Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026
Por Martha Gaudencio, Joyce Neves Couto, Ana Carolina Tozzini e Alexandre Favaro Lucchesi (Imagem: Wikimedia Commons)
O artigo analisa o papel contemporâneo do Vaticano na ordem internacional a partir dos embates entre o Papa Leão XIV e Donald Trump. Argumenta que a disputa reflete visões distintas sobre multilateralismo, poder e governança global, destacando a América Latina como espaço estratégico de influência geopolítica e religiosa.
No dia 12 de abril de 2026, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou o Papa Leão XIV de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”, após o pontífice se pronunciar contrário aos conflitos no Oriente Médio fomentados pelos EUA. No dia seguinte, o Papa se manifestou novamente: “não tenho medo do Governo Trump”. Esse embate, que vem se seguindo desde então, suscita uma questão para análise: qual é, hoje, o papel do Vaticano na ordem internacional e como a América Latina reage a isso.
Chefe de um país de 0,44 km² e uma média de 800 habitantes, o Papa é também líder da religião cristã com maior número de adeptos no mundo: cerca de 1,4 bilhões. Destes, 42% estão na América Latina. Após o Papa Francisco ser o primeiro da região a ocupar o cargo, Papa Leão XIV foi eleito em 2025 como o primeiro dos EUA. No dia de sua nomeação, em 8 de maio, Trump comemorou: “que grande honra para o nosso país”. No entanto, a alegria do presidente durou pouco: após uma trajetória de 24 anos no Peru, o então Cardeal Robert Francis Prevost consolidou uma trajetória que se assemelha em certos aspectos a de seu antecessor e tem sido firme em discursos de defesa da paz. Este artigo busca explorar um pouco da relação do menor país do mundo com questões de multilateralismo.
Embora frequentemente associado apenas à esfera religiosa, o Vaticano ocupa uma posição singular na política internacional contemporânea. Diferentemente das grandes potências, sua influência não deriva de capacidades militares ou econômicas, mas de recursos simbólicos, morais e diplomáticos. Na literatura de Relações Internacionais, trata-se de um exemplo clássico daquilo que Joseph Nye denominou “soft power”, a capacidade de influenciar comportamentos e preferências por meio da legitimidade, da persuasão e da autoridade moral. Nesse sentido, a Santa Sé constitui um ator peculiar da ordem internacional, capaz de participar de negociações diplomáticas, mediar conflitos e influenciar debates globais sem recorrer aos instrumentos tradicionais de coerção.
Em um contexto marcado pelo enfraquecimento de instituições multilaterais, pelo avanço de nacionalismos e pelo recrudescimento de disputas geopolíticas, a atuação do Vaticano adquire relevância adicional. A crescente polarização entre visões universalistas, que defendem mecanismos de cooperação internacional, e perspectivas mais unilateralistas, que privilegiam interesses nacionais imediatos, ajuda a compreender por que os embates recentes entre Donald Trump e o Papa Leão XIV ultrapassam divergências pessoais e refletem projetos distintos de organização da ordem internacional.
O Legado de Francisco e a continuidade com Leão XIV
Com 12 anos de pontificado, Jorge Mario Bergoglio tornou-se mundialmente conhecido como Papa Francisco: não foi somente o primeiro Papa das Américas, mas era de origem latino-americana. Argentino, Francisco marcou seu período tanto simbolicamente, com vestes e nome diferentes de todos os seus antecessores, quanto através de seus discursos. Através de suas Encíclicas, Francisco trouxe à tona temáticas importantes dentro da ordem política internacional: falou sobre migrações, guerras e paz, defesa do meio ambiente e posicionou-se firmemente em defesa do Sul Global.
No documento “Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum”, o Papa defendeu a existência de um desenvolvimento sustentável e integral, inclusive mencionando a necessidade de um diálogo sobre o meio ambiente na política internacional. Na Evangelii Gaudium falou sobre a necessidade de uma “Igreja em saída” que deva ir em direção às periferias e ser contrária à uma desigualdade social que gere a violência. No plano internacional, Francisco foi fundamental no restabelecimento das relações bilaterais entre Cuba e os EUA, formalmente anunciado em 2015 com a reabertura recíproca das embaixadas nos dois países. Manifestou-se contrário à guerras, denunciando o genocídio do povo palestino e um uso desmedido da força por Israel; buscou negociações entre a Rússia e a Ucrânia dialogando com líderes dos dois países, entre outras ações. Assim, foi reconhecido mundialmente como um líder diplomático.
