Brasil frente aos dilemas da Nova Ordem Hemisférica

Foto: Itamaraty, arte no Canvas. 

Fonte: Wikipedia (domínio público)

 

Ano VII, nº 117, 28 de janeiro de 2026

 

Por Alexandre Favaro Lucchesi (Imagem: Carlos Cruz/MRE)

 

Analisa-se a reconfiguração da política externa brasileira e latino-americana no contexto da reatualização da Doutrina Monroe sob o governo Trump, examinando como esse movimento impacta os projetos de integração regional, a relação com a União Europeia, a agenda de reindustrialização e a aproximação com os BRICS, à luz das transformações geopolíticas recentes, das disputas por autonomia estratégica e das tensões entre alinhamento e desenvolvimento no Mercosul e na América Latina.

INTRODUÇÃO

O ano de 2026 apresenta-se como um ponto de inflexão para a política externa brasileira. A recomposição do poder estadunidense no Hemisfério Ocidental, sob a égide de uma releitura explícita da Doutrina Monroe na administração Donald Trump (a “Doutrina Donroe”) recoloca a América Latina no centro de disputas geopolíticas de alta intensidade. A região volta a ser concebida como espaço prioritário de contenção estratégica frente ao avanço da China, da Rússia e, em menor medida, de articulações Sul-Sul mais autônomas. Esse contexto impõe ao Brasil desafios que transcendem o plano diplomático estrito, alcançando a esfera do desenvolvimento econômico, da política industrial e da inserção internacional de longo prazo.

Desde o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2023, a política externa brasileira tem buscado reconstruir uma estratégia de autonomia ativa, combinando multilateralismo, diversificação de parcerias e revalorização da integração regional. Tal movimento ocorre em contraste direto com o ambiente internacional marcado pelas ações unilaterais, pela instrumentalização de sanções econômicas e pelo uso da política comercial e financeira como instrumentos de coerção geopolítica. Nesse cenário, iniciativas como a reativação do diálogo sul-americano, o fortalecimento do Mercosul, a aproximação com a União Europeia (UE) e o aprofundamento do papel do Brasil nos BRICS assumem uma dimensão que ultrapassa ganhos comerciais imediatos, adquirindo significado estratégico.

O argumento central deste artigo é que a política externa brasileira em 2026 não poderá ser compreendida isoladamente de estratégias no contexto da disputa global por tecnologias avançadas, minerais críticos e controle das cadeias de valor, o que recoloca a indústria no centro do debate sobre soberania. Assim, a diplomacia brasileira passa a operar em meio a tensões crescentes com os EUA e de oportunidades ambíguas oferecidas pelos seus concorrentes. 

HEGEMONIA HEMISFÉRICA E RECONFIGURAÇÃO DA AUTONOMIA

A Doutrina Monroe, proclamada em 1823, consolidou-se historicamente como um dos pilares da política externa norte-americana para o Hemisfério Ocidental. Embora originalmente apresentada como um princípio de não intervenção europeia nas Américas, sua aplicação prática ao longo dos séculos XIX e XX esteve frequentemente associada à legitimação de intervenções políticas, militares e econômicas dos Estados Unidos na América Latina. A literatura crítica latino-americana (FURTADO, 1969, QUIJANO, 2005, SCARFI, 2020) identifica, nesse processo, a construção de uma hegemonia assimétrica, sustentada por mecanismos de coerção direta e indireta.

No século XXI, observa-se uma reatualização dessa doutrina sob novas roupagens. Documentos estratégicos recentes do governo Trump reafirmam explicitamente a prioridade hemisférica da política externa dos EUA, associando-a à contenção da influência chinesa e russa na região, autorreferenciando-se como o “corolário Trump” da Doutrina Monroe. Estão sendo combinados elementos clássicos do hegemonismo estadunidense com instrumentos contemporâneos de poder estrutural, como controle financeiro, sanções, guerra tecnológica e pressão sobre rotas estratégicas de comércio e energia.

