Ano VII, nº 128, 02 de julho de 2026
Por Thiago Lacerda Nobre e Elias David Morales Martinez (Imagem: The Penisula/Reprodução)
Das Copas interrompidas pela Segunda Guerra Mundial às tensões entre Estados Unidos e Irã no contexto da Copa de 2026, o futebol internacional frequentemente refletiu rivalidades políticas, disputas estratégicas e transformações da ordem internacional.
A Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, México e Canadá, ocorre em um contexto de crescente instabilidade internacional. Tensões envolvendo Irã, rivalidade estratégica entre Washington e Pequim, disputas migratórias e desafios de segurança recolocam em evidência uma questão recorrente: grandes eventos esportivos raramente permanecem dissociados da política internacional.
Ao longo do século XX e início do XXI, as Copas do Mundo refletiram, além da competição esportiva, conflitos armados, disputas ideológicas, projetos nacionais e estratégias de projeção internacional. Das edições canceladas em razão da Segunda Guerra Mundial ao uso contemporâneo do esporte como instrumento de soft power, o futebol frequentemente serviu como espaço simbólico das transformações da ordem global.[1]
Mais do que simples competições esportivas, as Copas do Mundo consolidaram-se, ao longo do tempo, como eventos de dimensão política, econômica, cultural e diplomática. Em um sistema internacional cada vez mais marcado pela comunicação em massa, pela disputa de narrativas e pela projeção simbólica de poder, o futebol passou a ocupar posição relevante na construção de imagens nacionais e na busca por prestígio internacional.
Futebol e política internacional: uma relação histórica
A associação entre esporte e política internacional não constitui novidade. Ainda na década de 1930, regimes autoritários europeus já percebiam o potencial do futebol como instrumento de mobilização nacional e propaganda política. A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália fascista de Benito Mussolini, tornou-se um dos primeiros exemplos modernos da instrumentalização política de um megaevento esportivo para fins de prestígio internacional e fortalecimento interno do regime.[2]
A utilização política do esporte naquele contexto não ocorria de maneira isolada. O período entre guerras foi marcado pela ascensão de nacionalismos agressivos, pela expansão de regimes autoritários e pela crescente utilização de elementos culturais como mecanismos de mobilização popular. O futebol, em razão de sua capacidade de engajamento de massas, rapidamente passou a integrar esse cenário.
Poucos anos depois, o agravamento das tensões internacionais produzidas pela II Guerra Mundial culminaria na interrupção das Copas de 1942 e 1946. O cancelamento das competições revelou, de maneira simbólica, como o colapso da ordem internacional afeta até mesmo espaços tradicionalmente associados à integração e ao entretenimento global. Em um cenário dominado pela mobilização militar, pela destruição econômica e pela rivalidade entre potências, o futebol deixou de ocupar posição central nas prioridades estatais.[1]
A própria impossibilidade de realização do torneio evidenciou como grandes eventos internacionais dependem diretamente de um ambiente mínimo de estabilidade política e econômica. Em momentos de ruptura sistêmica, guerra generalizada e fragmentação da cooperação internacional, até mesmo manifestações culturais globais tornam-se inviáveis.
Durante a Guerra Fria, o esporte internacional também passou a refletir a polarização ideológica entre Estados Unidos e União Soviética. Embora as Olimpíadas tenham se tornado o palco mais evidente dessa disputa, o futebol igualmente absorveu elementos da competição geopolítica do período. Partidas internacionais frequentemente extrapolavam o âmbito esportivo, assumindo contornos simbólicos ligados ao nacionalismo, à afirmação ideológica e à disputa por prestígio global.[3]
A lógica bipolar da Guerra Fria contribuiu para ampliar o valor simbólico das vitórias esportivas. O desempenho de seleções nacionais frequentemente era interpretado como demonstração indireta da superioridade política, econômica ou social de determinados modelos de organização estatal. O esporte transformava-se, assim, em espaço complementar da competição internacional.
A Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina sob a ditadura militar, permanece como um dos casos mais emblemáticos da utilização política do futebol. Estudo publicado na American Political Science Review analisou o torneio como exemplo de relação entre megaeventos esportivos e repressão em regimes autocráticos.[4] Décadas antes da popularização do termo sportswashing, o episódio já demonstrava como grandes eventos esportivos podem ser empregados para suavizar percepções negativas e ampliar capital político internacional.
O caso argentino revelou ainda outro aspecto relevante: a tentativa de utilização do sucesso esportivo como mecanismo de coesão nacional em períodos de instabilidade política. Em meio a denúncias internacionais envolvendo desaparecimentos forçados, repressão política e violações de direitos humanos, o torneio permitiu ao regime militar projetar uma imagem de normalidade institucional perante parte da comunidade internacional.
Soft power, nacionalismo e projeção internacional
O futebol também se consolidou como importante instrumento de soft power. O conceito, desenvolvido por Joseph Nye, refere-se à capacidade de influência de um país por meio de elementos culturais, simbólicos e institucionais, sem o emprego direto da força militar ou da coerção econômica.[5] Nesse contexto, poucos países conseguiram projetar internacionalmente uma imagem esportiva tão forte quanto o Brasil ao longo do século XX.
A consolidação do futebol brasileiro como referência global ultrapassou os limites do esporte. Em diferentes momentos históricos, a imagem internacional do Brasil esteve fortemente associada à criatividade, ao talento esportivo e à capacidade de mobilização cultural vinculada ao futebol. Essa dimensão simbólica contribuiu para fortalecer mecanismos de diplomacia pública e projeção internacional do país.
A figura de Pelé tornou-se um dos principais símbolos dessa projeção internacional brasileira. Durante a guerra civil da Nigéria, em 1969, a passagem do Santos Futebol Clube pelo país gerou a narrativa de que o conflito teria sido temporariamente interrompido para permitir a realização de partidas amistosas. A versão, porém, deve ser tratada com cautela: há controvérsias sobre a extensão real do cessar-fogo. Ainda assim, o episódio consolidou-se como representação simbólica do alcance internacional do futebol brasileiro e do potencial político-cultural do esporte.[6]
Independentemente da precisão histórica integral do episódio, o caso tornou-se emblemático justamente porque expressa a percepção internacional acerca da influência simbólica do futebol brasileiro naquele período. O impacto cultural de Pelé ultrapassava fronteiras políticas, ideológicas e linguísticas, contribuindo para consolidar a dimensão global do esporte como instrumento de influência internacional.
Nas últimas décadas, o crescimento da dimensão econômica e midiática das competições internacionais ampliou ainda mais o valor geopolítico do futebol. A Copa do Mundo de 2022, realizada no Catar, evidenciou esse fenômeno. O país buscou utilizar o torneio como instrumento de projeção internacional, fortalecimento diplomático e reposicionamento de imagem global. Ao mesmo tempo, o evento intensificou debates sobre direitos humanos, condições de trabalho, influência econômica dos países do Golfo e utilização estratégica do esporte para ampliação de prestígio internacional.[7]
A realização da Copa no Catar também constatou como megaeventos esportivos passaram a integrar estratégias estatais mais amplas de inserção internacional e estratégias de projeção de soft power.[8] Em um cenário de crescente competição por investimentos, influência regional e reconhecimento global, eventos esportivos transformaram-se em ferramentas relevantes de diplomacia e comunicação estratégica.
O próprio debate em torno do conceito de sportswashing demonstra como a relação entre esporte e política internacional tornou-se mais complexa nas últimas décadas. Se por um lado megaeventos oferecem oportunidades de projeção internacional e fortalecimento econômico, por outro frequentemente intensificam debates sobre legitimidade política, direitos humanos e reputação internacional.
A Copa de 2026 e as tensões da ordem internacional contemporânea
É justamente nesse contexto que a Copa de 2026 adquire relevância adicional. A realização do torneio, com protagonismo dos Estados Unidos entre os países-sede, ocorre em meio a disputas estratégicas cada vez mais intensas, polarização política doméstica e crescimento das preocupações relacionadas à segurança internacional. Além disso, a participação de países que mantêm relações tensas com Washington — como o Irã — já produziu desafios diplomáticos e administrativos, como indicaram as tratativas sobre vistos para jogadores iranianos no período preparatório do torneio.[9]
A centralidade dos Estados Unidos na organização da Copa também possui dimensão simbólica relevante. O país continua ocupando posição central na ordem internacional contemporânea, ainda que em um contexto marcado pela ascensão chinesa, pela fragmentação geopolítica e pelo aumento da competição estratégica entre grandes potências.
O caso iraniano possui relevância particular. As relações entre Estados Unidos e Irã permanecem marcadas por décadas de hostilidade diplomática, sanções econômicas e episódios de tensão militar no Oriente Médio. Segundo reportagem da Reuters, jogadores iranianos precisaram solicitar vistos para Estados Unidos e Canadá em Ancara, na Turquia, durante a preparação para a Copa de 2026.[9] Já durante o torneio, a federação iraniana relatou que dificuldades impostas por autoridades aeroportuárias norte-americanas atrasaram integrantes da delegação em deslocamento para Seattle antes da partida contra o Egito.[12] Os episódios demonstram como rivalidades geopolíticas e questões diplomáticas podem ultrapassar o campo estritamente político e alcançar também os grandes eventos esportivos internacionais.
A situação torna-se ainda mais relevante diante do atual contexto regional do Oriente Médio. Tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos permanecem presentes na agenda internacional, especialmente em razão de disputas relacionadas à segurança regional, influência estratégica e programas militares. Nesse cenário, a presença iraniana em um evento sediado em território norte-americano inevitavelmente carrega dimensão política e simbólica.
Ao mesmo tempo, a própria realização de megaeventos passou a integrar estratégias mais amplas de projeção internacional dos Estados. Países utilizam competições globais para ampliar influência, fortalecer reputações externas, estimular investimentos e consolidar posições no cenário internacional. O futebol, nesse sentido, ultrapassou há muito tempo os limites do entretenimento esportivo, tornando-se também instrumento de diplomacia pública, construção de identidade nacional e disputa narrativa.[10]
A crescente securitização de grandes eventos esportivos também reflete transformações mais amplas do sistema internacional contemporâneo. Questões relacionadas ao terrorismo, migração, segurança cibernética e manifestações políticas passaram a integrar de maneira permanente o planejamento e a organização de competições globais.[11]
O futebol como reflexo da ordem global
A Copa do Mundo talvez represente um dos poucos momentos em que bilhões de pessoas observam simultaneamente símbolos nacionais, demonstrações de prestígio e rivalidades internacionais. Mesmo quando o futebol ocupa o centro das atenções, a lógica da política internacional continua presente — refletindo interesses estratégicos, disputas de poder e transformações da ordem global.
Mais do que um simples evento esportivo, a Copa do Mundo frequentemente funciona como retrato simbólico do cenário internacional de cada época. Em determinados momentos, o torneio refletiu rivalidades ideológicas; em outros, serviu como instrumento de propaganda estatal, projeção diplomática ou fortalecimento de identidades nacionais.
Em um sistema internacional cada vez mais marcado pela disputa de narrativas, pela comunicação global instantânea e pela crescente relevância do poder simbólico, o futebol tende a continuar ocupando papel importante nas estratégias de projeção internacional dos Estados. Mesmo em um ambiente formalmente esportivo, as dinâmicas da política internacional permanecem presentes — revelando que, muitas vezes, as disputas de poder também se manifestam fora dos espaços diplomáticos tradicionais.
Se a política internacional molda a realização das Copas, as Copas também ajudam a revelar, em cada época, o estado da política internacional.
Referências
[1] ESPN. A tournament unlike any other. Disponível em: https://www.espn.com/soccer/story/_/id/37364595/a-tournament-unlike-other. Acesso em: 21 maio 2026.
[2] MATSARIDIS, A. Sport at fascism’s disposal: the 1934 Football World Cup as a case of ideological propagation and political enforcement. Disponível em: https://www.wbc.poznan.pl/Content/239646/4_Studies_2012_3_117.pdf. Acesso em: 21 maio 2026.
[3] HOBSBAWM, Eric. Nações e Nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
[4] SCHARPF, Adam; GLÄSSEL, Christian. International Sports Events and Repression in Autocracies: Evidence from the 1978 FIFA World Cup. American Political Science Review, v. 117, n. 3, p. 909-926, 2023. Disponível em: https://ideas.repec.org/a/cup/apsrev/v117y2023i3p909-926_9.html. Acesso em: 21 maio 2026.
[5] NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.
[6] AFRICA IS A COUNTRY. Did Pelé, by playing a match in Nigeria, cause a ceasefire during the Biafran War? Disponível em: https://africasacountry.com/2015/10/did-pele-by-playing-a-match-in-nigeria-cause-a-ceasefire-during-the-biafran-war. Acesso em: 21 maio 2026.
[7] GANJI, Sarath K. How Qatar Became a World Leader in Sportswashing. Journal of Democracy, 2022. Disponível em: https://www.journalofdemocracy.org/how-qatar-became-a-world-leader-in-sportswashing/. Acesso em: 21 maio 2026.
[8] GRIX, Jonathan; BRANNAGAN, Paul Michael. “Of Mechanisms and Myths: Conceptualising States’ ‘Soft Power’ Strategies through Sports Mega-Events”. Diplomacy & Statecraft, v. 27, n. 2, 2016. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09592296.2016.1169791. Acesso em: 21 maio 2026.
[9] REUTERS. Iran players apply for U.S., Canada visas in Turkey ahead of World Cup. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/iran-players-apply-us-canada-visas-turkey-ahead-world-cup-2026-05-21/. Acesso em: 21 maio 2026.
[10] MURRAY, Stuart. Sports Diplomacy: Origins, Theory and Practice. London: Routledge, 2018.
[11] BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: A New Framework for Analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
[12] REUTERS. Iran says U.S. airport delay holds up World Cup delegation. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/iran-says-us-airport-delay-holds-up-world-cup-delegation-2026-06-24/. Acesso em: 25 jun. 2026.
