Brasil: Integração Regional na América Latina e o Debate do Subimperialismo

Ano VI, nº 115, 28 de novembro de 2025

               

Por Alexandre Favaro Lucchesi

(Imagem: novo mapa-múndi do IBGE com o Brasil no centro)

          

Examina-se criticamente a hipótese de um Brasil subimperialista na América Latina à luz do debate desde a Teoria Marxista da Dependência, discutindo reformulações contemporâneas, os conceitos de “soft power” e “smart power” de Joseph Nye Jr. e o papel brasileiro nos projetos de integração regional.

      

Neste texto, aborda-se o debate histórico e atual sobre o possível caráter subimperialista do Brasil em relação à América Latina, conceito oriundo da Teoria Marxista da Dependência (TMD). Avalia-se criticamente essa hipótese, que sugere que o Brasil agiria como uma potência intermediária exercendo influência dominadora sobre vizinhos em benefício da ordem capitalista global, e confrontam-se interpretações alternativas, embasadas em dados recentes e na literatura crítica ao termo. 

       

A análise enfatiza o eixo da integração regional, investigando se a atuação brasileira em iniciativas como Mercosul, Unasul, CELAC e CAF reflete tendências subimperialistas ou antes uma liderança cooperativa sustentada por “soft power” e “smart power”. 

      

A HIPÓTESE ORIGINAL DO SUBIMPERIALISMO E A RETOMADA DO DEBATE

     

O conceito de subimperialismo, formulado nas décadas de 1960 e 1970 por Ruy Mauro Marini, descreveu a condição de países dependentes que, ao atingirem um certo grau de industrialização monopolista e financeira, passam a exercer funções imperialistas sobre economias vizinhas menos desenvolvidas, apesar de continuarem subordinados às potências centrais. No caso do Brasil, uma economia periférica, mas relativamente industrializada, seu processo de inserção nas dinâmicas globais teria reproduzido, simultaneamente, a manutenção da dependência dos países centrais e a emergência de uma dominação regional (MARINI, 2012).

        

Além de Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos viam esse fenômeno como parte da dinâmica do capitalismo dependente latino-americano. Bambirra (1974) chegou a debater a ideia de que algumas potências dependentes poderiam exercer um certo “domínio periférico” ao se expandirem economicamente na região, ainda que continuassem subordinadas estruturalmente às metrópoles globais. Dos Santos (1978), por sua vez, integrava essa análise ao quadro mais amplo do imperialismo, apontando que a burguesia local poderia atuar como sócia menor do imperialismo global, beneficiando-se da exploração regional sem romper os laços de dependência dos centros hegemônicos. 

           

Assim, o Brasil, sob um regime autoritário alinhado aos EUA e em expansão econômica regional, seria o caso de uma potência regional que intervinha econômica e politicamente em países vizinhos, via investimentos, acordos preferenciais, apoio a ditaduras locais etc. para ampliar seus mercados e influência, agindo em última instância como extensão da ordem imperialista.

            

Essas ideias geraram intensos debates, por exemplo em relação à ideia da dependência “associada” de Cardoso e Faletto (1970), cujo argumento indicava o “desenvolvimento associado” latino-americano com o capital externo, e que, por isso, o país teria superado a fase imperialista do capitalismo (MELO, 2007). Se adotada essa interpretação, o Brasil sob o regime militar (1964-1985) seria entendido como um país periférico inserido numa nova interdependência, no qual as elites buscavam desenvolvimento em aliança, e não em conflito. 

         

Esse debate inaugurou uma vasta literatura crítica à hipótese subimperialista. Muitos autores passaram a questionar se o Brasil realmente teria capacidade e intenção de agir como potência dominadora na região ou se sua atuação não estaria melhor explicada por outros paradigmas. Com a virada do milênio e especialmente durante o auge do protagonismo internacional brasileiro nos governos Lula (2003-2010), o debate sobre o caráter subimperialista do Brasil foi reavivado. Zibechi (2012) sugeriu que a busca brasileira por liderança regional e global na década de 2000 poderia estar oscilando entre a integração solidária e pretensões imperialistas. 

            

No entanto, Berringer (2013) e Luce (2014) argumentaram que o conceito original de Marini precisava ser atualizado e aplicado com cautela à nova conjuntura, levando em conta transformações como a financeirização, o papel da China e as limitações estruturais do Brasil enquanto economia semiperiférica. Muito embora existam traços “subimperiais” na internacionalização de empresas brasileiras e nas iniciativas regionais, o Brasil não dispõe de meios de coerção como o poder militar-projetivo nem de uma agenda explicitamente expansionista de dominação territorial.

        

A INFLUÊNCIA “BRANDA” DO BRASIL NA AMÉRICA LATINA

           

No campo político-diplomático, ao contrário de potências imperialistas clássicas, o Brasil não recorreu ao uso direto da força militar para controlar países vizinhos, nem patrocinou mudanças de regime pela via violenta, com a possível exceção da polêmica liderança da MINUSTAH (missão de paz da ONU no Haiti entre 2004-2017), que alguns críticos qualificaram como braço subimperial ao atender interesses geopolíticos dos EUA (LUCE, 2007). Mas mesmo esse caso é objeto de debate acirrado. 

         

De modo geral, a diplomacia brasileira pós-redemocratização tem enfatizado princípios de não intervenção, diálogo e multilateralismo, o que contrasta com políticas de potências regionais hegemonizadas pelo uso da força. Conceitos do “líder sem seguidores” (MALAMUD, 2011) e da “hegemonia consensual” (BURGES, BASTOS, ROGERS, 2016) descrevem o Brasil como um líder regional sui generis, que tenta exercer influência pela persuasão e pelo exemplo, mais do que pela imposição. De modo que o país seria capaz de buscar liderança e vantagens na região, porém de formas não coercitivas e até benéficas para os vizinhos.

             

Um exemplo expressivo da diplomacia brasileira de persuasão e intermediação foi o papel assumido frente à crise política na Venezuela. Desde o início da década de 2010, o Brasil buscou manter canais abertos com diferentes setores do governo e da oposição venezuelana, adotando uma postura de não intervenção combinada com mediação discreta. Essa linha foi intensificada no terceiro governo Lula, quando o Brasil retomou sua posição de articulador regional, promovendo fóruns de diálogo entre líderes sul-americanos sobre a situação venezuelana, como a Cúpula de Brasília de 2023, que buscou reintegrar a Venezuela aos mecanismos multilaterais sul-americanos.

            

Da perspectiva do “soft power”, isto é, a partir da capacidade de moldar as preferências dos outros sem coerção, levando outros atores a objetivos convergentes pela admiração ou por convencimento (NYE JR., 2004; 2011), o Brasil historicamente lançou mão de sua diplomacia cultural e do discurso universalista em prol de direitos humanos, multilateralismo e cooperação Sul-Sul. 

                

Ainda seguindo Nye Jr. (2004), a partir do conceito de “smart power”, que é a combinação estratégica do “hard power” com o “soft power”, seria possível debater se o Brasil exerce algum tipo de hegemonia na América Latina calcado em poder econômico e jurídico, por meio de um mercado consumidor amplo, investimentos externos e até mesmo os financiamentos via BNDES, de um lado, e em certa influência normativa com participação em regimes internacionais, de outro. 

              

A realização da COP30 em Belém, em 2025, reforça essa dimensão normativa da política externa brasileira. A liderança ambiental e climática, que exige coordenação transnacional e diálogo científico, consolida o Brasil como ator de “soft power”, capaz de articular agendas globais sem coerção e de mobilizar países vizinhos em torno de compromissos regionais para a Amazônia, bioeconomia e transição energética.

            

INTEGRAÇÃO REGIONAL COMO FOCO

          

É no terreno da integração regional que o Brasil tem sido arquiteto e principal pilar de diversos mecanismos na América Latina. O Mercosul atendeu tanto a interesses econômicos brasileiros quanto a um objetivo geopolítico de estabilizar e aproximar os vizinhos num contexto pós-Guerra Fria. Por outro lado, o funcionamento do Mercosul tem se pautado, pelo menos formalmente, pelo princípio do consenso e pela regra da unanimidade em decisões importantes. E o Brasil frequentemente fez concessões comerciais e financeiras, aceitando assimetrias no Tratado de Assunção assinado em 1991, criando fundos de compensação como o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) e mesmo tolerando exceções tarifárias solicitadas pelos sócios menores. 

             

De modo que, dentre os argumentos que apontam o poder imperial do Brasil no bloco, está o de sua pujança comercial intra-bloco. Cerca de 40% das exportações de manufaturados brasileiros direcionam-se para o Mercosul e para outros países da América do Sul, especialmente veículos, eletrodomésticos e produtos químicos. Essa dependência é vista, não obstante, como intercâmbio mútuo por interpretações neoestruturalistas (RODRIGUEZ, 2009; ALMEIDA, SALOMÃO, 2021), pois os vizinhos se beneficiam de produtos mais baratos ou investimentos que, de outra forma, não teriam acesso, e destacam que o Brasil também concede preferências e sofre concorrência, por exemplo, das exportações agrícolas argentinas.

