Ano VII, nº 130, 30 de julho de 2026
Por Ana Carolina Chida Lorca, Isabella Barbosa Loiola e Lucas Santiago Portari (Imagem: Flickr)
A resiliência do sistema elétrico tornou-se um ponto importante para o planejamento energético no mundo e particularmente no Brasil. Com os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos, a matriz elétrica brasileira tem mostrado fragilidades estruturais. Embora seja renovável, é profundamente dependente das condições do clima. Essa característica, que coloca o Brasil em posição de destaque na transição energética global, também torna o sistema mais sensível às mudanças climáticas.
Nos últimos anos, o Brasil vivenciou diversos momentos de crise climática e energética. Em 2020 e 2021, o país enfrentou a pior escassez hídrica das últimas décadas, com os menores volumes de chuvas desde 1930 e os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste (que representam 70% da capacidade total) operando abaixo de 35% de sua capacidade. A crise pressionou os preços da energia, exigiu o acionamento emergencial de usinas termelétricas e a importação de energia de países vizinhos (EPE, 2023a).
Em novembro de 2023, uma tempestade com ventos superiores a 100 km/h atingiu a região metropolitana de São Paulo, deixando mais de 2,5 milhões de imóveis sem energia elétrica. Algumas áreas ficaram até uma semana sem luz. Entre abril e maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi devastado por enchentes que danificaram usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e subestações, interrompendo o funcionamento dos equipamentos e o fornecimento em larga escala.
Esses eventos climáticos, associados a uma matriz elétrica majoritariamente renovável, revelam a vulnerabilidade do sistema elétrico brasileiro e alguns dos obstáculos à transição energética no país. (EPE, 2023b)
Diante desse cenário, a Agência Nacional da Energia Elétrica (ANEEL) abriu consultas públicas e editou normas voltadas ao fortalecimento da resiliência dos sistemas de distribuição e transmissão de energia. Esse movimento não ocorre apenas no Brasil. Outros países também vêm adotando políticas, investimentos e novos critérios de planejamento para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos sobre suas redes elétricas.
Este artigo apresenta o conceito de resiliência aplicado ao setor elétrico, discute as projeções climáticas para o Brasil e seus possíveis efeitos sobre a geração, a transmissão e a distribuição de energia, além de analisar políticas públicas e experiências nacionais e internacionais voltadas à construção de um sistema mais preparado para enfrentar crises climáticas. Antes de examinar essas medidas, porém, é necessário compreender o que significa resiliência e como esse conceito se diferencia de outras noções utilizadas no setor elétrico.
O que é resiliência?
A resiliência, no contexto dos sistemas de energia, é definida pela Agência Internacional de Energia (AIE) como a capacidade de antecipar, absorver, acomodar e se recuperar dos impactos climáticos, associando três dimensões principais: 1) robustez, a capacidade de suportar condições adversas e continuar funcionando; 2) desenvoltura, a propriedade de operar durante os impactos; e 3) recuperação, a capacidade de restaurar o funcionamento do sistema após interrupções (EPE, 2023b). Essa definição ajuda a distinguir resiliência de outros conceitos semelhantes, como confiabilidade. Enquanto a resiliência trata de eventos de baixa probabilidade e alto impacto, a confiabilidade está baseada em suportar falhas prováveis e a incerteza cotidiana das condições operacionais (EPE, 2023b).
Compreender as projeções climáticas para o território brasileiro é importante para avaliar os riscos aos quais o setor elétrico está exposto. Com base no 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climáticas (AR6), é possível indicar tendências para as quatro sub‑regiões do Brasil. O AR6 aponta aumento na intensidade e frequência de temperaturas extremas e ondas de calor (incluindo secas no Norte, Nordeste e sul da Amazônia); diminuição da precipitação média no Norte e no Nordeste; aumento de chuvas fortes (acima de 50 mm) e alagamentos, com destaque para o Sudeste e a Amazônia (EPE, 2023b). Essas projeções indicam que o Brasil enfrentará um cenário com mais crises climáticas nas próximas décadas.
Uma questão operacional já presente no sistema brasileiro e que tende a se agravar com o aumento da participação de fontes renováveis é o curtailment, ou seja, a restrição forçada da geração de energia. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) assinala o curtailment como uma realidade em países com alta participação de renováveis que precisam realizar a gestão dos excedentes de energia. Isso acontece porque a produção dessas fontes varia ao longo do tempo e nem sempre coincide com os momentos de maior consumo. Em agosto de 2024, por exemplo, mais da metade da restrição ocorreu por razão energética, ou seja, não havia demanda na sociedade para consumir toda a energia produzida. Para que não haja cortes na produção, é preciso ter investimento em armazenamento, redes de transmissão e gestão dessa energia.
