Ano VII, nº 128, 02 de julho de 2026
Por Ana Carolina Chida Lorca, Ana Izadora Rodrigues Bezerra, Isabella Barbosa Loiola, Lucas Santiago Portari, Nicolás Alejandro Malinovsky (Imagem: Flickr)
Donald Trump afirmou, em 14 de junho de 2026, que o acordo com o Irã estava concluído e conclamou à retomada do comércio marítimo e dos fluxos internacionais de petróleo: “navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo volte a fluir”. O fim do bloqueio e a reabertura gradual do estreito não significam, porém, o retorno imediato à normalidade. Analistas esperam que a recuperação dos fluxos de petróleo ocorra de forma gradual, marcada por restrições logísticas, danos técnicos e desafios relacionados à retomada das operações em poços, terminais, refinarias e instalações de liquefação. A recuperação também deverá ser desigual: enquanto Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos podem restaurar parte de sua produção em algumas semanas, Iraque e Kuwait poderão levar vários meses para atingir níveis próximos aos anteriores ao conflito.
Introdução
Passados 111 dias do bloqueio do Estreito de Ormuz, Estados Unidos e Irã estabeleceram os termos para um cessar-fogo, abrindo caminho para as negociações finais e para a reabertura gradual do estreito. O Memorando de Entendimento (MoU), apelidado de “Memorando Islamabad”, foi formalizado digitalmente em 19 de junho de 2026, no âmbito de uma cerimônia realizada no Palácio de Versalhes, na França, entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, em Teerã. O documento reúne 14 pontos, estabelece medidas imediatas e prevê um prazo de até 60 dias para a negociação de um acordo definitivo.
O memorando encerra um período de elevada tensão, ao combinar compromissos de curto prazo voltados à estabilização regional, negociações de médio prazo sobre temas sensíveis e perspectivas de longo prazo capazes de reconfigurar a geopolítica da energia. Mais do que um entendimento bilateral, o acordo possui efeitos potenciais sobre a segurança marítima, os fluxos globais de petróleo e gás, a dinâmica interna da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e as estratégias de segurança energética adotadas por grandes consumidores e produtores.
No curto prazo, o primeiro ponto do acordo declara o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano. Ambos os lados comprometem-se a não realizar ações hostis nem utilizar a força um contra o outro, evidenciando que o conflito extrapola a relação bilateral entre Estados Unidos e Irã e envolve diretamente a segurança regional. O segundo ponto, por sua vez, explicita o compromisso dos Estados Unidos de respeitar a soberania iraniana e de não interferir em seus assuntos internos.
Entretanto, a efetividade desse compromisso permanece condicionada à postura de outros atores envolvidos no conflito. Em telefonema com Trump, no dia 14 de junho de 2026, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enfatizou que Israel manterá sua liberdade de ação e não se limitará de forma alguma. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que as Forças Armadas israelenses permaneceriam no sul do Líbano “indefinidamente”. Já o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, afirmou explicitamente que Israel não está vinculado ao acordo. Essas declarações revelam que, embora o memorando represente uma tentativa de contenção do conflito, a estabilidade regional continua dependente de múltiplos interesses e decisões políticas.
Apesar dessas limitações, o acordo prevê medidas imediatas relevantes. Entre elas, destaca-se a liberação dos fundos iranianos congelados, prevista no ponto 11, bem como a concessão de autorizações pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para a retomada das exportações de petróleo iraniano e dos serviços financeiros relacionados, incluindo seguros, transporte e operações bancárias. O MoU também prevê que Washington não imponha novas sanções nem amplie sua presença militar na região enquanto as negociações estiverem em andamento. Em conjunto, essas medidas representam um primeiro passo para a reinserção do Irã no mercado internacional de energia.
O Irã reafirma seu compromisso, no âmbito do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, de não desenvolver armas nucleares, enquanto o acordo final deverá tratar do destino do urânio enriquecido, das atividades de enriquecimento, da suspensão das sanções e da reconstrução econômica do país.
Embora o texto determine apenas que a destinação do material enriquecido será definida por um mecanismo negociado entre as partes, a expectativa é de que o estoque de urânio enriquecido a 20% seja eliminado ou transferido para um terceiro país. Ao Irã permaneceria o direito ao enriquecimento de até 5%, exclusivamente para fins pacíficos.
Paralelamente, o MoU prevê a participação norte-americana na reconstrução econômica iraniana por meio de um plano de desenvolvimento de pelo menos US$ 300 bilhões. O mecanismo deverá ser estruturado durante o período de negociações, sinalizando o interesse mútuo em estabelecer bases econômicas e políticas mais duradouras para a normalização das relações entre os dois países.
No longo prazo, o principal impacto esperado do memorando está relacionado à reconfiguração da segurança marítima e da governança do Estreito de Ormuz para garantir a normalização dos fluxos energéticos pelo Golfo Pérsico.Além disso, abre-se a possibilidade de uma futura administração do estreito em diálogo com Omã e os demais Estados litorâneos, incluindo a organização de maritime services. Essa perspectiva sinaliza uma mudança potencial na governança de uma das principais rotas energéticas do mundo.
Nesse cenário, a implementação efetiva dessas medidas poderá alterar estruturalmente a dinâmica da economia política internacional da energia. No entanto, a reabertura do estreito não elimina de imediato os efeitos materiais, econômicos e políticos produzidos pelos 111 dias de bloqueio, especialmente diante dos danos causados à infraestrutura energética regional.
Impactos regionais: danos à infraestrutura e fragilidades energéticas no Oriente Médio
Durante os 111 dias de bloqueio, a região enfrentou não apenas a restrição espacial imposta pelo fechamento do Estreito de Ormuz, mas também mais de 150 ataques contra a infraestrutura energética do Oriente Médio. De acordo com o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, cerca de 84 instalações energéticas foram danificadas, das quais 34 sofreram danos graves ou muito graves. A infraestrutura afetada inclui campos críticos de petróleo e gás, refinarias e terminais de GNL no Catar, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque.
O setor de refino foi um dos mais afetados. As refinarias do Golfo perderam cerca de 3 milhões de barris por dia de capacidade de refino. Entre os principais casos está a Refinaria de Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos. De propriedade da Adnoc, a instalação é uma das maiores refinarias do mundo e foi fechada “por precaução” após um ataque com drone nas proximidades. Descrita pela própria empresa como a quarta maior refinaria de unidade única do mundo, Ruwais permaneceu fechada durante boa parte do conflito. O setor de GNL também sofreu danos relevantes. O complexo de produção de Ras Laffan, no Catar, de propriedade da QatarEnergy, foi atingido por ataques com mísseis. Em 20 de março, a empresa anunciou a perda de 17% de sua capacidade de exportação, e os reparos podem levar até cinco anos. As perdas de fornecimento no curto prazo e o menor crescimento da capacidade de liquefação poderão resultar em uma perda acumulada de aproximadamente 120 bilhões de metros cúbicos de GNL entre 2026 e 2030. Esse cenário evidencia que os impactos da crise não se limitam ao petróleo, mas atingem diretamente o mercado global de gás, especialmente os países asiáticos e europeus dependentes de importações de GNL.
Na medida em que as refinarias e as instalações de gás natural liquefeito tiveram de suspender parcial ou integralmente suas operações, diversos países do Golfo foram obrigados a reduzir a produção de petróleo.
A reconstrução da infraestrutura energética regional, portanto, deverá estender-se por vários anos. Segundo estimativa da Rystad Energy, o custo de reparação poderá variar entre US$ 34 bilhões e US$ 58 bilhões. O próprio Irã concentra o maior número de instalações afetadas, com custos de recuperação que podem chegar a US$ 19 bilhões. Mesmo com a reabertura do estreito, a produção dessas instalações poderá levar pelo menos dois anos para retornar sua capacidade plena, e alguns complexos poderão demandar um período ainda maior de recuperação.
