Ano VII, nº 127, 18 de junho de 2026
Ana Izadora Rodrigues Bezerra, Diego Yokota Lima, Lucas Santiago Portari, Nicolás Alejandro Malinovsky, Robson Araujo Silva (Imagem: ImageFX)
A expansão acelerada dos datacenters, impulsionada pela digitalização e pela inteligência artificial, eleva significativamente a demanda por energia e recursos naturais. Embora a transição energética avance com a ampliação das fontes renováveis, o crescimento do consumo elétrico e da infraestrutura digital impõem novos desafios à sustentabilidade.
Introdução
Os datacenters surgem como uma ferramenta imprescindível da era digital e da ascensão da Inteligência Artificial. Esses supercondutores de informação possuem alta capacidade de armazenamento e grande poder de transmissão de dados. Com a necessidade de fornecimento constante de energia elétrica e suporte de equipamentos como firewalls, roteadores, interconectores e switches corporativos, os datacenters não se limitam apenas a estruturas tecnológicas, mas envolvem interesses estratégicos e, ao consumirem grandes quantidades de energia e água, acabam por estabelecer uma relação direta entre a expansão digital e a demanda energética.
Em termos energéticos, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os datacenters consumiram em torno de 1,5% da eletricidade global em 2024 (415TWh) e devem mais que dobrar seu consumo até 2030, atingindo 945 TMh e representando 3% do total de consumo global de eletricidade com crescimento anual acima de 30%, intensificando a busca por regiões com energia abundante, estável e de baixo custo.
Do ponto de vista da cadeia global de valor da inteligência artificial e dos datacenters, observa-se uma elevada concentração geográfica das capacidades tecnológicas e produtivas. De acordo com o relatório da AIE sobre Energia e IA (2025), os Estados Unidos representaram a maior parte do consumo mundial de eletricidade dos centros de dados em 2024 (45%), seguidos pela China (25%) e pela Europa (15%).
À vista disso, países que possuem parte significativa da sua infraestrutura digital localizada no exterior enxergam nos investimentos em datacenters um caminho para garantir sua soberania digital e potencializar sua economia. Na América Latina, o Brasil, o México e o Chile lideram esse movimento, adotando estratégias voltadas à criação de marcos regulatórios mais favoráveis, incentivos fiscais e políticas de estímulo à infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, a Colômbia e o Peru também vêm avançando no setor, ainda que a partir de bases menores.
Empresas e tecnologia
Observa-se uma concentração da infraestrutura mundial de datacenters em um número reduzido de grandes empresas tecnológicas, principalmente nos Estados Unidos e na China. Essas corporações operam redes globais de centros de dados em larga escala (hyperscale data centers), responsáveis no fornecimento da capacidade computacional necessária para o funcionamento da economia digital contemporânea. Os principais operadores globais de datacenters são Amazon Web Services (AWS), Microsoft, Google (Alphabet), Meta, Alibaba, Tencent e ByteDance (Data Center Magazine, 2025). Essas empresas lideram a oferta mundial de serviços de computação em nuvem e controlam uma parcela crescente da infraestrutura necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial. Apenas Amazon, Microsoft e Google controlam quase 70% do mercado de nuvem e, se incluirmos a Meta, mais da metade dos cabos submarinos do mundo.
Por meio de NVIDIA, AMD, Amazon Web Services, Microsoft, Google e OpenAI, os Estados Unidos lideram o design de semicondutores, a infraestrutura global de computação em nuvem e o desenvolvimento dos grandes modelos de inteligência artificial (Stacciarini & Gonçalves, 2025). Em particular, controlam a cadeia produtiva dos semicondutores avançados utilizados em aplicações de inteligência artificial (IA), altamente concentrada, com a NVIDIA líder no design das principais GPUs para IA e a TSMC a principal fabricante mundial desses componentes (Statista, 2026).
Já no segmento de matérias-primas estratégicas, a China ocupa uma posição central ao controlar grande parte do processamento dos minerais críticos, em particular as terras raras, além de concentrar uma parcela significativa da capacidade mundial de refino desses recursos (AIE, 2025). A título de exemplo, na produção de gálio, metal cada vez mais importante utilizado em chips de última geração e em eletrônica de potência, a China responde por cerca de 99% da oferta mundial refinada (AIE, 2025).
A expansão da infraestrutura global de datacenters não depende apenas do desenvolvimento tecnológico, mas também da disponibilidade de energia abundante, recursos naturais estratégicos e marcos regulatórios favoráveis. Por essa razão, diferentes países dotados com estes recursos passaram a considerar os datacenters como ativos com potencial para contribuir com o desenvolvimento econômico, a política industrial e a inserção nas cadeias globais de valor. Nesse contexto, a América Latina ganha destaque como uma das novas fronteiras para a expansão global dos datacenters.
Datacenters na América Latina
De acordo com a empresa de consultoria McKinsey, a América Latina, com um mercado regional amplo e em rápida digitalização, se beneficia de um cenário internacional em que os Estados Unidos e a Europa enfrentam restrições energéticas crescentes. Entre os principais vetores de atração destacam-se o nearshoring, que aproxima a infraestrutura digital dos mercados de EUA e Canadá, e o powershoring, baseado na disponibilidade de energia abundante e competitiva (ver discussão desses conceitos em OPEB: Datacenters: os novos superconsumidores de energia).
Estimativas indicam que a capacidade regional poderá mais que triplicar e projetos em países como o Chile, a Argentina, o Brasil e o México apresentam potencial de consolidar a região como importante polo de infraestrutura digital global (DataCenterDynamic, 2025a; DataCenterDynamic, 2025b).
Os governos latino-americanos têm adotado estratégias distintas para atrair esses investimentos. O Chile, por exemplo, lançou no final de 2024 um Plano Nacional de Datacenters (PDATA) que articula regras ambientais, planejamento territorial e incentivos ao setor (Plan Nacional de Data Center – Ministério de Ciencia, Tecnología, Conocimiento e Innovación, 2024). Por meio da agência governamental Invest Chile, o país busca atrair Investimento Externo Direto no setor e já é considerado um polo de datacenters, com mais de 30 projetos de maior complexidade tecnológica via investimentos Tier III e Tier IV. O PDATA também integrará informações sobre disponibilidade das subestações de energia elétrica, descentralização regional e conectividade em fibra, diferenciais para orientar investimentos na indústria (BTG Research, 2025).
Já o México, impulsionado pelo nearshoring, recebeu investimentos da AWS, que planeja investir até US$ 5 bilhões ao longo de quinze anos. Segundo a companhia, os investimentos no país integram sua zona de disponibilidade global, que permite diminuir a latência dos dados e aumenta a segurança para operações de empresas como Aeroméxico, Banco Santander Mexico e BBVA, além de startups regionais (Amazon News, 2024).
Na Argentina, com o plano Regimes Amplos de Incentivo ao Investimento (RIGI), ganha destaque o anúncio de um megaprojeto liderado pela OpenAI em parceria com a empresa South Energy. Estimado em até US$ 25 bilhões e voltado à construção de infraestrutura de inteligência artificial em larga escala, esse movimento é explicado, em parte, pela combinação de fatores como disponibilidade energética, custos relativamente baixos e incentivos regulatórios atrativos.
O Paraguai vem buscando converter seu excedente hidrelétrico em vantagem competitiva. De um lado, a criação de tarifas preferenciais de eletricidade para atividades intensivas em energia, como datacenters voltados a nuvem e IA; do outro, o avanço do projeto estatal de nuvem soberana, com licitação internacional para um datacenter modular Tier III conduzida pelo MITIC, com operação prevista para 2027 (Data Center Dynamics, 2026).
No caso uruguaio, o recebimento de investimentos na casa dos US$ 850 milhões do Google (Google, 2023) vem reforçando seu perfil de hub TIC com o programa Uruguay Innova. Com ambiente regulatório favorável, zonas francas com isenções e matriz elétrica majoritariamente renovável, o país torna-se competitivo na infraestrutura digital, embora a política seja mais ampla de inovação/ICT do que específica para datacenters.
Apesar do crescimento, os benefícios econômicos desses investimentos não são automáticos. A geração de empregos diretos é limitada, frequentemente restrita a poucas dezenas de postos por instalação, o que reduz seu impacto sobre o mercado de trabalho. Além disso, trata-se de um modelo intensivo em capital, com altos custos iniciais e retorno concentrado em poucos atores, o que pode limitar seus efeitos distributivos.
A dependência tecnológica externa e a pressão sobre os sistemas elétricos nacionais ampliam esses desafios. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades importantes: exportação de serviços digitais, desenvolvimento de aplicações em inteligência artificial e formação de mão de obra qualificada. Nesse sentido, o principal desafio não é apenas atrair datacenters, mas transformá-los em alavancas de desenvolvimento econômico e tecnológico mais amplo.
Situação no Brasil
O interesse governamental nesse setor se justifica, principalmente, pelo seu potencial econômico. O governo brasileiro tem definido os datacenters como fundamentais para a economia digital. De acordo com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, “o crescimento do setor demonstra nossa capacidade de nos consolidarmos como um hub tecnológico da América do Sul, impulsionado por um sistema elétrico robusto e predominantemente renovável”.
O governo lançou a Política Nacional de Datacenters, garantindo a instalação e modernização desses supercomputadores no país e reforçando o papel do Estado na atração de investimentos. Atualmente, essa política inclui um regime nacional tributário especial (Medida Provisória nº 1.318 de 17 de setembro de 2025) e iniciativas de fomento à cadeia produtiva de datacenters. A iniciativa governamental busca atrair operações de grandes empresas de tecnologia para o território brasileiro por meio do programa Redata.
A contrapartida estratégica do projeto é clara: ao construírem seus datacenters no Brasil, essas empresas deverão destinar um percentual de sua capacidade de armazenamento para uso de companhias nacionais, políticas públicas e computação estatal. Mais do que debater segurança e soberania de dados, a aposta está em colocar o Brasil como protagonista na economia verde e digital.
O otimismo do governo encontra eco no mercado. Em entrevista recente à CNN Money, o vice-presidente da Siemens Energy para a América Latina, André Clark, foi categórico: “O Brasil é o lugar certo para colocar esses datacenters, e já estamos vendo esta expansão por parte de empreendedores e companhias tradicionais”. O ponto atrativo para as big techs está na infraestrutura básica. Para operarem 24 horas por dia, os complexos de processamento de dados exigem um abastecimento ininterrupto e colossal de água e eletricidade.
Como a atual corrida tecnológica está intrinsecamente ligada a metas de sustentabilidade, a matriz energética brasileira, robusta, relativamente limpa e renovável, transforma o país em um destino cobiçado e altamente estratégico. Ainda assim, tal avanço não ocorrerá sem desafios. Em 2022, os datacenters respondiam por quase 1,5% da eletricidade global e a expectativa é que essa demanda cresça em 160% até 2030. Dessa maneira, a instalação dos datacenters em países comprometidos com a transição energética se insere em um debate mais amplo sobre sustentabilidade, no qual diferentes soluções vêm sendo discutidas para reduzir seus impactos ambientais.
Enquanto o arcabouço regulatório para o setor ainda patina no Legislativo, a realidade avança a passos largos: as projeções indicam que o número de datacenters no Brasil deve triplicar até 2030. Esse descompasso entre a velocidade do mercado e a regulação levanta sinais de alerta. Para além das questões de inovação e segurança cibernética, o consumo hiperbólico de energia traz riscos socioeconômicos substanciais. Na prática, mesmo que o país consiga aumentar sua geração e disponibilidade energética para suprir essa demanda, o povo brasileiro dificilmente será o principal beneficiário dessa expansão. O grande dividendo energético, ao que tudo indica, ficará retido dentro das paredes resfriadas dos próprios complexos de processamento.
Conclusão
A expansão dos datacenters evidencia que a digitalização da economia e a transição energética constituem processos cada vez mais interdependentes. A crescente demanda por capacidade computacional, impulsionada pela inteligência artificial e pelos serviços digitais, transforma energia, conectividade e infraestrutura de dados em recursos estratégicos para o desenvolvimento econômico e para a competição geopolítica contemporânea. Nesse contexto, a América Latina desponta como uma fronteira de expansão da infraestrutura digital global, beneficiando-se da disponibilidade de recursos energéticos, em especial de fontes renováveis, e da crescente demanda internacional por locais capazes de hospedar grandes centros de processamento de dados.
Entretanto, a atração de investimentos em datacenters não deve ser confundida automaticamente com desenvolvimento tecnológico e/ou econômico. A estrutura atual das cadeias globais de valor da inteligência artificial permanece fortemente concentrada em um reduzido número de empresas e países, responsáveis pelo controle dos semicondutores avançados, das plataformas digitais, dos serviços de nuvem e dos principais modelos de IA.
Em última instância, a questão central não é apenas onde estarão localizados os datacenters do futuro, mas quem controlará as tecnologias, os dados e os ganhos econômicos produzidos por essa nova infraestrutura estratégica. A resposta a essa questão ajudará a definir o lugar da América Latina, e do Brasil em particular, na economia política da inteligência artificial.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte
