Do tarifaço à agenda positiva nas relações Brasil-EUA

Ano VI, nº 116, 18 de dezembro de 2025

 

Por Ana Beatriz Santos, Gustavo Botão, Rafaela Galhumi e Roberto Dalla (Imagem: Ricardo Stuckert/PR)

 

A aproximação entre Lula e Trump abriu espaço para a retirada de parte das tarifas sobre o Brasil. Os dois governos discutem ainda a isenção de tarifas do restante dos produtos brasileiros, o comércio de minerais críticos, o combate ao crime organizado, Venezuela e STF.

 

O anúncio da retirada das tarifas

 

No dia 20 de novembro, o governo de Donald Trump (2025-2029) anunciou a retirada de tarifas de 40% impostas a produtos importados do Brasil. Os produtos que passaram a ser isentos de forma retroativa a 13 de novembro compreendem gêneros alimentícios, como café, carnes, frutas e nozes e alimentos processados, além de minérios, como petróleo e derivados. Produtos manufaturados, como máquinas, equipamentos, móveis e calçados, além de pescados e mel continuam sujeitos às tarifas de 40% dos Estados Unidos. Esse anúncio por parte dos Estados Unidos é resultado da atuação do governo e da diplomacia brasileiros e de um cenário interno adverso para Trump.

 

A aproximação entre Lula (2023-2027) e Donald Trump, simbolizada pela breve conversa entre os dois presidentes nos bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) em setembro, se manteve nos meses seguintes mesmo após a condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em outubro, Trump telefonou para Lula para negociar o fim das tarifas, com o encontro presencial entre ambos os presidentes ocorrendo na Cúpula da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) em Kuala Lumpur, no final de outubro, quando ocorreu a troca de demandas entre os mandatários.

 

Entre o primeiro contato entre Lula e Trump e o anúncio de 20 de novembro, a diplomacia brasileira, comandada pelo Chanceler Mauro Vieira, tem atuado ativamente para negociar as tarifas com seu homólogo, o Secretário de Estado Marco Rubio, e para abrir novos mercados para o escoamento dos produtos brasileiros, reduzindo os impactos na economia brasileira.

 

Impactos das tarifas na economia brasileira

 

De acordo com os dados do Monitor Macroecômico, produzido pela Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, acerca dos impactos das tarifas estadunidenses entre agosto e outubro de 2025, houve um aumento no déficit comercial com os EUA em relação ao mesmo período no ano passado, chegando a US$ 4,7 bilhões. Com isso, as importações aumentaram em 9,5% devido à demanda por bens industriais, enquanto as exportações caíram em 24,9%. Segue abaixo a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos no período entre agosto e outubro:

 

Gráfico 1 – Balança comercial Brasil-Estados Unidos (ago-out, 2023-2025)

Elaboração própria, com base nos dados do Monitor Macroeconômico.

 

Neste intervalo de tempo registrado, as exportações brasileiras para os EUA foram concentradas em bens intermediários, com o principal sendo o petróleo (cerca de US$ 900 milhões), seguido por produtos semi-acabados de ferro e aço (cerca de US$ 700 milhões) e aeronaves e bens relacionados (cerca de US$ 600 milhões). Comparado com o ano anterior, os bens intermediários foram uma das categorias mais afetadas, com uma perda de 28% de ganho.

 

Apesar disso, as exportações brasileiras cresceram 6,4% em valor em 2025 quando comparado com o mesmo período do ano passado. A ampliação das exportações se deu em razão do sucesso do governo brasileiro em reorientar suas exportações para parceiros comerciais, entre eles estão China, Indonésia, Singapura, Índia, Argentina, Canadá e México. A variação no valor exportado pelo Brasil para seus parceiros entre agosto e outubro está disposta no gráfico abaixo:

 

Gráfico 2 – Variação das exportações brasileiras entre agosto e outubro de 2025 (US$ FOB)

Elaboração própria, com base nos dados do Monitor Macroeconômico.

