Ano VI, nº 104, 26 de junho de 2025
Por Lucas Santiago Portari, Mariana Silveira Gomes, Pamela de Lima, Rúbia Costa Machado
(Imagem: Foto oficial da Casa Branca por Daniel Torok/ Fotos Públicas)
Os primeiros resultados geopolíticos da ofensiva econômica promovida por Donald Trump começam a ser vistos. Com a trégua tarifária entre EUA e China, é possível observar certos elementos e sujeitos da política internacional reestruturando a ordem global. Mesmo com a potência ainda hegemônica pressionando os outros países para uma posição submissa nas relações diplomáticas, os EUA dos dias atuais continuam a encontrar resistência na aplicação de suas políticas doméstica e externa.
INTRODUÇÃO
Na disputa pela hegemonia político-econômica global do século XXI, o segundo mandato de Donald Trump busca direcionar os interesses do governo dos EUA para o cenário doméstico. Inflamado pelo discurso e prática da extrema-direita, o atual presidente estadunidense faz uma aposta arriscada ao forçar a economia mundial a uma postura de submissão por meio de uma violenta política tarifária. Mas, se é consenso que os EUA já foram exitosos em contextos passados em retomar seu protagonismo no cenário internacional, novas alianças no capitalismo contemporâneo também não faltaram, ressurgindo e resistindo à dita dinâmica impositiva.
UMA OFENSIVA DO DÓLAR
Por um lado, é possível de se observar a retomada – ainda que bastarda – de uma política econômica específica. O movimento de causar um grande choque na economia mundial a partir da força do próprio dólar não se trata de uma política inovadora. No final da década de 70, o famigerado Choque Volcker buscava justamente realocar os EUA como potência hegemônica. Na época, potências como França e Japão sinalizavam um potencial econômico suficiente para resistir à adoção automática do neoliberalismo, que passaria a ser ativamente proposto quando o então presidente Ronald Reagan foi empossado em 1981.
Um primeiro paralelo com o cenário atual pode parecer sutil: tanto lá quanto cá, esteve presente a contradição entre os interesses domésticos dos EUA e os anseios internacionais do país. Se hoje a administração Trump adota posturas das mais variadas, seja no Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), seja na questão migratória, seja nas tratativas bélicas da Guerra na Ucrânia, também foi fruto de um contexto polissêmico prévio o sucesso do governo Reagan e de sua “Reaganomics” no início da década de 1980. Em seu texto “A retomada da hegemonia norte-americana”, a economista Maria Da Conceição Tavares alertava, ainda nos anos finais da década de 70, que:
“àquela altura, os interesses em jogo eram tão visivelmente contraditórios que as tendências mundiais eram policêntricas e parecia impossível aos EUA conseguirem reafirmar sua hegemonia, embora continuassem a ser potência dominante.” (TAVARES, p.5, 1985)
O ponto que aqui deve ser destacado é o fato de que a existência de um intenso confronto de interesses e conflitos internos nos EUA não caracteriza, por consequência, falibilidade de um suposto projeto político-econômico. Interessa apontar que tanto Reagan quanto Trump se fazem valer de medidas declaradamente impositivas na condução de suas agendas. Mas, no final do século XX, os países do mundo eram obrigados a obedecer a política externa estadunidense, muito por conta da agressividade das políticas financeira/armamentista então aplicadas, e pelo já iniciado processo de declínio da URSS – portanto com os EUA não encontrando esferas de disputa pela hegemonia.
Por outro lado, a segunda gestão de Trump se depara com um cenário no qual, passado o choque tarifário, potências como União Europeia (UE), Rússia, e China foram capazes de construir e aprofundar aspectos do multilateralismo, fazendo com que a questão da dependência do dólar, apesar de ainda presente, pudesse ser – por elas mesmas – remediada.
Assim, no continente europeu, ao deparar-se com uma postura leniente de Trump sobre os avanços de Putin na Guerra na Ucrânia, a UE busca fazer valer sua autonomia, principalmente na área de Defesa, tendo em vista o receio pelo expansionismo russo, através do plano ‘ReArm Europe’. Já pela perspectiva asiática, a embaixada da China em Washington declarou que “se é guerra o que os EUA querem, seja uma guerra tarifária, uma guerra comercial ou qualquer outro tipo de guerra, estamos prontos para lutar até o fim.” Também no Brasil, questões como a presidência rotativa do BRICS, o fato do país ser sede da próxima reunião da COP-30, e o próprio caráter da diplomacia presidencial do presidente Lula, também jogam no sentido de resistir ao retorno de um cenário global de prevalência de negociações de cunho marcadamente bilateral e hierarquizado.
OFENSIVA INTERNA: SILENCIAMENTO DE OPOSIÇÕES
Além das dificuldades enfrentadas na política externa, o segundo mandato de Donald Trump também tem sido marcado por estratégias voltadas ao silenciamento de vozes divergentes e opositoras dentro do próprio território norte-americano. Nesse contexto, diversas figuras têm sido alvos de embates com o presidente – até mesmo aqueles que anteriormente se caracterizavam como grandes apoiadores, não saíram ilesos ao demonstrarem suas discordâncias.
A pública discussão entre o presidente dos Estados Unidos e o antigo chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), Elon Musk, torna-se explícita após Musk demonstrar seu descontentamento com o projeto de lei proposto por Trump, conhecido como “The Big Beautiful Bill Act”, que previa mudanças significativas em impostos, cortes e gastos públicos. A oposição do antigo chefe do DOGE foi recebida pelo presidente como um ato de deslealdade, resultando em ataques públicos e tentativas de descredibilização. Vale lembrar que tal projeto de lei , por sua vez, atua no sentido de cortar gastos governamentais, com o intuito de redirecionar os gastos públicos em setores aos quais o eleitorado trumpista já ataca diariamente, principalmente na pauta da imigração, e na segurança das fronteiras.
O megaprojeto ainda prevê reduzir gastos com o Medicaid, seguro de saúde para americanos de baixa renda, ao mesmo tempo que amplia critérios de trabalho exigidos adesão ao Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). Além do pacote passar a exigir que o beneficiário trabalhe para que tenha acesso ao Medicaid, a especialista Caroline Lima Ferraz destaca que “críticos do projeto e projeções de órgãos independentes prevêem aumento do déficit do governo americano em mais de US$ 2,42 trilhões na próxima década.”
O mesmo padrão de descredibilização trumpista se repetiu no caso da diretora da National Portrait Gallery, Kim Sajet, a qual renunciou duas semanas depois de Donald Trump tentar demiti-la e acusá-la de ser “altamente partidária e uma forte apoiadora da DEI” (Diversidade, Equidade e Inclusão). O ocorrido evidencia a tentativa do presidente de reformular, não apenas espaços governamentais, mas também instituições culturais, afastando possíveis influências ideologicamente incongruentes.
Nesse contexto, tais episódios simbolizam a atual maneira que o governo de Donald Trump tem tratado as discordâncias dentro do seu governo. Enquanto, internacionalmente, o presidente utiliza uma ofensiva de reafirmação da hegemonia norte-americana, no cenário doméstico, aposta na reestruturação de instituições e na consolidação de uma ideologia autoritária, marcada pela exclusão e pelo silenciamento de vozes divergentes.
OS IMPACTOS NO BRASIL
Diante do que foi exposto, observa-se uma tensão no que concerne às relações Brasil-EUA, uma vez que a atual política externa de Donald Trump se dá pela agressividade no âmbito doméstico e impositividade no cenário internacional. Posições contrárias, portanto, ao histórico diplomático brasileiro, marcado pela mediação e multilateralidade. Um mês após a posse de Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a postura incisiva do presidente estadunidense, e não tardou em criticar o abandono dos EUA do Consenso de Washington: “Se você tem livre trânsito do capital, cadê o livre comércio que foi tão apregoado? E aí começam a ameaçar o mundo. Todo dia tem uma ameaça, todo dia tem uma coisa.”
Dita declaração pode, também, convergir para uma integração inter-regional e Sul-Sul mais proeminente, procurando contornar as medidas comerciais impostas por Trump. Nesse sentido, houve a Reunião de Ministros das Relações Exteriores do BRICS para discutir uma resposta às tarifas do presidente. Nesta ocasião, o embaixador brasileiro Mauricio Lyrio (atual Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores) declarou que os ministros reafirmaram suas posições contrárias a qualquer medida unilateral independente da origem, já que ele reitera a centralidade das negociações multilaterais. Na mesma reunião dos chanceleres, Wang Yi (Ministro das Relações Exteriores da China) afirma que o silenciamento ou recuo do Sul Global possa encorajar o “valentão”, de forma que os chanceleres se comprometeram em aprofundar o aumento das transações internas com as moedas de seus respectivos países usando menos o dólar americano.
Em oposição ao tensionamento entre os Estados Unidos e o governo chinês, existe aproximação nos projetos político-econômicos entre Brasil e China. Por um lado, a recente decisão do governo chinês em isentar, a partir de junho de 2025, o visto de até 30 dias no país para brasileiros, chilenos, argentinos, peruanos e uruguaios, sinaliza a promoção de um maior intercâmbio de residentes entre os países, além de estreitar as relações comerciais dos países envolvidos.
Mas, por outro, pode-se observar que o governo brasileiro utiliza-se do molde do dito ‘Estado Planejador’ chinês como um guia para seu processo de reindustrialização. Um exemplo pode ser visto através do Programa de Nova Indústria Brasil, lançado em janeiro de 2024, cujos investimentos estatais – de acordo com o Governo Federal –, terão R$300 bilhões para financiamentos destinados ao plano até 2026. Além dos R$106 bilhões anunciados na primeira reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), em julho, outros R$194 bilhões foram incorporados, de diferentes fontes de recursos e redirecionados para dar suporte ao financiamento das prioridades da Nova Indústria Brasil. Assim como o modelo chinês, o governo brasileiro também busca apostar no investimento público como uma forma de promover desenvolvimento socioeconômico e disputar as esferas de influência regionais e internacionais do comércio internacional.
CONCLUSÃO
Assim, compreende-se que a posição do Brasil de Lula em 2025 abarca o não alinhamento automático, mesmo sendo necessário o abandono da posição de neutralidade e pragmatismo nos momentos de maior imposição da política externa de Trump. Dessa forma, o Brasil não está passivo diante das decisões de Donald Trump – na verdade, os passos e reposicionamento brasileiro demonstram a ratificação da posição multilateral mirando na cooperação entre os Estados no âmbito internacional, sem deixar que tal fato influencie na soberania do país em assuntos domésticos e o protagonismo no eixo internacional. A depender da aplicação correta de uma estratégia de política externa, o governo brasileiro tem a potencialidade de protagonizar a retomada de um cenário multilateral para o século XXI – seja na parceria BRICS, seja pelo paradigma diplomático de seu chefe de Estado.
*Agradecemos, também, a professora Nathália Henrich pelo apoio na orientação do texto
Referências
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