Pragmatismo da política externa brasileira avança na América Latina

Ano VII, nº 118, 12 de fevereiro de 2026

                  

Por Alexandre Favaro Lucchesi (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

              

Os movimentos da política externa brasileira em fevereiro de 2026, especialmente no plano das relações bilaterais latino-americanas e do Mercosul, revelam uma inflexão estratégica coerente com a tentativa brasileira de recompor margens de autonomia num sistema internacional crescentemente fragmentado.

 

EIXO-MERCOSUL

           

O governo brasileiro sinalizou, em fevereiro de 2026, que está considerando apoiar um acordo comercial parcial entre o Mercosul e a China, algo inédito na postura diplomática do país até então. Tradicionalmente resistente a negociações formais com Pequim por temores quanto à concorrência chinesa para a indústria doméstica, Brasília agora avalia a possibilidade de iniciar tratativas focadas em linhas tarifárias específicas ou barreiras não-tarifárias, como procedimentos aduaneiros e requisitos de saúde e segurança. Esta mudança de posição decorre, em parte, das alterações no cenário comercial global, incluindo a imposição de tarifas pelos EUA, que têm reformulado alianças e fluxos de comércio internacional.

            

Esse movimento representa uma diversificação das parcerias comerciais latino-americanas e indica que o Brasil e o Mercosul estão buscando estender seu alcance além de acordos tradicionais, incorporando atores extra-regionais importantes como a China, ainda que de forma gradual. Uma reinterpretação do regionalismo sul-americano não mais como um projeto defensivo, mas como plataforma de inserção seletiva em cadeias globais de valor reconfiguradas seria uma resposta ao diagnóstico do documento “Donroe” acerca do declínio da centralidade normativa do Atlântico Norte e da emergência de arranjos híbridos, nos quais acordos regionais funcionam como vetores de articulação com polos extra-regionais.

              

A assinatura formal do acordo Mercosul–União Europeia em janeiro, negociado ao longo de décadas, foi exaltada pelo presidente Lula e líderes europeus como um marco na defesa do multilateralismo e do comércio baseado em regras. Presidências subnacionais e empresários de dentro do Mercosul reforçam que o tratado coloca o bloco “no mapa” das grandes decisões econômicas globais para ampliar a inserção internacional dos países sul-americanos. 

              

Não obstante, no interior do bloco sul-americano, o debate sobre a implementação do acordo e as manifestações do setor industrial regional revelam tensões entre abertura externa e integração produtiva, que devem ser compreendidas como parte de um esforço de reposicionamento do bloco num mundo multipolar, no qual a relevância dos acordos comerciais está cada vez mais condicionada a critérios geopolíticos, tecnológicos e ambientais. Representantes do Conselho Industrial do Mercosul, reunidos com associações empresariais dos países membros (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), divulgaram uma declaração conjunta defendendo fortalecer a integração produtiva e ampliar a competitividade regional no contexto global. O documento ressalta a importância de aprofundar a cooperação econômica intra-Mercosul para enfrentar desafios como reconfiguração de cadeias de valor e transição energética.

             

A postura do setor produtivo reflete uma maior convergência de forças, dentro do Mercosul, que veem na integração regional não apenas um ideal diplomático, mas uma necessidade estratégica em termos de economia e desenvolvimento conjunto. Entrevistas do presidente Lula em fevereiro de 2026 reafirmam a defesa da integração latino-americana, da soberania nacional e do papel do Brasil como mediador e articulador nas questões regionais, incluindo a situação político-institucional na Venezuela e a promoção do diálogo multilaterais. O posicionamento tem impacto direto nas relações bilaterais da América Latina, pois reforça a narrativa brasileira de autonomia suplementada por cooperação regional e multilateralismo, em contraste com políticas unilaterais ou de alinhamento externo rígido.

        

EIXO-BILATERAL

           

Entre janeiro e fevereiro de 2026, o presidente Lula realizou uma visita oficial ao Panamá, um parceiro de crescente relevância para o Brasil. Durante essa viagem, foi assinado um acordo de facilitação de investimentos e cooperação logística entre os dois países, visando impulsionar fluxos comerciais e de capital, além de ampliar a cooperação em áreas como turismo, cultura e logística portuária. O Brasil destacou a importância do Panamá como principal parceiro de comércio na América Central e reforçou a intenção de aprofundar os vínculos econômicos e institucionais na região.

              

Fora do núcleo tradicional do Mercosul, o Panamá evidencia uma estratégia de densificação horizontal da presença brasileira no continente. Ao privilegiar acordos como esse, o Itamaraty parece reconhecer a importância geoeconômica de nós estratégicos do hemisfério, antecipando uma agenda de pesquisa sobre integração “em rede”, menos institucionalizada e mais funcional na América Latina e Caribe.

            

Assim, a estratégia brasileira em defesa da integração latino-americana e da soberania regional reforçam o pragmatismo como fator articulador num contexto de fragmentação hemisférica. Esses elementos sugerem uma agenda latino-americana que articule política externa, economia política internacional e regionalismo comparado, investigando em que medida a estratégia brasileira pós-Donroe representa não apenas uma adaptação conjuntural, mas a tentativa de construção de um novo paradigma de inserção regional na ordem multipolar emergente.

       

REFERÊNCIAS

      

KRUKOV, Mark. Brazil, Panama sign new investment facilitation agreement. Latin America Reports, 2 fev. 2026. Disponível em: <https://latinamericareports.com/brazil-panama-sign-new-investment-facilitation-agreement/13440/>. Acesso em: 9 jan. 2026. 

       

PARAGUASSU, Lisandra; ELLIOTT, Lucinda. BRAZIL SIGNALS NEW OPENNESS TO MERCOSUR-CHINA TALKS AS BEIJING SEEKS DEEPER TIES. Reuters, 6 fev. 2026. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/china/brazil-signals-new-openness-mercosur-china-talks-beijing-seeks-deeper-ties-2026-02-06/>. Acesso em: 9 jan. 2026.

         

RODRIGUES, Alex. Líderes do Mercosul e da UE assinam acordo e defendem multilateralismo. Agência Brasil, 17 jan. 2026. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/lideres-assinam-acordo-mercosul-uniao-europeia>. Acesso em: 9 jan. 2026. 

            

SECOM. Acordo MERCOSUL-União Europeia: “Vai trazer mais emprego, mais renda, e fortalecer o agronegócio e a indústria”, afirma Geraldo Alckmin. Secretaria de Comunicação Social do Brasil, 15 jan. 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/01/acordo-mercosul-uniao-europeia-vai-trazer-mais-emprego-mais-renda-e-fortalecer-o-agronegocio-e-a-industria-afirma-geraldo-alckmin>. Acesso em: 9 jan. 2026. 

 

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