se de ciberataques. Ele também acusou a oposição de desviar a finalidade das manifestações para tentar um golpe de Estado. Mais a frente, os manifestantes dariam um ultimato ao presidente para atender suas reivindicações até meia-noite de outubro, ameaçando-o com a instauração de uma greve geral que paralisaria o país. Para isso, eles contariam com apoio dos sindicatos e também de ONGS que possuem grande influência no cenário social do país (Visão da África, 2025). Por fim então as forças militares da Capsat (unidade militar focada no lado administrativo e técnico mas com grande influência) apoiaram os protestos e intensificaram as manifestações (BBC, 2025; DW, 2025). 

             

No dia 13, o presidente desapareceu, sob acusações de que teria deixado o país com ajuda de um avião militar francês. Fazendo uma transmissão via Facebook ele declarou estar em lugar seguro e depois deu ordens para dissolver a Assembleia Nacional para impedir o avanço do seu processo de impeachment. Porém, a crença geral em Madagascar era de que o Presidente havia abandonado seu país. O Parlamento considerou ilegal a destituição, sobretudo por Rajoelina não se encontrar mais no país, então convocou uma sessão extraordinária no dia 14 onde constataram “a ausência de poder em Madagascar”. O presidente então foi deposto e o certo nesse momento era que se assumisse o presidente do Senado, porém esse havia saído do país com o primeiro ministro deposto no início das manifestações. Com isso, abriu-se espaço para que os militares tomassem o poder, mas numa correlação de forças frágil, pois, se não atendessem às reivindicações de manifestantes, os protestos continuariam (BCC, 2025, DW, 2025, Visão da África, 2025). 

            

O desgaste de Rajoelina foi evidente. Sua deposição veio das mãos de um parlamento do qual possuía maioria e era visto como subordinado ao Presidente. Depois, o caminho traçado pelos militares também veio por suas mãos. Ao indicar um novo primeiro-ministro no começo das manifestações o mesmo não teve tempo de concluir seu gabinete. Ele indicou um Minisitro Militar que passou seu cargo para o coronel Michael Randrianirina da Capisat. No dia 14 ele de fato assumiu o poder. Sem dissolver o parlamento, mas suspendendo a constituição, Randrianirina assumiu como Presidente da “Refundação” da República Malgaxe. Em seu discurso de posse elogiou a juventude, em especial a geração Z, os chamando de ambiciosos e que foram para rua contra a corrupção, autoritarismo e desvio de recursos naturais. O novo presidente também sublinhou a questão dos direitos humanos, o que é de extrema importância para os manifestantes , assim como os processos e o calendário da transição de governo (Visão da África, 2025). 

               

No cenário externo, a União Africana declarou que os militares devem “abster-se de interferir” nos assuntos políticos de Madagascar e alertou que “rejeita totalmente qualquer tentativa de mudança inconstitucional de governo” (BCC, 2025). A organização chegou a suspender Madagascar, mas especialistas acreditam que isso seja temporário. Quanto ao reconhecimento do resto do mundo, a posse contou com representantes dos EUA, União Européia, China, Rússia e até mesmo a França que era considerada como inimiga pelos manifestantes. Esse reconhecimento de autoridades estrangeiras é incomum após golpes de Estados, mas indicam que há um reconhecimento implícito ao novo regime. Os especialistas se preocupam principalmente com o caráter militar do governo, que ao remover o ex-presidente de forma forçada corre risco de continuar no mesmo ciclo de instituições frágeis e um exército relativamente mais forte que intervém a favor de elites empresariais e políticas. Essa preocupação pode ser vista pela escolha do ministro da economia do novo governo, que possuía laços com o antigo regime e desagradou os manifestantes. O governo de Randrianirina respondeu que o ministro se encaixa bem à democracia e por hora parece que o ministro foi aceito. O novo ministro terá grandes desafios para superar o cenário de pobreza do país (DW, 2025; Visão da África, 2025).

            

Por fim, cabe destacar que, após os militares assumirem, a transição de governo foi pacífica. Na última semana de outubro, foi finalizada a composição de seu gabinete, que conta com 25 civis e 4 oficiais militares ou paramilitares. Parte desse gabinete é formado por críticos ao antigo governo como Christine Razanamahasoa, que perdeu a presidência da assembleia nacional para o partido do antigo presidente,  empossada agora como ministra de relações exteriores e Fanirisoa Ernaivo, oponente exilado do ex-presidente que foi nomeado ministro da justiça. O cenário posto agora é que o país será gerido pelo governo de transição ao lado de um comitê militar por 2 anos até novas eleições serem organizadas (Visão da África, 2025; Reuters, 2025).

