Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026
Por Ana Camille da Fonseca, Guilherme Matos Schneider, Letícia Valente Coelho da Silva, Vinicius Degli Esposti (Imagem: Reprodução)
Em meio aos esforços de aproximação cultural entre o Brasil e a China em 2026, quando se celebra o Ano Cultural Brasil-China, a tradução de clássicos da literatura chinesa emerge como um marco para o intercâmbio literário entre os dois países. Contudo, entre mediações linguísticas e novas possibilidades de intercâmbio entre as duas nações, a tradutora e professora de Instituto Confúcio na Unesp, Aline Toffoli, nesta entrevista para o OPEB, destaca que ainda persistem contradições mesmo em um momento de crescente interesse econômico, político e cultural pela China.
Sob os auspícios do entendimento mútuo e de um futuro compartilhado, o Ano Cultural Brasil-China de 2026, para além das novas perspectivas da parceria estratégica sino-brasileira, também inaugura novas possibilidades de intercâmbio cultural entre as duas nações.
A tradução de obras literárias emerge como uma das principais pontes de aproximação entre sociedades, imaginários e tradições. Em janeiro deste ano, o Ano Cultural entre Brasil e a China no âmbito da literatura teve seu pontapé inicial em Pequim com o evento “Entre o Espelho e a Lâmpada: Diálogo da Literatura Contemporânea Sino-Brasileira”, organizado pelo Departamento de Relações Internacionais da Associação de Escritores da China, pela Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim e pelo centro da Cultura Brasileira, e reuniu escritores brasileiros, acadêmicos chineses e instituições culturais dos dois países, marcando o início de uma série de eventos bilaterais previstos ao longo do ano em busca do fortalecimento das relações editoriais sino-brasileiras.
Em um contexto no qual a circulação da literatura chinesa em língua portuguesa para o público brasileiro ainda enfrenta barreiras editoriais e de difusão, iniciativas de tradução têm ampliado o acesso de leitores brasileiros a clássicos e produções contemporâneas chinesas.
É nesse cenário que a tradutora Aline Toffoli¹ realiza em sua tese de doutorado a tradução comentada dos primeiros capítulos de Jornada ao Oeste, uma das obras mais influentes da tradição literária chinesa. Tradicionalmente atribuído a Wu Cheng’en e escrita no século XVI, o romance acompanha a peregrinação do monge Xuanzang em busca de escrituras budistas rumo à Índia, combinando aventura, fantasia, humor, religiosidade e crítica social. Em entrevista ao OPEB, Toffoli destaca que Jornada ao Oeste se estabelece como “uma obra que ocupa, na cultura chinesa, um lugar comparável ao que textos como Dom Quixote, A Divina Comédia ou até as epopeias gregas ocupam no imaginário ocidental, mas com características muito próprias da tradição chinesa”.
Jornada ao Oeste: um clássico romance chinês do século XVI, mas ainda contemporâneo
A permanência de Jornada ao Oeste ao longo dos séculos ajuda a explicar sua força contemporânea. Personagens como Sun Wukong, o Rei Macaco, seguem presentes na cultura popular chinesa por meio de adaptações para cinema, televisão, animações, jogos e óperas tradicionais. Ao mesmo tempo, os temas centrais da obra – transformação, rebeldia, disciplina espiritual e busca pelo conhecimento – continuam atravessando diferentes gerações e contextos culturais.
Publicado há cinco séculos atrás, o romance segue presente na cultura pop por meio de adaptações que transportam seus personagens e símbolos para diferentes linguagens artísticas. Um dos exemplos mais recentes que ilustra este movimento é o jogo eletrônico Black Myth: Wukong, lançado em agosto de 2024, que transforma seus jogadores no protagonista Rei Macaco, Sun Wukong, com uma narrativa marcada por combates mitológicos, cenários imersivos e gráficos realistas. A obra também chegou aos quadrinhos do ocidente: em O Rei Macaco, o quadrinista Milo Manara recria elementos do clássico chinês em formato de graphic novel e insere a narrativa em uma estética ligada aos quadrinhos europeus contemporâneos. Ainda, a influência do romance também alcança o universo dos mangás: o protagonista Son Goku, de Dragon Ball, criado por Akira Toriyama, teve inspiração diretamente em Sun Wukong, incorporando elementos míticos presentes na obra.
Cinemática de abertura de Black Myth: Wukong, adaptação contemporânea inspirada no clássico chinês Jornada ao Oeste. Fonte: Game Science.
