Ano VII, nº 129, 16 de julho de 2026
Por Andressa Cunha, Nicolás Alejandro Malinovsky, Robson SIlva e Thalita Santos Bernaldo
Cuba tem sido duramente pressionada através de um dos principais instrumentos geopolíticos, a energia. Em um cenário no qual os EUA iniciam um projeto que inclui não somente recuperar o controle sobre a ilha e sua posição estratégica, mas também sob toda a América Latina.
Desde seu primeiro mandato, Donald Trump (2017–2021) tensiona um recrudescimento da política dos EUA para Cuba buscando romper com a estratégia de aproximação adotada durante a administração Obama (2009-2017). O restabelecimento de sanções econômicas, a reativação de restrições comerciais e financeiras e a reinserção de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo refletiram uma mudança mais ampla na política externa estadunidense, aprofundada com o retorno de Trump à Casa Branca em 2025. Em seu segundo mandato, sua nova Estratégia de Segurança Nacional (2025) reposicionou a América Latina e o Caribe como uma região prioritária para os interesses estratégicos do país, enfatizando a necessidade de proteger cadeias de suprimentos, garantir acesso a recursos estratégicos, fortalecer a base industrial e impedir o avanço da influência de potências rivais, particularmente China e Rússia. O acesso aos recursos de toda a América assume papel central em seus interesses geopolíticos com a crescente utilização da energia como instrumento de pressão política.
É neste contexto que deve ser compreendido o sequestro do chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, e a interrupção do fluxo de petróleo venezuelano para Cuba. Esta foi acompanhada por novas medidas destinadas a restringir o acesso da ilha a fornecedores alternativos, notadamente o México. Além das sanções diretas, Washington passou a exercer pressão diplomática e econômica sobre governos e empresas de terceiros países, buscando desestimular a comercialização de petróleo e derivados com Cuba por meio de ameaças de sanções, restrições financeiras e outras medidas coercitivas (veja a discussão sobre o embargo energético à Cuba em Diplomacia Energética, Carta Capital).
A vulnerabilidade cubana torna essa estratégia particularmente eficaz. A ilha depende historicamente de importações de petróleo para atender parcela significativa de sua demanda energética, inicialmente sustentadas pelo petróleo da URSS e, com a chegada de Chávez à presidência, pelo fornecimento da Venezuela. A matriz elétrica cubana é fortemente baseada em combustíveis fósseis e as dificuldades de financiamento externo, agravadas pelas sanções estadunidenses, restringem a diversificação de fornecedores, enquanto a produção local de petróleo permanece limitada.
Diante desse cenário, o presente artigo analisa a situação energética de Cuba sob três perspectivas: discutiremos a formação histórica da dependência cubana de importações de petróleo e os fatores que limitaram sua diversificação energética. Em seguida, serão discutidas as principais medidas adotadas pelos EUA durante esta segunda administração Trump para restringir o abastecimento energético da Ilha buscando sufocar o povo cubano, a despeito de qualquer legitimidade do ponto de vista do direito internacional, finalmente fomentando mobilizações para mudança de regime. Embora sejam limitadas as alternativas para Cuba dado a pressão dos EUA, discutem-se alternativas capazes de ampliar a soberania energética do país com vistas a reduzir sua vulnerabilidade nesse conturbado contexto de disputa hegemônica.
Cuba e a dependência de importações de petróleo
A energia é o calcanhar de aquiles do país caribenho. Sua matriz energética evoluiu com base em fatores históricos, políticos e econômicos que tornou o país extremamente dependente de fontes fósseis importadas, refletindo tanto as limitações estruturais da economia cubana, quanto as transformações de ordem internacional.
As matrizes energética e elétrica de Cuba dependem de 95% de petróleo e gás natural. Apesar de produzir petróleo e gás natural na costa norte e no Golfo do México, a produção doméstica atende apenas 36% da demanda nacional. Assim, dos 110.000 barris de petróleo consumidos por dia na ilha, aproximadamente 64% são importados. Além disso, o petróleo cubano possui alto teor de enxofre e só pode ser utilizado em termelétricas adaptadas, assim, derivados mais leves e combustíveis para o transporte continuam dependendo de importações.
O setor energético cubana se fortaleceu com a Revolução de 1959, quando o país integrou-se progressivamente à esfera de influência da União Soviética. Ao se beneficiar do petróleo soviético, o país expandiu sua infraestrutura energética baseada em termelétricas movidas a petróleo e derivados. Neste contexto, em 1980, a URSS forneceu assistência técnica e financeira para a construção da Usina Nuclear de Juraguá na província de Cienfuegos, o primeiro projeto nuclear cubano para o qual estavam previstos dois reatores.
No entanto, o projeto nuclear de Cuba foi interrompido com o colapso da URSS, em 1991, quando se iniciou uma crise energética sem precedentes, o chamado Período Especial, que evidenciou a dependência de fontes fósseis externas. Naquele momento, Cuba passou por frequentes e longas interrupções no fornecimento de eletricidade, causando retração econômica e problemas de segurança, saúde e abastecimento alimentar, agravados por furacões de grande dimensão, algo parecido com o início da crise atual.
O Período Especial expôs a insegurança energética cubana e fomentou projetos para diversificação das fontes. Nos anos 2000, o governo elaborou políticas para a modernização do sistema elétrico nacional, conhecidas como Revolução Energética. Apesar do nome e das iniciativas para ampliação gradual das fontes renováveis, não houveram mudanças estruturais que diminuíssem a dependência de Cuba em relação aos combustíveis fósseis, sobretudo externos. Dentre as medidas destas políticas, destacam-se a descentralização parcial da geração com instalação de geradores e a modernização das redes de transmissão, cujas principais fontes permaneceram sendo petróleo e diesel.
Em 2005 o governo Chaves da Venezuela criou Petrocaribe. Por meio desse programa Cuba junto a outros países caribenhos, passaram a receber petróleo venezuelano a preços preferenciais através de mecanismos de financiamento de longo prazo e compensação por exportação de serviços – no caso cubano, principalmente nas áreas de saúde e educação. Essa aliança permitiu que o arquipélago apresentasse relativa estabilidade energética ao mesmo tempo que perpetuou seu padrão de dependência de fósseis de um único fornecedor externo. Entretanto, com a crise política e econômica da Venezuela na década seguinte levou a uma nova crise energética, agravada pela infraestrutura envelhecida das usinas termelétricas, pela escassez de recursos para manutenção e pela dificuldade de importar combustíveis em volume suficiente.
A crise energética cubana se estende desde então, mas foi acirrada e evoluiu para uma crise humanitária após a operação militar de Trump à Venezuela, em janeiro deste ano, seu principal fornecedor de petróleo. A oferta energética de Cuba, voltada aos hidrocarbonetos, sente o entrave das restrições financeiras, tecnológicas e falta de investimento na infraestrutura de distribuição elétrica, o que causa déficit considerável frente à demanda doméstica.
As ações de Trump direcionadas ao setor energético de Cuba
Em janeiro de 2026 o governo do presidente Donald Trump implementou o início de um bloqueio energético sem precedentes contra Cuba, tendo o objetivo declarado de asfixiar economicamente o regime socialista e forçar a mudança de governo. As medidas impostas por Trump têm como objetivo interromper o fluxo de petróleo para a ilha.
Com a deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Cuba ficou, abruptamente, em uma posição vulnerável visto que o então aliado era seu principal fornecedor de petróleo. Em 29 de janeiro, Trump assinou a Ordem Executiva 14404 que autorizou sanções contra entidades estrangeiras, incluindo instituições financeiras, que realizassem transações significativas com o governo cubano ou setores chaves de sua economia. Embora, em 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos EUA tenha encerrado o pacote de tarifas – que fundamentava a Ordem Executiva – considerando-o autoritário, o desafio se mantém na esfera política e militar. Mesmo sem a possibilidade judicial de sanções, o envio ou comercialização de petróleo à Cuba. Neste sentido, em junho, a estatal cubana de petróleo, Unión Cuba-Petróleo (CUPET), foi incluída na lista de Nacionais Especialmente Designados (SDN) do Departamento do Tesouro dos EUA. Medida, anunciada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, que bloqueou todos os bens da CUPET sob jurisdição estadunidense e proibiu qualquer transação de seus cidadãos com a empresa. Mais importante, a ação serve como um alerta a empresas e bancos estrangeiros: qualquer um que faça negócios com a CUPET ou com outras entidades sancionadas também poderão sofrer retaliações dos EUA.
Os resultados práticos do bloqueio foram devastadores. Com o fornecimento de combustível virtualmente cortado, a rede elétrica cubana entrou em colapso em múltiplas ocasiões. Em julho de 2026, a ilha sofreu seu segundo apagão nacional em menos de uma semana, com a restauração sendo dificultada pela falta de combustível para os geradores de reserva. Em algumas regiões, os cortes de energia chegam a durar mais de 18 horas por dia, afetando hospitais, o abastecimento de água e a conservação de alimentos, agravando a já severa crise humanitária .
A Rússia que é historicamente aliada, mas também diminuiu drasticamente seus fornecimentos que vinha realizando desde a crise do setor petrolífera venezuelana. Na ocasião da visita do chanceler cubano Bruno Rodríguez, em fevereiro de 2026, o presidente russo Vladimir Putin declarou: “Sempre estivemos ao lado de Cuba em sua luta pela independência e pelo direito de seguir seu próprio caminho”, e, “é um período especial, com novas sanções. O senhor sabe o que pensamos a respeito. Não aceitamos nada parecido”. Assim, em março, o petroleiro russo Anatoly Kolodkin atracou em Cuba com mais de 700 mil barris de petróleo.
O México, também fornecedor de petróleo a Cuba, foi forçado a recuar sob intensa pressão dos EUA. Antes do bloqueio, o México, por meio da estatal Pemex, era um dos principais fornecedores de petróleo para Cuba, contudo, após a Ordem Executiva de Trump, a Pemex suspendeu os embarques de petróleo bruto.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, inicialmente afirmou que a suspensão foi uma decisão soberana da Pemex, e não resultado de pressão externa. No entanto, a empresa reconheceu em seu relatório à SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) que a ordem executiva de Trump criou incertezas que poderiam afetar suas operações. A Pemex possui um contrato de fornecimento à Cuba, mas a oposição ao governo Sheinbaum ecoa a pressão de Donald Trump também internamente, exemplificando o total desprezo destas forças políticas no cumprimento de compromissos assumidos no âmbito das regras de mercado quando não lhe são convenientes.
A realidade é que a ameaça de tarifas e sanções secundárias inviabilizou as transações diretas com o governo cubano. Para contornar o problema, Sheinbaum anunciou em junho que o México está buscando um novo mecanismo para retomar as exportações de combustível a Cuba por meio de empresas privadas, em vez da Pemex, para evitar a exposição direta a sanções. A eficácia desse plano, no entanto, ainda é incerta, pois empresas privadas também estariam sujeitas ao risco de sanções dos EUA.
Alternativas para garantir soberania energética
O principal desafio do governo cubano tem sido encontrar alternativas que permitam sustentar o abastecimento energético e preservar a produção nacional. Atualmente, cerca de 95% da geração de eletricidade de Cuba depende do petróleo e do gás natural. Embora China e União Europeia mantenham programas de cooperação para impulsionar o desenvolvimento das energias renováveis, no curto prazo não existem condições para reduzir significativamente a dependência dos combustíveis fósseis, mesmo que seja alcançada a meta de que as fontes renováveis representem 24% da matriz elétrica até 2030 (Schutte, Taffner, Alves Fernandes e Silva, 2026).
Cuba vem, desde 2014, desenvolvendo uma política nacional para o desenvolvimento das energias renováveis, contemplando investimentos em mais de 2.000 MW de energia solar fotovoltaica, cerca de 700 MW de energia eólica e mais de 600 MW de bioeletricidade associada à indústria açucareira e a outras fontes de biomassa. A isso somam-se programas de pequenas centrais hidrelétricas e biodigestores destinados principalmente ao setor suíno, que também contribuem para reduzir os impactos ambientais.
No contexto da crise desencadeada pelas agressões dos EUA, o governo cubano apresentou, em junho de 2026, um conjunto de 23 eixos de reformas econômicas, políticas e sociais, entre os quais o Eixo 6 é dedicado ao setor energético. Seu objetivo central é fortalecer a segurança energética do país por meio de uma combinação de abertura econômica, incentivos ao investimento e promoção da transição energética.
Entre as principais medidas destacam-se:
- Abertura do mercado de combustíveis, permitindo a participação de capital privado e estrangeiro na importação, comercialização e gestão da rede de postos de combustíveis;
- impulso à transição energética, promovendo investimentos em energias renováveis, infraestrutura para veículos elétricos e a instalação de sistemas fotovoltaicos na rede de postos de combustíveis para reduzir sua dependência do Sistema Elétrico Nacional;
- reformas financeiras e tributárias voltadas a facilitar o acesso ao financiamento, flexibilizar os mecanismos internacionais de pagamento para empresas estatais e introduzir incentivos fiscais para projetos de energias renováveis.
Essas iniciativas refletem a magnitude da crise enfrentada pela ilha. A intensificação do bloqueio e das sanções estadunidenses obriga o governo cubano a introduzir transformações relevantes em sua política econômica e energética, incorporando mecanismos que, até poucos anos atrás, teriam sido difíceis de imaginar dentro do modelo de gestão vigente.
A pressão internacional sobre Cuba continua a se aprofundar. Em 9 de julho, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, instou os EUA a pôr fim “imediatamente” ao bloqueio, às sanções e a toda forma de coerção, pressão ou ameaça militar contra a ilha.
No entanto, para além do cenário geopolítico e a diplomacia energética, Cuba precisa acelerar a diversificação de sua matriz energética. Em particular, torna-se estratégico expandir a geração fotovoltaica distribuída para residências, comércios e instituições públicas, reduzindo a dependência dos combustíveis importados e fortalecendo a resiliência do sistema elétrico. A China, inclusive, está ajudando nesse esforço, o que pode aliviar, no curto prazo, algumas situações críticas.
Essa estratégia não substitui a necessidade de pôr fim ao bloqueio, mas constitui uma condição indispensável para avançar rumo a uma maior soberania energética e reduzir a vulnerabilidade estrutural decorrente da dependência quase exclusiva dos hidrocarbonetos.
Conclusão
Cuba enfrenta uma situação de crise alavancada pelas agressões dos EUA, sob a liderança de Donald Trump. No entanto, a dependência excessiva de hidrocarbonetos não produzidos internamente pelo país não é um problema novo.
Embora foram lançadas diferentes iniciativas desde o início dos anos 2000 para reduzir esta dependência, o país não logrou êxito em superar a debilidade. Dificuldades econômicas agravadas pelas sanções, junto a dependência excessiva do fornecimento de petróleo de aliados, então fornecedores seguros – como a URSS até o início dos anos 1990 e a Venezuela até recentemente – realçam a importância da segurança energética como elemento de estabilidade.
Por outro lado, é notório a contradição entre a pretensão de acesso abundante à recursos energéticos do continente americano, pilar estratégico fundamental para a Segurança Nacional dos EUA, com o sufocamento energético promovido contra o povo cubano. Inevitável também não concluirmos lembrando que se a Ilha um dia foi farol de um futuro de esperança para quase a totalidade dos países latino-americanos, hoje se vê completamente isolada de um apoio consistente por parte destes mesmos países. Os motivos são variados e, na maioria das vezes, não se trata exclusivamente de “falta de vontade política”, mas de uma capacidade de resposta incomparavelmente inferior a qualquer ação mais dura por parte da potência hegemônica do norte do continente.
Agradecimentos ao professor Giorgio Romano Schutte