 

Impactos das tarifas na economia estadunidense

 

As tarifas sobre o Brasil aumentaram o preço de alimentos como café, carnes e suco de laranja no mercado estadunidense, agravando os indicadores econômicos já preocupantes do país. Sob a justificativa de que os dados não são confiáveis, o governo Trump se recusou a divulgar os dados acerca do desemprego (payroll) nos Estados Unidos ainda no mês de agosto. 

 

Em novembro, as estimativas identificaram a perda de 32 mil postos de trabalho no país, contrariando as expectativas de criação de 40 mil empregos no mesmo mês. Entre o final de setembro e meados de novembro, o governo dos Estados Unidos sofre a mais longa paralisação orçamentária (shutdown) de sua história (43 dias), que levou ao corte de despesas “não essenciais” da administração federal, afetando programas sociais, salários do funcionalismo público e o funcionamento dos aeroportos.  

 

Esses fatores, somados aos indícios de uma possível recessão e à divulgação de novos elementos que mostram a proximidade de Trump com Jeffrey Epstein, têm levado à queda na popularidade do presidente estadunidense, forçando-o a buscar reverter certas ações, como as tarifas sobre o Brasil, para recuperar a aprovação.

 

Outros pontos da agenda bilateral relacionados ao recuo no tarifaço

 

Mauro Vieira e Marco Rubio se encontraram paralelamente à reunião do G7 no Canadá, em novembro deste ano, e projetaram os próximos passos para as negociações bilaterais em torno das tarifas, com pedidos de celeridade por parte do presidente Lula em telefonema a Trump. O vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, disse que o governo brasileiro tem acelerado as negociações com os Estados Unidos para reduzir as tarifas.

 

A partir desse telefonema, a pauta da segurança ganhou maior centralidade nas conversas bilaterais, com destaque para o caso da Operação “Poço de Lobato”, da Polícia Federal, que investiga o Grupo Refit. Esta operação revelou possíveis esquemas de lavagem de dinheiro e de sonegação. A suposta lavagem de dinheiro seria feita por empresas de fachada abertas no estado de Delaware, um paraíso fiscal. O dono da Refit, Ricardo Magro, atualmente reside em Miami, na Flórida. No dia 9 de dezembro, Lula afirmou ter pedido ajuda a Trump para prender Magro.

 

Além disso, as negociações também abrangem temas diferentes da política econômica e comercial, como os minerais críticos, centrais para a produção de componentes de alta complexidade tecnológica e objeto central na disputa entre os Estados Unidos e a China. O governo Trump tem muito interesse nesses minerais no Brasil, que detém cerca de 10% das reservas mundiais. Lula declarou que o Brasil não será um mero exportador bruto desses minerais, mas buscará investimentos para seu processamento no território nacional, como demonstrado pela criação do fundo do Banco do Brasil para esse setor. Os Estados Unidos têm buscado firmar alianças para garantir suprimento estável desses insumos, incluindo iniciativas como a Minerals Security Partnership, enquanto tentam reduzir a dependência global da China nesse setor. Esse reposicionamento estratégico também ocorre na América Latina, onde Washington tenta recuperar influência diante do avanço chinês, ampliando o espaço de barganha do Brasil nas conversas bilaterais.

 

Outro tema que atravessa as negociações é a recente crise na Venezuela, com o governo brasileiro buscando uma postura moderadora do conflito, enquanto também se preocupa com o risco à soberania do continente com uma possível intervenção estadunidense no país vizinho. Joesley Batista, dono da holding J&F, que havia participado da aproximação entre Lula e Trump, viajou para a Venezuela para tentar convencer Nicolás Maduro a renunciar à presidência. 

 

A retirada das sanções da chamada Lei Magnitsky sobre o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua esposa também foi objeto das negociações, em sinal de concordância política entre os dois países e boa fé na normalização das relações. No dia 12 de dezembro, o governo Trump anunciou a retirada das sanções sobre Alexandre de Moraes e sua esposa.

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