                  

Os dados da Tabela 1 ilustram que o Brasil tem margem objetiva para atuar como potência regional, concentrando quase metade do gasto militar da América do Sul. Embora relevante, o dado deve ser interpretado com cautela, pois os recursos são majoritariamente voltados à defesa territorial e logística interna, não à projeção ofensiva de poder. Há, no limite, uma assimetria estrutural, o que então pode favorecer o papel de liderança cooperativa do Brasil ou alimentar percepções de hegemonismo.

               

Tabela 1: Indicadores comparativos – Brasil vs. América Latina (2023)

 

Brasil

América Latina e Caribe

População (milhões)

203,00

660,00

PIB (US$ trilhões)

2,10

5,00

PIB per capita (US$)

10.200,00

7.600,00

Gasto militar (US$ bilhões)

22,90

60,00

Fontes: IBGE, ONU, Banco Mundial, SIPRI.

              

A própria experiência da União de Nações Sul-americana (Unasul), lançada em 2008 sob forte impulso brasileiro, reforça o caráter ambivalente. Vista como um espaço sem a presença dos EUA no qual o Brasil seria o mediador natural, de fato o país arcou com boa parte do orçamento inicial e propôs iniciativas como o Conselho Sul-Americano de Defesa, posicionando-se como líder regional em segurança. Por outro lado, a Unasul operou por consenso e foi inclusive paralisada quando um grupo de países menores, liderados pela Colômbia, então de orientação oposta ao Brasil, bloqueou decisões, mostrando que o Brasil não conseguia impor sozinho sua vontade.

                    

No campo financeiro, merece menção a atuação brasileira no Banco de Desenvolvimento da América Latina, originalmente a Corporação Andina de Fomento desde 1968. Entre 2014 e 2022, aportou cerca de R$ 2,8 bilhões no capital do banco, tornando-se um dos principais acionistas. O banco e o BNDES, junto a outras instituições, têm financiado dezenas de projetos de estradas, hidrelétricas, linhas de transmissão e corredores logísticos ligando o Brasil a países vizinhos. Já a Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) resultou na construção de rodovias e hidrovias ligando o Centro-Oeste brasileiro aos portos do Pacífico, atravessando territórios de países andinos. Tais obras escoam soja e minérios brasileiros pelo Peru/Chile, com pouco ganho fiscal ou tecnológico para esses países.

                 

Talvez a iniciativa da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), criada em 2010 com forte apoio brasileiro, seja o elemento mais explicitamente baseado no multilateralismo igualitário, pois o foro sempre foi co-liderado por outros grandes países como México e Argentina. O Brasil utilizou a CELAC para projetar sua imagem de porta-voz do Sul Global, defendendo posições conjuntas em relação aos EUA/Europa e articulando cooperação Sul-Sul inter-regional, por exemplo, as Cúpulas CELAC–China. A alternância na presidência pró-tempore da CELAC impede controle por um só país. Durante o governo Bolsonaro, o Brasil chegou a se retirar da CELAC, isolando-se. Com Lula, retornou em 2023 e sediou a reunião da CELAC sobre Amazônia, retomando a ideia de coordenação regional em áreas como desenvolvimento sustentável e clima, enquanto que o foro foi acionado, em 2025, para tratar de tensões diplomáticas e de segurança.

                  

A preparação regional para a COP30 também evidencia que a política climática é hoje um vetor central da integração latino-americana. A atuação brasileira na CELAC, na OTCA e em agendas pan-amazônicas tem buscado construir posições comuns para a conferência, reforçando um padrão de liderança cooperativa e multilateral. Organizações latino-americanas e caribenhas já debatem estratégias comuns, ao passo que o governo brasileiro lançou na conferência um plano de governança multinível, sinalizando que a crise climática será tratada como agenda coletiva, com mobilização de diferentes níveis de governo e sociedade civil.

              

Ainda em 2023, a iniciativa “Rotas para a Integração” apresentada pelo Brasil em parceria com a então CAF e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi orçada em US$ 10 bilhões para projetos integradores, sob a premissa de que “a integração precisa ser desenhada de forma a beneficiar o conjunto dos países e suas populações”. Essa declaração, acompanhada da participação de ministros de toda a região na seleção de prioridades, demonstra a preocupação em evitar a percepção de imperialismo e construir soluções legitimadas regionalmente.

             

Por fim, o Acordo Mercosul–União Europeia, negociado desde 1999 e concluído tecnicamente em 2019, revelou tensões internas entre a busca por abertura comercial e os compromissos com o desenvolvimento regional. Durante os governos Temer e Bolsonaro, o Itamaraty favoreceu um discurso liberalizante alinhado à competitividade global, o que levou críticos a argumentarem que o Brasil estaria utilizando o Mercosul como plataforma de projeção externa, subordinando os interesses dos parceiros menores às suas próprias ambições geoeconômicas. 

               

Já no terceiro governo Lula, a postura brasileira foi de reafirmar o acordo, mas exigindo cláusulas de salvaguarda para setores, proteção ambiental e flexibilidades para compras governamentais. O impasse político para ratificá-lo e as divergências sobre condicionalidades ambientais, principalmente com França e Alemanha, evidenciam que o Brasil tenta equilibrar sua condição de potência emergente global com o papel de líder regional responsável.

                

CONCLUSÃO

           

O Brasil de hoje é o maior ator sul-americano em termos de população, economia e poder de defesa e exerce influência significativa em toda a América Latina. Mas os meios pelos quais exerce essa influência tendem a se apoiar muito mais em diplomacia, cultura, cooperação e em mecanismos institucionais do que em coerção aberta ou domínio colonial clássico. A atuação brasileira nos processos de integração regional examinados sugere uma postura mais voltada à liderança cooperativa, embora orientada por seus interesses nacionais, do que a uma exploração subimperial deliberada.

                  

Há elementos factuais que dão suporte ao uso do conceito de subimperialismo aplicado ao Brasil como a exportação de capitais, a dominância econômica em blocos regionais, o protagonismo diplomático seletivo e a coordenação em defesa regional sob égide brasileira. Porém, há igualmente fortes evidências de limites e contrapesos a essa dinâmica como resistências regionais, déficit de poder militar, opção preferencial por ferramentas de “soft power” e engajamento em instituições multilaterais. Portanto, o Brasil deve ser visto menos como um “subimpério” e mais como uma liderança que é capaz de articular e impulsionar a integração latino-americana, mas dependente do equilíbrio geopolítico.

            

REFERÊNCIAS

      

ALMEIDA, Beliza Borba; SALOMÃO, Ivan Colângelo. A atualidade do pensamento cepalino: do estruturalismo ao neoestruturalismo. Desenvolvimento em Questão, ano 19, n. 54, jan./mar. 2021.

       

BAMBIRRA, Vania. El capitalismo dependiente latinoamericano. México, Distrito Federal: Siglo Veinteuno, 1974.

          

BERRINGER, Tatiana. A tese do imperialismo brasileiro em questão. Crítica Marxista, Campinas, SP, v. 20, n. 36, p. 115–127, 2013.

         

BURGES, Sean W.; BASTOS, Fabrício H. Chagas; ROGERS, Matthew T. Hegemonia consensual: por uma teorização sobre a Política Externa Brasileira no pós-Guerra Fria. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 5, n. 9, p. 357-385, 2016. 

               

CARDOSO, Fernando Henrique e FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

         

DOS SANTOS, Theotônio. Imperialismo y dependencia. México, Distrito Federal: Ediciones Era, 1978.

        

LUCE, Mathias Seibel. O Imperialismo hegemônico e o subimperialismo brasileiro: diagnóstico e alternativas. XXVI Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología. Asociación Latinoamericana de Sociología, Guadalajara, 2007. 

         

LUCE, Mathias Seibel. O subimperialismo, etapa superior do capitalismo dependente. Tensões Mundiais, Fortaleza, CE, v.10, n. 18,19, p.43-65, 2014.

         

MALAMUD, Andrés. A Leader Without Followers? The Growing Divergence between the Regional and Global Performance of Brazilian Foreign Policy. Latin American Politics and Society 53 (3):1-24, 2011. 

       

MARINI, Ruy Mauro. A acumulação capitalista mundial e o subimperalismo. Tradução: Maíra Machado Bichir e Fábio Pádua dos Santos. Outubro, n. 20, 1° sem. 2012

       

MELO, Wanderson Fábio de. Interpretações sobre o desenvolvimento brasileiro a partir dos anos 70 interdependência ou subimperialismo? o debate entre Fernando Henrique Cardoso e Ruy Mauro Marini. Anais do V Colóquio Internacional Marx e Engels, Cemarx, IFCH, Unicamp, 2007. 

           

NYE JR., Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs, 2004.

           

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RODRÍGUEZ, Octavio. O estruturalismo latino-americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

         

ZIBECHI, Raúl. Brasil Potência: entre a integração regional e um novo imperialismo. Rio de Janeiro: Consequência, 2012.

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