Reviravolta no tarifaço de Trump favorece protagonismo do Brasil

Ano VII, nº 119, 26 de fevereiro de 2026


Por Alexandre Favaro Lucchesi (Imagem: A alternativa às tarifas de Trump/Imagem gerada por inteligência artificial)


A questão das tarifas dos EUA pode projetar uma vulnerabilidade sistêmica do Brasil, mas, de maneira mais profunda, revela a necessidade de uma estratégia regional coordenada. Se o México é o caso de dependência estrutural dos EUA e a Argentina o de alvo para “acordos sob medida”, o Brasil aparece como o país com maior potencial para articular uma resposta latino-americana.


CONTEXTUALIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA

A intensificação do uso de tarifas pelos EUA ao longo de 2025 reconfigurou o ambiente comercial hemisférico. A derrubada pela Suprema Corte estadunidense, em fevereiro de 2026, da base jurídica de “emergência” da International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) é um marco jurídico de grande importância para o comércio internacional e tem implicações diretas sobre a agenda latino-americana. Do ponto de vista das exportações brasileiras e da América Latina em geral, essa decisão judicial pode oferecer um alívio temporário e abrir espaço para negociações mais favoráveis. Por exemplo, as tarifas elevadas que incidiram sobre produtos brasileiros tornam-se juridicamente inválidas, o que pode abrir espaço para a renegociação de barreiras remanescentes.

Entretanto, a decisão não encerra completamente o uso de tarifas como instrumento de política comercial dos EUA. O governo Trump já afirmou que recorrerá a outras bases legais, como a Seção 122 do Trade Act de 1974, para reimpor tarifas em nova forma e que continuará sua estratégia de “protecionismo legal”. Trata-se de uma tarifa universal temporária de até 15% por 150 dias e investigações que podem desaguar em medidas “mais duráveis” como a Seção 301. Além disso, outras tarifas aplicadas sob leis diferentes, como aquelas relacionadas à segurança nacional ou campanhas antidrogas, permanecem em vigor, de modo que o ambiente de incerteza nos fluxos comerciais continua. 

Diferentemente do México (altamente integrado ao mercado norte-americano) ou de economias centro-americanas fortemente dependentes de remessas e exportações aos EUA, o Brasil apresenta menor dependência relativa do mercado estadunidense. Desde agosto de 2025, as sobretaxas de 40% sobre ampla cesta de bens brasileiros, com listas de exceção para produtos como café, frutas e carnes (entre outros), geraram recuo das exportações brasileiras para os EUA de US$ 2,6 bilhões, enquanto o total exportado pelo Brasil cresceu e foi redirecionado com mais intensidade para a Ásia (China em especial). No curtíssimo prazo, a persistência desse choque também aparece em janeiro de 2026, no montante de US$ 2,4 bi exportados aos EUA, –25,5% em relação a janeiro de 2025.

As perspectivas estratégicas plausíveis para o Brasil na América Latina, dentro de uma lógica que vai além de reatividade às tarifas dos EUA, envolvem o aprofundamento do Mercosul e sua articulação com outras regiões do mundo, bem como a consolidação de uma política bilateral robusta com países latino-americanos fora do bloco formal. Esses elementos, sustentados por mecanismos de integração preferencial e por agendas de cooperação técnica e econômica, oferecem caminhos realistas para que o Brasil reduza vulnerabilidades externas, aumente sua autonomia e desempenhe um papel de liderança regional na consolidação de uma ordem econômica mais equilibrada e menos dependente de choques unilaterais de parceiros externos.


AGENDA DO MERCOSUL

O Mercosul mantém negociações e acordos com parceiros extrarregionais como Canadá, EFTA e a UE, cuja ratificação ampliaria o mercado acessível a aproximadamente 718 milhões de pessoas. O aprofundamento do Mercosul é plausível se combinado a elementos formais de harmonização regulatória, facilitação de comércio e integração logística e políticas de encadeamento produtivo. A teoria neofuncionalista sugere que ganhos em áreas técnicas induzem cooperação política incremental (HAAS, 1958). Porém, o bloco enfrenta situação complexa após a Argentina firmar, com os EUA, o Agreement on Reciprocal Trade and Investment (ARTI), que determina a redução e/ou a eliminação de tarifas e compromissos regulatórios. A imprensa local reporta a eliminação de tarifas sobre 1.675 bens argentinos e a expectativa de recuperação exportadora de aproximadamente US$ 1,01 bilhão. Mas o movimento se deu à margem do Mercosul.

Para a América Latina, isso cria um dilema. Acordos “seletivos” ou “sob medida” podem aliviar pressões no curto prazo para países específicos, mas tendem a fragmentar a coordenação regional, inclusive com repercussões indiretas sobre parceiros e concorrentes. Ao mesmo tempo, tais acordos viram um sinal de como os EUA podem reconstruir sua alavancagem após a derrota judicial focando em condicionalidades comerciais, regulatórias e tecnológicas negociadas bilateralmente.

O Mercosul continua sendo um dos principais mecanismos de integração regional da América do Sul, que reduz a vulnerabilidade a choques externos ao ampliar a escala de mercado interno e ao oferecer alternativas de exportação internas ao bloco. O seu aprofundamento, por meio de acordos multilaterais e de livre comércio com terceiros, além da consolidação de relações preferenciais com países latino-americanos e parceiros extrarregionais, representa uma oportunidade plausível para aumentar o poder de negociação do Brasil e do bloco, reduzindo sua exposição direta à política comercial de Washington.

O ARTI ilustra uma estratégia que pode gerar incentivo à fragmentação, se os membros passarem a buscar acordos isolados, e também uma pressão para que se modernize o bloco em favor da coesão e do poder de barganha. Abre-se, então, uma oportunidade para o Brasil liderar uma agenda comum que combine abertura extrarregional e integração produtiva intrabloco. A literatura sobre integração regional sustenta que blocos ampliam o poder de barganha externo e reduzem assimetrias (BALASSA, 1961; MATTLI, 1999). Em contexto de choques unilaterais, a coordenação intrabloco tende a elevar resiliência.


AGENDA BILATERAL

O Brasil dispõe de acordos de complementação econômica (ACE) com México e Venezuela, e cooperação técnica no âmbito do Mercosul. No atual contexto, a agenda bilateral pode priorizar cadeias regionais em setores estratégicos (alimentos processados, saúde, energia), facilitação de comércio e financiamento regional (BNDES/CAF) e a coordenação regulatória para mitigar custos de conformidade. A CEPAL enfatiza a cooperação Sul-Sul como instrumento de desenvolvimento produtivo e redução de vulnerabilidades (CEPAL, 2024). A literatura de complexidade econômica destaca que diversificação e sofisticação de exportações elevam resiliência (HAUSMANN; HIDALGO, 2014).

O Brasil tem potencial para ampliar a cooperação bilateral com países como México, Colômbia e membros da América Central, tanto em iniciativas de comércio quanto em temas transversais (tecnologia, sustentabilidade, imigração e segurança). A experiência de acordos bilaterais com países associados ao Mercosul demonstra que isso é economicamente viável e relevante. Essa estratégia bilateral soma-se à agenda multilateral defendida por organismos regionais como a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), que recomenda cooperação Sul-Sul e triangular como eixo de desenvolvimento sustentável para melhorar condições sociais e econômicas regionalmente.

A política externa bilateral, ao mesmo tempo em que complementa e fortalece o Mercosul, cria pontes diretas para negociar interesses específicos e para facilitar integração produtiva e tecnológica com parceiros latino-americanos, oferecendo, assim, uma via pragmática de mitigação de vulnerabilidades frente a choques externos.


INTEGRAÇÃO REGIONAL, COMÉRCIO E INDUSTRIALIZAÇÃO

A estratégia comercial deve estar articulada à industrialização orientada à complexidade. Choques tarifários reforçam a necessidade de ampliar conteúdo tecnológico das exportações, fortalecer cadeias regionais e investir em infraestrutura e logística. Autores estruturalistas latino-americanos já apontavam a importância da integração para superar restrições externas (FURTADO, 1961; PREBISCH, 1950). 

Em cenário contemporâneo, a integração reduz exposição a medidas unilaterais e amplia escala para políticas industriais. Consolidar a coordenação no Mercosul pode evitar uma fragmentação bilateral, ao passo que fortalecer a agenda bilateral latino-americana, priorizando encadeamentos produtivos, constitui uma defesa do multilateralismo comercial com previsibilidade normativa, o que viabiliza integrar comércio e política industrial a partir de incentivos a setores de maior complexidade. 

A literatura funcionalista e neofuncionalista de integração regional (por exemplo) enfatiza que a criação de blocos econômicos promove ganhos de bem-estar por meio da ampliação de mercados, redução de incertezas e fortalecimento da posição em negociações externas. Esse argumento se torna ainda mais valioso num cenário marcado por choques protecionistas extrarregionais. 

Já a visão neoestruturalista da CEPAL defende a integração econômica como forma de superar fragilidades estruturais da região e promover crescimento inclusivo e sustentável, sugerindo que plataformas de cooperação ampliada entre mercado interno e parcerias com blocos externos são vitais para lidar com vulnerabilidades compartilhadas.

A abordagem de negociação comercial como ferramenta de mitigação de riscos está no núcleo da teoria de relações econômicas internacionais. Ao diversificar acordos e ampliar parcerias bilaterais/multilaterais, um país pode reduzir a assimetria negociadora e evitar pressões setoriais ou políticas exageradas de um único parceiro dominante. Assim, integrar o Brasil em uma rede maior de acordos (UE-Mercosul, parcerias com Índia, cooperação no BRICS) é uma estratégia que confere resiliência diante de disrupções unilaterais de política comercial, como tarifas punitivas.

Por fim, a diversificação pode ser analisada pelo princípio da redução de dependência externa. Quanto menor a concentração de exportações em um único destino, menor o risco de choques políticos abruptos sobre fluxos comerciais. A métrica do índice Herfindahl-Hirschman (IHH) aplicado à participação dos parceiros comerciais demonstra que, quanto mais amplamente distribuída a pauta exportadora em termos de destinos, menor a vulnerabilidade a choques específicos como as tarifas dos EUA sob Trump. A diversificação realça a redução de vulnerabilidade externa e confere ao Brasil maior margem de manobra diplomática e comercial, diminuindo a influência unilateral dos EUA sobre suas exportações.

O risco reside no fato de os EUA optarem por acordos bilaterais seletivos (como no caso argentino), o que pode levar à fragmentação da região, enfraquecendo a posição negociadora do Mercosul e isolando o Brasil. A oportunidade, então, reside em transformar o episódio tarifário em catalisador de uma política externa econômica mais ativa, baseada na diversificação produtiva e tecnológica, e não apenas no redirecionamento geográfico de exportações primárias.

Num novo contexto, o Brasil pode consolidar-se como economia “âncora” sul-americana menos suscetível à coerção tarifária direta, reforçar cadeias produtivas regionais para reduzir assimetrias intra-latino-americanas e atuar como mediador entre América Latina e Ásia, dada sua centralidade nas cadeias de commodities e crescente interlocução com a China.

Os dados de 2025–2026 indicam que o Brasil sofreu impacto tarifário relevante, porém administrável graças à diversificação. O acordo EUA–Argentina sinaliza uma tendência a acordos seletivos que pode tensionar a coesão regional. A resposta plausível para o Brasil combina aprofundamento do Mercosul, política bilateral ativa e estratégia de industrialização integrada ao comércio, reforçando autonomia e liderança regional.


REFERÊNCIAS

AGÊNCIA BRASIL. Exportações brasileiras aos EUA caem 25,5% em janeiro. Brasília, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/economia/noticia/2026-02/brazilian-exports-us-fall-255-january-sales-china-rise?utm Acesso em: 24 fev.2026

BALASSA, Béla. The theory of economic integration. Homewood: Irwin, 1961.

CEPAL. Comunicado sobre cooperação internacional renovada. Santiago, 2024.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.

HAAS, Ernst B. The uniting of Europe. Stanford: Stanford University Press, 1958.

HAUSMANN, Ricardo; HIDALGO, Cesar; BUSTOS, Sebatian; COSCIA, Michele; CHUNG, Sarah; JIMENEZ, Juan; SIMOES, Alexander; YILDIRIM, Muhammed A. The atlas of economic complexity: Mapping Paths to Prosperity. MIT Press, 2014. DOI: http://doi.org/10.7551/mitpress/9647.001.0001  

LAWDER, David. Argentina, US sign reciprocal trade agreement. Reuters, World, Americas. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/argentina-us-sign-reciprocal-trade-investment-agreement-2026-02-05/ Acesso em 24 fev.2026

MATTLI, Walter. The logic of regional integration. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

OCDE. Economic Outlook: Mexico. Paris, 2025.

PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e seus principais problemas. Revista brasileira de economia, v. 3, n. 3, p. 47-111, 1949. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/rbe/article/view/2443/1767 Acesso em: 24 fev.2026 

SHALAL, Andrea; AX, Joseph. After court ruling, Trump says US global tariff rate will rise from 10% to 15%. Reuters, World, US, 21 fev.2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-says-he-will-raise-global-tariff-rate-10-15-2026-02-21/?utm Acesso em: 24 fev.2026

WITS – World Bank. Country snapshot: Brazil. 2025.

WORLD POLITICS REVIEW. Argentina-US trade agreement analysis. 2026.

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