             

Reivindicações Geração Z – Madagascar

            

As manifestações malgaxes foram uma reação contra a escassez de água e eletricidade, mas se ampliou para bandeiras anticorrupção em manifestações lideradas pelos jovens e organizadas via redes sociais como Tik Tok e Facebook no chamado “Movimento Gen Z Madagascar”. Eles queriam soluções reais para os problemas de cortes de água e energia, água imprópria para consumo, fios energizados, envenenamento da água, condições insalubres, perdas econômicas e danos aos alimentos (DW, 2025). Havia também queixas contra o aumento do custo de vida. O grande estopim para as manifestações foram então a prisão em 19 de setembro de 2 políticos da capital de Madagascar, Antananarivo, que organizariam protestos pacíficos contra os apagões e escassez de água. As manifestações escalaram até se sedimentar num pedido pela renúncia do Presidente (BBC, 2025).

             

Agora, com o sucesso parcial das manifestações e a chegada do governo militar, os manifestantes pedem no curto prazo o reabastecimento de água e energia, além do retorno da vida comercial do país. No campo político, a Gen Z junto de seus aliados sindicais querem que o governo de transição seja de fato de 2 anos e que tenha participação dos civis. Um governo militar, como parecia que seria inicialmente, não seria bem aceito pelos manifestantes que ainda podem continuar seus protestos a qualquer momento. Porém, na atual situação, militares e manifestantes parecem ter entendido porque o segundo grupo entende que o apoio do primeiro foi essencial para cumprir a demanda de derrubar o ex-presidente (DW, 2025; BBC, 2025; Visão da África, 2025). 

           

Referências

          

AWAMI, Sammy. Militares anunciam tomada de poder em Madagascar após impeachment. BCC News Brasil, 14 de out. de 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1k077lwd78o. Acesso: 29 de out. 2025.

       

CÉSAR AVÓ. Revolta da Geração Z em Marrocos. Protestos agravam-se com a morte de três jovens. Disponível em: <https://www.dn.pt/internacional/revolta-da-gerao-z-em-marrocos-protestos-agravam-se-com-a-morte-de-dois-jovens>. Acesso em: 26 out. 2025.

‌        

COLIN, F. Gen Z 212 Earthquake: Youth Shaking Morocco’s Politics. Disponível em: <https://www.arab-reform.net/publication/gen-z-212-earthquake-youth-shaking-moroccos-politics/>.

       

DA, P. Protestos da Geração Z em Marrocos deixam mortos e feridos. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/02/protestos-geracao-z-marrocos-contra-copa-do-mundo-deixam-mortos-feridos.ghtml>. Acesso em: 26 out. 2025.

        

DW. Entenda a crise em Madagascar impulsionada pela geração Z. DW, 14 de out. de 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/entenda-a-crise-em-madagascar-impulsionada-pela-gera%C3%A7%C3%A3o-z/a-74352489. Acesso em: 28 de out de 2025. 

        

FRANCISCO, S. Descontentamento da Geração Z derruba três governos e ameaça a estabilidade de Rabat. Disponível em: <https://ihu.unisinos.br/658953-descontentamento-da-geracao-z-derruba-tres-governos-e-ameaca-a-estabilidade-de-rabat>. Acesso em: 26 out. 2025.

         

Geração Z está derrubando governos — mas protestos nas redes sociais geram mudanças duradouras? – BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0kn6xngdnno>. Acesso em: 26 out. 2025.

        

GEN Z protests are shaking Morocco. Here’s what to know. AP News, 4 out. 2025. Disponível em: https://apnews.com/article/morocco-gen-z-protests-king-explainer-106e99e49835fca17da9d1ee411b78f5. Acesso em: 27 out. 2025.

     

IBRIZ, S. Au Maroc, 36% des établissements d’enseignement sont privés (chiffres 2020). Disponível em: <https://medias24.com/2021/11/11/36-des-etablissements-denseignement-au-maroc-sont-prives-chiffres-2020/>. Acesso em: 26 out. 2025.

       

JAZEERA, A. Morocco king calls for social reforms amid youth-led protests. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2025/10/10/youth-led-protests-in-morocco-push-for-reforms-ahead-of-kings-speech>.

       

JOVENS exigem demissão do Governo de Marrocos após seis dias de protestos. Observador, 3 out. 2025. Disponível em: https://observador.pt/2025/10/03/jovens-exigem-demissao-do-governo-de-marrocos-apos-seis-dias-de-protestos/. Acesso em: 27 out. 2025.

      

Jovens protestam em Marrocos por grandes reformas no país. Disponível em: <https://pt.euronews.com/2025/10/10/jovens-protestam-em-marrocos-por-grandes-reformas-no-pais>. Acesso em: 26 out. 2025.

      

MOROCCO: more than 1,500 prosecutions after Gen Z protests. Africanews, 26 out. 2025. Disponível em: https://www.africanews.com/2025/10/26/morocco-more-than-1500-prosecutions-after-gen-z-protests/. Acesso em: 27 out. 2025.

        

MOROCCAN youth demand reforms, release of detainees in ‘Gen Z’ protests. Middle East Monitor, 26 out. 2025. Disponível em: https://www.middleeastmonitor.com/20251026-moroccan-youth-demand-reforms-release-of-detainees-in-gen-z-protests/. Acesso em: 27 out. 2025.

       

‌Morocco 2011 Constitution – Constitute. Disponível em: <https://www.constituteproject.org/constitution/Morocco_2011>.

       

MATHEUS GONÇALVES. Tendência? Protestos da Geração Z geram violência no Marrocos. Disponível em: <https://exame.com/mundo/tendencia-protestos-da-geracao-z-geram-violencia-no-marrocos/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento>. Acesso em: 26 out. 2025.

         

No Marrocos, na Ásia ou no Peru, movimento Geração Z ganha impulso com “efeito espelho” na internet. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2025/10/02/no-marrocos-na-asia-ou-no-peru-movimento-geracao-z-ganha-impulso-com-efeito-espelho-na-internet.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 26 out. 2025.

      

PROTESTOS da geração Z: Marrocos ‘vive um ambiente de fim de ciclo’. RFI, 4 out. 2025. Disponível em: https://www.rfi.fr/pt/africa/20251004-protestos-da-geracao-z-marrocos-vive-um-ambiente-de-fim-de-ciclo. Acesso em: 27 out. 2025

        

ACHPR. The African Commission on Human and Peoples’ Rights deplores the death in Custody of Mr. Albert Omondi Ojwang in the Republic of Kenya. ACHPR. Disponível em: https://achpr.au.int/pt/node/4292. Acesso em: 27 out. 2025.

           

AFP; Le Monde. Kenya police watchdog says 65 dead after recent anti-government protests: The east African nation has been shaken by a wave of demonstrations against police brutality and poor governance under President William Ruto in the last two months.. Le Monde. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/07/24/kenya-police-watchdog-says-65-dead-after-recent-anti-government-protests_6743690_4.html. Acesso em: 27 out. 2025.

      

IPOA. Media Enquiry From Ntv’s Rose Wangui On The June 25th And July 7th 2025 Protests. IPOA/CEO/PRESS, v. 30, n. 2. Disponível em: https://ipoa.news/wp-content/uploads/2025/09/343.-NTV-Media-Enquiry-into-the-June-July-Protests-14.08.2025.pdf. Acesso em: 27 out. 2025.

       

KIBII, Eliud. How Ruto’s populist youth promises have come back to haunt him. The Star. Disponível em: https://www.the-star.co.ke/news/2025-07-13-how-rutos-populist-promises-are-back-to-haunt-him. Acesso em: 27 out. 2025.

       

MAGALE, Eric; Schmidt, Mario. Kenya protests show citizens don’t trust government with their tax money: can Ruto make a meaningful new deal?. The Conversation. Disponível em: https://theconversation.com/kenya-protests-show-citizens-dont-trust-government-with-their-tax-money-can-ruto-make-a-meaningful-new-deal-234008. Acesso em: 27 out. 2025.

        

MBUGUA, Judy. Why Kenya’s Gen Z Has Taken to the Streets. Journal of Democracy. Disponível em: https://www.journalofdemocracy.org/online-exclusive/why-kenyas-gen-z-has-taken-to-the-streets. Acesso em: 27 out. 2025. 

