Ano VII, nº 117, 28 de janeiro de 2026
Por Vivian Rocha (Imagem: Unsplash)
Quando Porfírio Díaz enunciou sua famosa frase “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”,estava se referindo ao México, país em que foi governante de 1876 a 1911, e que passara por um grande trauma nacional – uma guerra de consequências territoriais, entre 1846-1848, com os vizinhos norte-americanos, resultando na perda de quase metade de seu território à época. No entanto, essa frase poderia ser aplicada plenamente a toda a América Latina, inclusive, à América do Sul. Essa última, conhecida como parte integrante do “quintal” dos EUA, não teve a mesma “sorte” do México, mas também passou por diversas intervenções ianques – em sua maioria indiretas, retóricas, ideológicas e na forma de financiamentos a grupos antigovernistas.
Contudo, no início de janeiro de 2026, o mundo e a região presenciaram a efetivação de um plano sistemático de intervenção – ilegal e sorrateira – ao território soberano da Venezuela. Essa não implicou o apoderamento do território e a incorporação desse aos 50 estados norte-americanos, mas sim o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, bem como o seu deslocamento forçado para julgamento em jurisdição estrangeira – o juízo de Nova Iorque. Maduro já foi substituído, mais rápido que a luz, pela vice-presidente Delcy Rodríguez, que embora afirme ao seu eleitorado situação de independência frente a Washington, obteve sua benção para o exercício de seu governo.
Frisa-se que intervenções diretas não são praxe norte-americana desde o final do século XIX e ao longo do século XX. Enquanto países europeus expandiam seus domínios de forma direta, mormente invadindo e apropriando-se de territórios que contivessem matérias-primas, mão-de-obra e mercado consumidor absorvendo-os aos seus domínios, jurisdição e aparato burocrático-governamental, em clara alusão ao imperialismo clássico, os EUA preferiram agir através do imperialismo informal ou indireto.
Trata-se de uma forma de dominação em que um Estado ou potência exerce controle sobre outro sem ocupação territorial formal ou anexação política direta. Nesse caso, em vez de colonizar ou governar oficialmente, a potência dominante influencia ou condiciona as decisões econômicas, políticas, militares e culturais do país subordinado.
Na América Latina, essa pode ser representada pelo bordão da Doutrina Monroe (“América para os Americanos”), e por diversos episódios, desde a imposição do Tratado Hay-Bunau Varilla, de 1903, que acerta a construção e controle do canal do Panamá pelos EUA (por 99 anos) ao apoio e mentoria dos golpes militares instaurados na América do Sul nas décadas de 1960 e 1970[1]. A região passou a ser tratada como protetorado dos EUA, obedecendo aos comandos políticos de Washington, bem como servindo de mercado consumidor de seus bens e serviços, fornecedor de matérias-primas que não estão disponíveis em território ianque e grande receptor de investimentos estrangeiros norte-americanos (o que Garcia Márquez, inclusive, nos ilustrou literariamente). No entanto, nem sempre essa dominação é exercida de forma pacífica, estando a possibilidade de violência e grave ameaça sempre à disposição, o que foi bem representado na Doutrina do “Big Stick”, eternizada por seu interlocutor Theodore Roosevelt.
Nesse sentido, o conceito de imperialismo propugnado por Lênin em sua obra paradigmática “Imperialismo, fase superior do capitalismo”[2], ainda se aplica de alguma forma a esse caso. Petrolíferas norte-americanas, que foram prejudicadas pelas expropriações diretas realizadas pelo governo venezuelano chavista, nunca desistiram de tornar a canalizar as riquezas do ouro negro da terra de Bolívar e aumentar seus lucros. Recorde-se que expropriações são atos administrativos legítimos dos governos soberanos, desde que, segundo o Direito Internacional e a “fórmula Hull”, sejam precedidas de indenizações justas (valor de mercado), efetivas (pagas em moeda livremente conversível e transferível) e tempestivas (em tempo razoável), o que não ocorreu na Venezuela na visão dos investidores, e levou a arbitragens internacionais de investimentos contra esse Estado.
