Ano VI, nº 104, 26 de junho de 2025
Por Ana Camille da Fonseca, Giovanna de Araujo Veloso, Guilherme Trindade, Manuela Oliveira S. Alves e Pedro H. Carmo
(Imagem: Ricardo Stuckert/ Agência Brasil)
Sob os ventos da multipolaridade, Brasil e China firmam acordos para promover a diversificação do sistema monetário. No âmbito do BRICS, também cresce a aposta em sistemas próprios de pagamentos. Apesar dos esforços, o especialista entrevistado pelo OPEB, Bruno De Conti, professor da Unicamp, destaca que ainda há desafios a serem superados.
Na visita do presidente Lula em Pequim, em maio deste ano, além da assinatura de 20 atos de cooperação em áreas como agricultura, ciência e tecnologia, houve destaque para o acordo de swap cambial assinado entre os bancos centrais dos dois países. Esse acordo permite a troca de moedas nacionais (real e yuan), sem precisar usar o dólar como intermediário. Já no âmbito dos BRICS, a discussão sobre a diversificação de pagamentos retoma o esforço do grupo por mudança das dinâmicas internacionais, o qual remonta a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que hoje detém 35% do PIB mundial, e do Arranjo Contingente de Reservas (ACR). Contudo, há desafios para a desdolarização, tanto em termos de instrumentos dentro dos BRICS, como nas relações Brasil-China.
A busca pela desdolarização do sistema monetário
Desde a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, realizada em Bretton Woods, em 1944, o dólar se consolidou como a moeda mais utilizada como unidade de conta, reserva e nas trocas comerciais internacionais. A dependência do dólar tornou o sistema internacional sujeito à exposição aos ciclos econômicos e interesses geopolíticos dos Estados Unidos, que utilizam sua moeda como instrumento de poder coercitivo, principalmente para impor sanções econômicas unilaterais das quais são exemplos as impostas ao Irã e à Rússia.
Em entrevista exclusiva ao OPEB (a íntegra está no fim do texto), o Prof. Dr. Bruno De Conti, docente do Instituto de Economia da Unicamp, destaca que existem dois eixos que explicam a busca pela desdolarização no panorama internacional. O primeiro eixo pode ser explicado pela via macroeconômica: devido a uma hierarquia monetária problemática (com o dólar no topo), países que emitem moedas periféricas tendem a ter uma maior volatilidade na taxa de câmbio e juros, além de crises econômicas recorrentes em razão de tais movimentos, escancarando as consequências macroeconômicas para os países do Sul Global na utilização do dólar como padrão monetário; esse seria um motivo para o impulso a desdolarização.
O segundo eixo, explica De Conti, trata-se do uso político da moeda, isto é, a utilização do dólar como arma. “Em um contexto geopolítico tenso, os países do BRICS, principalmente a China, a Rússia e o Irã, querem trabalhar pela desdolarização para reduzir o poder dos EUA de usar sua moeda como arma e criar eventuais maneiras de driblar sanções, entre outros”, destaca o economista.
Como o tema se desdobra no BRICS?
A desdolarização, no contexto do grupo BRICS, refere-se a esforços para reduzir o uso do dólar em transações internacionais e reservas cambiais. Em abril deste ano, o OPEB já realizou uma discussão apontando dificuldades nessa seara dentro do NBD. Já no conjunto dos BRICS, embora algumas iniciativas estejam em estágio inicial, existem soluções sendo discutidas. O objetivo não é substituir o dólar completamente, mas criar alternativas dentro da ordem monetária vigente, ampliando a diversidade de moedas utilizadas e reduzindo a vulnerabilidade política e econômica frente à moeda estadunidense, a qual os países não controlam.
Em 2024, os ministros das finanças do BRICS intensificaram as discussões sobre o tema, o ministro russo propôs um sistema de pagamentos que utilizasse o sistema de blockchain, visando a compensação das transações internacionais de maneira independente. Entretanto, a segurança e a facilidade de utilização de uma moeda única, como o dólar, continuam a proporcionar uma posição de acomodação à moeda americana.
Atualmente, para a maioria das transações internacionais, é necessário o uso de um sistema de pagamentos que faça a intermediação das operações, utilizando moedas como o dólar ou o euro. O sistema predominante é o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que oferece comunicação entre bancos internacionais. Em contrapartida, o blockchain usaria tecnologia que registra transações em blocos conectados, criando um sistema seguro e descentralizado. Essa solução visaria conectar os sistemas de pagamentos centralizados dos bancos centrais dos países membros em uma rede internacional descentralizada, utilizando blockchain e DLT (Tecnologia de Registro Distribuído). Além disso, ofereceria proteção contra sanções, como as aplicadas à Rússia.
A experiência recente da Rússia, que intensificou o uso de moedas nacionais em acordos bilaterais com países como Índia e Turquia, reforça a busca por alternativas ao dólar. A China também está desenvolvendo a sua própria proposta, com o CIPS (sistema de pagamentos baseado no yuan) e promovendo o uso internacional do yuan por meio de acordos bilaterais, swaps cambiais e do oferecimento de financiamentos internacionais por meio de instituições como o Banco dos BRICS. Pequim adota uma abordagem gradual, evitando confrontos diretos com os EUA. Em março deste ano, o yuan foi responsável por 4,1% das transações bancárias globais, mas sua limitada conversibilidade ainda representa um desafio para aumentar seu uso internacional.
No que diz respeito aos BRICS, uma moeda comum – ainda que incompleta, apenas como unidade de conta – poderia oferecer uma alternativa, funcionando como base para transações internacionais sem comprometer a soberania monetária dos países membros. Entretanto, a formulação de uma moeda comum deixou de ser discutida na cúpula do Brasil por divergências internas no grupo, assim, neste tópico, existe um “Brasil bastante hesitante, inclusive com divergências internas ao próprio governo […], junto também com a África do Sul. A Índia possui uma posição ambígua: com vontade de se manter como um líder do Sul Global e, ao mesmo tempo, não querendo entrar em conflito com os Estados Unidos”, afirmou De Conti em entrevista.
Vale destacar, ainda, que a ideia da formação de um sistema de pagamentos dos BRICS poderá favorecer o uso de moedas mais utilizadas – dentro do grupo e fora dele -, como o renminbi. Para De Conti, existe uma assimetria entre as moedas dos países integrantes e, mesmo que haja uma plataforma de pagamento que busque diminuir a presença do dólar nas trocas comerciais, há a possibilidade de a troca direta entre as moedas de cada país ser mais custosa aos que não possuem uma moeda internacionalizada.
É nesse sentido que a analista econômica Débora Oliveira, aponta que a desdolarização poderia servir a interesses chineses ao passo que pode privilegiar o RMB. Para além dessas questões, por fim, como pontuado por De Conti, é preciso também ter em mente que a criação de um sistema de pagamentos nos BRICS – seja ele qual for – envolve não só sua viabilidade técnica, mas também necessita de incentivos para sua utilização, uma vez que a mera existência do instrumento de pagamentos não obriga os países a usá-lo. No momento, o BRICS parece estar avançando nas questões técnicas para a criação do sistema de pagamentos, mas ainda não está claro que tipo de incentivos – aos agentes públicos e privados – vai haver para a sua utilização.
Desdobramento nas Relações Brasil-China
Tanto Brasil, como China defendem a multipolarização da estrutura monetária global, o que justifica os seus esforços para promover ações conjuntas que priorizem a utilização das moedas locais. A título de exemplo, segundo dados do Banco Central do Brasil, o renminbi passou a ocupar o segundo lugar nas reservas cambiais brasileiras, com 5,31%, atrás apenas do dólar. Vale mencionar que essa mudança na distribuição das reservas internacionais do Brasil é recente, tendo em vista que a participação da moeda chinesa superou a do euro somente no final de 2022. Neste sentido, houve também a criação de uma “Clearing House” – isto é, uma câmara de compensação voltada para a liquidação e o registro de operações financeiras realizadas diretamente em reais e RMB, sem a mediação do dólar norte-americano – em 2023, cujo responsável é o Banco Industrial e Comercial da China, o que possibilitou a primeira transação comercial entre os dois países nos termos estabelecidos por essa iniciativa, embora o RMB permaneça com baixíssima utilização como meio de troca entre Brasil e China.
Diante deste cenário, o novo acordo de swap cambial firmado entre o Banco Central do Brasil (BCB) e o Banco Popular da China (PBOC), em maio de 2025, representa novo marco na cooperação financeira bilateral. Com validade de cinco anos e um limite operacional de R$ 157 bilhões (aproximadamente US$ 27,7 bilhões), o instrumento visa fornecer liquidez aos mercados financeiros em contextos de instabilidade, por meio da troca temporária de reais por renminbi e vice-versa, com compromisso de recompra acrescido de juros.
Esse tipo de mecanismo tem se consolidado entre bancos centrais desde a crise financeira global de 2008, sendo utilizado como ferramenta preventiva para garantir estabilidade cambial e mitigar choques externos. A China, por sua vez, possui mais de 40 acordos similares com bancos centrais de diversas regiões do mundo, incluindo Canadá, Chile, África do Sul, Japão, Reino Unido e membros da zona do euro. Ainda que simbolicamente expressivo e estrategicamente relevante, o acordo não constitui uma inovação do ponto de vista técnico ou institucional. Trata-se de uma medida já conhecida e amplamente utilizada por outras economias, que reflete a continuidade de práticas estabelecidas no âmbito das finanças internacionais. Nesse sentido, o instrumento funciona mais como um gesto de fortalecimento da parceria sino-brasileira do que como uma mudança nas dinâmicas comerciais ou cambiais.
Em um cenário de crescente questionamento à hegemonia do dólar, especialmente entre economias emergentes, o acordo reforça a estratégia chinesa de internacionalização do RMB e de construção de uma arquitetura financeira menos dependente das instituições ocidentais. Para o Brasil, a medida representa uma sinalização de interesse em aprofundar os laços Sul-Sul, embora seus efeitos concretos dependam de condições econômicas e políticas futuras. Por isso, os agentes econômicos dos dois países devem incentivar e viabilizar o uso efetivo dessas iniciativas, de maneira a superar as limitações destas. Em outras palavras, trata-se de uma decisão política.
Entrevista com o prof. Bruno De Conti (UNICAMP)
Quais são as discussões importantes, em especial sobre a questão monetária e financeira, que são prioridade dos BRICS na cúpula no Brasil? O que esperar?
De Conti: Sobre as prioridades, eu começo pela não prioridade. A moeda dos BRICS deixou de ser discutida, pelo menos a presidência brasileira não está colocando isso como uma prioridade. Não sei se tem discussões de bastidores. Houve divergências internas ao grupo. China e a Rússia querendo mais, o Brasil bastante hesitante, inclusive divisões internas ao próprio governo, gente querendo tentar caminhar nessa direção, gente contrária. A África do Sul também hesitante. A Índia com uma posição ambígua do Modi sempre querendo ser uma liderança do sul global, mas ao mesmo tempo não querendo criar conflito com os Estados Unidos. Então a moeda deixou de ser uma prioridade. Em Kazan já não houve menção. Na cúpula de Kazan e essa do Rio provavelmente não haverá também.
Por outro lado, o sistema de pagamentos em moedas locais, isso é algo que parece que continua sendo trabalhado. E eles estão com uma prioridade também que é renovar, reformar, enfim, o arranjo contingente de reservas, que nasceu junto com o NDB, mas nunca foi usado. A África do Sul – inclusive, isso vem sendo usado como exemplo –, precisou de empréstimo em dólares e acessou o FMI, estranhamente, ao invés de usar o arranjo contingente de reservas (CRA). Então eles estão querendo fazer alguma coisa que dê utilidade ao CRA.
Por quais motivos promover a desdolarização e multipolarização do sistema monetário internacional têm se tornado objetivos importantes para os BRICS?
De Conti: Poderíamos tocar em muitas coisas, mas eu vou resumir em dois eixos. Um eixo é macroeconômico, a hierarquia monetária provoca um conjunto de problemas macroeconômicos para os países que emitem moedas periféricas. Ao mesmo tempo, um conjunto de benefícios, o privilegiado são os Estados Unidos, emissor da moeda-chave, em termos de não ter muito limite para déficit externo e, ao mesmo tempo, ter limites também muito mais tênues ou não ter limite para déficit público.
Os países que emitem moedas periféricas, ao contrário, tendem a ter uma volatilidade muito grande de taxa de câmbio, de taxa de juros, taxas de juros muito elevadas, crises de balanço de pagamentos recorrentes, muitos deles. Claro que alguns conseguem evitar isso, a China, por exemplo, muito por meio de controle de capital, acúmulo de reserva. Mas, as assimetrias do sistema internacional têm consequências macroeconômicas importantes e negativas para a periferia do sistema. Então, isso em si já é uma razão para lutar contra essas assimetrias.
Mas tem uma segunda [motivação] que sempre existiu, mas que é agora mais evidente do que nunca, que é o uso político da moeda, a moeda como uma arma, a weaponization do dólar. As sanções já foram usadas muito na história, mas dessa vez contra um país tão importante quanto a Rússia, chamou a atenção de todo mundo e num contexto geopolítico tenso. Os países dos BRICS temem também – China e Rússia mais do que nunca, mas Irã [também] – querem trabalhar pela desdolarização para reduzir esse poder dos Estados Unidos de usar a sua moeda como uma arma e poder criar eventuais maneiras de driblar sanções.
Quais são os meios através dos quais os BRICS podem colocar em prática seus objetivos de desdolarização? Fala-se em desenvolver um sistema de pagamentos para facilitar o uso de moedas locais.
De Conti: Tem vários arranjos possíveis para pagamento em moeda local. O Brasil, por exemplo, tem arranjos com os países do Mercosul, tem um com a Argentina desde 2009. Então, tecnicamente não é um grande problema. É claro que tem diversas maneiras de fazer isso. No caso com a Argentina usa-se ainda o dólar, mas na transferência de recursos do saldo entre os bancos centrais do Brasil e da Argentina; [já] o exportador e importador pagam ou recebem dinheiro nas moedas nacionais. Então, tem vários arranjos possíveis e isso é viável do ponto de vista técnico. Está sendo trabalhado.
Agora, claro, não é simplesmente construir o arranjo tecnicamente que vai garantir o sucesso. Mais do que nada porque os agentes privados, os exportadores, para dar um exemplo, dos países periféricos, eles preferem receber dólar em geral. Então, esse é um dos motivos pelos quais esse arranjo com a Argentina é um grande fracasso. Nem 5% do comércio Brasil-Argentina hoje é feito por esse arranjo de moeda local, porque os argentinos sobretudo preferem receber em dólar. E os brasileiros também. Mas, claro que para os argentinos essa é uma motivação ainda maior.
Então, enfim, para além da construção de uma plataforma que se torne viável, é preciso ter um impulso político. Não sei se o Summit dos BRICS vai tratar disso, em empresas públicas usando essa plataforma, por exemplo.
Dos países do BRICS, aquele que tem a moeda mais internacionalizada é a China, com o Renminbi (RMB). O fato de as moedas dos países do BRICS serem consideradas “menos” conversíveis pode ser um obstáculo? Como superá-lo? É possível pensar que um sistema de pagamentos dos BRICS tenderá a favorecer o uso das moedas mais internacionalizadas do grupo, em especial o RMB?
De Conti: Sim, existe uma assimetria monetária mesmo entre as moedas dos BRICS. Como vocês estão dizendo na pergunta, não tem dúvida que a tendência seria que o Renminbi seja a moeda mais utilizada. É o que já acontece, por exemplo, no comércio Rússia-China. Hoje 90% do comércio é feito em moedas nacionais, mas a maioria esmagadora disso é feito em Renminbi e não em Rublo. Então essa tendência existe sim. E bom, até nas plataformas de pagamento, mesmo que se consiga fazer uma plataforma que as trocas sejam diretamente de duas moedas, por exemplo, Rupia contra Real, e não passe pelo dólar, tudo isso tem discussões mais técnicas, mas só para indicar aqui sobre como fazer o câmbio: para as moedas menos usadas pode ser mais custoso fazer essa troca diretamente. Então, enfim, as assimetrias se mantêm, mesmo em sistemas que procurem usar as moedas locais.
Referências
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