Ano VII, nº 128, 02 de julho de 2026
Por Bruna Muriel; Giovana Algarve Andreatto; Isabela Nascimento de Massena; Jéssica Carolyne de Almeida Souza; Marianne Lourenço de Souza, Matheus Gomes Lima (Imagem: Flickr)
A intensificação de conflitos internacionais, nos últimos anos, evidencia a impotência da ONU como instrumento garantidor da paz no mundo, a possibilidade de emergência de uma nova guerra mundial e a tendência do ser humano à violência e destruição. A fim de ampliar a compreensão sobre esta perigosa conjuntura, que Celso Amorim descreve como um “mundo em carne viva” (2026), o GT Poder, Cultura e Subjetividade visita a teoria pulsional freudiana, segundo a qual seria inerente aos seres vivos uma tensão constante entre duas dimensões instintivas básicas: a pulsão de vida (Eros), direcionada ao prazer e à integração; e a pulsão de morte (Tânatos), que tende à desunião, ao inanimado. Quando redirecionada para o mundo externo, esta segunda força pulsional se traduz em violência e destruição do outro. Para Freud, esta energia instintiva de Tânatos deveria ser desafiada através do fortalecimento de seu contraposto: as forças de Eros, através de ferramentas como a arte, o prazer, o amor e a comunhão.
Desde 2022 assistimos à perpetuação da guerra entre Rússia e Ucrânia por controle territorial, o grande conflito armado em território europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 2025, observamos com imensa apreensão a troca de mísseis entre Irã e Israel na chamada “Guerra dos doze dias” e, de lá para cá, os Estados Unidos protagonizaram operações diversas, como: 1) ataques aéreos contra embarcações suspeitas de narcotráfico que navegavam no mar caribenho, levando à morte dezenas de civis, como pescadores locais; 2) a radicalização do bloqueio à Cuba, impulsionando a fome e o desespero entre a população da ilha; 3) o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, após invasão militar não autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU; e 4) o ataque deste mesmo país ao Irã, que resultou na morte de autoridades diversas, incluindo o líder supremo Ali Khamenei, no poder há 36 anos.
Estas operações estadunidenses foram precedidas pelo apoio da Casa Branca ao maior genocídio desde o Holocausto: os bombardeios massivos orquestrados pelo governo de Israel à população palestina da Faixa de Gaza, que desde 2023 o mundo assiste atônito, ao vivo e a cores.
O Relatório de Conflitos Armados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos afirma que o número global de mortes em eventos violentos cresceu 23% em 2025, quando chegou a quase 240 mil pessoas. Em relação aos civis, destacam-se os dados de anos anteriores, divulgados pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos: 33.443 mortos em 2023 (72% a mais que em 2022), e 48.380 em 2024, incluindo 502 defensores dos direitos humanos.
Em 2024, a Corte Internacional de Justiça afirmou que a situação em Gaza era uma violação sistemática do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos; do Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e da Convenção sobre Eliminação de Discriminação Racial. Em novembro daquele mesmo ano, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Yoav Gallant, sob acusações de crimes de guerra e contra a humanidade, algo aprofundado posteriormente em relatórios de Organizações Não Governamentais como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional.
A perpetuação do conflito, entretanto, escancarou a impotência da Organização das Nações Unidas (ONU) enquanto instituição política e jurídica garantidora da paz no mundo; o papel submisso de seu Conselho de Segurança aos interesses imperialistas hegemônicos; e as limitações do aparato político e jurídico internacional relacionado aos Direitos Humanos, em particular quando o que está em jogo são as vidas de grupos subalternizados, os humanos “menos humanos”.
Um mundo em carne viva
Em discurso proferido durante a cerimônia de recebimento do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do ABC, ocorrida em 24 de abril deste ano, o Embaixador Celso Amorim descreve este cenário como sendo o de um “mundo em carne viva”.
Há seis meses se me perguntassem qual a maior ameaça global eu não teria dúvida em dizer: a mudança do clima. Hoje, a principal ameaça, voltou a ser a guerra […]. O interesse bruto se revela de forma escancarada e antigas ilusões, como a esperança na prevalência do direito internacional, caíram por terra. A retração do espaço de diálogo e a centralidade da força como instrumento político são características, infelizmente, marcantes do período em que vivemos. Já não resta dúvida de que a ordem internacional que conhecemos acabou. Resta saber em que bases a próxima será construída.
Como é sabido, Amorim – nosso grande “artesão da paz” -, foi o principal formulador e executor da diplomacia ativa e altiva do Brasil. Já foi considerado pela Foreign Policy como o melhor chanceler do mundo e o 6º estadista mais importante da comunidade internacional. No evento da UFABC, Amorim alertou para o perigo da guerra iniciada por Israel e Estados Unidos contra o Irã que, segundo ele:
[…] coloca o mundo inteiro em alerta. O conflito é grave por uma série de motivos: o flagrante desrespeito ao direito internacional; o grande número de países envolvidos; as graves perturbações ao fluxo de comércio; e a possibilidade de entrelaçamento com outras guerras em curso.
Ou seja, quase um século depois dos eventos que marcaram a Europa na primeira metade do século XX – as duas Guerras Mundiais, o Fascismo, o Holocausto –, e apesar do desenvolvimento técnico-científico, dos avanços da normativa relacionada aos direitos humanos e internacionais e da consolidação de um robusto arcabouço institucional da política internacional, a violência entre os Estados-nações e destes contra povos minoritários permanece. E permanece com grandes doses de crueldade, capazes de envergonhar os estrategistas da primeira metade do século.
Em discursos anteriores de Amorim (2011), observamos referências a filósofos e cientistas políticos clássicos e contemporâneos reconhecidos como referência para os estudos do sistema internacional. No evento da UFABC, entretanto, ele surpreendeu o público formado majoritariamente por docentes e discentes das Relações Internacionais ao citar em sua análise de conjuntura, ninguém mais, ninguém menos que o pai da psicanálise Sigmund Freud. Mais especificamente, o embaixador retomou o seguinte questionamento feito em 1932 por Albert Einstein a Sigmund Freud, na Europa do entreguerras: existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?
Por que a guerra?
A troca de cartas entre os dois gênios se deu em um contexto mundial que reunia: estupefação coletiva diante da tragédia da Primeira Guerra (1914-1918), apreensão pela ascensão do nazismo na Alemanha e receio de um novo conflito mundial.
Diante deste cenário, a Liga das Nações (1919-1946) convidou o físico Albert Einstein para participar de uma iniciativa, recém-inaugurada pelo Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, vinculada a seu Comitê Permanente para a Literatura e as Artes. Tratava-se da troca de correspondência entre grandes personalidades das artes e das ciências, sobre temas de interesse de toda a humanidade e afinada aos objetivos da Liga.
Recordemos que esta instituição, antecessora da ONU, surge como desdobramento da Conferência de Paz de Paris (1919) que marcou o fim da I Guerra. O seu objetivo principal era mediar o diálogo entre os países da Europa, a fim de impedir a agressão e evitar a emergência de novos conflitos.
(O massacre fratricida da Segunda Guerra demonstra que o objetivo da Liga ficou bem longe de ser alcançado).
Einstein aceita o convite feito pelo Instituto para a Cooperação Intelectual da Liga e indica Sigmund Freud como seu possível interlocutor. A justificativa? O seu “profundo conhecimento da vida instintiva do homem” (EINSTEIN, FREUD, 2005, p.3).
Freud já era compreendido como o responsável pela terceira grande revolução científica, sendo as duas primeiras a Copernicana do século XVI, que desafiou o geocentrismo milenar e o substituiu pela teoria heliocêntrica; e a Darwinista do século XIX, que revelou a ancestralidade primata dos seres humanos, destituindo-os de uma suposta superioridade natural ou divina.
Pois bem. No início do século XX, foi a vez do saber psicanalítico ruir as bases cartesianas de que o comportamento das pessoas “civilizadas” seria orientado pela razão e pela lógica. Com base em teorias e observações empíricas feitas por filósofos e médicos que o antecedem, Freud vai jogar luzes sobre uma outra dimensão humana, pouco conhecida, mas sempre “à espreita”: o inconsciente. Instância psíquica que, abrigando desejos reprimidos e pulsões instintivas, também orienta comportamentos e decisões, individuais e coletivas.
Na carta escrita por Einstein, lemos o seguinte:
A proposta da Liga das Nações […], oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar. Este é o problema: existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? (ibid, p.4-5).
Einstein segue a reflexão, explicando a única solução que lhe vem à mente: uma organização legislativa e judiciária supranacional com capacidade de arbitrar os conflitos entre todas as nações que, por sua parte, deveriam se submeter às ordens e acatar as decisões da organização de maneira irrestrita. Imediatamente, ele expõe a principal barreira para esta proposta: a impossibilidade de os Estados abdicarem de sua soberania. Cita, além disso, a ganância por poder político e econômico da classe dominante, em particular daqueles que lucram com a indústria armamentista; e o fato deste grupo controlar as massas pelo domínio que fazem dos aparatos ideológicos (escola, imprensa e Igreja).