Diante do bloqueio, os produtores do Golfo buscaram rotas alternativas para escoar sua produção, estratégia que se mostrou essencial para preservar parte de suas receitas e manter o abastecimento de mercados internacionais. A Arábia Saudita ilustra a importância da diversificação logística. Antes da guerra, o maior exportador de petróleo do mundo já exportava cerca de 20% de seus embarques pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, por meio do oleoduto Leste-Oeste (Petroline). Construído pela Aramco na década de 1980, esse oleoduto possui cerca de 1.200 quilômetros. Durante o conflito, sua capacidade foi ampliada, passando a operar em seu limite máximo de 7 milhões de barris por dia, acima dos 5 milhões registrados antes da guerra. Essa infraestrutura permitiu à Arábia Saudita reduzir parcialmente sua dependência do Estreito de Ormuz e preservar uma parcela significativa de suas exportações. A tendência é que o país invista agora na ampliação da infraestrutura para rotas alternativas.
A situação do Iraque, contudo, revelou-se mais delicada ainda. Com a maior parte de sua produção concentrada no sul do país, Bagdá permanece fortemente dependente de Ormuz. Durante o bloqueio, as exportações iraquianas de petróleo foram quase totalmente paralisadas, registrando queda superior a 97% em maio de 2026, equivalente a 3,22 milhões de barris por dia. Diante dessa vulnerabilidade, autoridades e empresas que operam no país passaram a buscar alternativas para expandir as rotas de exportação por meio da Turquia e da Síria.
No caso do Catar, maior exportador mundial de GNL, o desafio está relacionado à ausência de rotas alternativas dentro de seu próprio território e à dependência de países vizinhos para evitar o estreito. Para isso, o país precisaria construir um oleoduto por meio dos Emirados Árabes Unidos ou Omã, ou, alternativamente, atravessar a Arábia Saudita em direção ao Mar Vermelho. Como resultado da crise, o Fundo Monetário Internacional projeta que a economia catariana poderá contrair 8,6% em 2026, após ter crescido 2,8% em 2025.
O bloqueio do Estreito de Ormuz também aprofundou tensões já existentes no interior da OPEP. Em 28 de abril de 2026, os Emirados Árabes Unidos anunciaram sua saída da OPEP e da OPEP+. A decisão, classificada pelo ministro de Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Mohamed al-Mazrouei, como “política”, ocorreu após anos de divergências com a Arábia Saudita. Mesmo sem efeito imediato, a saída dos Emirados poderá permitir maior flexibilidade produtiva ao país após o fim do bloqueio, sem as regras de cotas impostas pela organização.
A decisão emiradense também incentivou manifestações de insatisfação entre outros membros. Em junho de 2026, o Iraque, segundo maior produtor da OPEP, ameaçou deixar a organização caso suas cotas de produção não fossem ampliadas. A cota iraquiana para julho de 2026 é de 4,378 milhões de barris por dia, embora sua produção atual permaneça abaixo desse nível em razão do conflito e dos danos à infraestrutura.
Repercussões Globais: Mercados Energéticos, Combustíveis Fósseis e Lucros Extraordinários
Os efeitos do bloqueio do Estreito de Ormuz ultrapassaram rapidamente os limites do Oriente Médio e alcançaram a economia internacional. O contrato para setembro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), registrou US$ 76,80 por barril.
Esse movimento sugere uma normalização ainda incipiente das relações comerciais entre os governos norte-americano e iraniano, na medida em que ambos possuem interesse na retomada gradual da navegação e dos embarques de petróleo. No entanto, a instabilidade política persistente em torno do estreito tem levado diversos países asiáticos a buscar novos parceiros comerciais e fontes alternativas de abastecimento.
Uma das principais respostas foi o aumento da demanda por carvão na Ásia, impulsionado pela adaptação das economias sul-coreana e japonesa ao uso combinado de carvão e gás natural liquefeito. O carvão australiano de alta qualidade, amplamente utilizado por empresas de energia no Japão e na Coreia do Sul, registrou alta de 30%, passando de US$ 115,96 por tonelada, valor observado no início do conflito, para US$ 150,25 em meados de junho.
Os preços indicam que o carvão térmico tornou-se relativamente mais barato que o GNL desde o início da crise, e essa diferença de competitividade refletiu-se nos fluxos de abastecimento. O Japão, terceiro maior importador de carvão do mundo, deve receber 7,82 milhões de toneladas de carvão térmico em junho. Esse volume representa o terceiro aumento mensal consecutivo e uma alta de 33% em relação às 5,89 milhões de toneladas recebidas no mesmo período do ano anterior.
A China também desempenha papel relevante nesse cenário. Observa-se que a China, embora seja o país mais dependente das importações de petróleo e gás que passam pelo estreito de Ormuz, conseguiu absorver parte do choque por ter acumulado grandes reservas estratégicas e comerciais, que deverá tentar recompor em breve. De outro lado, a gigante asiática, que já é a maior importadora mundial de carvão, ampliou suas compras e a previsão é de que as chegadas marítimas de carvão térmico em junho atinjam 27,65 milhões de toneladas, o maior volume dos últimos seis meses. Esse número representa aumento de 48% em relação às 18,62 milhões de toneladas registradas em junho de 2025. Contudo, o crescimento das importações chinesas não está relacionado exclusivamente ao conflito envolvendo o Irã, mas também à dinâmica doméstica, marcada pelo fortalecimento da demanda por geração termelétrica e por uma produção interna de carvão mais fraca.
Enquanto países asiáticos buscavam alternativas para garantir o abastecimento, os Estados Unidos ampliaram suas exportações de petróleo e gás, tornando-se o maior exportador dessas commodities em junho de 2026. Esse resultado decorre da combinação entre o elevado nível de produção proporcionado pela revolução do xisto e as interrupções no abastecimento global de petróleo e gás provocadas pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, especialmente em razão das dificuldades enfrentadas pelas exportações sauditas por meio do Estreito de Ormuz.
O cenário incentivou o aumento da oferta doméstica norte-americana. Os Estados Unidos passaram a produzir 10,5 milhões de barris de petróleo por dia e alcançaram, em 2025, um novo recorde na exportação de GNL, com 111 milhões de toneladas. Assim, tornaram-se o primeiro país a superar a marca de 100 milhões de toneladas de gás natural liquefeito exportadas em um único ano.
Apesar do acordo firmado entre Irã e Estados Unidos, há expectativa de que o preço do petróleo bruto permaneça elevado até o final de 2026. Esse nível de rentabilidade evidencia o fenômeno dos windfall profits, isto é, lucros extraordinários obtidos em decorrência de choques de preços e interrupções no mercado. Na Europa, as quatro maiores petroleiras — Shell, TotalEnergies, BP e Equinor — registraram mais de US$ 18 bilhões em lucro ajustado após impostos no primeiro trimestre de 2026. O valor representa crescimento de 80% em comparação com o trimestre anterior, demonstrando que a crise em Ormuz produziu impactos financeiros relevantes também sobre empresas sediadas fora da região diretamente afetada pelo conflito.
No Brasil, a Petrobras informou aumento de 14% na produção de petróleo. Nos três primeiros meses de 2026, a empresa alcançou lucro líquido de R$ 32,7 bilhões, equivalente a US$ 6,2 bilhões, registrando crescimento de 110% em relação ao quarto trimestre de 2025. Parte desse resultado está relacionada à crise em Ormuz, ao bloqueio do estreito e ao aumento da lucratividade das exportações petrolíferas brasileiras. Nesse contexto, a Petrobras busca preservar sua capacidade operacional e financeira, especialmente diante da volatilidade dos preços internacionais do petróleo.
Cenários de Curto Prazo e Reconfiguração dos Fluxos Energéticos Globais
A guerra com o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz provocaram uma reconfiguração expressiva dos fluxos globais de petróleo. A permanência dessas mudanças, contudo, poderá ser transitória ou converter-se em transformação mais estrutural do comércio energético internacional. Esse resultado dependerá dos termos e do grau de cumprimento dos acordos alcançados após os 60 dias de cessar-fogo previstos no Memorando de Entendimento firmado entre Irã e Estados Unidos.
O relatório Oil Market Report da IEA, de 2026, demonstra que as exportações marítimas da Arábia Saudita foram significativamente reduzidas, passando de 7,3 milhões para 4,2 milhões de barris por dia, especialmente nos embarques destinados à Ásia. Em contrapartida, os Estados Unidos ampliaram suas exportações de 3,9 milhões para o recorde de 5,2 milhões de barris por dia, direcionando a maior parte desse incremento aos mercados asiáticos, como Japão, Coreia do Sul e Singapura.
Os maiores aumentos da produção de petróleo bruto fora do Estreito de Ormuz ocorreram nos Estados Unidos, com acréscimo de 320 mil barris por dia, e no Brasil, com aumento de 210 mil barris por dia. Canadá e Venezuela também ampliaram sua produção, em 80 mil e 70 mil barris por dia, respectivamente. A bacia atlântica compensou parcialmente a queda da oferta proveniente do Golfo Pérsico e reforçou o papel dos Estados Unidos como fornecedor alternativo no mercado mundial.
Essas transformações tornam-se ainda mais relevantes quando se considera que a OPEP, em seu relatório World Oil Outlook 2050, projetou continuidade no crescimento da demanda mundial de petróleo nas próximas décadas. Segundo a organização, a demanda poderá alcançar 124,1 milhões de barris por dia em 2050, frente aos 105,1 milhões registrados em 2025.
A isso se soma a necessidade de garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz. As tarefas de desminagem, a reparação de terminais, a reativação de instalações portuárias e o restabelecimento das cadeias logísticas regionais serão fundamentais para a recuperação dos fluxos energéticos. Jotaro Tamura, diretor da Mitsui OSK Lines, maior operadora de navios petroleiros do mundo, afirmou que as empresas de navegação necessitarão não apenas de acordos diplomáticos, mas também de garantias efetivas de segurança para retomar plenamente suas operações na região. Em consonância com essa avaliação, o Morgan Stanley estima que apenas 50% da produção de petróleo e gás do Golfo terá sido recuperada até setembro e 80% até dezembro de 2026.
Por outro lado, a guerra colocou Estados e empresas energéticas em alerta quanto à necessidade de diversificar suas fontes de abastecimento. Nesse contexto, os recursos hidrocarboníferos localizados fora da zona de conflito adquirem novo valor estratégico. A América Latina consolida-se como espaço de crescente interesse geopolítico para os Estados Unidos, especialmente no contexto de sua disputa hegemônica com a China.
A região concentra importantes reservas de petróleo e gás, com destaque para o Pré-sal brasileiro, a Venezuela e as reservas não convencionais de Vaca Muerta, na Argentina. O Brasil, em particular, ocupa posição relevante entre os principais produtores mundiais de petróleo e tende a ampliar sua importância como fornecedor alternativo em contextos de instabilidade no Oriente Médio.
Além da diversificação geográfica dos fornecedores, a crise poderá revitalizar o interesse por fontes energéticas alternativas ao petróleo. Esse processo poderá acelerar investimentos em energias renováveis, biocombustíveis, hidrogênio e tecnologias voltadas ao fortalecimento da segurança energética e à redução da dependência de corredores estratégicos vulneráveis. Entretanto, a profundidade e a duração desse movimento dependerão da persistência do prêmio de risco geopolítico sobre os hidrocarbonetos e da evolução dos preços internacionais.
Por fim, o papel da China será determinante para a configuração do cenário energético global. O XV Plano Quinquenal para a construção de um “novo sistema energético”, publicado em junho de 2026, estabelece como meta que as fontes limpas representem 30% da geração elétrica até 2030, frente aos atuais 22%. Para alcançar esse objetivo, o governo chinês prevê modernizar a rede elétrica para integrar 900 GW de geração distribuída, promover tecnologias emergentes, como usinas virtuais de energia e hidrogênio, e fortalecer simultaneamente o papel do carvão como instrumento de segurança energética.
A estratégia chinesa poderá acelerar a transição energética mundial, embora sem abandonar integralmente os combustíveis fósseis no médio prazo. Dessa maneira, a crise de Ormuz reforça uma tendência já presente na geopolítica da energia: a coexistência entre esforços de transição energética, necessidade de segurança do abastecimento e persistência da dependência global de petróleo, gás e carvão.
Conclusão
O bloqueio do Estreito de Ormuz evidenciou, mais uma vez, a centralidade dos corredores marítimos estratégicos para a segurança energética internacional. Os 111 dias de interrupção afetaram diretamente os fluxos de petróleo e gás, provocaram danos relevantes à infraestrutura regional e ampliaram a volatilidade dos mercados. Embora o Memorando Islamabad represente um passo importante para reduzir as tensões e restabelecer a circulação comercial, sua efetividade dependerá do cumprimento dos compromissos assumidos e da capacidade de acomodar interesses divergentes entre os diversos atores envolvidos.
A reabertura gradual do estreito, portanto, não representa um retorno automático à normalidade. A destruição de instalações de petróleo, gás, refino e liquefação deverá produzir efeitos de meio prazo sobre a capacidade produtiva da região. Refinarias, terminais, campos petrolíferos e complexos de GNL exigirão investimentos elevados e longos períodos de recuperação, o que poderá limitar a oferta energética mesmo em um cenário de estabilização política.
Além dos danos físicos, a crise revelou a vulnerabilidade de países altamente dependentes do Estreito de Ormuz. Iraque e Catar, por exemplo, enfrentam dificuldades estruturais para diversificar suas rotas de exportação. Em contraste, a Arábia Saudita demonstrou maior capacidade de adaptação ao utilizar sua infraestrutura de oleodutos até o Mar Vermelho. A desigualdade entre essas capacidades logísticas tende a influenciar não apenas a velocidade da recuperação econômica e energética de cada país, mas também a impulsionar projetos voltados à criação de novas rotas para o escoamento de petróleo e gás, sem a necessidade de passar pelo estreito de Ormuz.
No mercado global, o conflito acelerou a reconfiguração dos fluxos de petróleo e gás. Estados Unidos, Brasil, Canadá e Venezuela ampliaram sua relevância como fornecedores alternativos, enquanto os países asiáticos buscaram combustíveis substitutos e intensificaram o uso do carvão. Essa dinâmica demonstra que crises geopolíticas podem alterar temporariamente a geografia da oferta energética, fortalecendo produtores localizados fora das zonas de conflito e modificando relações comerciais previamente consolidadas.
A crise também expôs a contradição entre segurança energética e transição energética. Ao mesmo tempo que a instabilidade em Ormuz pode estimular investimentos em fontes renováveis, hidrogênio, biocombustíveis e soluções de armazenamento, ela também incentivou o aumento do consumo de carvão e a expansão da produção de petróleo e gás em diversos países. Assim, a transição energética tende a ocorrer de forma desigual, marcada por avanços tecnológicos, mas também pela persistência de combustíveis fósseis como instrumentos de segurança e estabilidade econômica.
Nesse contexto, a América Latina poderá adquirir importância crescente na geopolítica da energia. Contudo, essa oportunidade deverá ser acompanhada de planejamento, investimentos em infraestrutura, estabilidade regulatória e políticas capazes de conciliar a ampliação da produção energética com objetivos ambientais e de desenvolvimento sustentável.
Por fim, a crise do Estreito de Ormuz reforça que a segurança energética não pode ser compreendida apenas como garantia de oferta de petróleo e gás. Ela envolve infraestrutura resiliente, diversificação de rotas, estabilidade política, cooperação internacional, capacidade de resposta a riscos e investimentos em fontes alternativas.
Agradecimento ao professor Giorgio Romano Schutte