Dessa forma, uma matriz elétrica renovável apresenta um paradoxo: a dependência do clima e dos recursos naturais se transforma em uma vulnerabilidade diante de um cenário incerto com crises cada vez mais frequentes. O Brasil possui uma matriz com grande utilização de fontes renováveis. Em 2023, 89,2% da oferta de energia elétrica no Brasil veio dessas fontes, comparada a uma média mundial de 30,6% (EPE, 2025). Porém, as hidrelétricas dependem de chuvas e vazões; eólicas, dos ventos; solares, da radiação; e a bioenergia, do ciclo das culturas agrícolas (EPE, 2023b).
A transição energética, ao aumentar a participação de renováveis, pode tornar o sistema mais vulnerável a eventos extremos, a menos que sejam adotadas medidas de resiliência que compensem essa questão. Secas prolongadas reduzem a geração hidrelétrica. A alteração dos padrões de ventos pode prejudicar a geração eólica. O aumento da nebulosidade afeta a geração solar. E o calor extremo ou as geadas prejudicam a biomassa e aumentam a demanda por climatização (EPE, 2023b).
Assim, o sistema elétrico brasileiro tem um dilema: precisa aumentar a participação de renováveis para cumprir metas climáticas, mas, ao mesmo tempo, torna‑se mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas que busca combater.
Resiliência climática no mundo
A preocupação com a resiliência climática das redes elétricas também está presente em diferentes partes do mundo. Com o avanço das mudanças climáticas e a ocorrência mais frequente de eventos extremos, operadores, reguladores e empresas do setor elétrico passaram a rever a forma como planejam, operam e modernizam os sistemas de energia. Segundo o Banco Mundial, investir antecipadamente no planejamento e no fortalecimento das redes tende a ser menos oneroso do que reconstruir infraestruturas e restabelecer o fornecimento depois de grandes desastres.
Na Austrália, esse debate ganhou força após sucessivos episódios de incêndios florestais, enchentes, ondas de calor e tempestades severas. O Australian Energy Market Operator (AEMO) passou a incorporar informações meteorológicas e projeções climáticas aos seus estudos sobre segurança, expansão e funcionamento do mercado de eletricidade daquele país. O Integrated System Plan 2026 destaca a importância de ampliar as linhas de transmissão para permitir o compartilhamento de energia entre diferentes regiões, especialmente nos períodos em que a produção solar ou eólica estiver reduzida.
O planejamento australiano também prevê o aumento da capacidade de armazenamento de energia para enfrentar picos de demanda e períodos prolongados de baixa geração renovável. Entre as soluções consideradas estão baterias, hidrelétricas reversíveis, maior integração entre as regiões, geração distribuída e mecanismos de recuperação do sistema após grandes interrupções. Assim, a estratégia não depende de uma única tecnologia, mas da combinação de diferentes recursos capazes de tornar a rede mais flexível e preparada para situações adversas.
No estado norte-americano da Califórnia, a resiliência da rede está também diretamente relacionada ao aumento das ondas de calor, das secas, dos incêndios florestais, dos ventos fortes e das inundações costeiras. O California Independent System Operator (CAISO) considera esses riscos no planejamento da transmissão, enquanto a California Public Utilities Commission (CPUC) acompanha as medidas de adaptação adotadas pelas empresas de eletricidade. As principais concessionárias também precisam elaborar avaliações de vulnerabilidade climática, identificando instalações, serviços essenciais e comunidades mais expostas. Em maio de 2026, o CAISO aprovou um plano com 38 projetos de transmissão, estimados em US$ 6,7 bilhões, destinados à expansão da rede, à integração de novas fontes de energia e à manutenção da confiabilidade do fornecimento. Os investimentos californianos são divididos entre as empresas proprietárias das redes, o operador e o regulador. Entre as medidas adotadas estão a substituição de postes, a instalação de sensores meteorológicos, a automação da rede, o manejo da vegetação, o isolamento de equipamentos e o enterramento de linhas em áreas com elevado risco de incêndios.
No Reino Unido, os órgãos competentes utilizam modelagens climáticas e testes de estresse para avaliar como a rede pode reagir a tempestades, enchentes, calor intenso e períodos de baixa produção solar e eólica. Nesse caso, as empresas precisam apresentar estratégias de resiliência climática e podem solicitar recursos adicionais quando surgem riscos ou necessidades não previstos. Entre as medidas já analisadas está a instalação de estruturas de proteção contra inundações em dezenas de instalações da National Grid.
As experiências da Austrália, da Califórnia e do Reino Unido mostram que a resiliência climática depende da atuação conjunta entre operadores, reguladores, governos e empresas proprietárias das redes. Embora cada região utilize instrumentos diferentes, todas procuram antecipar riscos, modernizar a infraestrutura e definir formas equilibradas de financiar os investimentos. Esses exemplos internacionais ajudam a compreender como a adaptação climática está sendo incorporada ao planejamento do setor elétrico e abrem caminho para analisar como o Brasil vem construindo suas próprias políticas para tornar a rede mais preparada diante dos eventos climáticos extremos.
Políticas para aumentar resiliência no Brasil
O país necessita de uma transformação profunda no seu sistema de transmissão, tornando a rede elétrica mais flexível e, consequentemente, mais eficiente. A principal aposta está na transição para uma matriz energética limpa, renovável e moderna. Em suma, o desafio que está colocado para o Brasil é mais qualitativo do que quantitativo: é necessária a construção de um sistema elétrico mais inteligente, dentro do qual a “solução” quantitativa de simplesmente expandir ainda mais as instalações da rede elétrica se torne viável.
Uma das agendas que pressionam o governo brasileiro, no tocante à inovação, é a dos datacenters. O interesse de investidores por projetos de datacenters no Brasil já soma 38 gigawatts (GW) em pedidos de parecer de acesso à rede elétrica, dos quais 7,1 GW representam investimentos estimados em R$159 bilhões nos próximos anos. Conforme a pauta da infraestrutura digital se entremeia com a disponibilidade e robustez do setor elétrico, a questão da resiliência energética paulatinamente se torna uma questão, em termos geopolíticos, de soberania nacional.
Uma segunda pauta bastante relevante, que também pressiona o governo brasileiro no tocante à resiliência, é a da expansão das baterias. Como já discutido em texto anterior, apenas a geração de eletricidade limpa não basta para se avançar na busca da segurança energética. É preciso debruçar-se sobre o gargalo existente nas formas de armazenamento da eletricidade gerada e no controle logístico e tecnológico dos sistemas que estocam essa energia. E, se as baterias apontam para o problema do armazenamento, também é uma questão a ser considerada a capacidade de transmissão de energia pelo país.
Nesse contexto, entre as principais medidas tomadas pelo governo brasileiro, alguns episódios vêm à tona. Ainda em maio de 2026, o governo brasileiro renovou 14 das concessões de distribuição de energia elétrica, num investimento que soma R$130 bilhões, no intuito de modernizar a distribuição de energia até 2030. Tal ação, embasada no decreto n° 12.068/2024, busca integrar questões como a obrigatoriedade de melhoria contínua da qualidade de fornecimento e a definição de metas para recomposição em casos de eventos climáticos extremos. Vale dizer que os R$130 bilhões em investimentos não sairão dos cofres públicos – na verdade, o montante representa o volume de investimentos que as distribuidoras privadas serão obrigadas a fazer até 2030 para garantir a renovação dos contratos.
Além disso, com o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), o planejamento estratégico brasileiro estabelece as diretrizes para a expansão da oferta e da demanda na próxima década, com a sinalização de investimentos de aproximadamente R$3,5 trilhões em toda a cadeia do setor. Dessa forma, a expectativa de curto/médio prazo do setor energético brasileiro apresenta-se fortemente integrada com um processo de modernização da rede elétrica que, por sua vez, servirá de alicerce para a sustentação de uma matriz energética renovável, acessível e resiliente.
Conclusão
As mudanças climáticas já afetam diretamente o funcionamento dos sistemas elétricos. Secas prolongadas, ondas de calor, incêndios, tempestades e enchentes podem reduzir a geração de energia, danificar redes de transmissão e distribuição e deixar milhões de consumidores sem eletricidade. Por isso, a resiliência climática deixou de ser uma preocupação futura e passou a ocupar um espaço central no planejamento energético.
No Brasil, esse desafio é ainda mais importante devido à elevada participação das fontes renováveis na matriz elétrica. Embora hidrelétricas, usinas solares, parques eólicos e biomassa sejam fundamentais para a transição energética, sua produção também depende das condições climáticas. Isso não significa reduzir o uso dessas fontes, mas reconhecer que sua expansão precisa ser acompanhada por redes mais modernas, sistemas de armazenamento, maior integração entre as regiões e melhores instrumentos de previsão e gestão da energia.
As experiências da Austrália, da Califórnia e do Reino Unido mostram que não existe uma solução única. Esses locais têm combinado planejamento de longo prazo, avaliações de vulnerabilidade, modernização da infraestrutura, armazenamento de energia, proteção de instalações e regras para definir como os investimentos serão financiados. Também demonstram que a construção de uma rede resiliente exige cooperação entre operadores, reguladores, governos, empresas e consumidores.
No cenário brasileiro, medidas como a renovação das concessões de distribuição, a definição de metas para a recuperação do fornecimento após eventos extremos e os investimentos previstos no Plano Decenal de Expansão de Energia representam avanços importantes. Entretanto, a resiliência precisa ser incorporada de forma permanente às políticas públicas, às decisões regulatórias e aos projetos do setor. Mais do que ampliar a infraestrutura existente, é necessário identificar vulnerabilidades, priorizar áreas de risco e garantir que a rede esteja preparada para novas demandas, como a expansão dos datacenters e dos sistemas de armazenamento.
Fortalecer a resiliência climática do sistema elétrico significa proteger a população, a economia e os serviços essenciais diante de crises que tendem a se tornar mais frequentes. Investir antes dos desastres pode reduzir prejuízos, acelerar a recuperação do fornecimento e evitar custos ainda maiores no futuro. O desafio do Brasil, portanto, é avançar na transição energética sem perder de vista a segurança do sistema, construindo uma rede mais limpa, flexível, acessível e capaz de responder às transformações do clima.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte
