Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026
Por Gustavo Botão e Pedro Lopes Abolafio (Imagem: ImageFX)
Além das discussões acerca do estabelecimento de plataformas de pagamentos alternativas, a redução de exposição ao dólar também tem englobado a diversificação de reservas monetárias, com o ouro ganhando um lugar de destaque
Introdução
As políticas de redução de riscos ao dólar (derisking), parte integrante das estratégias de desdolarização, são possíveis mediante a adoção de um amplo conjunto de medidas. Para além da busca pela implementação de novos meios de pagamentos e dos questionamentos ao sistema petrodólar, tem ocorrido uma tendência internacional à diversificação das reservas de moedas, acelerada pela transformação do dólar em arma financeira (weaponization) e pela instabilidade comercial e econômica causada pelo governo Donald Trump (2025-2029). O Brasil faz parte desse movimento ao aumentar a composição diversificada de seus ativos de reserva, com destaque para o ouro.
Diversificação das reservas de moedas
A análise do processo de desdolarização e diversificação das reservas internacionais brasileiras revela um fenômeno multifacetado, gradual e conectado às transformações geopolíticas e geoeconômicas globais mais recentes. Longe de representar um abandono abrupto do dólar, o movimento observado no Brasil configura uma reorientação estratégica na composição de seus ativos de reserva, que alia a busca por proteção contra incertezas sistêmicas a um pragmatismo comercial e diplomático.
O ponto de partida para essa reflexão é o reconhecimento de que a posição dominante do dólar no Sistema Monetário e Financeiro Internacional (SMFI), embora ainda inconteste, vem sendo gradualmente corroída. Com base nos dados do FMI (COFER), a participação da moeda estadunidense nas reservas globais declinou de 64,7% para 56,8% entre 2016 e 2025. Ainda assim, o documento do Fundo salienta a natureza ainda “gradual e incipiente” do processo, advertindo contra prognósticos apressados.
A hegemonia do dólar se mantém ancorada na profundidade e liquidez dos mercados financeiros americanos e em seu suposto papel como “safe haven” em momentos de turbulência financeira internacional. No entanto, a crescente “weaponization” da moeda, durante a administração de Biden e, posteriormente, intensificada na gestão Trump e escancarada pelas sanções à Rússia, acelerou processos de busca por alternativas que até então caminhavam a passos relativamente lentos.
No Brasil, essa tendência por diversificação de reservas de moedas estrangeiras se repete e intensifica. Mais precisamente, a participação do dólar nas reservas brasileiras sofreu uma queda substancial de 82% para 72% ao longo do período analisado (1994-2025). Curiosamente, esse percentual de participação do dólar ainda se mostra em um patamar, significativamente, superior à média mundial, mas que sinaliza um movimento com certa uma intencionalidade política de redução.
Esta reconfiguração se deu em duas frentes principais: um incremento da posição em ouro, cuja participação saltou de 0,70% para 7,19%, tornando-se o segundo principal componente das reservas, e um aumento da parcela alocada em renminbi, que partiu de uma posição zerada em 2020 para quase 6% ao final de 2025. A China não é apenas o principal parceiro comercial do Brasil, mas também o epicentro de um conjunto de iniciativas, como o CIPS e o projeto mBridge, que buscam criar uma infraestrutura de pagamentos paralela ao sistema dominado pelo dólar, oferecendo uma alternativa concreta para a liquidação de transações internacionais.
É importante mencionar que a estratégia de diversificação de divisas também abarcou outras moedas, como o dólar canadense, o dólar australiano e won sul-coreano. Quanto à adoção dos dólares canadense e australiano, pode-se observar uma aparente tendência: o Brasil passa a adotar, mesmo que em pequenas quantidades, novas moedas estrangeiras em suas reservas internacionais na medida em que se estreitam os laços econômicos, financeiros e comerciais com os países em questão.
Recentemente, ambos os países aprovaram ou expandiram novos acordos comerciais com o Brasil (isoladamente) ou com o Brasil junto ao Mercosul. No caso do Canadá, isso se demonstra na IX Rodada Negociadora MERCOSUL-Canadá, em que se estabeleceu a discussão para aprofundamento do país com o bloco. No caso da Austrália, a visita da Embaixadora da Austrália no Brasil, Sophie Davies, à Agência Nacional de Mineração mostra que há um interesse mútuo entre os países em tópicos como inovação, minerais e energia.
Dentro dessa estratégia abrangente de pulverização de riscos cambiais e geopolíticos, a recente decisão do Banco Central do Brasil de incorporar instrumentos denominados em won sul-coreano a partir de 2025, conforme registrado no Relatório de Gestão das Reservas Internacionais, é um desenvolvimento que merece especial atenção. Em uma leitura superficial, poderia parecer paradoxal que um país do Sul Global, membro dos BRICS, diversifique suas reservas adotando a moeda de uma nação tradicionalmente alinhada ao sistema de alianças do Ocidente. Contudo, essa escolha se torna inteligível quando examinada sob a ótica da integração produtiva e do perfil comercial de alta tecnologia que caracteriza a relação bilateral.
A notícia do governo brasileiro sobre a assinatura do Acordo sobre Comércio e Integração Produtiva com a Coreia do Sul, em fevereiro de 2026, fornece a chave analítica para essa conexão. Com isso, o instrumento não se limita a ser um mero acordo comercial, ele também estabelece um novo paradigma nas relações entre ambos países, com o objetivo explícito de aprofundar a integração produtiva, com foco em inovação e qualificação técnica.
Historicamente, o comércio Brasil-Coreia do Sul é marcado por um perfil de intercâmbio equilibrado em valor, mas qualitativamente divergente: o Brasil exporta majoritariamente commodities (petróleo, minério de ferro, soja) e importa bens manufaturados de elevada intensidade tecnológica (semicondutores, automóveis, máquinas). O novo acordo, ao abranger áreas como economia digital, manufatura avançada e bioeconomia, sinaliza uma inflexão na ambição brasileira, que visa, nas palavras do secretário Uallace Moreira, superar a condição de “mero exportador de commodities” para internalizar tecnologia e se posicionar nas cadeias globais de valor. Dessa forma, a Coreia do Sul é eleita como parceira estratégica não somente para uma diversificação de divisas, mas também da própria estrutura produtiva.
Aumento das reservas de ouro brasileiras
Além da diversificação de moedas, o Brasil tem aumentado suas reservas em ouro nos últimos anos. Na gestão de Roberto Campos Neto (2019-2025), o Banco Central adquiriu, em 2021, 62,3 toneladas de ouro em um contexto de busca dos bancos centrais pela diversificação de ativos em meio à pandemia de Covid-19. Até então, o Brasil havia feito poucas alterações no volume das reservas de ouro.
Depois de quatro anos de hiato, a autoridade monetária, agora comandada por Gabriel Galípolo (2025-2029), comprou, em 2025, 42,8 toneladas de ouro entre setembro e novembro de 2025, aumentando as reservas do metal em 33% em relação ao ano anterior. Na composição das reservas internacionais brasileiras, o ouro saltou de 3,55% para 7,19%, tornando-se o segundo ativo mais importante da cesta de moedas do Banco Central, ficando atrás apenas do dólar estadunidense.
Gráfico 1. Série histórica das reservas de ouro brasileiras entre 2010 e 2025 (Valor em bilhões de dólares)

Fonte: Elaboração própria, com base em dados do Banco Central. Os valores incluem depósitos de ouro. Valores e volume de acordo com o último mês de cada ano.
Diferente da aquisição feita no mandato de Campos Neto, essa compra se deu em um cenário de aumento da instabilidade global e de ataques do governo dos Estados Unidos à economia brasileira. Esses elementos levaram a autoridade monetária brasileira a comprar ouro visando intensificar a redução de risco ao dólar. A compra desse ativo por outros países tem aumentado a cotação do metal no mercado internacional, elevando seu valor na cesta de moedas que compõem as reservas brasileiras.
Conclusão
Diante do exposto, compreende-se que o movimento de desdolarização e diversificação das reservas internacionais brasileiras não constitui uma ruptura súbita com a hegemonia do dólar, mas, sim, uma reorientação estratégica gradual e pragmática, condizente com as transformações geopolíticas e econômicas contemporâneas. Com base nisso, a redução da participação da moeda estadunidense nas reservas nacionais, embora ainda em patamar superior à média global de 56,77% segundo dados do COFER, evidencia uma intencionalidade política voltada à mitigação de riscos cambiais e sistêmicos, especialmente devido ao uso recorrente de sanções de amplo alcance e da instabilidade promovida por políticas comerciais erráticas, o que demonstra que o Brasil busca se proteger sem abandonar o atual ordenamento financeiro internacional.
Por fim, o expressivo aumento das reservas em ouro revela o papel central do metal como ativo de proteção e reserva de valor em momentos de incerteza, ao passo que a incorporação de moedas como o renminbi, o dólar canadense, o dólar australiano e o won sul-coreano denota uma estratégia calcada no aprofundamento de vínculos comerciais e produtivos com parceiros diversificados. Dessa forma, a política de redução de riscos ao dólar em curso no país articula a busca por autonomia financeira com um realismo econômico que reconhece a permanência do dólar como referência central, mas procura atenuar seus efeitos adversos por meio de uma gestão prudente e diversificada dos ativos de reserva.
Referências
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