Quando Prevost, natural de Chicago, nos EUA, foi anunciado como novo Papa, encontrou um cenário delicado de persistência de conflitos globais e de dificuldade de manter a popularidade de seu antecessor. Foi comemorado por Donald Trump por ser um representante de seu país. No entanto, ganhou a antipatia do mesmo por continuar, a seu modo, o legado deixado por Francisco. Em pouco mais de um ano de pontificado, iniciado em maio de 2025, Leão XIV posicionou-se contra mais um conflito então iniciado, no Irã. Após o presidente dos EUA fazer uma ameaça de que uma civilização inteira poderia morrer através de uma publicação no X (antigo Twitter), o Papa se manifestou: “A ameaça contra o povo do Irã é inaceitável. Há questões de direito internacional, mas, mais do que isso, é uma questão moral”. O Papa manteve seu posicionamento desde então.
Em sua primeira Encíclica, chamada “Magnifica Humanitas”, Leão XIV criticou a normalização da guerra, mencionando a existência de uma crise no multilateralismo. Trouxe à tona que o conceito de uma “guerra justa”, antes defendido pela Igreja, já está obsoleto: “Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da “guerra justa”, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito. Para enfrentar os conflitos, a humanidade dispõe de instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o diálogo, a diplomacia e o perdão”. Essa teoria tinha sido utilizada inclusive por representantes dos EUA para justificar ataques do país no Irã.
O Vaticano na Ordem Internacional
Formalmente, o Vaticano participa da ONU como um Estado Observador Permanente desde 1964. Mas, ainda que não seja um Estado-membro de fato, possui relevância em assuntos internacionais, como os exemplos anteriores mostraram. É um exemplo clássico de soft power: ainda que não tenha um poderio militar ou econômico como os EUA, tem a capacidade de influenciar o debate internacional por seu poder religioso, cultural, os discursos e documentos oficiais. E mais do que isso: por representar uma fé seguida de maneira tão expressiva ao redor do mundo, faz com que não somente líderes mundiais aceitem o diálogo promovido por sua autoridade, mas também faz com que grande parte da população católica se atente às questões trazidas pelo Estado.
A atuação internacional do Vaticano pode ser compreendida também a partir da noção de diplomacia moral. Embora não disponha de meios materiais para impor decisões, a Santa Sé construiu historicamente uma rede diplomática ampla, mantendo relações formais com mais de 180 Estados e participando de organismos internacionais. Essa condição lhe permite atuar como interlocutor em temas que vão desde conflitos armados até migrações, pobreza, meio ambiente e direitos humanos.
Durante o século XX, o Vaticano participou de processos de mediação relevantes em diferentes regiões do mundo. Mais recentemente, o papel desempenhado por Francisco na reaproximação entre Cuba e os EUA demonstrou que sua influência permanece significativa mesmo em um sistema internacional cada vez mais competitivo. Sob Leão XIV, observa-se a continuidade dessa tradição diplomática, agora direcionada para temas como a crise do multilateralismo, os conflitos no Oriente Médio e a defesa de soluções negociadas para disputas internacionais.
Nesse sentido, a importância geopolítica do Vaticano não pode ser medida por critérios convencionais de poder. Sua relevância decorre justamente da capacidade de moldar agendas, influenciar percepções e conferir legitimidade ou contestação moral a determinadas ações dos Estados. Em uma época marcada pela erosão da confiança em instituições internacionais, esse tipo de influência torna-se um recurso político particularmente relevante.
América Latina: onde os atores se cruzam
Todo esse cenário de embate entre os dois líderes não é apenas uma mera discussão entre conterrâneos, mas revela uma disputa muito maior. Eleito para seu segundo mandato em 2024, Donald Trump ensejou uma releitura contemporânea da Doutrina Monroe em aspectos da política externa para o hemisfério ocidental. Embora o contexto internacional seja muito distinto daquele do século XIX, a ideia de que a América Latina constitui uma área prioritária para os interesses estratégicos dos EUA continua presente em diferentes iniciativas adotadas pelo governo republicano.