Teoria das pulsões
Apesar de reconhecer que, juntos, estes fatores explicam a repetição do fenômeno da guerra, Einstein aponta as suas limitações no que diz respeito ao esclarecimento da aparente facilidade com a qual os homens se deixam seduzir pelo fenômeno, ainda que diante da possibilidade de terem de sacrificar a própria vida.
Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver (ibid, p.3-4).
Esta é a deixa de Einstein para Freud. Em sua carta resposta, o psicanalista explica a tensão, subjacente a todos os seres vivos, entre duas energias instintivas, de origem tanto orgânica quanto psíquica: a pulsão de vida e a pulsão de morte. Enquanto a primeira, simbolizada pela figura da mitologia grega Eros, tende à preservação e à união, representando o esforço de viver; a segunda, ligada a Tânatos, tende à agressão e à destruição, remetendo à ânsia de retorno à condição de matéria inanimada que, em termos evolucionistas, haveria precedido todas as formas de vida. Quando redirecionada para o mundo externo, a pulsão de morte se desdobraria em tendências sociais destrutivas.
Nessas explanações, Freud está retomando obras como Além do princípio do prazer (1920) e O ego e o id (1923). Nelas, ele descreve como estas pulsões operam de forma inconsciente, desconsiderando aspectos como a racionalidade e a moralidade. Para viver em sociedade, entretanto, normas, valores e proibições são impostos continuamente aos indivíduos e coletivos, como forma de controlar estes instintos.
Pese a repressão que ocorre tanto no campo intrapsíquico, quanto na esfera social através da atuação das mais diversas instituições, estas pulsões e tendências seguem tentando extravasar, escapar, se rebelar. Algo observado pela emergência de sintomas físicos e mentais individuais (histeria, neurose obsessiva, psicoses) e pelas diversas formas de violência e crueldade.
Para Freud, portanto, entre os diversos motivos que conduzem os homens à guerra – “uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados” (ibid, p.10) -, estaria uma certa inclinação agressiva intrínseca aos indivíduos e coletividades. Daí responder negativamente ao seguinte questionamento feito por Einstein: “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?” (ibid,p.4).
Em contraposição a Tânatos, Eros
Sem cair num pessimismo absoluto, entretanto, Freud afirma que restaria “tentar desviar os homens desta inclinação através de métodos indiretos”, “num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra” (ibid, p.11):
Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra.
Neste trecho da carta, ele faz referência à pulsão de vida citada anteriormente, enfatizando que estes vínculos poderiam ser estabelecidos através das relações de amor (no sentido amplo, para além do romântico e sexual); e, também, através do fortalecimento dos vínculos emocionais, de compartilhamento e comunhão de sentimentos.
É importante – e triste – recordar que Freud está escrevendo em um momento que antecede a explosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando era mais sólida a sua aposta no projeto civilizatório da modernidade, na expansão do conhecimento e no desenvolvimento do intelecto como caminhos para o pacifismo. O novo conflito arrefece suas esperanças. O novo conflito arrefece suas esperanças. Assim como os horrores e crueldades que observamos hoje — no leste europeu, na ofensiva dos Estados Unidos à Venezuela e à Cuba e, em aliança com Israel, ao Irã e à Gaza — abalam as nossas. Mas conforme nos ensina a teologia da libertação de Dom Pedro Casaldáliga e Frei Betto, ainda não podemos nos dar ao luxo do pessimismo (que exigiria dias melhores).
Na obra “Eros e Civilização” (1955), Herbert Marcuse sugere, como ferramentas neste processo de contraposição a Tânatos e de construção de formas mais criativas e menos destrutivas de vida social, elementos como a contemplação estética e a erotização ampliada (não apenas reprodutiva, mas sensorial, lúdica e estética), do corpo e da existência. Mas isso já é tema para outra discussão.
REFERÊNCIAS
AMORIM, Celso. Discursos, Palestras e Artigos do Chanceler Celso Amorim: 2003-2010. Brasília: FUNAG, 2011.
EINSTEIN, Albert; FREUD, Sigmund. Um diálogo entre Einstein e Freud: por que a guerra? Santa Maria: FADISMA, 2005. Disponível em: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/05620.pdf. Acesso em: 04 maio 2026.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 18, p. 13-75.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19.
MARCUSE, HERBERT. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2009.
