Além das fronteiras: assimetrias globais e a politização das migrações em Ceuta 

Ano VII, nº 131, 13 de Agosto de 2026

Por Roberta Peres e Luís Felipe Aires. Magalhães* (Imagem: JON NAZCA / REUTERS) 

O enclave espanhol de Ceuta, incrustado no norte da África e banhado pelo Mediterrâneo, tornou-se um dos símbolos mais emblemáticos das assimetrias do mundo contemporâneo, e desde a última semana, protagonista de uma nova crise na Europa.  

No debate público europeu e internacional, a chegada de migrantes a essa fronteira física costuma ser retratada sob a lente da “crise migratória” ou como um evento pontual de emergência. As principais manchetes pela Europa sobre a migração de pessoas a partir do Marrocos para Ceuta reforçam a visão das migrações – e de migrantes – como um inimigo a ser enfrentado e combatido: El País: “Máxima alerta em Ceuta após a travessia descontrolada de milhares de pessoas a partir de Marrocos”. Le Monde (França): “Ceuta no centro de uma nova crise migratória e diplomática na fronteira sul da Europa”. BBC News: “Milhares chegam a Ceuta a nadar e a pé enquanto a Espanha reforça a segurança na fronteira com Marrocos”. No Brasil, seguimos pela mesma cartilha: termos como “problema generalizado” (O Estado de São Paulo) e “crise migratória” (Folha de São Paulo) dão o tom da interpretação desse processo social que não é novo. Ao contrário. 

A primeira resposta para um evento como o que assistimos em Ceuta é a busca por uma explicação, como se se tratasse de um acontecimento isolado. Mas no campo migratório não há respostas simples. As migrações são estruturais, como nos ensinou o professor Fausto Britto. Em sendo estruturais, seu entendimento deve dialogar com diferentes dimensões que, em geral e contrariando uma leitura mais ingênua, estão mais relacionadas aos espaços de origem que de destino. 

Desconstruindo o mito da “Causa Única”

Não existe uma resposta simples ou um único fator explicativo para o fluxo migratório em direção a Ceuta. O que se assiste hoje em Ceuta não se explica de forma única e direta como uma resposta a mudanças na legislação espanhola (medida humanitária para fomentar a regularização de pessoas em situação irregular no território) nem à manifestação do Tribunal Judicial da Espanha, chamando a atenção a graves violações de direitos humanos de pessoas que tentam travessias por terra ou mar. 

As trajetórias de quem tenta ultrapassar as cercas de arame farpado ou nadar pelas águas de Tarajal são compostas por uma complexa teia de motivações e causas estruturais. O primeiro, de ordem socioeconômica, envolve a grave violação de direitos humanos em espaços de origem marcados por desemprego, pobreza, fome e desigualdades persistentes. Um segundo conjunto de fatores está relacionado a instabilidades políticas e conflitos. Dinâmicas geopolíticas constituem um terceiro conjunto de fatores relevantes para o entendimento desse processo, com destaque para a utilização estratégica da gestão das fronteiras – e das próprias migrações – por atores regionais e globais em disputas diplomáticas. Não se trata, portanto, de um evento imprevisível, muito menos isolado. É resultado de décadas de exploração, transformações econômicas e geopolíticas globais. 

A crise está na origem, não no destino

Ao rotular a chegada de pessoas a Ceuta como uma “crise” ou “ameaça à segurança”, os discursos políticos e midiáticos acabam por tornar opaco o olhar para as migrações. A crise ocorre muito antes do primeiro passo da jornada. Não reside, portanto, na travessia das fronteiras da Europa, mas nas condições estruturais de privação, violência e violação de direitos humanos de toda a ordem. Soma-se a este cenário as dimensões de gênero, raça e nacionalidade, que aprofundam a reação violência do debate público e das medidas de governança das migrações. Neste sentido, não são as migrações que causam as crises, como o jornalismo propaga, mas sim as crises que criam e recriam as migrações, como a boa teoria nos adverte. 

Também é importante ressaltar que não estamos observando um fluxo migratório que envolve pessoas saindo do Marrocos para a Espanha. Essa relação direta mascara que as migrações são um processo social em que os espaços são percorridos de forma estratégica. São pessoas migrantes de diferentes territórios africanos, percorrendo longas jornadas entre “destinos possíveis”, para alcançar “espaços desejados”. São trajetórias migratórias em curso há meses, há anos, em busca de um futuro e de acesso a direitos. 

A politização das migrações internacionais

O mesmo Fausto Britto nos ensina que as migrações internacionais estão em franco processo de politização. Isto nos exige ainda mais atenção teórica na análise de episódios como o das pessoas migrantes de Marrocos em Ceuta. Desde a constituição, em 2000, do Espaço de Schengen, a União Européia tem financiado países do Norte da África, como Marrocos e Líbia, e países da periferia europeia, como Turquia, para a instalação de postos de controle de migrantes. A produção de fronteiras externas nestes países os caracteriza enquanto países – tampão, termo utilizado pela professora Rosana Baeninger, fundamental referência sobre o tema, também para se referir à política migratória brasileira. Esta financeirização da gestão migratória tem produzido relações de dependência nas quais os migrantes são utilizados como moeda de troca: flexibilização pontual do controle, caos nas fronteiras, mais recursos para o controle. Aqui, a politização atende muito claramente a objetivos econômicos.  

Enquanto isso, os demais países da União Europeia aproveitam o momento para questionar os tímidos mas importantes avanços do governo espanhol em matéria de regularização de migrantes: o Processo Extraordinário de Regularização, ao qual já aderiram mais de 1,2 milhões de migrantes em busca de documentação, rapidamente foi colocado como “causador da crise”. Em menos de 24 horas, o governo conservador da Itália já suspendeu a livre circulação com a Espanha. 

Não há como dissociar estas tensões de um contexto geopolítico mais amplo: no final de março deste ano, a Espanha fechou o seu espaço aéreo para a circulação de aviões militares norte-americanos em operação de ataques contra o Irã. Em reação, o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou cortar relações com a Espanha e em abril, Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos e membro do Conselho de Segurança dos EUA, afirmou que Ceuta e Melila, outra cidade espanhola em território marroquino, não seriam legitimamente da Espanha. Estas posturas encorajaram Michael Rubin, analista da think tank norte-americana “American Enterprise Institute”, a incentivar um levante civil marroquino rumo a essas cidades. Obviamente, as falas, articuladas, não provém de uma preocupação decolonial, legítima, mas sim de pretensões imperialistas que buscam enfraquecer a Espanha e a oposição aos ataques ao Irã, no que beneficia, inegavelmente, os próprios interesses de Israel. A massividade dos deslocamentos rumo a Ceuta, a rapidez e facilidade com os postos de controle marroquinos foram abertos e os inúmeros caminhões, ônibus e barcos mobilizados até a fronteira sugerem uma articulação que não só vai além como destoa complementamente do modos operandi das redes de tráfico e aliciamento de pessoas, de modo que não se descarta, por ora, a própria ingerência de outros países nesta operação. 

O papel das redes sociais diante dos fluxos migratórios 

Os estudos migratórios têm mobilizado, em diferentes perspectivas, o conceito de redes como fator relevante para a interpretação de processos sociais. Isso porque a circulação de informações sobre o trajeto, sobre o destino, e auxílios para a jornada sustentam e retroalimentam fluxos migratórios. 

Esse conceito é redimensionado com o advento das redes sociais digitais ao mesmo tempo em que endurecem as fronteiras nos espaços centrais das migrações: Estados Unidos e Europa. Com rotas mais perigosas e mais longas, as informações que circulam em tempo real através das redes sociais orientam as estratégias de pessoas migrantes. “Brechas” em fronteiras vigiadas, muradas, cercadas e armadas circulam com rapidez e a resposta é imediata. Foi o que se observou nas caravanas de Honduras, nas migrações haitianas no Brasil e na chegada de pessoas a partir do Marrocos em Ceuta. 

Neste debate, vale também lembrar que os algoritmos que regem essas redes sociais não são neutros nem transparentes, como nos ensina o professor Sérgio Amadeu. Ao contrário. Obedecem a interesses econômicos e políticos, moldando comportamentos e ações em diferentes escalas. 

 

As migrações não cessam. Não há muros, cercas ou vigília que interrompam processos migratórios. Eles são ressignificados, reorientados, mudam os espaços – vide as migrações Sul-Sul – se reconstroem estratégias e trajetórias. Com a ascensão da extrema direita no mundo e seu discurso que criminaliza pessoas migrantes, que as elegem como a causa de todos os males, é preciso compreender as crises na origem. 

No caso específico da Europa, há que se encarar seu passado colonialista, imperialista, e encarar as migrações a partir de uma perspectiva humanitária. Há que se ampliar o debate em torno da construção de políticas e dispositivos de governança que garantam a dignidade de todas as pessoas e que enfrentem as crises que movem as migrações: as persistentes desigualdades que violam direitos humanos especialmente em territórios de origem. E há de se reconhecer que estas desigualdades não são naturais, mas sim injustiças produzidas e atualizadas. São, neste sentido, uma forma de violência. Na travessia entre o Marrocos e Ceuta já se perderam, pelo menos 72 vidas. Na fronteira entre o México e os Estados Unidos, desde 2014, se estima que mais de 10 mil pessoas morreram ou desapareceram. No Mediterrâneo, no mesmo período, em torno de 30 mil pessoas morreram ou despareceram (OIM, Missing Migrantes Project). Tudo isso enquanto as fronteiras são mais vigiadas e mais cercas e muros são construídos.  

Desdobramentos 

As rápidas e duras reações da União Europeia ao episódio contém, inegavelmente, motivações que vão além do processo migratório em Ceuta e que manifestam, de forma mais ampla, uma oposição de diversos países da UE à postura mais progressista da Espanha em matéria de documentação de imigrantes, controle de redes sociais e oposição aos Estados Unidos em seus ataques contra o Irã. 

O governo conservador da Itália, por exemplo, interrompeu seu livre trânsito com a Espanha e encabeça agora uma campanha no âmbito da UE que tem potencial de ir além da questão migratória mas que se traduz, neste imediato, em facilitação dos procedimentos de deportação de imigrantes. Não por outra razão, Pedro Sánchez queixa-se de falta de solidariedade de seus pares, evidenciando dificuldades crescentes de cooperação entre os países da União Europeia. No centro das divergências, está a manutenção da política de financiamento de países norte-africanos para a instalação de postos de controle migratório, que resulta na prática em uma terceirização do controle de corpos que viola o direito a migrar. 

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Roberta Peres é coordenadora do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB), especialista em migrações. Socióloga (1999-2004), Mestre (2004-2006) e Doutora (2006-2009) em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas, com bolsa do Institute de Recherche pour le Développement (IRD – França) e CNPq. Pós-Doutorado em Demografia (FAPESP). Docente da Universidade Federal do ABC, na área de Políticas Públicas, sub-área Planejamento, Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas. Coordenadora do Bacharelado em Ciências e Humanidades.

Luis Felipe A. Magalhães é Professor do Bacharelado em Políticas Públicas (BPP) da Universidade Federal do ABC (UFABC) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais (PCHS) da UFABC. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (2009), mestrado e doutorado em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas. Realizou Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP). Atualmente, é coordenador-adjunto do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO – UNICAMP), pesquisador do Observatório das Metrópoles de São Paulo (PUC-SP), pesquisador do Observatório da Emigração Brasileira (NEPO / UNICAMP) e co-coordenador do GT Migração Internacional do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB). 

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