Ano VI, nº 113, 01 de novembro de 2025
Por Ana Beatriz Santos, Gustavo Botao, Rafaela Galhumi, Roberto Dalla, Tuany Nascimento
(Imagem: Ricardo Stuckert/ Agência Brasil)
O pacote de tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros provoca efeitos significativos em setores como agronegócio, siderurgia e energia. Em paralelo, a reabertura de canais diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos mostra que a negociação se torna essencial para equilibrar interesses comerciais e estratégicos.
Uma breve contextualização das tarifas
Anunciado no chamado “Dia da Libertação”, o pacote de tarifas do governo de Donald Trump marcou um aprofundamento do protecionismo e do isolacionismo americano. Inicialmente, o Brasil havia sido incluído no patamar de tarifas mínimas (10%). No entanto, após tensões nas relações Brasil-EUA, em um contexto de aproximação dos BRICS, disputas políticas e regulamentação das Big Techs, o país sofreu um acréscimo de 40%, passando a integrar o grupo de países — como Índia, México, Canadá e China — alvo de medidas tarifárias mais severas na guerra comercial conduzida por Trump. A partir de 6 de agosto, a taxa alfandegária de 50% passou a incidir sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, posteriormente contemplados por uma longa lista de exceções. Essa medida provocou mudanças nas dinâmicas comerciais brasileiras, impactos setoriais específicos e gerou a necessidade de negociações para reequilibrar o comércio externo.
A aproximação entre Lula e Trump
Durante um discurso improvisado na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), Donald Trump (2025-2029) fez elogios ao presidente Lula e afirmou que, em uma breve conversa de 39 segundos nos bastidores, houve uma “química” entre os dois presidentes. Trump também disse que tinha interesse em dialogar com Lula a respeito das tarifas anunciadas contra o Brasil no dia 9 de julho.
Este aceno, entretanto, não foi mero improviso de Trump, mas sim resultado de amplas negociações de bastidores entre os dois governos e o empresariado afetado pelas tarifas. Logo após a condenação de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 11 de setembro, Trump enviou seu homem de confiança, Richard Grenell, para dialogar diretamente com o governo brasileiro. Até então, havia poucos canais de diálogo entre ambos os governos em razão do boicote feito por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
Alguns dias antes da AGNU, os empresários brasileiros Joesley e Wesley Batista, donos da holding multinacional de processamento de proteína J&F, tiveram conversas com Trump a respeito das tarifas e de uma possível aproximação com o Brasil. A empresa é uma das maiores empregadoras dos Estados Unidos, com mais de 70 mil empregados, e atua em estados majoritariamente republicanos. Além das carnes, os irmãos Batista trataram da celulose produzida pela subsidiária da J&F, Eldorado.
No início de outubro, Trump telefonou para Lula e os presidentes discutem o fim do tarifaço, sem entrar no tema da condenação de Bolsonaro pelo STF. Os presidentes trocaram seus telefones pessoais, sinalizando um canal direto de comunicação entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca. No dia 16 de outubro, o Chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o Secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, tiveram uma reunião acerca das relações bilaterais e do comércio entre os dois países, também deixando Bolsonaro fora da conversa. Os dois representantes planejaram o encontro entre Lula e Trump, com previsão para ocorrer durante a Cúpula da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) em Kuala Lumpur, na Malásia, entre 26 a 28 de outubro.
No dia 26 de outubro ocorreu uma reunião bilateral entre os dois presidentes, em que Lula entregou a Trump um documento com a lista de temas de interesse do governo brasileiro, que incluem: i) o tarifaço, com um possível congelamento da aplicação das tarifas durante as negociações; ii) legislação brasileira em relação à condenação de Bolsonaro; iii) guerra na Ucrânia; iv) e agressões contra a Venezuela. Por outro lado, os Estados Unidos têm como temas de interesse: i) a redução das tarifas brasileiras sobre o etanol de milho dos Estados Unidos; ii) acesso às terras raras brasileiras, tendo como base um acordo recente assinado com a Austrália; iii) compromisso de investimentos de empresas brasileiras nos Estados Unidos; iv) acesso ao mercado de compras governamentais brasileiro em resposta a uma provável conclusão definitiva do Acordo Mercosul-União Europeia. Como resultado do encontro, além da aproximação pessoal entre os dois presidentes, ambos os países acordaram em realizar outras reuniões para avançar com as negociações.
