Ano VII, nº 122, 10 de Abril de 2026
Por Ana Carolina Chida Lorca, Caio Vinicius Higa, Diego Yokota Lima, Isabella Loiola, Thalita Santos Bernaldo (Imagem: ImageFX)
O avanço das energias renováveis está estreitamente ligado a formas eficazes de armazenamento. Sem um sistema de armazenamento apropriado, parte significativa da energia gerada é desperdiçada. É preciso, então, desenvolver formas adequadas para guardá-la, formando estoques de energia renovável a fim de permitir o seu máximo aproveitamento e contribuir para a estabilidade da rede elétrica, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e diminuindo custos operacionais. Esse artigo aborda a complexidade desse desafio ao tratar das três rotas existentes: baterias estacionárias, bombeamento hidrelétrico e hidrogênio verde.
As fontes renováveis, como a solar e a eólica, estão sujeitas a intermitências naturais. O sol nem sempre brilha, o vento nem sempre sopra. A transição energética deixou de ser, portanto, um desafio exclusivamente voltado para a instalação de painéis solares e turbinas eólicas. O verdadeiro gargalo reside na capacidade de armazenar a eletricidade gerada. Três tecnologias consolidaram-se como pilares dessa nova era, operando sob lógicas distintas de cadeia de suprimentos e revelando um mapa complexo de dependências globais. As baterias estacionárias, o bombeamento hidrelétrico e o hidrogênio verde formam a tríade que sustentará as redes elétricas do futuro, mas cada uma delas expõe vulnerabilidades que redesenham a soberania energética das nações.
O armazenamento em baterias, especialmente as de íon-lítio, domina o cenário de curta e média duração. Sua cadeia de suprimentos representa um modelo de integração vertical, em que a China atua como o elo decisivo em praticamente todas as etapas. Tudo começa na extração mineral, marcada por concentração geográfica acentuada. A República Democrática do Congo detém a maior parte do cobalto bruto, enquanto Austrália, Chile e a própria China lideram a mineração de lítio, com empresas como a Sinomine e a Sichuan Yahua consolidando uma produção em ampla escala.
O verdadeiro poder está no refino. É no território chinês que esses minerais são purificados e transformados em compostos de alta pureza, elevando a concentração global do mercado a níveis altíssimos. A supremacia da China se aprofunda na fabricação de componentes essenciais para a tecnologia de Íon Lítio de Ferro e Fosfato (LFP), que se tornou o padrão comercial por ser mais segura e por reduzir a dependência do cobalto. A China produz 75% do ácido fosfórico purificado e 95% do sulfato de manganês de alta pureza, materiais fundamentais para a próxima geração de células das baterias. Na montagem final, gigantes chineses, como a CATL e a BYD, comandam o mercado global, apoiados em automação avançada que lhes confere uma vantagem de custo superior a 40% em relação aos concorrentes europeus.
Para fechar o ciclo, a China também abriga dois terços da capacidade mundial de reciclagem de baterias, recuperando metais valiosos e realimentando a produção em um circuito fechado. Uma análise de vulnerabilidade revela que a interrupção de apenas um mês nas exportações chinesas de células e sistemas de baterias poderia gerar perdas mensais superiores a US$ 17 bilhões para a indústria global. Esse é um dado que ilustra como a segurança das redes modernas está intrinsecamente atrelada à resiliência dessas cadeias.
Enquanto as baterias asseguram a flexibilidade de curto prazo e ultrapassam as usinas reversíveis em capacidade de potência ao atingir cerca de 270 GW no final de 2025, o bombeamento hidrelétrico permanece como a estrutura central do armazenamento em larga escala ao concentrar um volume energético acumulado de aproximadamente 8.500 GW/h. Esse tipo de operação garante a estabilidade em redes elétricas com alta penetração de fontes renováveis variáveis (intermitentes) e fornece o armazenamento de longa duração, indispensável para as necessidades do sistema. A cadeia de suprimentos desse segmento não segue a lógica verticalizada e se organiza por uma concentração horizontal em que se distribui o controle entre oligopólios de corporações da engenharia mecânica e elétrica, tais como a austríaca Andritz, a alemã Voith, a norte-americana GE Vernova, a japonesa Toshiba e a chinesa Dongfang Electric. Essas empresas atuam de forma articulada a grandes conglomerados de infraestrutura, responsáveis pelo financiamento e pela execução das usinas.
