Operação “Epic Fury”, Sucessão Iraniana e a Vulnerabilidade Energética Brasileira

Ano VII, nº 122, 10 de Abril de 2026

       

Por Mohammed Nadir, Ana Carolina Carvalho de Oliveira, Amanda Cristina da Silva, Alice Maria Duarte Maia, Carlos Eduardo Ramos Sanches, Gabriel de Castro Soares, Giovanna Albuquerque Apolinario, Isabella Werneck, Rafael de Paula Anefalos (Imagem: Wikimedia Commons; U.S. Navy Photo) 

        

A Doutrina Trump e a “Operação Epic Fury”

        

A “Doutrina Trump” gira em torno da manutenção da superioridade militar dos EUA em relação à China, a fim de que isso contenha, de alguma forma, o desenvolvimento chinês e sua ameaça ao status norte-americano de superpotência hegemônica. Ao restringir o acesso da China a insumos energéticos e parceiros comerciais, os EUA buscam neutralizar a capacidade do país asiático de consolidar sua influência mundial. Vale ressaltar que o atual presidente, Donald Trump, frente a um processo de desdolarização do sistema financeiro internacional, busca, por meio de intervenções militares e da demonstração de força, reafirmar a influência norte-americana frente a uma ordem multilateral em ascensão, de forma que seja restaurada a hegemonia unipolar dos EUA. Nesse cenário, a política de Trump se distingue no bordão “America First” –  através do qual o presidente traz um nacionalismo econômico e social, acompanhado de uma política migratória restritiva no território americano e a negação de compromissos com organismos internacionais que possam limitar a liberdade de ação do Estado americano ou impor custos financeiros considerados desproporcionais aos benefícios nacionais. Nesse mesmo sentido, o slogan “MAGA” (Make America Great Again) atua como a base de sustentação interna, transformando o nacionalismo econômico em uma missão de resgate da identidade e da supremacia americana.

          

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China deixou de ser uma mera disputa tarifária para se tornar o norte da política externa norte-americana atual, na qual se faz essencial redefinir seus instrumentos de projeção de poder de forma a compensar a perda de protagonismo do Dólar como moeda hegemônica, em detrimento da ascensão do Yuan chinês e outras moedas. É evidente que, desde Bretton Woods, em 1944, os EUA ditaram o dólar americano, lastreado em ouro, como base cambial mundial – nela, os países concordaram em manter suas moedas fixas, porém ajustáveis (dentro de uma banda de 1%) em relação ao dólar, e o dólar foi fixado ao ouro a US$ 35 a onça (FEDERAL RESERVE HISTORY, 2013). Isso fez com que o sistema financeiro internacional girasse em torno dos EUA e, dessa forma, a dolarização do SFI se constituiu como uma das bases da hegemonia norte-americana no mundo. Entretanto, atualmente se observa um processo de desdolarização do sistema – a ascensão de blocos multilaterais sem a presença dos EUA, como o BRICS, por exemplo, e a comercialização do petróleo em Yuans, abandonando o antigo sistema “Petrodólar”, firmado em 1974 entre EUA e Arábia Saudita – que, gradualmente, vai diversificando as moedas e os blocos de cooperação. Assim, os EUA vêm perdendo seu protagonismo no SFI e, como resposta a isso, veem nas intervenções militares em assuntos externos uma forma de reafirmar sua influência no sistema internacional.

         

Nesse cenário, Trump vê nas tarifas uma forma de coerção às chamadas “relações comerciais injustas” e uma forma de subordinar países ao poder do dólar. Essa manipulação forçada do republicano nas relações comerciais com os EUA é uma tentativa de reequilibrar o comércio dos Estados Unidos, de forma a proteger a indústria interna e confrontar países acusados de acordos comerciais injustos. Assim, o objetivo é pressionar nações a reconfigurar alianças e mudar o pêndulo para o Ocidente, assim como limitar a influência da China na Ásia e na Europa; essa mesma negação da ordem multilateral hodierna se dá pela rejeição de Trump aos blocos multilaterais de comércio, desse modo, o republicano retirou os EUA da OMS, do Acordo de Paris, da UNESCO, do JCPOA –  Acordo Nuclear com o Irã que tinha o fito de contribuir para a paz e a segurança regional e internacional, limitando o desenvolvimento e a compra de armamentos nucleares por parte do Irã, para que seu programa nuclear fosse exclusivamente pacífico, ao passo que os EUA suspenderiam sanções econômicas impostas ao petróleo iraniano. À vista disso, Trump argumentou que o acordo, assinado por Obama em 2015, falhava em abordar o desenvolvimento de mísseis balísticos e atividades regionais do Irã, permitindo que o país enriquecesse urânio após certo tempo e que, adicionalmente, o JCPOA seria “o pior negócio de todos os tempos” (TRUMP, 2018). Sob essa perspectiva, os EUA, em uma operação conjunta com Israel, lançam, na madrugada do sábado de 28 de fevereiro de 2026, uma ofensiva militar ao Irã – a Operação Epic Fury.

          

Entretanto, sob outro enfoque, podemos afirmar que o ataque ao Irã configurou, não apenas uma reação preventiva à suposta ameaça iraniana ao Estado americano, mas uma das formas de contenção ao desenvolvimento chinês na guerra comercial EUA e China. Isto é, tendo em vista que a China importa entre 40% e 50% do seu petróleo dos países do Golfo Pérsico – Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos – e praticamente todo esse volume transita por Ormuz (BUENO, 2026), fechar o Estreito de Ormuz em um cenário de guerra seria cortar o combustível que alimenta as fábricas chinesas.

           

A Sucessão em Tempos de Guerra: De Ali a Mojtaba Khamenei

         

Nascido em Mashhad no ano 1939, Ali Khamenei teve formação religiosa desde jovem e esteve diretamente envolvido nos movimentos que levaram a Revolução Islâmica de 1979. Próximo de Ruhollah Khomeini, líder da revolução, ele participou ativamente da oposição ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi e chegou a ser preso diversas vezes por suas atividades políticas.

       

Com a estrutura da República Islâmica consolidada, Khamenei rapidamente ascendeu dentro da nova estrutura de poder. Em 1981, foi eleito presidente do Irã, cargo que ocupou até 1989, no período da Guerra Irã-Iraque. Sua presidência foi alinhada com princípios revolucionários e pela defesa da sobrevivência do novo regime. Em 1989, morre Khomeini, sendo assim Khamenei foi escolhido como Líder Supremo pelo Assembleia dos Peritos, mesmo não sendo naquele momento uma das mais altas autoridades religiosas.

       

Khamenei esteve como Líder Supremo por mais de 30 anos, nesse tempo buscou fortalecer instituições chaves para o regime como a Guarda Revolucionária Islâmica, tornando-a um ator político e econômico além de um braço militar. Nesse período o Irã adotou uma postura cada vez mais assertiva na política externa, apoiando grupos aliados no Oriente Médio e consolidando o chamado “Eixo de Resistência”.

        

Nos últimos anos houve uma escalada das tensões na região, principalmente com Estados Unidos e Israel, que seguia com afirmações sobre o programa nuclear iraniano. Para tentar isolar o governo iraniano, os EUA impuseram sanções econômicas, ataques indiretos e confrontos por meio de grupos aliados. Em 2026 esse cenário se escalou para ações militares diretas, tendo o Irã enfrentado ataques coordenados contra áreas estratégicas e civis em seu território. Com esse contexto instaurado, Khamenei tornou-se um alvo principal. Internamente, o regime reagiu rapidamente, estabelecendo mecanismos provisórios para garantir a continuidade do poder e evitar um vácuo institucional.

          

A confirmação de Mojtaba Khamenei como o terceiro Líder Supremo do Irã, em março de 2026, consolida uma grande transição de poder na história da República Islâmica. Isso porque apesar de ter mantido um perfil discreto e sem cargos públicos oficiais, a ascensão de Mojtaba Khamenei é marcada por sua histórica influência nos bastidores do poder iraniano (CNN). Sua escolha como sucessor de seu pai, Ali Khamenei se torna controversa por estabelecer um caráter hereditário à liderança suprema, algo que foi sempre combatido pelo regime, contrariando a exigência tradicional de uma reputação religiosa e política amplamente comprovada perante a Assembleia de Peritos. Porém, tal fato ocorreu, posteriormente a morte de seu pai, Ali Khamenei, em fevereiro deste ano, no qual se estabeleceu a partir dos embates entre Israel e os Estados Unidos, acelerando a decisão da Assembleia dos Peritos (BBC). 

         

Nascido em 1969, Mojtaba Khamenei possui uma trajetória marcada por sua breve atuação militar na Guerra Irã e Iraque aos 17 anos e por um ingresso tardio nos estudos teológicos em Qom, iniciado apenas aos 30 anos. Atualmente, sua posição como clérigo de escalão intermediário é vista como um potencial desafio técnico e político à sua plena aceitação como Líder Supremo, uma vez que o cargo tradicionalmente exige uma autoridade religiosa de nível superior para validar a liderança espiritual e estatal do país (BBC).

           

Em seus primeiros comunicados, Mojtaba reafirmou o compromisso com o Eixo de Resistência (Hezbollah, Houthis e milícias no Iraque), indicando que o Irã não recuará em seu programa nuclear ou em sua influência regional, mesmo sob intensa pressão militar. O mistério em torno de suas raras aparições públicas desde a posse sugere um estado de alerta máximo e uma liderança exercida a partir de centros de comando resilientes (CNN).

        

Choque Energético e a Resposta Brasileira

        

A imprevisibilidade do conflito no Oriente Médio gera ruído na economia internacional, motivada, principalmente, pelo choque energético e seus impactos sobre a cadeia de energia e suprimentos globais. A alta no preço do barril de petróleo tende a encarecer, no longo prazo, as cadeias produtivas, com alto potencial de promover altas na inflação e afetar o crescimento econômico projetado das economias para baixo, reacendendo temores de uma nova recessão mundial.

         

As medidas de emergência adotadas pelos governos globais não foram capazes de suprir a grande demanda internacional por petróleo e gás causadas pelo conflito, que seguem tendência autista desde Dez de 2025. Custos como os de combustíveis, fertilizantes e produtos da indústria petroquímica foram os mais impactados, uma vez que a economia global vem deixando de contar com 20 milhões de barris de petróleo por dia vindos do Oriente Médio, quase que exclusivamente, do estreito de Ormuz.

          

Na tentativa de suprir a demanda energética, uma série de nações vem liberando parte de suas reservas estratégicas de petróleo para o mercado internacional, totalizando até o momento, 400 milhões de barris de petróleo. Além disso, os EUA promoveram a isenção de 30 dias das sanções contra a venda de petróleo iraniano, a fim de conter a alta de mais de 50% do combustível.

        

Os impactos globais atravessam a Ásia, região mais dependente das cadeias de fornecimento energético do oriente médio, que importa, em média, aproximadamente, mais de um terço da energia que consomem. onde os países vêm tomando medidas para promover o contingenciamento do consumo energético, medidas que incluem o estímulo à limitação de viagens e a adoção se semanas de trabalho de quatro dias.

            

O Brasil, atual 9º maior exportador de petróleo mundial, pode se beneficiar do conflito, em um contexto em que o país já vem ampliando significativamente sua produção, estando hoje produzindo 3,5 milhões de barris por dia, com a meta de alcançar os 4,2 milhões até 2030. Outro ponto favorável é que a alta do preço do petróleo tende a favorecer a balança comercial brasileira. No entanto, mesmo sendo um grande exportador de petróleo bruto, o Brasil importa uma parcela relevante dos derivados consumidos internamente. 

         

A posição brasileira reflete as dinâmicas específicas de sua economia, ponderando os potenciais benefícios e riscos decorrentes do cenário atual. Nesse contexto, o choque energético pode interromper a trajetória de queda da taxa básica de juros (Selic), recentemente reduzida para 14,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), após permanecer por quase um ano no patamar de 15%.

         

Com o objetivo de conter pressões inflacionárias, o governo federal adotou, por meio de medida provisória, duas ações complementares. A primeira foi a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins, os únicos tributos incidentes, sobre o preço do diesel. A segunda consistiu na concessão de uma subvenção econômica a importadores e produtores do combustível, no valor de R$ 0,32 por litro. Em conjunto, essas medidas buscam gerar um alívio estimado de R$ 0,64 por litro.

        

Dessa forma, o conflito traz à tona questões estruturais relevantes, como a autonomia energética do país e a necessidade de formulação de uma política industrial robusta voltada ao setor.

        

Referências: 

       

BBC NEWS. Profile: Iran’s Supreme Leader Ali Khamenei. Disponível em: https://www.bbc.com/news. Acesso em: 25 mar. 2026.

       

BUENO, Gilvan. Não foi um bombardeio no Irã, foi um bombardeio na economia chinesa. CNN Brasil, 2 mar. 2026. Disponível em: CNN Brasil.

       

CNN. Who is Ali Khamenei? Iran’s Supreme Leader explained. Disponível em: https://www.cnn.com. Acesso em: 25 mar. 2026.

       

CNN BRASIL. Saiba quem é Mojtab Khamenei, novo líder supremo do Irã. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/saiba-quem-e-mojtaba-khamenei-novo-lider-supremo-do-ira/. Acesso em: 25 mar. 2026.

       

CNN BRASIL. Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, é escolhido líder supremo do Irã. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/mojtaba-khamenei-filho-de-ali-khamenei-e-escolhido-lider-supremo-do-ira/. Acesso em: 25 mar. 2026.

     

ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Ali Khamenei. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Ali-Khamenei. Acesso em: 25 mar. 2026.  

       

GHIZONI, Sandra Kollen. Creation of the Bretton Woods System. Federal Reserve History, 2013. Disponível em: Federal Reserve History.

        

KELLY, Stephanie; WILLIAMS, Curtis. Global energy crisis deepens; efforts to plug supply gap fall short, industry executives warn. Reuters, 24 mar. 2026. Disponível em: Acessar notícia. Acesso em: 25 mar. 2026.

          

KORYBKO, Andrew. A “Doutrina Trump” é moldada pela “Estratégia de Negação” de Elbridge Colby. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), 11 fev. 2026. Disponível em: Instituto Humanitas Unisinos.

      

MÜZELL, Lúcia. Choque energético acende temor de crise econômica global em 2026. UOL Notícias, 25 mar. 2026. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2026 /03/25/choque-energetico-acende-temor-de-crise-economica-global-em-2026.htm?iap=true&forcedFormat=NORMAL&forcedUserAgent=SMART&uol_app=flash%3Ft%3Ft >

             

PELIZ, Ana Carolina. Com produção crescente, Brasil pode compensar redução do petróleo do Oriente Médio, diz especialista. Terra, 3 mar. 2026. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/mundo/com-producao-crescente-brasil-pode-compensar-reducao-do-petroleo-do-oriente-medio-diz-especialista%2C4859c0382646e75bad891b351ef053farinh7rc0.html >. Acesso em: 26 mar. 2026.

     

PORTER, Eduardo. Trump’s war in Iran exposes US’s shift from a global guardian to an arbiter of chaos, 25 mar. 2026. Disponível em: < https://www.theguardian.com/world/2026/mar/25/trump-war-in-iran-us-shift-global-chaos >

       

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