A questão da soja
Para a China, a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos trouxe incertezas sobre os rumos da política comercial norte-americana e das compras de soja destinadas à produção de farelo. Historicamente, a China importa cerca de 60% da produção mundial de soja. Se os EUA eram sua principal fonte, o tarifaço imposto por Trump intensificou a expansão da soja sul-americana, especialmente a brasileira, no suprimento da demanda chinesa.
No início de 2024, temendo a imprevisibilidade do novo governo, tradings chinesas passaram a antecipar e ampliar as compras de soja dos EUA, buscando garantir o fluxo contínuo das importações. Da mesma forma, também anteciparam aquisições de grãos oriundos de países sul-americanos, como Brasil, Argentina e Uruguai.
Com o agravamento da guerra tarifária, em abril, o governo chinês declarou que a soja brasileira poderia facilmente substituir as importações dos Estados Unidos. A declaração coincidiu com uma safra recorde no Brasil, que alcançou 167 milhões de toneladas.
Nos meses de setembro e outubro, a China não importou soja dos EUA. A safra recorde brasileira foi responsável por suprir 85% do total das importações chinesas, com 10,96 milhões de toneladas em setembro, 30% acima do que fora registrado em setembro de 2024. A soja argentina também contribuiu, exportando para a China 1,17 milhão de toneladas em setembro, equivalentes a 9% da demanda chinesa.
Nos EUA, a principal entidade representativa do setor da soja, a American Soybean Association (ASA) tem manifestado reiteradamente o seu incômodo com o efeito do tarifaço sobre as exportações de soja para a China, pedindo providências ao governo de Donald Trump. Caleb Ragland, presidente da ASA, afirmou em agosto que os sojicultores dos EUA não conseguiriam sobreviver a uma disputa comercial prolongada. Em nota, a ASA ressaltou que “as tarifas retaliatórias agora tornam a soja norte-americana 20% mais cara do que a sul-americana, e a China passou a recorrer ao Brasil, que expandiu sua produção para atender à demanda”.
Em setembro, Donald Trump criticou a China pela suspensão da compra de soja estadunidense. O presidente classificou a medida como um “ato hostil” e ameaçou retaliações comerciais. Para a China, porém, o retorno das compras está condicionado ao fim das tarifas arbitrárias.
Com o agravamento da guerra tarifária ao longo dos últimos meses, EUA e China concordaram em iniciar negociações para uma trégua comercial. Uma conversa entre os presidentes Xi e Trump está prevista para 30 de outubro, na Coreia do Sul. A questão da soja é uma das pautas que devem ser colocadas sobre a mesa. Aos EUA interessam o retorno das importações chinesas enquanto a China busca garantir seu suprimento de soja, uma vez que, entre janeiro e março, a safra sul-americana ainda está em fase inicial, reduzindo a oferta disponível no mercado internacional.
A disputa pelas terras raras e a posição do Brasil
Com a escalada da guerra tarifária, a China restringiu as exportações de terras raras para os EUA. Nesse contexto, as reservas do Brasil — que após a China detém a maior porcentagem de terras raras no mundo — passam a ser ainda mais cobiçadas pelos EUA.
As negociações envolvendo terras raras têm sido um dos pontos colocados sobre a mesa pelo governo brasileiro como contraponto ao tarifaço. O tema esteve na pauta do documento entregue a Donald Trump durante a reunião bilateral com o presidente Lula em Kuala Lumpur. Além disso, no dia 28 de outubro, o encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, se reuniu com executivos do setor da mineração para discutir terras raras durante a Exposibran, feira sobre terras raras em Salvador. Também está previsto um encontro entre o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, na ocasião da reunião setorial do G7 no Canadá.