A América Latina ocupa posição estratégica nessa disputa por razões que vão além da proximidade geográfica dos EUA. A região concentra a maior população católica do planeta e continua sendo um dos principais espaços de atuação histórica da Igreja. Ao mesmo tempo, representa uma área tradicionalmente considerada prioritária pela política externa norte-americana desde o século XIX. Assim, a região torna-se um espaço no qual diferentes formas de influência — econômica, política, militar, cultural e religiosa — coexistem e frequentemente se sobrepõem.
Não se trata apenas de uma disputa por governos aliados ou por mercados consumidores. Existe também uma disputa por narrativas, valores e legitimidade social. Enquanto o governo Trump procura reafirmar a liderança estadunidense no hemisfério por meio de instrumentos tradicionais de poder, o Vaticano busca preservar sua capacidade de influência através de discursos voltados à paz, ao diálogo e à cooperação internacional.
Ao considerar essa “América” apenas como os EUA, o presidente tem realizado medidas que exemplificam isso: o endurecimento de medidas migratórias restritivas através do Immigration and Customs Enforcement – ICE, o serviço de imigração do país; tarifas como medida de coerção contra alguns países da América Latina; intervenção militar e controle de recursos na Venezuela e o recrudescimento das sanções contra Cuba, para citar algumas.
No dia 02 de junho, em audiência no Congresso dos EUA, o secretário de Estado Marco Rubio declarou publicamente que o país possui “neste hemisfério, uma coalizão de países amigáveis de mais de uma dúzia (…). É uma história incrível, exceto por Nicarágua, por Cuba, por Venezuela, que ainda têm alguns desafios, e, claro, o Brasil, embora eles estejam no meio de um ciclo eleitoral (…). Em geral, é agora uma região repleta de aliados americanos”. Essa frase revela dois pontos fundamentais: ainda que haja contra pessoas migrantes no país, ainda busca aliados na América Latina para exercer seu hard power, sendo assim um ponto de atenção o fato de que esta parte do continente americano é, então, um território em disputa.
Ademais, ainda que a América Latina concentre a maior porcentagem de seguidores da Igreja Católica no mundo, o catolicismo está em queda: religiões protestantes e pentecostais têm crescido nesses países, e um aceno ao território pode refletir também uma busca de reverter esse indicador na região. Assim, há uma busca implícita de manter também sua influência nesses países. Enquanto Papa Francisco era da Argentina, Leão XIV é dos próprios EUA, mas passou mais de 30 anos no Peru, inclusive obtendo a nacionalidade do país. Embora seja mais natural a defesa do Sul Global por Francisco, Leão XIV surpreende por ser um estadunidense que vai contra o governo de seu próprio país de origem.
Em conclusão
Os embates recentes entre Donald Trump e o Papa Leão XIV revelam mais do que divergências ocasionais entre duas lideranças internacionais. Eles expressam visões distintas sobre os mecanismos legítimos de organização da ordem mundial. De um lado, encontra-se uma concepção mais unilateral da política internacional, baseada na defesa de interesses nacionais, no uso de instrumentos de pressão econômica e na reafirmação de zonas de influência. De outro, uma perspectiva que enfatiza o diálogo, a cooperação e a preservação de espaços multilaterais de negociação.
Nesse contexto, o Vaticano continua desempenhando um papel singular. Seu peso internacional não deriva de capacidades militares ou econômicas comparáveis às das grandes potências, mas da autoridade moral acumulada ao longo de séculos e de sua capacidade de influenciar debates públicos em escala global. Trata-se de um ator que opera predominantemente por meio do convencimento e da construção de legitimidade, características que o tornam um dos exemplos mais expressivos de poder simbólico na política internacional contemporânea.
A América Latina permanece no centro dessa dinâmica. Além de concentrar a maior população católica do mundo (42%), a região continua sendo um espaço estratégico tanto para a projeção da influência norte-americana quanto para a atuação internacional da Igreja Católica. Assim, “o Papa é pop”, como diriam os Engenheiros do Hawaii, justamente porque opera nessa lógica de influência: não impõe, mas persuade.
Leão XIV surpreendeu ao defender migrantes deportados, condenar ataques ao Irã e declarar que não tem medo de Trump. Ele sinalizou que a continuidade com Francisco foi uma escolha de, sendo americano, não ser um Papa para os EUA em 2026.
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