A Política Externa Trumpista para a China sob a ótica da Imprensa Brasileira 

Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026

 

Por Giovanna dos Santos Camargo, Julia Heloisa Giacomini Faria, Kalway da Silva Almeida, Lígia Akemi, Maria Clara de Faria Lima, Pedro Zakimi de Souza e, Yasmin Khiara Vaz dos Santos (Imagem: Kenny Holston/AFP)

 

Com o retorno de Donald Trump à Presidência dos EUA, o foco da política externa estadunidense voltou a ser ancorado no slogan ‘America First’, recolocando as tensões com a China no centro da agenda. O governo Trump impôs tarifas a 126 países, com alíquotas que chegaram a 125% sobre produtos chineses, o que gerou retaliações recíprocas de igual magnitude por parte de Pequim. A escalada tarifária foi parcialmente revertida quando ambos os lados reduziram as alíquotas para 10%, mas o impasse comercial permanece como eixo estruturante da relação bilateral. Esse confronto econômico insere-se em um quadro mais amplo. A rivalidade sino-americana também atravessa o conflito no Oriente Médio, dado o papel da China como principal compradora do petróleo iraniano, e se projetou no encontro entre Trump e Xi Jinping em maio de 2026, marcado por retórica calorosa, mas sem avanços concretos. 

Com base no acompanhamento dos veículos Brasil de Fato, Le Monde Diplomatique, Folha de S. Paulo, O Antagonista e a Revista Oeste, o Grupo de Trabalho “Imprensa e Política Externa Brasileira”, do OPEB, apresenta as visões desses veículos, alinhados à esquerda, ao centro e à direita, sobre a postura atual dos EUA em relação ao governo chinês no primeiro semestre de 2026. 

A visão da imprensa de esquerda

 

O Le Monde Diplomatique descreve a política externa de Trump como“tirânica”, pautada na força bruta e na coerção comercial. O periódico identifica uma guerra silenciosa contra a ascensão da China, na qual o protecionismo tarifário atua como instrumento de contenção geopolítica, interpretando o segundo mandato de Trump como a ressurreição de um imperialismo econômico que trata o comércio internacional como um jogo de soma zero — no qual o avanço de Pequim equivale, necessariamente, à derrota de Washington. 

 

Essa leitura é aprofundada na cobertura do periódico sobre os resultados concretos da estratégia trumpista. Ao analisar a matéria “Americanismo neoliberal em transe: China ultrapassa os EUA em aprovação global de liderança”, o LMD argumenta que a tentativa de contenção produziu o efeito inverso ao desejado pelos EUA. Na leitura do periódico, pela primeira vez em décadas, a China superou os EUA em aprovação global, enquanto a liderança estadunidense passou a ser rejeitada por quase metade do planeta como “instável e coerciva”. Segundo o LMD, a “crise orgânica do sonho americano” é acentuada pelo fato de Pequim oferecer uma “lição de transição energética” sólida e de consolidar sua influência no Sul Global. O LMD enquadra, assim, a política de Trump não como estratégia de força, mas como sintoma do declínio de um império que perde legitimidade diante de uma nova ordem global em curso, na qual os EUA se isolam em uma geopolítica tarifária obsessiva, enquanto a China consolida sua liderança na transição energética e no Sul Global.

 

Seguindo a mesma linha, O Brasil de Fato enxerga a política externa de Donald Trump em relação à China como uma política de confronto comercial e de contenção diante da ascensão chinesa. O periódico aprofunda a associação entre as tarifas de Trump e uma estratégia de preservação da hegemonia norte-americana, ao tentar pressionar Pequim por meio de uma guerra comercial. Todavia, tal atitude, considerada unilateral e até mesmo agressiva devido às altas tarifas, apresenta muitas limitações, uma vez que a China também detém poder de mercado e capacidade de responder às ações americanas com tarifaços defensivos. Ao BdF, a postura chinesa indica uma ampla capacidade de responder ao unilateralismo norte-americano com retaliações. Nessa perspectiva, percebe-se que a cobertura do jornal tende a apresentar a China de forma favorável, sobretudo ao destacar sua capacidade de reagir às pressões norte-americanas.

 

Ademais, ao enfatizar a ascensão do poder chinês e sua capacidade de responder às medidas unilaterais dos Estados Unidos, o BdF sugere que a relação entre Washington e Pequim deve ser compreendida no contexto mais amplo de um reordenamento internacional, no qual a multipolaridade ganha cada vez mais espaço. Nesse sentido, a cobertura sugere que o Brasil figura como parte dessa disputa geopolítica, já que sua aproximação com a China contraria os interesses estratégicos norte-americanos e revela os desafios de manter uma política externa autônoma em um cenário internacional cada vez mais marcado pela rivalidade entre grandes potências. 

 

Por fim, o BdF argumenta que os EUA se encontram em um impasse ao fomentar rivalidades e ao adotar políticas unilaterais. Neste contexto, Washington gera insegurança entre seus aliados tradicionais, como o Canadá e os líderes europeus. Na leitura do periódico, esses países tendem a buscar maior autonomia em relação a Washington e a ampliar o diálogo com outros polos de poder, a começar pela China.

 

A visão da imprensa tradicional

 

A Folha de S.Paulo informa que o conflito sino-americano já não se limita ao comércio de bens. Em uma coluna (17 de abril de 2026), o periódico a descreve como “a maturação de uma arquitetura que a China vem construindo desde 2021“. A Folha descreve a arquitetura chinesa como uma resposta à recusa de Pequim em aceitar que empresas e governos terceiros se submetam automaticamente à legislação americana por força do sistema financeiro em dólares. O mecanismo americano é descrito com precisão: “qualquer empresa que toque o sistema financeiro americano ou use componentes tecnológicos de origem americana se submete automaticamente à legislação dos EUA“. A Folha sinaliza que compreende a disputa não como um episódio comercial, mas como uma guerra de soberania normativa, cujo custo recai sobre “os países que comercializam com ambos“.

 

O enquadramento da China como potência diplomática central emerge com nitidez (coluna de 22 de maio de 2026) na análise da sequência de visitas de Donald Trump e de Vladimir Putin. É possível identificar que a China distribuiu distinções a cada visitante, sem que nenhum pudesse alegar tratamento inferior. A reportagem sobre o início da cúpula Trump-Xi (14 de maio de 2026) revela como a Folha constrói uma interpretação sem abandonar a objetividade. A reportagem informa que Trump entra nas negociações com a China num cenário em que tribunais americanos limitam sua capacidade tarifária, a inflação está elevada e há um risco eleitoral crescente para o seu partido político. O jornal equilibra esse diagnóstico ao registrar que a economia chinesa “também vacilou”, mas sustenta que Xi “não enfrenta pressão econômica ou política comparável”.

 

Outra reportagem (3 de junho de 2026) enquadra a medida como “o maior movimento do presidente para reconstruir sua barreira protecionista” desde que a Suprema Corte derrubou suas tarifas anteriores, estabelecendo a continuidade de uma política que muda de fundamento legal sem alterar seu objetivo de restrição ao comércio global. A Folha não toma partido na controvérsia, mas o acúmulo de críticas de aliados tradicionais dos Estados Unidos produz, no conjunto da reportagem, uma leitura implicitamente desfavorável ao unilateralismo americano. O veículo o registra ao publicar, ao final do texto, a lista completa de países, recurso de redação que coloca o Brasil em companhia de grandes economias que também rejeitaram a premissa do argumento americano, sem que o jornal precise formular esse julgamento diretamente. A reportagem fecha com a avaliação de Zhu Feng, da Universidade de Nanjing, de que novas ações da Seção 301 “representarão novos desafios para o Consenso de Pequim”, o que sinaliza que o ciclo de instabilidade não se encerrou com a cúpula de maio.

 

A visão da imprensa de direita

 

A cobertura do Antagonista, por meio da revista Crusoé, concentrou-se em duas matérias publicadas em 15 de maio de 2026, ambas sobre a visita de Trump a Pequim, mas com enfoques distintos. A primeira, “Como a viagem de Trump à China afeta o Brasil”, adota a perspectiva dos impactos domésticos da tensão sino-americana. O periódico alerta que o agronegócio brasileiro perderia espaço no mercado chinês após Trump e Xi Jinping firmarem acordos bilaterais para a retomada da compra de grãos americanos, defendendo a diversificação rápida de mercados como resposta à dependência do mercado chinês. 

Já a segunda matéria, “Trump volta da China sem grandes conquistas“,  desloca o foco da perspectiva brasileira para a ótica dos investidores internacionais. Embora Trump tenha anunciado uma vitória comercial ao firmar acordos no setor agrícola, o periódico argumenta que os resultados são modestos diante de questões mais sensíveis, como a abertura do mercado chinês a empresas americanas. O encontro é apresentado como uma aproximação de curto prazo, sem capacidade de alterar a disputa econômica e estratégica de fundo. Em conjunto, as duas matérias revelam um padrão que avalia a relação sino-americana prioritariamente pelos seus efeitos práticos — sobre o Brasil e os mercados, sem o enquadramento geopolítico ou ideológico mais contundente. 

 

A Revista Oeste valida sistematicamente a estratégia de Trump em relação à China, enquadrando suas ações não como impulsos isolados, mas como movimentos calculados numa disputa geopolítica de longo prazo. As publicações defendem que a abordagem dura de Trump contra a China deve ser compreendida à luz dos interesses nacionais e da soberania. O veículo critica a imprensa tradicional e analistas econômicos que rotulam o presidente como “mercantilista” ou “descontrolado”, argumentando que a imposição de tarifas, que chegaram a 245% sobre setores estratégicos da economia chinesa, representa o cumprimento de promessas de campanha e a legitimação de um contrato social com o eleitorado. 

 

O tom editorial da revista caracteriza a China como um oponente político real que ameaça a segurança do Ocidente, citando inclusive episódios de espionagem chinesa em solo americano. Sob essa perspectiva, o uso agressivo das tarifas pelo governo dos EUA é interpretado como uma “ferramenta de guerra velada” necessária para isolar e conter a expansão de Pequim. As oscilações de Trump, como a redução de alíquotas para a casa dos 80% e as tréguas temporárias durante as negociações, são interpretadas pela revista não como recuos, mas como táticas de um negociador experiente, cuja habilidade teria sido forjada nos seus anos no mercado financeiro. Na visão da publicação, as tarifas atuam como fortes cartas de pressão para forçar o governo chinês a abrir mercados e reequilibrar o sistema internacional de comércio.

 

Um aspecto marcante na narrativa construída pela Revista Oeste é a utilização da política externa de Trump como espelho crítico da diplomacia do governo Lula. O periódico ironiza os analistas e políticos de esquerda que celebram eventuais retaliações chinesas e critica duramente a proximidade política e jurídica de instituições brasileiras, inclusive com visitas do STF a Pequim. O veículo também destacou a eficiência de grandes blocos econômicos (como a União Europeia e a própria China) que, apesar do impacto inicial das tarifas, agiram com pragmatismo e cederam para negociar acordos bilionários com Washington. Em contrapartida, a revista aponta que o Brasil acabou isolado e severamente sobretaxado ao adotar uma postura ideológica de enfrentamento a Trump e de simpatia pelo governo de Xi Jinping.

 

Perspectiva Final

A perspectiva da imprensa brasileira, em sua pluralidade ideológica (esquerda, centro e direita), sobre a política externa trumpista para a China não converge. A esquerda (Le Monde Diplomatique e Brasil de Fato) interpreta as tarifas como sintoma do declínio imperial americano e uma oportunidade para o Brasil e outros países buscarem autonomia diante da ascensão chinesa; o centro (Folha de São Paulo) adota o pragmatismo analítico, tratando a disputa como uma guerra de soberania normativa que impõe custos reais a nações dependentes de ambos os polos, sem tomar partido ideológico; a direita (Revista Oeste e Antagonista) alinha-se a Trump, validando as tarifas como ferramenta legítima de contenção de uma China adversária e ameaçadora ao Ocidente e utilizando o conflito como espelho crítico para denunciar o suposto isolamento do Brasil sob o governo Lula devido à sua aproximação com Pequim.

A análise do GT Imprensa e Política Externa sugere que o conflito sino-americano não chega ao público brasileiro como um fato internacional neutro, mas já filtrado por gramáticas políticas distintas. A mídia brasileira opera como um vetor ativo de enquadramento geopolítico, pois cada espectro não apenas descreve o conflito sino-americano, mas também o constitui discursivamente como um problema distinto, a saber: declínio imperial para a esquerda, dilema pragmático para o centro, esforço de contenção legítima para a direita. Essa ausência de convergência fragmenta a percepção pública sobre os custos e benefícios do alinhamento a Washington ou a Pequim. Tal padrão reforça a pertinência de uma agenda sistemática de monitoramento da cobertura da política externa brasileira.

 

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