Jornada ao Oeste atravessa gerações e segue como uma das referências mais difundidas da literatura chinesa na cultura pop global. Para Toffoli, “[a obra] permanece relevante porque consegue unir entretenimento, profundidade filosófica e riqueza simbólica de uma forma muito viva”. Embora tenha sido escrita há séculos, a obra aborda questões profundamente humanas – como ego, desejo, disciplina, transformação e busca espiritual – que continuam atuais.”
Entre o estranhamento e a aproximação
Mais do que converter palavras entre idiomas distintos ou simplesmente transportar a ideia principal da narrativa, traduzir obras clássicas chinesas significa assumir um papel de mediação entre sociedades que possuem referências históricas, religiosas e simbólicas que pertencem a universos culturais profundamente diferentes. Para Aline Toffoli, “em muitos momentos, o desafio da tradução não é apenas linguístico, mas também cultural e literário”.
Nesse contexto, um dos principais obstáculos está na convivência entre diferentes registros linguísticos presentes em Jornada ao Oeste. Segundo a tradutora, “o romance alterna passagens em língua vernacular — o chamado baihua — com estruturas, expressões e referências ligadas ao wenyan — o chinês clássico —, criando um texto extremamente híbrido do ponto de vista estilístico”.
Além disso, a obra recorre a uma variedade ampla de provérbios, expressões idiomáticas e referências culturais específicas. Nesse processo, a tradução exige não apenas domínio linguístico, mas também sensibilidade cultural para permitir a fluidez do texto em sua essência original.
Aline chama a atenção para uma concepção de tradução que busca evitar o “apagamento cultural” e encara o estranhamento gerado como algo positivo. A escolha de “preservar a alteridade” permite ao leitor um contato com “a diferença e a riqueza dos registros culturais presentes no texto”, estimulando um engajamento cultural e, consequentemente, possibilitando uma conexão com formas novas de imaginar o mundo, a espiritualidade e o convívio em sociedade.
Para Toffoli, se aproximar de uma obra tão distante em tempo e cultura pode gerar um desconforto, mas “é um processo que vale a pena tentar”.
Uma análise do impacto de Jornada ao Oeste no Brasil
A recepção de obras como Jornada ao Oeste pelo público brasileiro insere-se em um debate mais amplo sobre os limites e as possibilidades de circulação de tradições literárias não ocidentais no Brasil.
Em um mercado editorial historicamente orientado por referências europeias e norte-americanas, a tradução de clássicos da literatura chinesa coloca em evidência a necessidade de construir novas formas de leitura e interpretação cultural. Nesse processo, a tradução assume um papel mediador na transposição linguística e simbólica, marcada por referências religiosas, filosóficas e históricas frequentemente distantes do repertório médio do leitor brasileiro.
A importação da leitura chinesa para o português se afasta de moldes da literatura amplamente reconhecida localmente, que segue padrões ocidentais e europeus. Toffoli diz acreditar que “os aspectos mais desafiadores sejam, principalmente, as referências religiosas e filosóficas ligadas ao budismo, taoismo e confucionismo, já que muitos símbolos, divindades e conceitos não possuem equivalentes diretos na tradição ocidental”.
Nesse sentido, a circulação de Jornada ao Oeste e de outros clássicos da literatura chinesa no Brasil pode indicar uma mudança gradual no próprio interesse do público e das instituições culturais por produções chinesas, movimento que acompanha a ampliação das relações entre Brasil e China em diferentes campos. O trabalho de tradução destaca-se por mediar a diferenciação cultural para que a leitura se torne compreensível pelo público brasileiro geral. A tradução trabalha ativamente como potencialização de um maior interesse dos leitores brasileiros, pois a boa compreensão da diferença de contextos facilita o interesse do público.
A relação entre o Brasil e a China no estabelecimento de pontes literárias entre os dois países
Originalmente baseada sobretudo no comércio, nos investimentos e na cooperação diplomática, a relação entre Brasil e China se fortaleceu significativamente ao longo do século XXI, consolidando a China como um dos principais parceiros estratégicos do Brasil. Porém, no campo literário essa aproximação ocorre de forma mais lenta, constituindo uma das principais barreiras à circulação da literatura chinesa no país, como destaca Toffoli: “o mercado editorial brasileiro teve um contato muito mais intenso com tradições literárias europeias e norte-americanas, enquanto a literatura chinesa permaneceu relativamente distante, tanto linguisticamente quanto culturalmente.”