No entanto, o evento de janeiro de 2026 nos sugere uma ação com um objetivo de fundo diverso. Diferentemente do contexto analisado por Lênin, centrado nos países europeus e sua demanda por conquistas territoriais, vez que não possuíam reservas minerais e agrícolas suficientes para acompanhar a ampliação de sua produção (o que deu origem à Primeira Guerra Mundial), a realidade mundial e da América Latina (e do Sul) no século XXI é outra. Em um cenário em que se descortina uma possível transição de hegemonia global entre EUA e China[3], verifica-se dia após dia uma presença cada vez mais latente do país asiático no quintal norte-americano. Setores como o de energia elétrica, portuário e de infraestrutura já possuem grande domínio do capital estrangeiro chinês. Além disso, países como Chile, Argentina e Colômbia assinaram memorandos de entendimento vinculando-se à Belt and Road Initiative (BRI), grande componente da política externa chinesa, e que, no contexto da América do Sul e Latina, significa um aprofundamento ainda maior nas obras de infraestrutura com vistas a ligar a região à China[4]. Projetos como o Porto de Chancay, localizado no Peru, são megaprojetos estratégicos, financiados pela China e parte fundamental da BRI. Isso, pois, nesse caso, estabeleceu-se uma rota direta (sem intermediários) e mais rápida entre China e América do Sul. A ferrovia Transoceânica anunciada em 2025, que ligará o porto de Ilhéus, na Bahia, ao porto de Chancay, segue pelo mesmo caminho.
Complementando esse cenário, os bens naturais aliados à transição energética tornam-se o “novo ouro”, e os investimentos chineses na cadeia de veículos elétricos (da mineração às baterias e ao veículo acabado), tornam a região “um novo oeste” para as empresas monopolistas estrangeiras e um alvo a ser explorado. Trata-se de uma adequação do ideário delineado por Lênin, ao contexto do século XXI. A América do Sul possui o triângulo do lítio (Argentina, Chile e Bolívia), o Brasil detém grandes reservas de lítio, níquel, grafita, terras raras, nióbio, cobre, manganês e alumínio, e a região ainda é pouco regulamentada na área da mineração de minerais considerados estratégicos, o que faz com que se acelere a corrida de empresas estrangeiras. Lembrando que além da ótica da produção, a região também é grande mercado consumidor, seja de carros de passeio elétricos, seja de ônibus elétricos para passageiros, cuja demanda existe há alguns anos e visa atender os ambiciosos planos de eletrificação de frotas das grandes cidades.
Esses exemplos, em conexão com a ação norte-americana na Venezuela, fazem com que se recorde da viagem de Emmanuel Macron ao continente africano em 2023, e das reações dos presidentes da República Democrática do Congo (RDC) e do Gabão. Enquanto Félix Tshisekedi, governante da RDC disse a Emmanuel Macron que a Europa deveria cessar o tom paternalista com a África, Ali Bongo do Gabão ironizou a visita, afirmando que essa somente ocorre quando um país fora do eixo entre EUA e UE tenta se aproximar das nações africanas[5]. Na América Latina (e do Sul) a lógica não deixa de ser a mesma. Contudo, cada imperialista procede de uma forma.
A reação dos EUA à Venezuela se deu em função, ao fim e ao cabo, de sua proximidade com China (e, também, Rússia), e o modus operandi de fazê-lo, até pelo perfil do governo Trump, foi por meio da ameaça, violência, imprevisibilidade e midiatização. É certo que o país asiático era o maior comprador do petróleo venezuelano, além de ser forte credor da nação caribenha. No entanto, como se apontou anteriormente, a análise é muito mais ampla, e a contenção da influência chinesa não se aplica somente a um país, mas a uma região; não visa apenas o presente, mas um futuro imediato e mediato; não consiste apenas em um setor específico, mas a cadeias produtivas velhas e novas. Trata-se de um aviso: todos estejam preparados, pois o domínio da região é nosso. É uma reafirmação do sistema imperial norte-americano focado na dominação indireta, cujo domínio lhes parece ameaçado.
Sob a acusação do envolvimento de Maduro com o “narcoterrorismo”, termo utilizado em demasiado pelo governo Trump para justificar e midiatizar a ação norte-americana de destituição do agora ex-presidente da Venezuela, a intervenção militar dos EUA na Venezuela viola diversos dispositivos internacionais. Primeiro, o Art. 2 (4) da Carta das Nações Unidas, que coíbe o uso da força; depois, o capítulo VII do mesmo diploma legal, que dispõe de situações específicas para esse uso (situação que não se enquadra nem na hipótese de legítima defesa, nem de necessidade urgente de restauração da paz e segurança), além do respeito à soberania estatal, previsto no Art. 2(7) da Carta, que proíbe intervenções de forma independente como essa.
Em razão de todos os aspectos supracitados, o que se pode concluir é que as ações norte-americanas afirmam um cenário power oriented tal qual se conhecia antes da Segunda Guerra Mundial, e a temática dos imperialismos à luz dos eventos contemporâneos, continua mais atual do que nunca. Isso não quer dizer que as regras internacionais sejam totalmente apagadas e não sejam utilizadas na construção de uma nova ordem internacional ainda incerta, porém, o desrespeito às regras construídas pelo próprio baluarte da ordem global pós-1945 abre flancos para um ambiente de descrédito e de violações de outros atores. Além disso, é possível levantar a provocação sobre a distinção entre imperialismo (formal e informal) e hegemonia, para aludir à presença e à disputa entre EUA e China na América Latina (e América do Sul) no contexto atual, com todos os interesses, movimentações e formas de atuação em curso.
Nesse sentido, já anunciava Simón Bolívar em suas Cartas de Jamaica: “Cuando los sucesos no están asegurados, cuando el estado es débil y cuando las empresas son remotas, todos los hombres vacilan, las opiniones se dividen, las pasiones las agitan y los enemigos las animan para triunfar por este fácil médio”[6]. Por isso, não basta a independência e a consolidação dos Estados latino-americanos e das instituições internacionais, mas sua constante reafirmação, revisão e renovação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERTONHA, João Fábio. Imperialismo. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2023.
BOLÍVAR, Simón. Cartas de Jamaica (1815) Contestación de un americano meridional a un caballero de esta isla. In: BOLÍVAR, Simón. Escritos políticos. Madrid: Biblioteca de Política, Economía y Sociología, 1921.
BRASIL DE FATO. Macron recebe crítica do presidente do Congo no encerramento de tour na África: ‘paternalista’. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2023/03/06/macron-recebe-critica-do-presidente-do-congo-no-encerramento-de-tour-na-africa-paternalista/>. Acesso em: 17 jan. 2026.
GREEN FINANCE & DEVELOPMENT CENTER. Countries of the Belt and Road Initiative (BRI). Disponível em: <https://greenfdc.org/countries-of-the-belt-and-road-initiative-bri/>. Acesso em: 17 jan. 2026.
LÊNIN, Vladímir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio de divulgação ao público. Trad. Edições Avante! e Paula Vaz de Almeida; revis. da tradução Paula Vaz de Almeida. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.
[1] BERTONHA, João Fábio. Imperialismo. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2023, p. 94-98.
[2] LÊNIN, Vladímir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio de divulgação ao público. Trad. Edições Avante! e Paula Vaz de Almeida; revis. da tradução Paula Vaz de Almeida. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.
[3] Para que um país detenha a hegemonia global, é preciso uma superioridade não só econômica, mas também militar e, hoje em dia, também tecnológica (o que se associa aos dois campos anteriores). A superioridade militar envolve não somente o domínio terrestre, mas também aéreo e, sobretudo, marítimo. Até o momento, somente os EUA detêm o domínio de todos os mares, seja por meio da presença de bases militares em países aliados, seja pela patrulha via porta-aviões ou submarinos.
[4] GREEN FINANCE & DEVELOPMENT CENTER. Countries of the Belt and Road Initiative (BRI). Disponível em: <https://greenfdc.org/countries-of-the-belt-and-road-initiative-bri/>. Acesso em: 17 jan. 2026.
[5] BRASIL DE FATO. Macron recebe crítica do presidente do Congo no encerramento de tour na África: ‘paternalista’. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2023/03/06/macron-recebe-critica-do-presidente-do-congo-no-encerramento-de-tour-na-africa-paternalista/>. Acesso em: 17 jan. 2026.
[6] BOLÍVAR, Simón. Cartas de Jamaica (1815) Contestación de un americano meridional a un caballero de esta isla. In: BOLÍVAR, Simón. Escritos políticos. Madrid: Biblioteca de Política, Economía y Sociología, 1921, p.111-112