Desde o encontro entre Lula e Trump, a possibilidade de um acordo comercial tem sido discutida. O presidente Lula afirmou que “se depender do Trump e de mim, haverá acordo” e ressaltou que um acordo com os EUA não interferiria na relação do Brasil com a China. Para o governo brasileiro, cabe ressaltar, há o entendimento de que as discussões em torno da exploração das terras raras deve seguir diretrizes soberanas que evitem um novo ciclo neocolonial de exploração predatória de minerais críticos. É preciso acompanhar se a posição do governo se manterá com o avanço de um possível acordo com os EUA envolvendo a exploração de terras raras.
Investigações comerciais EUA-Brasil – 302, 232 e julgamento da Suprema Corte
Em julho deste ano, o governo norte-americano anunciou a abertura de uma investigação com base na Section 301 do Trade Act de 1974, conduzida de acordo com os procedimentos previstos na Section 302(b) a fim de investigar pontos sensíveis quanto a economia brasileira considerados “injustos“. São tratados temas como: regras de comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais oferecidas a determinados países, além de temas ligados ao desmatamento e ao acesso ao mercado de etanol.
A investigação está ligada ao tarifaço imposto por Trump, sob a justificativa de “segurança nacional”, com base na Section 232 do Trade Expansion Act de 1962. Foi reforçada pela abertura da investigação, que dá ao governo americano uma base legal para sustentar e ampliar o seu protecionismo comercial. Essa medida, antes usada para impor tarifas diretamente, hoje também conta com a Section 242, que estabelece uma organização interagencial consultiva para fornecer análises técnicas e políticas ao USTR (United States Trade Representative), questionando se as práticas comerciais do Brasil são discriminatórias ou restritivas, e dando base legal adicional para sustentar ou ampliar medidas corretivas sob a Section 301.
Apesar do cenário apresentado de atrito comercial, os sinais de reaproximação entre Lula e Trump durante o mês de outubro abrem espaço para um tom mais diplomático nas negociações. Ainda assim, a combinação do tarifaço e da nova investigação estadunidense gerou preocupações entre os exportadores brasileiros, especialmente nos setores de energia, siderurgia e agronegócio, que passaram a se preocupar com novas barreiras de acesso ao mercado dos EUA.
No início de outubro, uma comitiva composta por representantes do agronegócio e da indústria brasileira, representada especialmente por CNA, CNI e Fiesp, buscou defender as práticas comerciais brasileiras frente às acusações dos EUA. As entidades contrataram empresas de lobby e buscaram se reunir com representantes da administração estadunidense, mas sem sucesso efetivo. Como retratado mais acima, foi o empresário Joesley Batista quem de fato conseguiu se reunir com Donald Trump pouco antes da AGNU e do breve encontro com Lula.
Impactos econômicos sobre o Brasil
Diante da possibilidade de negociação das tarifas dos EUA sobre o Brasil, devido à recente aproximação dos respectivos presidentes, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, alguns setores comerciais brasileiros mantêm suas esperanças mas ainda buscam alternativas para minimizar os impactos tarifários que recaem sobre seus produtos.
Ao redor do Brasil, muitas são as regiões afetadas. No Ceará, por exemplo, os setores de pescados, castanha de caju e cera de carnaúba, tiveram de cortar seus gastos enquanto buscam novos mercados. Enquanto isso, o setor cafeeiro, que conta com grandes concentrações no sudeste do país, enfrenta uma queda de 18% em suas exportações, e passa a exigir medidas governamentais contra o tarifaço. Para a redução de impactos, em Minas Gerais, alguns produtores tentam diversificar suas parcerias com empresas da Noruega e Dubai.

