PEB NAS URNAS 2026: FLÁVIO BOLSONARO (PL)

Por Gabriel Gesteira, Giovana Amorim Plácido, Natan Cardoso dos Santos (Imagem: Mauro Pimentel/AFP )

Flávio Bolsonaro é um político brasileiro, filiado ao Partido Liberal (PL) e atual senador da República pelo Rio de Janeiro. É o filho mais velho do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e é candidato à presidência do Brasil nas eleições de 2026. Em seu Plano de Governo, os temas relacionados à política externa estão identificados explicitamente entre as páginas 61 a 64, dentro da seção “Brasil que cresce”, mas o restante do Plano também perpassa tópicos sobre energia, minerais críticos e meio ambiente relacionados à inserção internacional do Brasil. A seguir, será feita uma análise dos principais tópicos levantados pela campanha. 

Energia e minerais críticos

A política externa energética do Plano de Governo de Flávio Bolsonaro tem como um de seus objetivos nucleares transformar o Brasil em um “polo global de data centers sustentáveis”. Sob esta lógica, o Brasil atrairia investimento voltado à construção de data centers e promoção da inteligência artificial através da redução de impostos sobre energia e combustíveis, tornando as instalações mais baratas e confiáveis. O investimento em mineração para minerais críticos através de cooperação internacional também aparece como componente principal. Por último, tem-se como meta tornar o Brasil em uma potência de biocombustíveis através da ampliação do Programa Renovabio para o exterior. 

O Plano apresenta que a instalação de data centers será feita através da atração de tecnologia e capital estrangeiro, enquanto aproveita-se a matriz elétrica renovável brasileira. Mas nada se fala sobre os impactos negativos para o funcionamento destas infraestruturas, concretizadas no alto consumo de água, na baixa geração de emprego, na sobrecarga elétrica e na alta pegada de carbono. Desse modo, nota-se pouca profundidade na explicação sobre o que tornaria os data centers instalados no Brasil “sustentáveis”. Além disso, também é vago o papel do Estado no controle sobre os dados processados, deixando a entender que o domínio residiria nas mãos de Big Techs estrangeiras.

Apesar do movimento global crescente de busca por matrizes energéticas mais limpas, pouco disto é referenciado no Plano de Bolsonaro. Enquanto a destinação dos minerais críticos disponíveis em solo brasileiro são veemente relacionados aos data centers e parcamente ao desenvolvimento tecnológico para impulsionar formas de transição energética, o intuito de ampliar a produção e uso de biocombustíveis se dá sob o pretexto de reduzir emissões de carbono o suficiente para gerar a venda de créditos de carbono para o mundo. 

Meio ambiente: o ativo verde do Brasil e o agronegócio 

O Plano de Governo de Bolsonaro apresenta explicitamente o meio ambiente como um ativo estratégico a ser aproveitado em prol da promoção do desenvolvimento do país. Ele é relacionado diversas vezes às oportunidades de geração de renda, deixando claro que “preservar tem que compensar para quem preserva”. Neste contexto, propõe-se mecanismos de remuneração e incentivo econômico à preservação. 

Aqui, o meio ambiente é interpretado como um fator catalisador para o crescimento econômico brasileiro, não tendo aprofundamento além de seu potencial para geração de capital. No que tange à posição internacional brasileira, o objetivo é de posicionar o país como um fornecedor global de ativos ambientais, consolidando o mercado regulado de carbono e promovendo a venda de créditos. Este propósito não está totalmente alinhado com a posição brasileira na Presidência da COP30 e nos históricos nas negociações climáticas, em que o país se posiciona perante à comunidade internacional e interpreta o meio ambiente para além de um ativo que só deve ser preservado na medida em que compensa financeiramente. 

No campo do agronegócio, enquanto é estabelecido o objetivo de buscar soluções diplomáticas eficazes contra as sanções estadunidenses, chinesas e europeias aos produtos brasileiros, também é almejada a superação da dependência de importação de fertilizantes provenientes do exterior, apoiando a produção nacional destas substâncias através de reservas minerais em território brasileiro. De fato, o Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. O Plano conecta este potencial de capacidade produtiva independente ao conceito de segurança alimentar, focando na disponibilidade de safras.

Soberania com profissionalismo, não com ideologia 

No plano de governo de Flávio, a noção de “Soberania” tem um tópico próprio. O documento busca argumentar que soberania se faz na prática, e não na repetição da palavra, aludindo ao governo anterior. Para ele, soberania é a capacidade de uma nação de governar a si, criar leis e cuidar de seu território. Nesse parágrafo ele também faz referência ao governo anterior ter trocado o Interesse Nacional por Ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos. 

A ideia de interesse nacional está ligada à busca pelo desenvolvimento. Se as acusações do candidato estiverem certas, não é correto trocar essa noção para “proteger” outras nações. Porém, a PEB preza em manter laços de forma pragmática com diferentes países, e essa classificação de países como “regimes de terror” pode mostrar uma pretensão de limitar esse relacionamento mais amplo com o mundo. 

A seguir, o documento aponta que não tem como ter autoridade para falar de soberania no campo externo e “levantar a voz” para inimigos distantes, se não mantém a segurança interna, especialmente contra o crime e o tráfico de drogas. 

Apesar da soberania também passar pelo ambiente doméstico, a proposta do candidato parece indicar que o Brasil e outros países que possuem problemas de segurança interno não podem lidar com desafios à sua soberania no campo externo, o que contra os princípios seguidos pela PEB de não intervenção e não ingerência em assuntos internos, além de outro valor defendido pela PEB, da busca da igualdade soberana entre as nações. O candidato, ao problematizar a questão da segurança interna, parece criar uma hierarquia de quais países podem defender em maior ou menor grau a sua soberania. 

O texto do programa de Flávio Bolsonaro acusa o governo Lula de se alinhar a países não democráticos e terroristas, o Irã e a Venezuela, por ideologia. É afirmado que essas relações não trouxeram retornos nem de comércio e investimentos, nem de respeito. E afirmou que essas relações foram adotadas contra a posição de parceiros históricos.

A seguir, o programa apresenta sua primeira proposta de relações internacionais nesse tópico, indicando que o governo de Flávio terá uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pragmatismo. Ele não seria mais conduzido pela ideologia. Assim o Itamaraty seria guiado de forma técnica e os países a serem privilegiados na política externa do país são aqueles interessados no ganho mútuo do comércio, sem ser por “amizade ideológica”. 

A proposta se alinha aos princípios da PEB ao afirmar que a Política Externa de Flávio seguirá o pragmatismo. Porém, novamente a proposta carrega mais críticas ao governo anterior que explicações detalhadas. Ao citar que as relações com a Venezuela e Irã estavam “erradas” no governo anterior, pode fazer sentido se a acusação de aproximação ideológica (e não pragmática) for verdadeira. Porém, caso essas afirmações sejam oriundas da rivalidade política, limitar a relação com os 2 países é ir contra a característica do universalismo da política externa, que é uma forma de organizar as relações da PEB que leva a diversificação das relações com outros países nas questões econômicas, mas também nas políticas e ideológicas. 

O universalismo reforça o pragmatismo e a busca por resultados concretos para o desenvolvimento econômico e garantia da autonomia, que são os dois objetivos principais da Política Externa do país. Se a acusação do programa está certa, quem estava agindo contra esse princípio e não sendo pragmático ideologicamente era o governo vigente. Porém, ao colocar em seu plano de governo que a relação com esses dois países estava errada, parece indicar uma limitação do universalismo por esses Estados se aproximarem da ideologia de seu opositor. 

O programa afirma que no governo de Flávio, parceiros importantes e tradicionais como EUA, Israel e Argentina não serão tratados como adversários, acusando o governo Lula de levar essas relações até quase o rompimento. É descrito que essa situação será revertida com o profissionalismo e foco no interesse brasileiro. É afirmado que vão negociar com todos que interessam o Brasil, seja EUA, China e União Européia. Também está escrito que a diplomacia do Brasil é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, e não pela simpatia ou antipatia a determinado governo. Defender a soberania na prática para o candidato Flávio

Bolsonaro é abrir mercados, atrair investimentos e ser respeitado por sua força econômica. 

Nesse trecho, o programa se alinha de forma mais concreta ao universalismo ao mostrar uma gama maior de países com quem o governo pretende se relacionar. Também retoma o pragmatismo, deixando claro o foco no desenvolvimento econômico nacional que é um fator marcante e constante da PEB, apesar de ser buscado de formas distintas pelos diferentes governos. Porém, a afirmação de que o interesse pela Política  Externa do país não será pautada pela antipatia a governos parece contraditória após um parágrafo mostrar a antipatia do candidato aos governos de Venezuela e Irã, classificados como estados terroristas sem explicações detalhadas. 

Em resumo, esse tópico trouxe poucas propostas do candidato Flávio Bolsonaro, com uma proposta focando na melhora da segurança interna como condição para pensar a soberania na relação com as forças externas e a outra proposta prometendo um retorno a relações mais profissionais e pragmáticas por parte do Itamaraty. O texto nesse tópico se ocupou em sua maior parte em críticas ao governo vigente e em que as ações de um novo governo seriam realizadas de forma diferente a esta gestão. 

Brasil no mundo 

“Um país que produz precisa vender ao mundo e atrair quem queira investir aqui, sem se tornar refém de ninguém”. O plano abre o capítulo definitivo de relações internacionais do seu plano de governo apontando para o liberalismo econômico de seu eventual governo, tema esse que é aparente durante todo o texto. Como de praxe, as propostas costumam ser finalizadas com alguma frase de efeito que sinaliza atitudes do atual governo. No exemplo desse caso, “sem se tornar refém de ninguém” refere-se  à uma visão de parte dos conservadores de que o Brasil estaria “vendendo” seus preciosos recursos à preço de doação para a China, apenas por razões ideológicas e alinhamento político. 

O texto continua na área econômica, e cita a necessidade de abertura comercial, com o papel do Estado focado em evitar a dependência excessiva em áreas críticas, como as cadeias de suprimentos e de tecnologia. De certo modo,

Flávio Bolsonaro não foge muito do caminho trilhado pelo seu pai, ex-presidente Jair Bolsonaro, que, segundo Scherer (2026) aprofundou suas propostas econômicas ao fazer uma aliança com figuras ativas no mercado financeiro, que defendiam uma reforma neo-liberal na economia brasileira a partir da privatização de grandes estatais. Tais propostas eram de grande interesse para o capital internacional. Entre os principais acionistas da Axia Energia (antiga Eletrobrás, privatizada durante o governo Bolsonaro) estão o GIC, fundo soberano de Singapura, e o veículo de investimentos do fundo de pensão canadense CPPIB (Canada Pension Plan Investment Board). 

Nas relações econômicas internacionais, o passo mais urgente do plano de governo é o de retomar o cronograma interrompido de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o plano de governo, “a adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”. A OCDE é uma organização internacional que reúne 38 países para debater e criar diretrizes voltadas ao crescimento econômico, ao bem-estar social e à expansão do comércio mundial. Tem foco na organização de políticas públicas entre os países-membros, e funciona como um espaço de cooperação onde as nações compartilham experiências e soluções para problemas comuns de economia, finanças, educação e meio ambiente. É popularmente conhecida como o “clube dos ricos”, sendo composta majoritariamente por nações de alto rendimento per capita e elevado índice de desenvolvimento humano. A adesão à OCDE foi uma importante pauta de campanha de Jair Bolsonaro, sendo considerada uma obsessão de seu Ministro da Fazenda, Paulo Guedes (Guedes chamou a adesão de um “portal que se abre na hora certa” para modernizar regras e atrair capital). O motivo se dava pela validação do selo dado aos membros permanentes, considerado por investidores estrangeiros como marca de um país aberto economicamente e com potencial de investimento sem muitas restrições. Para aderir à OCDE, seria necessário abrir mão de condicionantes relacionadas ao investimento internacional. Por exemplo, segundo o Código de Liberalização de Movimentos de Capital da OCDE (OECD Code of Liberalisation of Capital Movements), o país não poderia cobrar de empresas estrangeiras contrapartidas como a alocação de dinheiro em infraestruturas de áreas remotas do país.

Outras propostas levantadas nesse capítulo do plano de governo são a execução um plano nacional de integração às cadeias globais de valor, “com apoio real para o setor produtivo ganhar produtividade, tendo como prioridade a agroindústria avançada, os minerais críticos, a saúde e a economia digital” (p. 63) , e a internacionalização das pequenas e médias empresas via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Apex-Brasil, “para que o produto brasileiro chegue mais longe” (p. 63). Nesse trecho, Flávio novamente destaca o setor agroindustrial brasileiro, prometendo maior esforço por parte do governo na internacionalização do setor e na abertura de novas oportunidades de exportação. O Brasil consolidou-se como o maior exportador de carne bovina do mundo em faturamento a partir de 2006, posição que mantém ao longo das últimas décadas, de acordo com o levantamento histórico da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC, 2023), e o agronegócio responde por quase metade de tudo o que o Brasil exporta, sendo o principal motor do superávit da balança comercial segundo o Portal do Agronegócio (2026). 

No último parágrafo do tópico “Brasil no mundo” o programa do candidato traz à tona o combate ao crime organizado e outras ameaças à segurança e defesa nacional através da utilização de amplo espectro de tecnologias disponíveis. O plano afirma que: “os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”. O plano aqui estabelece uma relação entre a inserção internacional do Brasil e os investimentos nas Forças Armadas, mas não especifica quais grupos ou organizações estão sendo considerados e não explica de que maneira essa participação constitui um parâmetro para definir o nível de investimento pretendido. Também seria importante apontar que o programa não esclarece qual seria esse nível de investimento. 

Competitividade doméstica 

“Crescer por dentro para competir por fora”. Em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro dedicou apenas um parágrafo para tratar do tema de competitividade doméstica, que foi abarcado em sua seção de Relações Internacionais, e nele o plano de governo afirma que “de nada adianta um punhado de campeãs nacionais se o restante da economia patina em baixa produtividade. A competitividade doméstica é o fundamento da projeção internacional”, mais uma vez colocando em voga o tema das privatizações e da relação dessas com a competitividade econômica entre empresas. A política de campeões nacionais na economia brasileira consistiu no apoio financeiro estatal, por meio do BNDES, para tentar transformar empresas nacionais em gigantes globais. Em vez de permitir que as corporações privadas se concentrem exclusivamente na obtenção de lucros, a ideia propõe que grandes empresas sejam usadas para promover os interesses nacionais do país e levar o Brasil a se fortalecer na economia internacional. Flávio concentra sua linha de argumentação contra as campeãs nacionais com base no esforço do governo brasileiro entre 2008 e 2013 na criação e desenvolvimento dessas empresas, que gerou resultados considerados não satisfatórios e se tornou uma política abandonada. Porém, grandes economias pelo mundo ainda investem tempo e dinheiro consideráveis em suas campeãs nacionais, como é o caso da China e Rússia, países com PIB maior que o do Brasil. 

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