       

MUIA, Wycliffe; Plett Usher, Barbara; Waihenya, Brian. Why the death of a blogger has put Kenya’s police on trial. BBC. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cwy3eqpqqnzo. Acesso em: 27 out. 2025.

         

REUTERS. Madagascar’s military-led government names mostly civilian cabinet. Reuters, 28 out. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/africa/madagascars-military-led-government-names-mostly-civilian-cabinet-2025-10-28/#:~:text=By%20Reuters,weeks%20of%20youth%2Dled%20protests. Acesso em: 29 out. 2025.

         

RUKANGA, Basillioh. Is William Ruto the most disliked president in Kenya’s history?. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c93kv37qdeno. Acesso em: 27 out. 2025.

           

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 29 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/7ImS5OgXV4n4UiOuIBtF3f?si=ZhXXqZUvT1Ke_vsac6iJeg Acesso em: 28 out. de 2025.

           

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 30 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/3jDP8aKo4T1Ce72mdmXv4X?si=Z5kvkkFdQDKneoAjBRHR5A. Acesso em: 28 out. de 2025.

              

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 02 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/0lKHEzHAlyxdqYZb43ua7F?si=Z_QFNzIyTBq7CH-jCpIyOA  .Acesso em: 28 out. de 2025.

        

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 07 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/09U9RI8CFxJ677skXscKOs?si=vm3RrdhTQ_uEUkgXN3jtTQ  Acesso em: 28 out. de 2025.

        

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 07 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/09U9RI8CFxJ677skXscKOs?si=vm3RrdhTQ_uEUkgXN3jtTQ  Acesso em: 28 out. de 2025.

         

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 08 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/0Kvd5Txorxkzoxerr0ZKDm?si=nhOJFaMKRxSXZtgkVx8MGw . Acesso em: 28 out. de 2025.

       

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 13 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/2TU4yJ18EIqR6sbcZhOFuL?si=A2q-UdQaR6CbeoTmPFAKWg . Acesso em: 28 out. de 2025.

         

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 14  de set. de 2025. Podcast. Disponível em:  https://open.spotify.com/episode/0Ad7OwoKtrQlASoNhEvKpx?si=f94539f28e5242bb Acesso em: 28 out. de 2025.

       

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África,  16 de set. de 2025. Podcast. Disponível em:  https://open.spotify.com/episode/5krjAi4unIxSkIQ7UQBF9c?si=230e991beca1412c. Acesso em: 28 out. de 2025.

        

VISÃO de África. José Gonçalves. Angola. Visão de África, 21 de set. de 2025. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5Ow2hMNhgubbyTwyYdfT6u?si=e57ffa11bea34f28 Acesso em: 28 out. de 2025.

      

WANDERA, Akisa ; Rukanga, Basillioh. Protest hits Kenya after shock death of man held by police. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cwy3eqpqqnzo. Acesso em: 27 out. 2025.

        

“What do the IMF and foreign debt have to do with Kenya’s current crisis?” . Al Jazeera, Julho de 2024. Link disponível em:   <https://www.aljazeera.com/news/2024/7/7/why-are-kenyans-angry-with-the-imf>. Acesso em 28/10.

           

“Protestos no Quênia contra governo deixam 16 mortos, diz grupo”. CNN Brasil, Junho de 2025. Link disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/protestos-no-quenia-contra-governo-deixam-mortos-diz-grupo/>. Acesso em 26/10.

       

“Kenya’s protests are not a symptom of failed democracy. They are democracy”. Al Jazeera, Julho de 2025. Link disponível em:  <https://www.aljazeera.com/opinions/2025/7/28/kenyas-protests-are-not-a-symptom-of-failed-democracy-they-are-democracy>. Acesso em 26/10.

           

“Sobe para 31 número de mortos nos protestos no Quénia”. DW, Julho de 2025. Link disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/sobe-para-31-n%C3%BAmero-de-mortos-nos-protestos-contra-o-governo-no-qu%C3%A9nia/a-73206465>. Acesso em 28/10.

            

“Protestos no Quênia: Como geração Z forçou presidente a recuar”. BBC News Brasil. Junho de 2024. Link disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cljy8d1jw6ro>. Acesso em 26/10.

             

“Inside Kenya’s Gen Z protest movement”- Global Eye, BBC World Service. Canal BBC World Service Youtube. Link disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_q3VkWny8J0>. Acesso em 28/10. 


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *