Ano VII, nº 128, 02 de julho de 2026
Por Ana Beatriz Santos, Bárbara Vorussi, Leticia Lelis, Natália Blaia, Guilherme Breyer, Pedro Henrique Cação e Sarah Gomes (Imagem: Ricardo Stuckert / PR)
A crescente fragmentação da economia internacional tem redefinido o multilateralismo e impulsionado novas estratégias comerciais. Entre disputas geopolíticas e a busca por maior autonomia, Brasil e União Europeia reposicionam suas agendas em um cenário global cada vez mais competitivo.
Introdução
Embora a crise do multilateralismo contemporâneo seja frequentemente vista como uma mera falha institucional ou um reflexo da “globalização complexa”, suas raízes são mais profundas. Elas são também o resultado das transformações que, ao longo de décadas, remodelaram o padrão de produção e dos fluxos do comércio global — um movimento impulsionado, em sua origem, pela própria expansão monopolista dos Estados Unidos. Essa dinâmica teve início com a expansão das multinacionais, que adotaram um modelo de produção fragmentado e internacionalizado para reduzir custos e ampliar suas margens de lucro. Essa fragmentação das cadeias globais de valor não apenas redirecionou os investimentos e as exportações mundialmente, mas também contribuiu para o aumento dos déficits comerciais nos países centrais. Além disso, esse cenário resultou, em especial aos Estados Unidos, na perda do controle dos termos de troca. O rearranjo produtivo, combinado com os choques geopolíticos das últimas décadas, tornou-se um dos principais impulsionadores do crescente protecionismo que testemunhamos hoje.
Diante dessa espiral, observa-se o retorno da retórica do Estado como agente financiador do desenvolvimento. Esse movimento é evidenciado na formulação de políticas neo-industriais — a exemplo do plano Made in Europe —, desenhadas pelo Norte Global para tentar conter a enxurrada de produtos da China, e na alteração do próprio consenso do Banco Mundial, que passou a reavaliar a implementação das políticas industriais. No entanto, essas estratégias muitas vezes seguem dois caminhos: (i) a tentativa de recuperar o vigor industrial do passado e (ii) o desenho de mecanismos para conter e enfrentar o avanço chinês. De um lado, a pretensão de restaurar o modelo das economias e a estabilidade do século XX mostra-se inviável, uma vez que o antigo pacto social e a estrutura produtiva daquele período já não existem. De outro, formular políticas públicas apenas com o intuito de rivalizar com o peso de Pequim esbarra em um limite prático: a eficácia do modelo chinês não depende só de dinheiro ou subsídios, mas de uma cultura institucional única, baseada na coordenação estatal sobre setores estratégicos.
Para além dos rearranjos políticos, o impasse do comércio global decorre de uma mudança sistêmica na demanda. O aumento da renda gerado pela indústria redirecionou o consumo para o setor de serviços que, diferentemente da manufatura, possui baixo crescimento de produtividade. Com a migração da mão de obra para esse setor, a produtividade mundial despencou. Como consequência, o mercado internacional de manufaturados não conseguia criar sua própria demanda, gerando uma sobra na oferta global. Esse baixo crescimento global resultou em um crescimento impulsionado pelo “roubo” da fatia de mercado de outros países. A disputa global entre Estados Unidos e China converteu-se, fundamentalmente, em uma guerra de preços, tecnologia e mercadorias pelas fatias de mercado globais. Sendo assim, gerar mais comércio não resolve a questão, visto que o sistema hierarquizado da divisão internacional do trabalho se desorganizou e o atual modelo de crescimento econômico estagnou. Portanto, o sistema multilateral é minado, pois as condições que o sustentam já não existem.
No entanto, essa disputa no comércio global não anula por completo as estratégias de negociação entre os países. Na verdade, ambos os atores não abrem mão do multilateralismo, mas passam a utilizar diversas formas de negociação para conciliar seus interesses. É nesse contexto que o Brasil busca espaço para consolidar sua retomada econômica e impulsionar suas agendas desenvolvimentistas; de forma pragmática, o país foca em garantir sua participação ativa e ampliar seu espaço de inserção na economia internacional. Por outro lado, alguns países, como a União Europeia, reagem a esse cenário de maneira defensiva, aproveitando sua influência regulatória para blindar setores estratégicos contra a concorrência chinesa e tentar preservar sua relevância comercial por meio de mecanismos alternativos, sem abandonar as instâncias multilaterais. A partir dessas observações, as seções seguintes analisam como as estratégias adotadas por Brasil e União Europeia nos ajudam a compreender os rumos e desafios do multilateralismo contemporâneo.
Brasil: diversificação de parceiros em busca de autonomia
No contexto de instabilidades tarifárias e busca por maior autonomia, o Brasil vem ampliando as suas relações comerciais em torno da negociação de novos acordos comerciais, como o Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Singapura, assinado em dezembro de 2023, o Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), composto por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, assinado em setembro de 2025, e o Acordo entre Mercosul e a União Europeia, assinado neste ano, que constrói uma das maiores zonas comerciais. Os acordos de livre-comércio entre os países correspondem a uma tentativa de ampliar as relações comerciais, com a desgravação tarifária e a facilitação do comércio entre as partes.
No caso brasileiro, esta diversificação dos parceiros comerciais auxilia a diminuir a sua dependência de mercados específicos (como, por exemplo, os dos Estados Unidos e da China), trazendo uma nova gama de parceiros estratégicos. Sob essa perspectiva, a aceleração das negociações do Acordo de Parceria Econômica (EPA) entre Mercosul e Japão ganha relevância e é um exemplo relevante a ser burilado.
O Acordo, que deve criar uma zona de livre comércio com cerca de 400 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 7 trilhões , prevê a ampliação do acesso a mercados para produtos agrícolas e a promoção de investimentos mútuos. Impulsionado pelo interesse em diversificar suas cadeias de suprimento de materiais essenciais e ampliar seus mercados de exportação, o Japão vê no bloco sul-americano uma fonte estratégica de minerais críticos, petróleo bruto e produtos agrícolas. O Mercosul, por sua vez, enxerga no Japão um mercado de alto valor agregado para seus produtos, além de um parceiro para investimentos e inovação. Essa aproximação, em um contexto de instabilidade internacional e guerra comercial reflete a estratégia de ambos os lados de diversificar parceiros econômicos e evitar os efeitos negativos de conflitos geopolíticos.
Além da ampliação do acesso a mercados, o acordo desperta interesse japonês por fortalecer cadeias de suprimento mais resilientes, especialmente em setores estratégicos ligados aos minerais críticos, insumos essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. Nesse contexto, o Brasil apresenta vantagens relevantes devido à disponibilidade desses recursos e ao potencial de integração em cadeias globais de valor. Conforme observa Uehara (2019), um Acordo de Parceria Econômica entre Mercosul e Japão pode ir além da ampliação do comércio existente, estimulando investimentos, cooperação tecnológica e novas oportunidades de integração produtiva entre as partes. Assim, a retomada das negociações entre Mercosul e Japão é um exemplo de movimentação recente entre atores internacionais diante das mudanças no cenário econômico e geopolítico internacional recente.
Recalculando a rota: a nova tática de autonomia estratégica e diversificação comercial do multilateralismo europeu
Para a União Europeia, como principal ator econômico do continente europeu, diversificar parceiros comerciais tornou-se mais do que uma estratégia de expansão comercial: é, sobretudo, uma forma de reduzir vulnerabilidades em meio à crescente rivalidade geopolítica. Não obstante o seu compromisso com o multilateralismo, o bloco passou a adotar uma postura cada vez mais pragmática diante do avanço da China, sobretudo em setores considerados estratégicos. Essa mudança decorre, em parte, do crescente desequilíbrio das relações comerciais entre o bloco e Pequim. Nesse contexto, o expressivo déficit comercial europeu com a China — cerca de € 360 bilhões em 2025, frente ao superávit de € 198 bilhões com os Estados Unidos (sem considerar serviços) — evidencia que a interdependência econômica passou a ser percebida como um elemento capaz de ampliar essas vulnerabilidades estratégicas. Mas mais do que isso: a perda de participação de mercado para a China tem sido o verdadeiro obstáculo para o crescimento europeu nos últimos anos.
Apesar do aumento das tensões com Pequim, a estratégia europeia não tem sido de desacoplamento completo. Isso já era visível dias antes da Cúpula do G7, quando o presidente francês Emmanuel Macron promoveu uma videoconferência com o vice-premier chinês Zhang Guoqing e os membros do grupo defendendo uma coordenação econômica “urgente” entre Europa, EUA e China para evitar ajustes “brutais”. Pequim reagiu com cautela: cancelou, no mesmo dia, dois diálogos de alto nível com a UE, em meio às novas medidas europeias de proteção comercial que podiam ser vistas como tentativa de preservar a ordem construída pelas economias desenvolvidas. Ainda assim, em 30 de junho, os dois lados realizaram a primeira reunião do Mecanismo de Consulta sobre Comércio e Investimento, criado para tratar de temas como equilíbrio comercial, controle de exportações, propriedade intelectual e reforma da OMC, em busca de ampliar a confiança mútua e administrar atritos comerciais entre as partes. O episódio confirma que a UE segue vendo a China como parceiro indispensável: sua estratégia não é de ruptura, mas de de-risking — reduzir seletivamente dependências excessivas sem abrir mão da interdependência econômica. Esse movimento sinaliza uma mudança mais ampla na política comercial europeia, que deixa de ser orientada apenas pela liberalização comercial e passa a incorporar, cada vez mais, objetivos de proteção de setores sensíveis e redução de riscos geopolíticos.
Uma estratégia de de-risking, porém, exige alternativas comerciais concretas — é onde entra a retomada do Acordo Mercosul-União Europeia, que vai além da simples ampliação de mercado. Para a UE, o acordo permite diversificar fornecedores de alimentos, energia e, sobretudo, minerais críticos, essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia — âmbito de maior rivalidade com a China —, além de reforçar sua presença na América do Sul em meio à disputa geoeconômica com o gigante asiático. No mesmo sentido, o bloco negocia acordos bilaterais com Tailândia, Filipinas, Índia e Emirados Árabes, finaliza parcerias com Indonésia e Austrália, e atualiza seu acordo com o México. Nota-se que mais do que expandir mercados, essa rede de parcerias busca fortalecer a resiliência das cadeias de suprimento e consolidar esse reposicionamento europeu em setores considerados essenciais em meio a um cenário de perda de relevância relativa do mercado europeu no comércio internacional.
A mesma lógica orientou as declarações da Cúpula do G7: mesmo reafirmando o compromisso com o multilateralismo, os documentos priorizam a diversificação de cadeias de suprimento, o fortalecimento da segurança econômica do bloco e a redução de dependências consideradas sensíveis — sobretudo em minerais críticos. A criação de mecanismos de coordenação entre os países do grupo e os incentivos à mineração, ao processamento e à reciclagem desses recursos mostram que a resiliência das cadeias globais passou a ser prioridade das economias avançadas.
Assim, a defesa do multilateralismo passa a conviver com políticas de autonomia estratégica, o que ajuda a explicar o tensionamento entre UE e China: ao mesmo tempo em que defende um sistema multilateral aberto, a UE adota medidas que visam sobretudo preservar sua própria posição diante do avanço econômico chinês — avanço que, é preciso reconhecer, também é questionado internacionalmente por práticas comerciais consideradas predatórias, como subsídios estatais massivos e excesso de capacidade produtiva. O alinhamento com os demais membros do G7 — apesar de divergências pontuais com os EUA — reforça que a política comercial europeia caminha na tensão entre multilateralismo e proteção de seus próprios interesses em uma economia cada vez mais multipolar.
Contudo, se a política comercial europeia parece caminhar na direção da diversificação e da ampliação de parcerias mundo afora em um movimento estratégico para expandir suas cadeias de suprimento, esse mesmo movimento também evidencia uma dimensão mais restritiva. Em um contexto no qual as discussões climáticas passaram a se entrelaçar cada vez mais com as agendas de comércio, competitividade e segurança econômica, a União Europeia passou a adotar instrumentos regulatórios que elevam as exigências para o acesso ao seu mercado.
É justamente nesse ponto que se concentra o debate internacional. Embora Bruxelas defenda que esses instrumentos são os necessários para fortalecer sua política climática, reduzir distorções de mercado e incentivar cadeias produtivas mais sustentáveis, a implementação dessas medidas tem gerado questionamentos entre os diversos parceiros comerciais, argumentando que as novas exigências elevam os custos de acesso ao mercado europeu e podem funcionar, na prática, como barreiras não tarifárias ao comércio — vide a restrição temporária imposta à entrada de produtos de origem animal vindos do Brasil, apesar do acordo de livre comércio com o Mercosul. A controvérsia, portanto, não reside em seus objetivos ambientais — amplamente reconhecidos —, mas no fato de que eles são implementados por meio de regras definidas unilateralmente pela União Europeia, que também contribuem para preservar a competitividade de sua indústria e redefinir as condições de acesso ao seu mercado.
Conclusão
Diante do exposto, nota-se que a crescente fragmentação da economia internacional tem transformado profundamente as estratégias comerciais de Brasil e de União Europeia. Embora partam de posições distintas na economia internacional, ambos convergem na busca por reduzir vulnerabilidades e ampliar sua autonomia estratégica por meio da diversificação de parceiros e do fortalecimento de suas cadeias de suprimento.
No caso brasileiro, essa estratégia manifesta-se sobretudo na aproximação com novos mercados e na ampliação da rede de acordos comerciais do Mercosul, que hoje reúne diferentes estágios de negociação: acordos já assinados com Singapura, União Europeia e EFTA; negociações em estágio avançado com Emirados Árabes Unidos e Canadá; e conversas em estágio inicial com Vietnã e Japão. Essa rede posiciona o país como um fornecedor estratégico e resiliente de alimentos, energia e, fundamentalmente, minerais críticos, ao mesmo tempo em que busca reduzir a dependência de parceiros tradicionais e ampliar oportunidades de comércio, investimento e integração produtiva.
Por outro lado, a União Europeia adota uma postura de de-risking, tentando mitigar seletivamente suas vulnerabilidades em relação à China e garantir insumos para sua transição tecnológica sem promover um rompimento abrupto. Contudo, a estratégia europeia revela uma clara contradição: ao mesmo tempo em que busca expandir sua rede de acordos globais para aumentar a resiliência de suas cadeias de suprimento (recorrendo inclusive ao Mercosul), o bloco impõe barreiras unilaterais restritivas disfarçadas de regulamentações climáticas, como o CBAM e o regulamento antidesmatamento (EUDR).
Dessa forma, observa-se que o multilateralismo não foi abandonado, mas adaptado e redesenhado às novas dinâmicas da economia política internacional. Em vez de priorizar exclusivamente a liberalização comercial, os Estados passaram a utilizar acordos, regulações e parcerias estratégicas como instrumentos para aumentar sua resiliência diante de um sistema internacional mais competitivo e menos previsível. A política comercial, portanto, deixa de ser apenas um mecanismo de promoção do comércio para tornar-se também um instrumento de segurança econômica, projeção de poder e posicionamento estratégico na ordem internacional contemporânea.
