Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026
Por Camila Furlan Patricio, Clara Parra Dias e Pedro Guilherme Echila Rocha (imagem: Pexels)
Introdução
Os minerais críticos têm sido centrais no debate contemporâneo em razão de sua potencialidade geopolítica, geoeconômica e energética. Nesse contexto, o avanço tecnológico e o imperativo da sustentabilidade colocam elementos como lítio, cobalto, níquel e terras raras no centro do planejamento estratégico global. Os EUA e a China disputam o controle sobre esses recursos em virtude de sua conexão direta com a Quarta Revolução Industrial e a transição energética.
A partir disso, o presente artigo analisa a importância dos minerais críticos e sua relevância para a América Latina, evidenciando como a disputa entre essas potências coloca a região no centro do debate internacional. Nesse cenário, a compreensão do caso brasileiro torna-se primordial, visto que o país concentra expressivas reservas desses recursos e abriga visões domésticas contrastantes: de um lado, a defesa da soberania e da autonomia nacional como orientadores da política mineral, de outro, a subordinação dos recursos brasileiros aos interesses estratégicos dos EUA.
Minerais Críticos no Sistema Internacional: Disputas, Dependência e Autonomia
Os minerais críticos emergem como elementos estratégicos no cenário internacional do século XXI. A Quarta Revolução Industrial, caracterizada pela crescente demanda por tecnologias limpas e sistemas de alta performance, tanto no campo econômico quanto no de defesa, tem conferido a esse recurso um papel central no sistema internacional (Vivoda; Matthews; McGregor, 2024). A sua indispensabilidade e sua limitação da oferta (Hira, 2025), relacionam-se à lógica do sistema internacional anárquico descrita por Mearsheimer (2001), em que os minerais críticos podem ser interpretados como um instrumento imperativo de sobrevivência e projeção de poder.
Na conjuntura internacional, a China possui um domínio consolidado em terras raras, controlando segmentos fundamentais da cadeia, devido a sua integração vertical e ao domínio de ativos estratégicos na América Latina e África (Deberdt; DiCarlo, 2025). Com base no relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), o estado chinês deverá aumentar sua participação no mercado global de refino de 45% para 50%, demonstrando seu domínio na cadeia global de minerais críticos. Em paralelo, os EUA têm buscado combater o domínio chinês no mercado energético, conforme visto na “Parceria para a Segurança Mineral”, substituída recentemente pela FORGE.
A “Parceria para a Segurança Mineral” significava um alinhamento estratégico entre países, promovendo cooperação no setor mineral, isto é, um “friend-shoring”, com a relocalização da produção (Vivoda; Matthews; McGregor, 2024). Sua sucessora, FORGE, foi concebida como uma coalizão plurilateral voltada à formação de uma zona preferencial de comércio e investimento em minerais críticos, prevendo mecanismos de coordenação de preços mínimos para mitigar práticas de manipulação de mercado por parte de atores adversários (Blakemore; Harmon, 2026), configurando-se como uma alternativa ao predomínio chinês neste setor.
A Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que a diversificação é um aspecto fundamental para a segurança energética. No entanto, o atual cenário internacional orientado pela disputa pelo domínio dos minerais críticos entre os EUA e a China revela que esse mercado vem se tornando cada vez mais concentrado em poucos países, especialmente nas etapas de refino e processamento. A participação de poucos países nesses segmentos aumentou de 80% em 2020 para 86% em 2024, evidenciando uma crescente concentração da cadeia produtiva.
Na análise de Poque Gonzaléz (2026), a América Latina sustenta a transição energética global, por meio da extração e exportação dos minerais críticos. Porém, a não verticalidade da cadeia produtiva torna a região submetida a uma “nova dependência”. Ela pode ser caracterizada em três aspectos centrais: a continuidade da deterioração dos termos de troca (Prebisch, 1973); a inserção da América Latina como espaço de disputa geopolítica entre os EUA e a China, limitando sua capacidade de atuação autônoma; e a concentração dos impactos socioambientais da extração mineral na região, sem a correspondente apropriação dos benefícios tecnológicos e industriais gerados pela transição energética.
Em função disso, o relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), indica que a América Latina concentrará o valor de mercado de extração mineral até 2040, refletindo a elevada disponibilidade desse recurso em seu território e a sua disputa por outras nações. Nesse contexto, o debate teórico sobre a autonomia torna-se necessário, visto que sua essência é estritamente política, caracterizada pela capacidade efetiva de autogoverno, controle e tomada de decisões diante das dinâmicas do sistema internacional. Os autores Russell e Tokatlian (2002) promovem uma ampliação desse conceito, ao desenvolver a “autonomia relacional”.
Esse conceito é definido pela capacidade e disposição de um país para agir de forma independente e, ao mesmo tempo, cooperar com outros atores de forma competente e responsável (Russell; Tokatlian, 2002). No caso latino-americano, a conexão histórica entre os países da região condiciona a cooperação em torno de interesses comuns, e os minerais críticos constituem, nesse contexto, um dos eixos concretos dessa convergência. A obtenção da autonomia relacional exige que os atores estatais possam coordenar ações conjuntas em torno da mineração, refino e processamento dos minerais críticos, fortalecendo a posição latino-americana da região no sistema internacional.
Contudo, o avanço desse tema também depende do fator doméstico de cada país latino-americano, de modo que os interesses nacionais podem ou não promover estratégias de cooperação na busca pela autonomia e na defesa da soberania. Com isso, a compreensão do atual cenário político no Brasil torna-se vital, devido à sua posse expressiva de terras raras (Santos, 2025). Portanto, o caso brasileiro condiciona diretamente a análise da viabilidade de uma estratégia latino-americana autônoma e seus desafios, influenciando a capacidade coletiva da região de se posicionar com maior poder no sistema internacional.
Minerais Críticos no Brasil: A Construção da Política em Meio ao Debate
Retomando itens anteriormente citados, cabe ressaltar que o cenário contemporâneo é palco de várias mudanças e posicionamentos sobre o uso de recursos brasileiros. O tema atravessa a compreensão da sua relevância nacional, divergências internas sobre seu uso e então a ações que interligam dinâmicas de mercado com políticas governamentais a fim de decidir a amplitude e domínio da exploração desses bens aqui disponíveis.
Detentor de amplas reservas de minerais críticos até então inexplorados, o Brasil é capaz de ocupar posição relevante no mercado nacional e internacional nesse eixo. Como uma “potência geológica”, um melhor desempenho produtivo poderia favorecer a criação de novas tecnologias, investimentos com fiscalização ambiental seguindo legislações já existentes rigorosas, além do fomento à indústria de transformação mineral. O debate contemporâneo, porém, reside em qual seria a melhor estratégia para o uso dos recursos, com duas principais perspectivas emergindo entre atores políticos brasileiros.
A primeira perspectiva configura uma defesa da soberania, do desenvolvimento industrial além da exportação de matérias-primas e de cadeias produtivas mais amplas nacionais. Introduzida pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a declaração coloca a quebra de práticas passadas em que o país exportava bens primários para então importar produtos de maior valor agregado derivados dos mesmos, defendendo o potencial próprio de expandir tecnologias e complexificar a produção. Esse objetivo também prevê uma mudança na dinâmica comercial internacional, criando um país mais competitivo e independente.
Em contraste, a visão de Flávio Bolsonaro coloca o Brasil como uma solução para o mercado estadunidense perder a dependência chinesa, particularmente em relação às terras raras. Segundo o político, são necessárias a relação com os EUA, a preservação de seu poder e o apoio ao desenvolvimento tecnológico e de defesa que sua indústria oferece com o uso dos minérios. O posicionamento revela uma postura em muitos sentidos contrária à anterior, favorecendo a integração do Brasil em cadeias de suprimentos de aliados vistos como estratégicos e a atração de capital estrangeiro para a extração primária.
No atual governo, apesar da coexistência das perspectivas, têm-se observado o prevalecimento da primeira, através da ideia da Política Nacional sobre os Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Refletindo a necessidade de regulação desses bens de crescente valor em uma indústria em constante mudança, na qual são buscados o domínio e a soberania, a iniciativa está em uma consolidação normativa através de ações concretas que vêm desde 2023, tais como o Decreto nº 11.964 em 2024.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, foram metas a redução das incertezas e custos de transação que desmotivassem investimentos, criação de ferramentas financeiras de diferentes tipos para projetos de risco, promoção do mercado do Brasil como fornecedor confiável e sustentável para o exterior simultâneo à valorização da própria sociedade incentivando o desenvolvimento regional e integração da política mineral “às diretrizes da Nova Indústria Brasil, da Política Nacional de Transição Energética (PNTE) e do Plano de Transformação Ecológica”. Tais feitos devem gerar autonomia, qualificação profissional, adensamento industrial, dinamização da economia, desenvolvimento socioeconômico sustentável, dentre outros benefícios.
Ainda assim, debates recentes reforçam a necessidade de fortalecimento da Agência Nacional de Mineração, do Serviço Geológico do Brasil e de instituições relacionadas, as quais sofrem em diferentes escalas por óbices estruturais (exemplificados por limitações tecnológicas ou insuficiência de trabalhadores). Conjuntamente, é citado o cuidado para preservar o equilíbrio entre soberania, atratividade para investimentos, liberdade de mercado. O Instituto Brasileiro de Mineração se inseriu na pauta com o mesmo apontamento, além de enfatizar a busca por regras claras, previsibilidade para os projetos, combinação de recursos público-privados de forma inédita e transferências de tecnologias capazes de criar valor agregado ao país. A defesa corrobora projetos de lei como o PL 4.443/2025 e o PL 2.780/2024.
Demonstrando a ausência de um acordo da posse das terras raras e minérios, porém, medidas como a venda de uma mina em Goiás para uma empresa estadunidense por US$ 2,8 bilhões mostram como a disputa de recursos mobiliza vários países. O contexto apresenta potencial para diálogo com diferentes parceiros, tal como enxerga o presidente brasileiro, sem restrições às relações com os EUA, a China ou quaisquer interessados dispostos a seguir padrões estabelecidos.
Neste sentido, em meio à corrida das grandes potências pela hegemonia tecnológica e econômica, a busca pelos minerais críticos coloca a América Latina no centro do debate, justamente pela região possuir grandes reservas desses recursos. Dado isso, países como os EUA, a China e a União Europeia enxergam na região uma oportunidade para obter minerais críticos e, assim, maximizar sua influência no sistema internacional.
Conclusão
Como demonstrado ao longo do texto, as economias centrais seguem concentrando o desenvolvimento tecnológico avançado vinculado à Quarta Revolução Industrial e à transição energética, enquanto a região latino-americana permanece na posição de fornecedora de matérias-primas com baixo valor agregado, de modo que esses países vêm aprofundando a dependência desses recursos nas últimas duas décadas do século XXI.
A corrida das grandes potências pela hegemonia tecnológica e econômica, mediada pelo controle sobre os minerais críticos, coloca a América Latina no centro do debate em razão das expressivas reservas que a região detém. Diante disso, a forma como esses recursos são gerenciados torna-se determinante, pois dela depende se a região avançará rumo a uma inserção internacional autônoma e industrializada ou se reproduzirá o padrão histórico de dependência estrutural.
Nesse contexto, a análise desse debate na ótica do caso brasileiro torna-se relevante para a região, onde duas perspectivas opostas disputam a orientação estratégica do país. A primeira, defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é caracterizada pela defesa da soberania e autonomia. A segunda, sustentada pelo senador Flávio Bolsonaro, posiciona o Brasil como fornecedor estratégico dos EUA, colocando as reservas de terras raras brasileiras a serviço da disputa norte-americana com a China pelo controle do mercado mineral global.
Assim, a escolha sobre qual planejamento estratégico não é meramente conjuntural. Ela reflete tensões e desafios estruturalmente históricos sobre o lugar que a América Latina ocupa, e deseja ocupar, no sistema internacional. Os minerais críticos representam uma janela de oportunidade de exercer soberania e aplicar a autonomia, possibilitando que os países latino-americanos cooperem entre si, projetem seus interesses e redefinam a divisão internacional do trabalho, por meio do controle sobre os recursos minerais e na construção de cadeias produtivas que gerem valor internamente.
Referências
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