Para a América Latina, essa reconfiguração implica riscos significativos, desde a redução da margem de autonomia decisória, passando pela fragmentação regional e até a intensificação de disputas internas estimuladas por alinhamentos externos. É nesse contexto que a política externa brasileira deve se posicionar como fator de equilíbrio regional, rejeitando explicitamente a lógica de esferas de influência e defendendo o multilateralismo como princípio ordenador das relações internacionais.

O retorno do Brasil à diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, a partir de 2023, demanda uma inflexão em relação ao período anterior de alinhamento automático aos EUA e, o mais importante, reposiciona o país como defensor do direito internacional, da solução pacífica de controvérsias e da cooperação Sul-Sul, ao mesmo tempo em que busca reconstruir laços com parceiros tradicionais da Europa. Nesse sentido, o acordo Mercosul–UE adquire uma função que extrapola a dimensão comercial. Ainda que os ganhos econômicos imediatos sejam objeto de controvérsia — sobretudo em setores sensíveis como a indústria e a agricultura — o acordo é percebido por setores da diplomacia brasileira como um instrumento de ancoragem institucional do Mercosul e de diversificação estratégica frente à pressão dos EUA de Trump. Há, para além dos ideais de liberalização comercial, uma aposta geopolítica em favor da sobrevivência e do fortalecimento do bloco regional. 

Paralelamente, o Brasil intensifica sua atuação em fóruns multilaterais, como os BRICS e o G20, buscando articular uma agenda que combine reforma da governança global, financiamento ao desenvolvimento e cooperação tecnológica. Essa estratégia reflete a compreensão de que a autonomia internacional depende, crescentemente, da capacidade de inserção qualificada nas cadeias globais de valor e da redução da dependência tecnológica.

INDÚSTRIA E SOBERANIA TECNOLÓGICA

A centralidade da indústria retorna ao debate estratégico global em um contexto marcado pela etapa 4.0. Tecnologias como inteligência artificial, automação avançada, Internet das Coisas e sistemas ciberfísicos redefinem os padrões de competitividade internacional e aprofundam as assimetrias entre países centrais e periféricos (CHANG, ANDREONI, 2020). Para economias como a brasileira, a reindustrialização não se confunde com a simples retomada de capacidades produtivas tradicionais, mas exige uma estratégia de neoindustrialização orientada para setores de alto valor agregado (CAUVILLE, 2024).

Nesse quadro, a disputa por minerais críticos como terras raras, lítio e nióbio assume papel central. Esses insumos são fundamentais para a transição energética, para a indústria de defesa e para as tecnologias digitais avançadas. A concentração da capacidade de extração e processamento desses minerais, especialmente na China, cria novas dependências estratégicas e tensiona as relações entre grandes potências (SCHUTTE, FUSER, 2025). O Brasil, detentor de importantes reservas minerais e de uma base científica relevante, encontra-se diante de uma oportunidade histórica. A articulação entre política industrial, política externa e estratégia mineral pode permitir ao país ocupar uma posição mais ativa nas cadeias globais de valor. No entanto, essa possibilidade depende de escolhas institucionais e de alianças internacionais capazes de garantir transferência tecnológica, financiamento e proteção contra pressões geopolíticas adversas.

Os BRICS emergem, nesse contexto, como um espaço ambíguo, mas estratégico. De um lado, o grupo oferece alternativas ao financiamento tradicional, promove cooperação tecnológica e defende uma ordem internacional mais multipolar. De outro, sua heterogeneidade interna e as assimetrias entre seus membros impõem limites à construção de uma agenda comum plenamente articulada.

Ainda assim, iniciativas como a agenda industrial dos BRICS (BRICS BRASIL, 2025), o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento e a cooperação em tecnologias emergentes indicam possibilidades concretas de construção de capacidades produtivas e tecnológicas fora do eixo tradicional EUA–Europa. Para o Brasil, a participação ativa nesse bloco funciona como contraponto à pressão exercida pelos EUA, especialmente em um cenário de radicalização ideológica da política externa norte-americana sob Trump. Essa estratégia, contudo, não elimina tensões. A aproximação com China e outros parceiros do Sul Global pode gerar retaliações comerciais, financeiras ou políticas estadunidenses.

ECOSSISTEMA DIPLOMÁTICO ALTERNATIVO

O governo brasileiro articula uma estratégia de contenção da Doutrina Donroe para oferecer ao continente uma alternativa baseada na diversificação de parcerias e na defesa da soberania nacional e regional. Essa estratégia tem como objetivos centrais: a) evitar que processos eleitorais internos na América Latina sejam alvo de ingerência externa; b) impedir a formação de um bloco ultraconservador alinhado às opções geopolíticas dos EUA; e c) reforçar a presença brasileira junto a governos latino-americanos, inclusive aqueles de orientação política diversa, para reduzir o risco de isolamento regional.

Nesse contexto, a estratégia articula-se com iniciativas mais amplas de cooperação com países do Sul Global e de reafirmação do multilateralismo. Esse enfoque se manifesta na rejeição brasileira à divisão do mundo em esferas de influência e à ideia de “protetorados”, apresentada no Conselho de Segurança da ONU, o que reflete um posicionamento firme em defesa da soberania nacional e da legalidade internacional. Outro elemento relevante é o diálogo com potências não-ocidentais, como a China, que tem reafirmado apoio ao Brasil e ao conjunto dos países em desenvolvimento em fóruns multilaterais, enfatizando a necessidade de manter o papel da ONU e salvaguardar os interesses do Sul Global diante de turbulências internacionais recentes.

Essa política externa brasileira, baseada na diversificação de parcerias, fortalecimento institucional regional e defesa de princípios multilaterais, representa uma tentativa de criar um ecossistema diplomático alternativo às pressões de Trump que inclui estreitar os laços, por exemplo, com Bolívia, Equador e Paraguai.

CONCLUSÃO

O delicado exercício de equilíbrio é justamente diversificar parcerias sem romper canais de diálogo, de modo a preservar o Mercosul como projeto político e avançar em uma agenda de desenvolvimento soberano num mundo em que autonomia internacional e desenvolvimento econômico tornaram-se dimensões indissociáveis. A reatualização da Doutrina Monroe, a intensificação da competição tecnológica global e a fragmentação da ordem internacional impõem ao Brasil a necessidade de articular diplomacia, política industrial e integração regional em uma estratégia coerente de longo prazo.

Mais do que escolher entre alinhamentos, o desafio brasileiro reside em construir capacidades internas que ampliem sua margem de manobra externa. Nesse sentido, a neoindustrialização e a cooperação no âmbito dos BRICS não são alternativas excludentes à relação com a UE ou mesmo aos EUA, mas componentes de uma estratégia de diversificação e resiliência. O sucesso dessa trajetória dependerá da capacidade do país de sustentar institucionalmente essas escolhas diante de um cenário internacional cada vez mais conflitivo.

REFERÊNCIAS

BRICS BRASIL. BRICS approves declaration and advances sustainable industrial agenda with focus on technology and small businesses. Brasília, 2025. Disponível em: https://brics.br/en/news/brics-approves-declaration-and-advances-sustainable-industrial-agenda-with-focus-on-technology-and-small-businesses Acesso em: 9 jan. 2026.

CAUVILLE, Tatiane F. Ciência, tecnologia e inovação como elementos centrais de uma política de (neo)industrialização. In: KNORR VELHO, Sérgio Roberto (Org.). Neoindustrialização brasileira. Editora Blucher, 2024.

CHANG, Ha‐Joon; ANDREONI, Antonio. Industrial policy in the 21st century. Development and change, v. 51, n. 2, p. 324-351, 2020.

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. National Security Strategy of the United States of America. Washington, DC: The White House, 2025. Disponível em: https://trumpwhitehouse.archives.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf Acesso em: 9 jan. 2026.

FURTADO, Celso. Formação econômica da América Latina. Rio de Janeiro: Lia, 1969.

QUIJANO, Aníbal. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales), 2005.

SCARFI, Juan Pablo. Denaturalizing the Monroe Doctrine: The rise of Latin American legal anti-imperialism in the face of the modern US and hemispheric redefinition of the Monroe Doctrine. Leiden Journal of International Law. 2020;33(3):541-555. doi:10.1017/S092215652000031X

SCHUTTE, Giorgio Romano; FUSER, Igor. Transição energética. Editora Blucher, 2025.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *