Como a decisão da Coreia do Norte em mudar sua Constituição afeta sua relação com a Coreia do Sul e os diálogos sobre reunificação

Ano VII, nº 134, 8 de Outubro de 2026

Por Elias David Morales Martinez, Camila Alves Moraes da Silva, Karina Vieira de Melo e Shara Karoline Meireles de Santana (Imagem: KOREA SUMMIT PRESS POOL/AFP)

Contexto das Relações entre Coreia do Norte e Coreia do Sul

A relação complexa entre as Coreias é algo que remete a tempos desde o pós Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, quando o conflito entre EUA e União Soviética teve como um de seus desdobramentos a Guerra das Coreias (1950 – 1953), e como consequência, a divisão da península entre Norte e Sul. A guerra teve como uma de suas motivações as diferenças ideológicas existentes entre esses dois blocos, onde de um lado, predominava o pensamento socialista apoiado pela União Soviética, e do outro, o pensamento capitalista apoiado pelos EUA, onde cada bloco tinha como objetivo assumir a gestão do país inteiro. O conflito entrou em uma longa pausa, sem chegar explicitamente  ao seu “fim” com a assinatura de um acordo de trégua entre os blocos em 1953 no Paralelo 38. No entanto, até hoje, as Coreias nunca chegaram a formalizar um acordo de paz, o que muitas vezes abre espaço para que tensões entre os países possam escalar rapidamente e ameaças feitas por ambas as partes, se concretizadas, não tenham nenhuma consequência, uma vez que não existe nenhum documento oficial que proíba formalmente os países de se atacarem. 

Desde então, a relação entre os países sempre foi marcada por tempos de turbulência e tempos de paz. Ataques, ameaças e provocações foram feitos ao longo do tempo por ambas as partes, além de disputas diretas, ocasionando em diversas mortes durante os  últimos 80 anos. Isso demonstra como, na prática, a guerra entre as Coreias nunca chegou a um fim definitivo. Com as divergências ideológicas cada vez mais notáveis, o antigo desejo de controle total da península parece permanecer em ambos os lados. Entretanto, mesmo que muitos conflitos marquem essa relação entre os países, ao mesmo tempo, diálogos sobre uma possível reunificação estão em andamento desde 1972, quando o Comunicado Norte-Sul foi assinado. O comunicado não oficializou a unificação dos dois blocos, mas estabeleceu quais os critérios a serem seguidos para que a reunificação possa ser alcançada. Em suma, o documento determina que o processo deve ser feito de forma pacífica. 

A situação entre as Coreias é ambígua, uma vez que os países continuam eventualmente a trocar hostilidades, ao mesmo tempo que negociam diplomaticamente uma futura reunificação. Esse status quo, no entanto, foi recentemente abalado, quando a Coreia do Norte tomou a decisão de retirar da Constituição Nacional qualquer referência à reunificação, e determinou que o território norte coreano faz fronteira com o país da Coreia do Sul, salientando que ambos os países não possuem relações um com o outro além de fronteiriças. Para entender como e por que o Estado norte coreano chegou a esta decisão, é preciso primeiramente compreender como funciona a Estratégia Nacional do país e como se encontravam as negociações de reunificação com a Coreia do Sul.

A Estratégia Empregada pela Coreia do Norte e Negociações com a Coreia do Sul

Após a divisão da península, em 1948, a parte norte foi reconhecida internamente como a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) sob a administração do líder Kim II-sung, que organizou o país seguindo o socialismo. Apesar disso, o presidente desenvolveu a política conhecida como Juche, baseando-se nos princípios do marxismo-leninismo.  Na década de 1960, a Juche foi a base orientadora da autodefesa militar e da  independência política. Esta tradição permaneceu na RPDC até meados da década de 1990, quando Kim Jong-il assumiu o poder. Na época, a legitimidade do líder foi questionada pela população e, temendo sofrer um golpe de Estado, passou a aplicar a política de Songun, definida como “militares em primeiro lugar”. Como resultado, ele garantiu a lealdade das forças armadas e as converteu no principal pilar político, levando o Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC) a perder importância durante seu governo. Tratando-se de variáveis externas, o fim da Guerra do Iraque (2003-2011) e a intervenção dos Estados Unidos na Líbia (2011), fizeram com que Kim Jong-il se sentisse ameaçado pelos Estados ocidentais e, assim, trabalhasse para construir um arsenal nuclear.

Tal iniciativa, contudo, apenas ganhou força quando Kim Jong-un tomou posse da presidência, em 2011. O líder optou por criar a política de Byungjin, que equivale a “desenvolvimento paralelo” ou “avanço paralelo”. Ou seja, é uma estratégia que realiza simultaneamente o desenvolvimento econômico e a produção de forças armadas nucleares, para reforçar e aperfeiçoar as armas nucleares, e concentrar esforços na área econômica, construindo assim um Estado onde “nosso povo desfrute plenamente da riqueza e da honra do socialismo”. Adicionalmente, no final de 2015, o governo acrescentou o princípio Chagangryeok à política Byungjin, defendendo “o poder de sobreviver através de seus próprios esforços”. Quando conseguiu alcançar um de seus objetivos, como converter a Coreia do Norte em uma potência nuclear, Kim Jong-un declarou “vitória final”. Logo, em 2018, ele priorizou o desenvolvimento econômico e científico, inaugurando uma nova inversão ideológica chamada de Gyeongje Useon, que significa “economia em primeiro lugar”. É possível observar que houve uma mudança estratégica no país, no qual o foco no militar passou a ficar em segundo plano. 

Essa mudança resultou na abertura da economia norte coreana e no fortalecimento de suas relações diplomáticas, principalmente com a Coreia do Sul. Ainda em 2018, por exemplo, o líder sul coreano progressista Moon Jae-in realizou um encontro histórico com Kim Jong-un, a fim de ampliar o diálogo e a cooperação. Na ocasião, ambos apertaram as mãos, atravessaram a linha de concreto da fronteira em Panmunjom e depois entraram na Casa da Paz para negociações. O resultado deste encontro foi a elaboração da declaração de Panmunjom Pela Paz, Prosperidade e Unificação da Península Coreana, que estabeleceu que a zona desmilitarizada se tornaria uma zona de paz, cessando a partir de 1º de maio de 2018 todos os atos hostis entre os países e eliminando seus meios. A Coreia do Sul e a Coreia do Norte também concordaram em criar um escritório de ligação conjunto na região de Kaesong, objetivando facilitar a comunicação entre as autoridades, bem como intercâmbios e cooperação entre os povos. 

Como dito anteriormente, não existe um tratado de paz definitivo que ponha fim ao conflito entre as Coreias e por isso, por mais que essa declaração tenha sido criada em 2018, isto não impediu que o lado norte coreano destruísse o escritório de Kaesong em 2020. O vice-ministro sul-coreano da unificação, Suh Ho, encarou a demolição como um ato sem sentido e sem precedentes nas relações intercoreanas. Ainda, o Ministério da Defesa da Coreia do Sul pediu que o Norte cumprisse o acordo de 2018, pelo qual prometeram eliminar todas as agressões e desmontar várias estruturas ao longo da zona desmilitarizada. Contrariando essas ações, em 2022, Pyongyang declarou o direito de usar ataques nucleares preventivos em uma nova lei que, segundo Kim Jong-un, torna seu status nuclear “irreversível” e proíbe acordos sobre desnuclearização. O líder conservador sul-coreano, Yoon Suk-yeol, afirmou que ajudaria a economia, bem como negociaria sobre a reunião de famílias separadas pela Guerra da Coreia, se a Coreia do Norte abandonasse seu arsenal nuclear. Kim Jong-un, porém, rejeitou a proposta. A Coreia do Sul é um forte aliado asiático aos EUA e na concepção do líder norte coreano, as políticas exercidas por Washington e seus aliados são hostis, com sanções e movimentos militares que minam qualquer forma de paz.

Ao longo dos anos, Kim manteve uma postura dura e inflexível, ao ponto de alcançar o estágio mais delicado das relações intercoreanas. Em 2023, a Coreia do Norte lançou um satélite militar espião nomeado Malligyong-1 em órbita, ao qual o Sul respondeu suspendendo parcialmente o acordo militar intercoreano de 2018. Kim Jong-un, por sua vez, declarou sua retirada completa do pacto, alegando não ser aconselhável debater a reunificação com “um peão colonial dos Estados Unidos”. Ele também esclareceu que não priorizaria a cooperação entre as nações, mesmo que liberais assumissem o poder, culpando todos os governos em Seul por manterem o slogan de unificação sob uma democracia liberal.

Os Primeiros Discursos de Abandono da Reunificação entre as Coreias

Em 13 de setembro de 2023, Kim Jong Un realizou uma cúpula com o presidente russo Vladimir Putin no Cosmódromo de Vostochny, promovendo oficialmente a cooperação militar Coreia do Norte–Rússia e buscando restaurar o tradicional alinhamento triangular Coreia do Norte–China–Rússia. Isso marcou uma atitude de fortalecimento do alinhamento triangular como contramedida à cooperação militar EUA–Japão–Coreia do Sul.

Durante esse período, a Coreia do Norte já utilizava o nome oficial da Coreia do Sul: “ROK (República da Coreia)”, marcando um passo importante ao tratar o país como estrangeiro. Na 9ª sessão plenária do 8º Comitê Central realizada em dezembro, Kim Jong-un rejeitou oficialmente a ideia de uma unificação pacífica com a Coreia do Sul, descrevendo as relações entre as duas Coreias como “relações entre dois estados beligerantes”. Além de classificar, posteriormente, a Coreia do Sul como “o principal inimigo”.

Em 8 de janeiro de 2024, a Coreia do Sul respondeu ao fogo de artilharia norte-coreano com bombardeios e declarou o fim das zonas de suspensão de hostilidades entre os dois países. Em resposta, Kim Jong Un ameaçou considerar como ato de guerra qualquer violação do território, espaço aéreo ou águas territoriais da Coreia do Norte, mesmo que fosse de apenas 0,001 mm. Nesse sentido, a Coreia do Norte continuou suas provocações militares contra a Coreia do Sul ao longo de 2024. Iniciando por um lançamento de míssil hipersônico em 14 de janeiro, seguido de dezenas de testes de mísseis e disparos de lançadores múltiplos supergrandes. A partir do final de maio, o país começou a enviar balões transportando materiais residuais, incluindo papel retalhado, plástico e lixo doméstico, em direção à Coreia do Sul. Em outubro do mesmo ano, a Coreia do Norte declarou a Coreia do Sul como “um estado hostil” em sua Constituição.

Duas semanas após o anúncio da nova política, o parlamento norte-coreano aboliu os órgãos responsáveis pelos assuntos inter coreanos. Nesse contexto, muitas organizações relacionadas à Coreia do Sul foram desmanteladas ou reorganizadas. Um dos marcos foi a demolição do Monumento das Três Cartas para a Reunificação Nacional, um símbolo de unificação da era Kim Il Sung. Além disso, organizações foram dissolvidas, impossibilitando as discussões de unificação com a Coreia do Sul.

Diante desse cenário, Kim Jong Un se esforçou justamente para consolidar seu regime nos setores político, econômico, militar e social, buscando estabilidade governamental. Politicamente, ele enfatizou a liderança independente, minimizando o legado de seus antecessores e reforçando o controle ideológico. Socialmente, a criação de propaganda e a repressão às influências culturais sul-coreanas foram utilizadas para conter qualquer tipo de dissidência, intensificando os esforços para bloquear a infiltração e disseminação de influências culturais sul-coreanas, incluindo a Onda Coreana (hallyu). Economicamente, o regime priorizou a autossuficiência, diante de escassez e inflação, lançando projetos de desenvolvimento local. E militarmente, concentrou-se na produção de munições para abastecer a Rússia, ao mesmo tempo em que avançava suas capacidades nucleares e de mísseis.

Foi através da assinatura do Acordo de Parceria Estratégica Abrangente, em junho de 2024, que ocorreu a restauração da cláusula de intervenção militar automática. Com o fortalecimento do alinhamento militar entre as duas nações, a Coreia do Norte ficou responsável por fornecer os sistemas de armas necessários para a guerra da Rússia na Ucrânia. Em troca, a Coreia do Norte buscava apoio russo no setor econômico e militar, principalmente no âmbito relacionado a satélites de reconhecimento militar, modernização de caças, mísseis superfície-ar, veículos blindados de combate e produção de mísseis balísticos. 

Kim também declarou que 2024 seria uma “nova era de ouro para o fortalecimento da preparação para a guerra”. Até novembro de 2024, foram realizados um total de 17 testes de funcionamento desses sistemas. Em junho, o Bureau Geral de Mísseis realizou testes com tecnologias que permitem o uso de múltiplas ogivas em um único míssil. O país buscou aprimorar seus sistemas nucleares táticos por meio de exercícios com lançadores de mísseis múltiplos de grande porte, testes de mísseis hipersônicos, além de testes com novos mísseis balísticos táticos e mísseis de cruzeiro estratégicos aprimorados. Em agosto, 250 novos lançadores de mísseis balísticos táticos foram enviados para as unidades militares de fronteira, demonstrando a importância dada ao fortalecimento das capacidades nucleares táticas.  

Em 2025, a política externa da Coreia do Norte se caracterizou por uma crescente diversificação, em meio a uma crescente incerteza no cenário internacional. Pyongyang continuou a elevar suas relações com a Rússia, ampliando a cooperação nos campos militar, econômico e diplomático. Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte buscou manter relações equilibradas com a China, focando nos setores político e econômico, além de expandir suas opções diplomáticas, aumentando o contato com países como Vietnã, Laos, Indonésia e Bielorrússia. A Coreia do Sul deixou de ser vista como um país irmão, passando a ser considerada um “inimigo principal”. Assim, as relações inter-coreanas em 2025 ultrapassaram os marcos anteriores, tornando-se um relacionamento estatal permanente, marcado pela desconfiança e hostilidade mútuas.

Alteração da Constituição Norte Coreana: Razões, Impactos e Implicações

As raízes dessa política estão relacionadas ao fracasso da cúpula de Hanói em 2019 e às ações norte coreanas subsequentes. Após o evento, Kim Jong Un retomou a política de “autossuficiência”, equivalente a um isolamento diplomático. Ele justificou essa decisão afirmando que os EUA, durante a cúpula, fizeram exigências que contrariavam os interesses fundamentais da Coreia do Norte. Portanto, declarou que “o confronto com os EUA tenderá a se prolongar, e as sanções impostas pelas forças hostis também continuarão”. Isso sinalizava uma política externa mais rígida por parte da Coreia do Norte, que se preparava para um confronto de longo prazo com Washington. Além disso, Kim responsabilizou o então presidente sul-coreano, Moon Jae-in, por não haver sido possível chegar a nenhum acordo durante a cúpula. Após o fracasso das negociações nucleares, a Coreia do Norte tomou algumas medidas importantes para se afastar ainda mais da ideia de unificação e estabelecer uma nova política em relação à Coreia do Sul. 

Em janeiro de 2024, Kim Jong-un pediu que a “esfera territorial” da Coreia do Norte fosse definida na constituição. Assim sendo, Constituição atualizada, introduzida em março de 2026, inclui uma nova cláusula que definiu o território da Coreia do Norte, abarcando uma área que faz fronteira com a China e a Rússia ao norte, “e com a República da Coreia do Sul”. A revisão também designou o líder Kim Jong Un, na qualidade de presidente da Comissão de Assuntos de Estado, como chefe de Estado da Coreia do Norte. Além disso, formalizou a autoridade de Kim sobre as forças nucleares do país, descrevendo a Coreia do Norte como um “Estado com armas nucleares responsável”. As referências aos chamados “Três Princípios da Reunificação Nacional” estabelecidos em 1972 — independência, reunificação pacífica e unidade nacional — foram removidas.

Em discurso ao Ministério da Defesa, logo após anunciar sua nova política, o líder afirmou que a Coreia do Norte havia sido “libertada das amarras” e que “poderia defender o prestígio do país como um estado independente e soberano, um estado socialista, e lidar de maneira mais eficaz com o ambiente ao nosso redor”, diante da nova definição dada à Coreia do Sul. A Coreia do Norte apresenta uma visão que considera seu vizinho como um obstáculo, e pretende excluí-lo das futuras negociações nucleares entre os EUA e a Coreia do Norte. Isso fica evidente nas recentes declarações públicas de Kim Jong-un, que, por um lado, abriram as portas para a retomada do diálogo com Trump; e por outro, rejeitaram as propostas advindas da Coreia do Sul.

Além dessas questões, os motivos para o abandono à reunificação podem também estar relacionados ao pragmatismo político. Para o líder norte coreano, os esforços para a unificação não chegarão a lugar algum. Essa concepção pode estar relacionada à grande instabilidade na política da Coreia do Sul em relação à Coreia do Norte ao longo dos anos. O fato de que os presidentes só podem exercer um mandato na Coreia do Sul muitas vezes levam a mudanças significativas nas políticas em um curto espaço de tempo a cada novo governo. Essa falta de consenso entre os partidos políticos torna difícil algum progresso nas relações entre os dois países. Por fim, mais um fator que pode estar relacionado à decisão é a priorização da sobrevivência política do Estado norte-coreano. Em seu discurso, realizado em dezembro, Kim citou a descrição feita pela Constituição da Coreia do Sul, em que a Península Coreana é retratada como território sul-coreano, bem como o objetivo de Seul de alcançar a “unificação sob a democracia liberal”. Para Kim Jong Un, isso seria uma comprovação de que Seul pretende derrubar e absorver a Coreia do Norte. 

Relacionado a isso, o líder também afirmou que o fortalecimento militar da Coreia do Norte não era um meio de ataque preventivo para realizar a unificação unilateral, mas sim uma medida de autodefesa legítima. Evidências recentes indicam que a Coreia do Norte está fortalecendo suas defesas ao longo da Zona Desmilitarizada (DMZ). Milhares de soldados estão sendo enviados para o local para destruir ferrovias que ligam as duas Coreias e plantar milhares de novas minas terrestres, consolidando ainda mais a divisão da península. Embora essas ações sejam tomadas para evidenciar que o Norte “rompeu relações” com o Sul, é possível que as novas minas terrestres e barreiras tenham, na verdade, o objetivo de dificultar a travessia da fronteira inter-coreana.

Em agosto de 2025, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung propôs um plano de três fases para a desnuclearização da Coreia do Norte: congelamento, redução e desmantelamento completo. Lee prometeu que Seul não buscaria a unificação por meio da absorção em seu discurso do Dia da Libertação de 2025 e reafirmou esse compromisso em seu discurso do Dia do Movimento de Independência de 2026. O Ministério da Unificação da Coreia do Sul enfatizou a coexistência pacífica como prioridade política imediata. Entretanto, essas declarações permaneceram sem uma estrutura formal que institucionalize a coexistência como objetivo final. Isso impediu que Pyongyang considerasse as afirmações de Seul como vinculativas. 

Dessa forma, em situações em que o contato direto é difícil, torna-se essencial buscar maneiras de gerir crises e retomar o diálogo através de canais indiretos por parte da Coreia do Sul. Isso envolve manter e fortalecer as relações com os países vizinhos, como China e Rússia, e expandir as relações diplomáticas com os países da ASEAN. Com o aprofundamento da aliança entre Coreia do Norte, China e Rússia, é crucial que Seul estabeleça suas bases diplomáticas. 

Perspectivas para o Futuro das Coreias e Relações Diplomáticas com o Brasil

O cenário atual em que se encontra a relação entre as Coreias exposto anteriormente revela que a possibilidade de reunificação entre os dois países nunca esteve tão distante. No sistema internacional atual, em um mundo globalizado, essas tensões, no entanto, não afetam apenas os países envolvidos, como também o contexto externo. A disputa entre as Coreias pode gerar dinâmicas similares às da Guerra Fria, tanto no continente asiático quanto internacional, uma vez que a forte polaridade ideológica entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul estimula o alinhamento de países tanto da região quanto de grandes potências, como é o caso do alinhamento dos EUA à Coreia do Sul e da Rússia à Coreia do Norte. Assim, fica claro que esta situação pode facilmente escalar, principalmente com o envolvimento das grandes potências, e não só isso, como também o conflito ideológico entre as Coreias pode também influenciar os próprios conflitos entre esses grandes atores, como um efeito dominó. 

Para países que não são grandes potências e que não encontram-se geograficamente perto das tensões, no entanto, a situação é diferente, como é o caso do Brasil. O país não emitiu nenhum tipo de declaração em relação às mudanças feitas pela Coreia do Norte em sua Constituição. Todavia, é válido ressaltar que o Brasil possui relações diplomáticas tanto com a Coreia do Sul (estabelecidas em 1959) quanto com a Coreia do Norte (estabelecidas em 2001). Embora os laços com os sul-coreanos sejam mais fortes – uma vez que a Coreia do Sul é também um parceiro comercial e econômico do Brasil – isso não significa que o Itamaraty se alinha inflexivelmente às decisões tomadas pelo país asiático. Se a Coreia do Sul, por exemplo, resolver atacar a Coreia do Norte em retaliação, dificilmente o Brasil irá apoiar abertamente a decisão. O mesmo vale para o inverso, se a Coreia do Norte resolver, por exemplo, invadir o território sul. Esta é uma conclusão plausível a ser elaborada quando analisada como funciona a política externa brasileira, que tem um longo histórico marcado pelo pragmatismo, principalmente no que diz respeito à relação brasileira com os demais países, além da tradição nacional de geralmente tomar decisões pacíficas e do princípio de não intervenção presente na Constituição. Assim sendo, independente dos desdobramentos desta disputa entre as Coreias, o Brasil procurará sempre assumir uma postura pragmática na qual se procura não precisar abrir mão de suas relações diplomáticas com nenhum dos lados.

Assim sendo, é preciso aguardar para poder fazer uma análise mais aprofundada do que essas mudanças significam para o futuro dos desdobramentos da Segurança internacional e os impactos de uma reunificação das Coreias, e se esta ainda é uma possibilidade, ou se este objetivo foi completamente perdido.

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