A expansão desse tipo de infraestrutura lida com barreiras estruturais, já que apresenta dependência de topografias específicas com reservatórios em altitudes distintas para viabilizar a operação geológica, além de exigir altos custos de capital e cronogramas de licenciamento que podem se estender em até 10 anos. Apesar destas limitações, as adições anuais de capacidade de bombeamento hidrelétrico devem dobrar para alcançar a marca de 16,5 GW até 2030 em resposta à necessidade urgente de flexibilidade sistêmica e de armazenamento de longa duração. Atualmente, a China lidera esse movimento de expansão, respondendo por mais de 70% do crescimento mundial projetado para o período, enquanto o mercado europeu também acelera seus projetos para solucionar os crescentes desafios técnicos de integração de suas matrizes, movimento que também é acompanhado pelos Estados Unidos.
A terceira peça desse quebra-cabeça é o hidrogênio verde, vetor estratégico para armazenamento de longuíssima duração e descarbonização de setores pesados. Produzido pela eletrólise da água alimentada por fontes renováveis, seu coração tecnológico são os eletrolisadores, equipamentos cuja fabricação global está fortemente concentrada, novamente, na China, que detém cerca de 60% da capacidade produtiva e busca atender metas internas ambiciosas. Embora a escala chinesa seja robusta, a cadeia esbarra em um obstáculo crítico, que é a dependência de metais do grupo da platina, especialmente irídio e platina, indispensáveis para os eletrolisadores de membrana de troca protônica. A extração desses minerais raros concentra-se na África do Sul, Rússia e Zimbábue, com a África do Sul guardando quase noventa por cento das reservas planetárias.
O refino químico, por sua vez, também se encontra concentrado na China, criando-se, assim, um nó de vulnerabilidade geopolítica que combina alta tecnologia e escassez mineral. A comunidade científica trabalha para reduzir o consumo de irídio dos níveis comerciais atuais para patamares drasticamente menores até 2050, mas a pressão imediata por segurança energética já molda novas infraestruturas. A Europa investe agressivamente em corredores de gasodutos e infraestrutura de armazenamento em cavernas de sal, enquanto o comércio marítimo de hidrogênio começa a se desenhar, com Alemanha, Japão e Holanda emergindo como principais importadores. Paralelamente, a corrida por alternativas se acelera, com pesquisadores desenvolvendo eletrolisadores de óxido sólido e alcalinos que utilizam catalisadores mais abundantes, prometendo reduzir a pressão sobre suprimentos críticos e diversificar a matriz de produção.
O mapa da dependência energética em 2026 aponta para uma direção clara, sinalizando que gerar eletricidade limpa já não basta. A garantia da soberania energética reside no controle logístico e tecnológico dos sistemas que estocam essa energia. Para as economias avançadas, a resiliência dependerá da diversificação de rotas de abastecimento, do investimento em reciclagem em escala industrial e do financiamento contínuo de pesquisas que substituam componentes estratégicos. A transição energética já não é apenas uma disputa por megawatts, mas um jogo de xadrez global onde quem domina a cadeia de suprimentos dita o ritmo do futuro. A expansão da transição energética depende da capacidade de armazenamento.
Baterias em larga escala
A expansão do armazenamento de energia tem sido impulsionada por políticas públicas voltadas à integração de fontes renováveis e à segurança energética. Com o crescimento acelerado da geração solar e eólica, governos passaram a adotar instrumentos regulatórios e incentivos econômicos para viabilizar sistemas de armazenamento, especialmente baterias em larga escala (BESS). Em 2025, a capacidade global instalada de armazenamento atingiu cerca de 270 GW, com crescimento anual de 43%. Dessa forma, evidenciam-se o papel central dessas tecnologias na transição energética e a importância de políticas públicas para sua expansão.
Na Austrália, políticas públicas desempenharam papel decisivo na consolidação do armazenamento como elemento estrutural do sistema elétrico. O mercado elétrico australiano passou por rápida expansão das baterias, atingindo cerca de 4,6 GW de capacidade operacional em 2025, mais do que o dobro do início do ano. Novos empreendimentos, no mesmo período, demonstram a aceleração do setor. Um elemento relevante na experiência australiana é a construção de projetos de grande escala, como o sistema Collie BESS, com cerca de 500 MW e 2.000 MWh de capacidade, um dos maiores do mundo. Essas iniciativas são resultado de políticas públicas combinadas com investimentos privados e têm contribuído para reduzir a volatilidade de preços no mercado elétrico, além de competir diretamente com usinas térmicas de pico. A atuação das baterias já demonstrou capacidade de mitigar picos de preços em momentos de escassez energética.
Na Europa, o apagão ibérico de abril de 2025 marcou um ponto de inflexão na formulação de políticas públicas voltadas para o armazenamento. O problema afetou milhões de pessoas em Portugal e Espanha, com perda súbita de cerca de 2,2 GW de potência e interrupção do fornecimento por várias horas. O apagão evidenciou fragilidades estruturais da rede elétrica e a dificuldade de sistemas com alta participação de renováveis operarem sem mecanismos adequados de estabilidade.
Como reação, Portugal passou a incorporar o armazenamento como elemento central de sua política energética, anunciando um pacote de cerca de € 400 milhões para a modernização da rede e uma expansão dramática do uso de baterias, de 20 MW para cerca de 750 MW . No médio prazo, o país projeta atingir cerca de 2 GW de armazenamento até 2030, consolidando o papel dessas tecnologias na segurança energética e na integração de energias renováveis.
Nos Emirados Árabes Unidos, as políticas públicas têm sido direcionadas para o desenvolvimento de projetos híbridos que combinam energia solar e armazenamento em larga escala. Esses projetos visam garantir o fornecimento contínuo de energia renovável, superando a intermitência da geração solar. Um dos principais exemplos é o complexo de Abu Dhabi, que prevê cerca de 5,2 GW de capacidade solar fotovoltaica associada a aproximadamente 19 GWh de armazenamento em baterias, com potencial de fornecer até 1 GW de energia renovável de forma contínua (24 horas por dia). Além disso, o país tem metas ambiciosas de expansão de energia limpa, buscando atingir 50% de participação de fontes limpas em sua matriz energética até 2050, no âmbito da proposta intitulada “UAE Energy Strategy 2050”. A estratégia reflete uma política energética voltada à diversificação conforme as recomendações da International Renewable Energy Agency (Irena), cuja sede está localizada em Abu Dhabi.
Também nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia, políticas públicas têm impulsionado o uso de armazenamento para enfrentar o fenômeno conhecido como duck curve, causado pela alta penetração de energia solar no sistema elétrico. Em 2025, a Califórnia já contava com mais de 15.700 MW de capacidade instalada de baterias, utilizadas para armazenar energia durante o dia e liberá-la no período noturno. Além disso, mecanismos como tarifas horárias e programas de resposta à demanda têm sido adotados para complementar o uso de armazenamento e reduzir a pressão sobre o sistema elétrico.
De forma geral, as experiências internacionais demonstram que políticas públicas são fundamentais para viabilizar o armazenamento de energia em larga escala. Seja por meio de incentivos econômicos, leilões, reformas de mercado ou resposta a crises energéticas, os países têm incorporado o armazenamento como elemento estratégico para garantir a segurança energética e viabilizar a transição para matrizes mais limpas. Esses casos evidenciam que o sucesso da transição energética depende não apenas da expansão das renováveis, mas também da capacidade de armazenamento e da gestão eficiente da energia.
E o Brasil?
O Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) surge no país como a ferramenta importante para consolidar uma matriz elétrica que já é constituída em mais de 90% por fontes renováveis, mas que precisa lidar com a intermitência das hidrelétricas (sujeitas a secas) e com os novos desafios técnicos, administrativos e financeiros gerados pelo avanço da energia solar e da eólica.
Essa mudança começa no plano institucional. A recente Lei 15.269/2025 reconhece o armazenamento como atividade do setor elétrico, colocando-o ao lado da geração, transmissão e distribuição sob a regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Na prática, o risco dos projetos diminuem e mais oportunidades de investimentos aparecem. Segundo estudos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o BESS pode destravar até R$40 bilhões em investimentos nos próximos anos, verba essencial para guardar o excedente solar do dia e evitar os cortes de distribuição.
Do ponto de vista industrial e financeiro, o governo federal tem se esforçado, mesmo no contexto do domínio tecnológico e comercial das empresas chinesas, para desenvolver a produção de tecnologia brasileira. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou, no âmbito do seu programa “BNDES Mais Inovação”, um financiamento de R$ 280 milhões para a WEG construir a maior fábrica de sistemas de armazenamento de energia elétrica do Brasil.
Por outro lado, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou que um leilão para contratação de sistemas de armazenamento deve ocorrer até meados de 2026, com a expectativa de movimentar mais de R$ 10 bilhões. A disputa deve envolver grandes empresas globais, como a norte-americana Tesla e as chinesas BYD, Huawei e CATL — um cenário em que a indústria brasileira não terá tantas oportunidades.
Além disso, os investidores do ramo temem a tributação. Gestores empresariais como Thiago Soares, diretor executivo da UCB Power, defendem que os sistemas de armazenamento sejam enquadrados no regime especial de incentivos para desenvolvimento de infraestrutura, que suspende a cobrança dos tributos PIS e Cofins, totalizando um desconto de 9,25% Somente assim, argumentam, a produção brasileira poderia entrar na competição.
O Brasil vive um momento promissor, porém instável. Mesmo que o país consiga produzir volumes colossais de energia limpa, o armazenamento ainda é um problema persistente para a segurança energética, enquanto a dependência tecnológica do exterior representa a perda de valiosas oportunidade para a indústria brasileira.
Conclusão
A transição energética chegou ao ponto em que a geração de energia limpa, de forma isolada, não é suficiente para sustentar sistemas modernos. O cerne do debate da soberania energética se deslocou da capacidade de geração de energias renováveis para o armazenamento dessa energia e para o controle logístico das tecnologias envolvidas. O armazenamento atua, assim, como o elo indispensável para mitigar a intermitência das fontes renováveis e reduzir a vulnerabilidade externa causada pela dependência de combustíveis fósseis, frequentemente sujeitos a instabilidades geopolíticas.
Nota-se no cenário internacional uma complexa teia de interdependências. A China consolidou uma hegemonia expressiva em toda a cadeia de suprimentos das baterias de íon-lítio e do hidrogênio verde. Países que buscam resiliência têm respondido com políticas públicas robustas. É o que ocorre na Austrália, nos EUA (Califórnia) e na Europa, com a utilização de sistemas BESS para estabilizar redes e responder a crises energéticas. No caso do Brasil, o momento é de transição e oportunidade institucional. O país possui uma matriz elétrica compostoa por 90% de energias renováveis e a consolidação do armazenamento através da Lei 15.269/2025 e dos futuros leilões previstos para o presente ano de 2026 representa um passo fundamental para a segurança energética. Nesse contexto, o desafio brasileiro reside em equilibrar a necessidade de investimentos estrangeiros com o fomento à indústria nacional, garantindo que o país não apenas consuma tecnologia, mas também participe ativamente da produção e inovação desse setor estratégico.
Em suma, o domínio das tecnologias de armazenamento, seja por baterias, bombeamento hidrelétrico ou hidrogênio, define quem dita o ritmo do futuro. Para que o Brasil e os demais países garantam sua autonomia, o foco deve permanecer na diversificação das rotas de abastecimento, no investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e na criação de mecanismos regulatórios que tornem o armazenamento um pilar estrutural e economicamente viável de suas redes elétricas.
Agradecimentos aos professores Igor Fuser e Giorgio Romano Schutte
