Ano VII, nº 128, 02 de julho de 2026
Por Mohammed Nadir, Ana Carolina Carvalho de Oliveira, Alice Maria Duarte Maia, Amanda Cristina da Silva, Carlos Eduardo Ramos Sanches, Gabriel de Castro Soares, Giovanna Albuquerque Apolinario, Isabella Werneck, Rafael de Paula Anefalos, Soraya Bannout (Imagem: Alex Livesey/Fifa via Getty)
Muito além das quatro linhas, a Copa do Mundo de 2026 evidencia como o esporte permanece profundamente entrelaçado às disputas geopolíticas. Restrições migratórias, rivalidades diplomáticas e estratégias de poder transformam o torneio em um espaço privilegiado para compreender as relações internacionais contemporâneas.
A relação entre a política e o esporte (um olhar histórico)
Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos modernos, defendia que o esporte deveria constituir um espaço de encontro entre os povos, pautado pela paz, pela educação e pela neutralidade política. Entretanto, a experiência histórica demonstra que competições esportivas internacionais frequentemente refletem disputas de poder, projetos nacionais e conflitos geopolíticos. Mesmo com o ideal de neutralidade que Coubertin defendia, outros especialistas, como o Jonathan Grix cientista político britânico especializado na relação entre esporte, política e Relações Internacionais, os megaeventos esportivos constituem importantes instrumentos de projeção internacional dos Estados, funcionando como mecanismos de construção de imagem, diplomacia pública e legitimação política.
Ao longo do século XX, o esporte passou a ocupar uma posição estratégica nas relações internacionais, sendo utilizado por governos para promover identidades nacionais, fortalecer a legitimidade política e projetar poder no cenário internacional. Competições como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo deixaram de representar apenas disputas esportivas, tornando-se também espaços de afirmação nacional. Como a exemplo os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, foram utilizados pelo regime nazista como instrumento de propaganda; durante a Guerra Fria, competições esportivas refletiram a disputa ideológica entre Estados Unidos e União Soviética; e os boicotes às Olimpíadas de Moscou (1980) e Los Angeles (1984) evidenciaram como decisões políticas podem influenciar diretamente o esporte internacional. Nesse contexto, a participação do Irã em competições esportivas internacionais representa um dos exemplos mais expressivos da interseção entre esporte e política na contemporaneidade. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o esporte passou a integrar as estratégias de construção da identidade nacional e de projeção internacional do Estado iraniano.
Irã, EUA e os confrontos esportivos
As interações que cercam o esporte entre Irã e Estados Unidos vai além do campo de jogo, servindo quase sempre como um espelho de uma das relações diplomáticas mais complexas da geopolítica contemporânea. Dessa forma, o esporte, neste caso, é utilizado como um espaço de disputa simbólica onde as tensões estruturais, que por vezes culminam em hostilidades abertas ou medidas restritivas severas, se manifestam.
O exemplo mais antigo dessa tensão entre Irã e EUA no mundo esportivo ocorreu na Copa do Mundo de 1998, na França. Em um contexto de distanciamento diplomático total desde a Revolução Iraniana de 1979, o confronto foi rotulado pela mídia internacional como o “Jogo da Paz”. Naquela ocasião, os jogadores iranianos presentearam os americanos com flores antes do apito inicial, e as equipes posaram juntas para fotos, um gesto que contrastava fortemente com a retórica entre os respectivos governos.
Anos mais tarde, na Copa do Mundo de 2022 no Catar, o cenário se repetiu sob um clima de protestos internos no Irã e maior desgaste diplomático. Os Estados Unidos venceram por 1 a 0, garantindo a classificação para o mata-mata.
Atualmente, em 2026, a realização da Copa do Mundo na América do Norte trouxe à tona novos desafios. Relatos recentes indicam que a participação iraniana no mundial tem sido marcada por condições logísticas atípicas, incluindo restrições rigorosas de vistos e movimentações impostas pelo governo dos EUA à delegação iraniana.
Trump e a politização da Copa do Mundo de 2026
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, o governo norte-americano suspendeu a emissão de vistos para cidadãos de 19 países – entre eles Irã, Somália, Síria e Iêmen – e impôs restrições parciais a outros 56, atingindo um total de 75 nações. Desse universo, 23 tinham seleções classificadas ou em processo de repescagem para a Copa de 2026, o equivalente a cerca de um quarto dos participantes do torneio. A organização Human Rights Watch registrou que, entre janeiro de 2025 e março de 2026, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) prendeu 167 mil pessoas nas 11 cidades-sede da Copa, evidenciando o clima hostil em que o evento seria realizado.
O caso mais simbólico envolvendo atletas foi o do atacante Aymen Hussein, capitão e principal nome da seleção do Iraque. Autor do gol que garantiu o retorno do Iraque ao Mundial após 40 anos de ausência, Hussein foi detido e interrogado por cerca de sete horas ao desembarcar no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. A mídia árabe noticiou que o jogador teria sido tratado como “terrorista” após ser confundido com outro cidadão iraquiano pelas autoridades de imigração, que também inspecionaram seu telefone celular. Além disso, o fotógrafo oficial da seleção, Talal Salah, teve o visto definitivamente negado e precisou retornar a Bagdá. Ainda nesse cenário de interferência política na Copa, o árbitro somaliano Omar Artan, eleito o melhor árbitro masculino pela Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025 e indicado pela FIFA para apitar partidas no Mundial desembarcou no Aeroporto Internacional de Miami no dia 6 de junho e ficou detido para interrogatório por 11 horas. As autoridades alegaram suspeita de vinculação ao grupo al-Shabaab – grupo extremista islâmico e organização terrorista afiliada à Al-Qaeda, atuante principalmente no sul e centro da Somália – , porém, sem apresentar provas concretas. A embaixada somali chegou a oferecer um passaporte diplomático ao árbitro, mas a medida foi recusada pelos EUA. Artan, então, foi deportado e, em 8 de junho, excluído pela FIFA do quadro oficial de arbitragem.
Dessa forma, fica claro que o grau de interferência observado nesta edição superou qualquer precedente histórico e as políticas de imigração de Trump transformaram o torneio em reflexo das tensões geopolíticas contemporâneas, atingindo atletas, árbitros e delegações inteiras. O mecanismo de controle de vistos foi utilizado, não só como uma ferramenta de segurança, mas principalmente como instrumento de pressão política demonstrando que as restrições obedeciam a uma lógica seletiva e politicamente orientada, e não a critérios uniformes de segurança.
A posição da FIFA em relação à esse impasse
Em Dezembro de 2025 o presidente da FIFA Gianni Infantino entregou à Donald Trump o troféu do Prêmio da Paz da FIFA em evento sobre o mundial de clubes ainda em fase de organização. Numa postagem em seu perfil do Instagram, o responsável pela solenidade disse reconhecer o mandatário americano por “excepcionais e extraordinárias ações para promover a paz e a união ao redor do mundo”, declaração esta que contrastaria grandemente com a decisão tomada pelo Departamento de Estado em Janeiro de 2026, pouco mais de 1 mês depois da entrega do Prêmio por Infantino, de congelar a emissão de vistos para 75 países, dentre eles, alguns participantes da Copa como: Argélia, Marrocos, Iraque, Irã, Egito, Somália, Jordânia e Tunísia.
No início de Junho de 2026, pouco antes dos jogos começarem, os problemas imigratórios começaram a se materializar. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada negada nos EUA para apitar jogos do torneio e foi obrigado à retornar para seu país. O atacante iraquiano Aymen Hussein acabou retido e passou por interrogatório que durou 7 horas, além do fotógrafo da Seleção Iraquiana, Talal Salah, que teve o visto negado e acabou deportado para Bagdá.
Contudo, o caso da Seleção iraniana, é o que mais chamou a atenção em função das burocracias alfandegárias. Em razão da Guerra entre Irã e Estados Unidos, os persas restaram obrigados à fixarem-se no México e deslocarem-se ao território americano para realizarem suas partidas, retornando ao país latino no mesmo dia após cada jogo.
Diante dos fatos, Infantino passou a emitir posicionamentos contemporizadores. Sobre Abdulkadir, alegou: “Estamos sempre tentando encontrar soluções, mas precisamos reconhecer que não somos os donos do mundo, que podem mandar em governos e forças policiais — somos uma organização esportiva”, ao passo em que no vestiário da seleção iraniana, após cobranças do técnico Amir Ghalenoei, ponderou: “Eu sei o que vocês estão passando, e compreendo. Mas vocês são mais fortes do que tudo. Estão enviando uma mensagem ao mundo inteiro. Esta noite, uniram todo o estádio com vocês. Se mostraram para o mundo e enviaram uma mensagem poderosa. Obrigado por estarem aqui”.
O capitão da Seleção do Irã, Mehdi Taremi, classificou o mundial como um desastre após a terceira rodada da fase de grupos onde sua equipe acabou por ser eliminada e afirmou: “Fifa não fez nada”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Irã e Estados Unidos: o histórico ‘Jogo da Paz’ na Copa de 1998 | Ge
Irã x Estados Unidos: rivalidade extravasa a Copa desde a década de 50
Time do Irã terá que sair dos EUA após cada jogo da Copa do Mundo; entenda | G1
COUBERTIN, Pierre de. Olympic memoirs. Lausanne: International Olympic Committee, 1979.
GRIX, Jonathan. Sport politics and the Olympics. Political Studies Review, v. 11, n. 1, p. 15-25, 2013.
Árbitro somali barrado pelos EUA receberá salário integral da Fifa. G1, São Paulo, 14 de junho de 2026. Disponível em: < https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/14/arbitro-somali-barrado-pelos-eua-recebera-salario-integral-da-fifa.ghtml >. Acesso em: 28 jun. 2026.
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Capitão da seleção do Irã critica Fifa por ‘Copa desastrosa’ e cita promessa de Infantino: ‘Não fizeram nada’. ESPN, São Paulo, 27 de junho de 2026. Disponível em: < https://www.espn.com.br/futebol/copa-do-mundo/artigo/_/id/16917121/taremi-selecao-ira-copa-do-mundo-desastrosa-cita-infantino-nao-fizeram-nada >. Acesso em: 28 jun. 2026.
Congelamento de vistos dos EUA: veja a lista de países afetados. G1, São Paulo, 14 de janeiro de 2026. Disponível em: < https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/14/congelamento-de-vistos-dos-eua-veja-a-lista-de-paises-afetados.ghtml >. Acesso em: 27 jun. 2026.
Copa: presidente da Fifa lamenta corte de árbitro somali barrado nos EUA: ‘Não controlamos tudo’. G1, São Paulo, 10 de junho de 2026. Disponível em: < https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/10/infantino-lamentavel-corte-arbitro-somali-copa-do-mundo.ghtml >. Acesso em: 27 jun. 2026.
Departamento de Segurança Interna dos EUA permite entrada da seleção do Irã no país dois dias antes da próxima partida na Copa. G1, São Paulo, 23 de junho de 2026. Disponível em: < https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/06/23/departamento-de-seguranca-interna-dos-eua-permite-entrada-da-selecao-do-ira-no-pais-dois-dias-antes-da-proxima-partida-na-copa.ghtml >. Acesso em: 27 jun. 2026.
Fotógrafo da seleção do Iraque é detido por 13 horas nos EUA e deportado para Bagdá. Globo Esporte, São Paulo, 6 de junho de 2026. Disponível em: < https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/06/fotografo-da-selecao-do-iraque-e-detido-por-13-horas-nos-eua-e-deportado-para-bagda.ghtml >. Acesso em: 27 jun. 2026.
Presidente da Fifa vai ao vestiário do Irã, e técnico desabafa: “Sofremos uma injustiça”. Globo Esporte, Los Angeles, 16 de junho de 2026. Disponível em: < https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/16/presidente-da-fifa-vai-ao-vestiario-do-ira-apos-jogo-eu-sei-o-que-estao-passando.ghtml >. Acesso em: 27 jun. 2026.
President Donald J. Trump awarded “FIFA Peace Prize – Football Unites the World”. FIFA, 5 de dezembro de 2025. Disponível em: < https://inside.fifa.com/campaigns/football-unites-the-world/news/president-trump-peace-prize-football-unites-the-world >. Acesso em: 27 jun. 2026.