No atual momento, a literatura deixa de ocupar um papel periférico nas relações bilaterais e passa a constituir um espaço de produção de conhecimento mútuo, capaz de tensionar a histórica centralidade ocidental que estrutura o mercado editorial brasileiro e os próprios repertórios de leitura no país.
É neste fio lógico que questiona-se a limitação do acesso a essa tradução literária no panorama editorial nacional. Segundo Aline, esse distanciamento é intensificado pelo número ainda reduzido de traduções diretamente do chinês para o português, fator que impacta não apenas a disponibilidade de obras chinesas no país, mas também a própria formação de leitores mais familiarizados com essa tradição literária.
Dessa forma, ampliar o contato com a literatura chinesa significa não apenas diversificar o repertório literário nacional, mas também fortalecer novas possibilidades de intercâmbio cultural entre Brasil e China. Nesse processo, a chegada de Jornada ao Oeste para o público brasileiro é um marco importante, ao possibilitar o acesso a um romance da tradição clássica chinesa e inserir novos referenciais no panorama literário do país.
Diante do processo de aproximação entre os dois países, a tradução exerce papel central ao construir pontes entre diferentes tradições culturais e fortalecer novas possibilidades de intercâmbio literário entre Brasil e China. Ampliar o acesso à literatura chinesa no Brasil depende “não apenas de novas traduções, mas também da formação de leitores, tradutores e pesquisadores especializados nessa tradição literária”, diz Aline, além do fortalecimento de universidades, iniciativas acadêmicas e espaços de difusão cultural. Portanto, em um contexto de crescente interesse pela China, mas também de precarização de áreas voltadas à formação especializada, investir nessas estruturas é essencial para consolidar esse intercâmbio sino-brasileiro e um aprofundamento dessas relações.
A circulação de obras clássicas chinesas aponta para um deslocamento importante: a ampliação do intercâmbio entre os dois países também no campo simbólico, intelectual e editorial.
Neste Ano Cultural Brasil-China de 2026, cabe observar em que medida o fortalecimento das relações entre os dois países conseguirá produzir efeitos duradouros também no campo cultural e editorial, para além das agendas diplomáticas e econômicas que historicamente estruturam essa parceria. A ampliação da circulação de obras chinesas no Brasil, bem como o interesse crescente pela formação de tradutores, pesquisadores e leitores especializados, poderá indicar o início de uma nova etapa nos fluxos culturais sino-brasileiros, marcada por intercâmbios mais horizontais e pela diversificação dos referenciais literários presentes no país.
¹ Aline Toffoli Martins possui graduação em Letras, mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Tradução pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com a tese intitulada A origem de Sun Wukong: entre deuses, demônios e metáforas na tradução comentada dos primeiros capítulos de Jornada ao Oeste.
Referências:
Jogo chinês “Black Myth: Wukong” invade mercado americano. Agência Brasil China, 27 ago. 2024. Disponível em: https://china.org.br/jogo-chines-black-myth-wukong-invade-mercado-americano/. Acesso em: 20 mai. 2026.
BRITES, Alessandra. Literatura é a “ponte necessária” para o brasileiro compreender melhor a China. Ibrachina, 9 mai. 2023. Disponível em: https://ibrachina.com.br/literatura-e-a-ponte-necessaria-para-o-brasileiro-compreender-melhor-a-china/. Acesso em: 14 mai. 2026
MARTINS, Aline. O nascimento de Sun Wukong: entre o Caos, o Dao e o Texto na tradução comentada nos primeiros capítulos de Jornada ao Oeste. 2025. 478f. Tese (Doutorado em Línguas Estrangeiras e Tradução). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8165/tde-23012026-200825/publico/2025_AlineToffoliMartins_VCorr.pdf. Acesso em: 13 mai. 2026.
MARTINS, Ronaldo. Ano da Cultura China–Brasil começa com agenda de intercâmbio literário em Pequim. Letras Mais, 15 jan. 2026. Disponível em: https://letrasmais.net.br/index.php?post=863. Acesso em: 13 mai. 2026.
YUANYUAN, Fu. Diálogo literário sino-brasileiro assinala arranque do Ano da Cultura China-Brasil. Diário do povo online, 15 jan. 2026. Disponível em: https://portuguese.people.com.cn/n3/2026/0115/c309810-20414622.html. Acesso em: 15 mai. 2026.)
