PEB nas Urnas: Ronaldo Caiado (PSD)

Por Gabriel Castro Soares, Isabella Werneck Zanon e Jéssica Regina Guerra de Souza (Imagem: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Sob a roupagem técnica de uma diplomacia subordinada à segurança econômica, a plataforma de Ronaldo Caiado oscila entre o pragmatismo desenvolvimentista e hierarquias geopolíticas tácitas, marcadas pela aproximação pró-Ocidente e pela omissão calculada do eixo sino-climático. 

Introdução

O plano de governo do candidato à presidência da República Ronaldo Ramos Caiado, do Partido Social Democrático (PSD), tem como enfoque o ajuste fiscal, o endurecimento da segurança pública com o uso de tecnologia e a melhoria dos serviços básicos. Sobre a política externa brasileira (PEB) – discutida no Tema 24 –, o plano se divide em 16 propostas com uma abordagem predominantemente econômica, visando uma diplomacia alinhada ao setor produtivo para ampliar mercados, atrair investimentos, assegurar acesso a tecnologias críticas e elevar a complexidade tecnológica das exportações. 

Em seu diagnóstico sobre o cenário internacional e o papel do Brasil, o plano destaca as recentes reconfigurações na ordem internacional, nas quais comércio, investimentos e tecnologia transformaram-se em instrumentos de poder e de segurança nacional. Diante disso, o Brasil teria oportunidades para exercer influência por meio da cooperação e da capacidade de construir consensos em negociações globais, porém preservando a autonomia decisória nacionais, o que dialoga com traços recorrentes da tradição diplomática brasileira. 

À primeira vista, essa ambição não parece se afastar dessa tradição, apenas acrescenta um viés econômico à atuação externa. Contudo, a leitura das propostas específicas revela tensões entre esse discurso de continuidade e a hierarquia efetivamente atribuída a certos parceiros e temas, os quais serão discutidos a seguir.

Diplomacia econômica como eixo central

Proposta 1: Política externa como política de Estado

O plano propõe uma estratégia nacional de inserção internacional aprovada em conselho de governo e discutida com o Congresso, o setor produtivo, a academia e a sociedade civil, com prioridades capazes de sobreviver à alternância de governos. Preserva-se a tradição da PEB e o objetivo declarado é impedir que a atuação externa do país seja capturada pela polarização doméstica, problemática esta que existe e é recente, visto que, nos últimos ciclos, a política externa virou terreno de disputa identitária interna, com perda de previsibilidade para parceiros e para o próprio setor exportador. A referência expressa à tradição da PEB opera como sinalização institucional ao Itamaraty: a chancelaria segue tratada como burocracia técnica, dotada de memória e de doutrina próprias.

Porém, o plano não diz por qual instrumento (decreto, lei de diretrizes, resolução ou documento programático sem força vinculante) essa estratégia se tornaria efetivamente uma política de Estado. Também não se identifica qual é o “conselho de governo” encarregado da aprovação, e isso não é detalhe menor, já que o ordenamento brasileiro não dispõe hoje de órgão de coordenação estratégica de política externa com essa atribuição consolidada. O papel do Congresso fica indefinido entre consulta, deliberação e referendo. Nada se diz sobre periodicidade de revisão, nem sobre articulação com o Conselho de Defesa Nacional ou com as instâncias de inteligência e segurança. 

A lacuna, portanto, é de conteúdo. “Política de Estado” é, tecnicamente, produto de desenho institucional: resulta de mecanismos que encarecem a reversão de uma decisão pelo governo seguinte. Sem dispositivo de vinculação, a proposta 1 oferece autocontenção voluntária do Executivo, e autocontenção voluntária se desfaz por ato do Executivo seguinte. O objetivo declarado é legítimo. O instrumento que o produziria está ausente, e é o instrumento que separa uma política de Estado de uma intenção de governo.

Proposta 2: Diplomacia a serviço do desenvolvimento e da competitividade 

O plano propõe integrar a política externa à estratégia nacional de desenvolvimento, com articulação permanente entre o Itamaraty e as políticas econômica, industrial, tecnológica, de infraestrutura, energia, agricultura, educação e segurança. A rede diplomática atuaria mais perto do setor produtivo, identificando oportunidades, removendo barreiras e apoiando a internacionalização de empresas brasileiras. Continuidade, de novo. A diplomacia econômica é vocação antiga do Itamaraty, e a aproximação entre rede diplomática e setor exportador atravessou governos de orientações muito distintas. A novidade está na posição hierárquica que ela ocupa aqui: de função setorial passa a princípio organizador do capítulo inteiro.

Falta definir a hierarquia de coordenação. A proposta estabelece a função da diplomacia sem dizer quem coordena quem. Num arranjo em que política comercial, industrial, sanitária, ambiental e tecnológica têm titulares distintos, coordenação é questão de autoridade formal, e boa vontade entre pastas não a substitui. O próprio documento reconhece o problema em outro ponto: no Tema 7, afirma que ciência, meio ambiente, infraestrutura, indústria e comércio exterior não operam sob estratégia comum. Esse diagnóstico de fragmentação interministerial fica sem solução no Tema 24, e sem instância de arbitragem definida a “articulação permanente” da proposta 2 tende a reproduzi-lo. Nada se diz sobre a governança da Camex, sobre a posição da Secretaria de Comércio Exterior, sobre o papel da Casa Civil como instância arbitral. A omissão que me parece mais grave, porém, é outra: a relação entre chancelaria e diplomacia presidencial. A presidencialização da condução externa está entre as variáveis mais determinantes da política externa brasileira contemporânea. Um plano que promete despolarizar a inserção internacional sem definir o lugar do presidente nessa condução deixa aberto justamente o canal por onde a politização historicamente se produz.

Proposta 6: Ásia, África e Indo-Pacífico

O plano propõe ampliar de forma deliberada a presença brasileira em mercados emergentes de elevado potencial, com prioridade para Ásia, África e Indo-Pacífico, o que exigiria reforço da rede de postos, acordos setoriais, abertura sanitária, promoção comercial e presença empresarial permanente. O Tema 7 reforça a diretriz ao prever diversificação de exportações para Sudeste Asiático, Oriente Médio e África, com mais adidos agrícolas e ampliação da rede de acordos sanitários e fitossanitários.

Dois pontos que merecem atenção: “Indo-Pacífico” não é o termo tradicional da diplomacia brasileira, que trabalhou historicamente com “Ásia-Pacífico”, e importa uma categoria de matriz estratégica anglo-americana e japonesa, cunhada em contexto de contenção. O plano não esclarece se a emprega em sentido geoeconômico, como recorte de mercados dinâmicos, ou se incorpora alguma de suas conotações securitárias, a indefinição tem duas leituras que produzem políticas diferentes. O segundo ponto é o caráter dos instrumentos listados, todos operacionais e técnicos: postos, adidos, certificação sanitária, promoção comercial. Isso dá realismo à proposta, já que descreve o que efetivamente abre mercados, ainda que sem meta quantificada ou cronograma. 

Proposta 9: Segurança econômica, resiliência de cadeias e minerais estratégicos 

O plano propõe mapear dependências críticas, diversificar fornecedores e proteger infraestrutura e dados estratégicos. Estabelece que as parcerias em minerais estratégicos incorporarão processamento, pesquisa, formação e indústria em território nacional, e afirma que o Brasil não escolherá um único bloco nem aceitará permanecer fornecedor de matéria-prima. O Tema 17 reforça a diretriz com uma Estratégia Nacional de Minerais Críticos e Materiais Avançados, sob governança interministerial que inclui expressamente o Itamaraty, e declara que a política não fechará o país ao investimento estrangeiro, negociando acesso a recursos em troca de valor agregado, tecnologia, qualificação e fornecedores locais.

É a proposta de maior densidade conceitual do Tema 24. Incorpora ao léxico da PEB a categoria de segurança econômica, que migrou na última década das agendas de segurança nacional para as de política comercial, e formula algo que se pode descrever como acesso negociado a recursos: contrapartidas de conteúdo tecnológico e local como condição de entrada de capital estrangeiro nas cadeias minerais. Em substância, barganha estrutural apoiada na dotação de recursos do país.

Como essa barganha se operacionaliza, o plano não diz. Faltam instrumentos, não tem nenhuma menção a restrições à exportação de minério bruto, a requisitos de conteúdo local, a participação estatal, a poder de compra governamental, a tributação diferenciada ou a condicionalidade de financiamento público. Falta também qualquer referência ao mecanismo de triagem de investimento estrangeiro em infraestrutura crítica, hoje adotado por praticamente todas as economias que operam agendas de segurança econômica, e que é o dispositivo padrão para proteger exatamente a “infraestrutura e dados estratégicos” que a proposta menciona. Há ainda uma tensão latente entre a proposta 9 e as propostas 4 e 11. Exigências de conteúdo local e de transferência tecnológica convivem mal com liberalização comercial, com as disciplinas de investimento típicas de acordos de nova geração e com os compromissos regulatórios associados à aproximação com a OCDE prevista na proposta 14. O plano não indica como arbitraria esse conflito, e essa é uma das questões que qualquer discussão séria da proposta precisa encarar.

Proposta 10: A dimensão financeira da política externa

O plano propõe coordenar a atuação diplomática com as autoridades econômicas e financeiras para fortalecer a resiliência da arquitetura financeira e de pagamentos do país, diversificar fontes de financiamento ao desenvolvimento e ampliar a participação brasileira nos debates sobre governança do sistema financeiro global. A proposta traduz em ação o diagnóstico feito no mesmo capítulo sobre sanções econômicas, restrições de acesso a sistemas de pagamento e disputas em torno das moedas de referência. É, em substância, agenda de cobertura de risco financeiro-geopolítico. Sua simples enunciação já constitui inovação relevante, porque a dimensão financeira é historicamente subdesenvolvida no repertório programático da política externa brasileira, que trata comércio e investimento com muito mais detalhe do que pagamentos, moeda e arquitetura financeira.

E é a proposta menos concreta do bloco inteiro. Nenhuma palavra sobre arranjos de pagamento em moedas locais, interoperabilidade internacional da infraestrutura de pagamentos brasileira, Novo Banco de Desenvolvimento ou bancos regionais, reforma de cotas do Fundo Monetário Internacional, posição brasileira sobre a governança de Bretton Woods, crédito à exportação e seguro de crédito, ou coordenação com o Banco Central. Tem um objetivo mas zero instrumentação. Minha leitura é que foi proposital, a agenda de diversificação de meios de pagamento e de redução de exposição ao dólar é politicamente sensível na relação bilateral com os Estados Unidos e tensiona a aproximação com a OCDE prometida na proposta 14. Formular em termos genéricos preserva margem. O preço dessa escolha aparece em dois planos: a análise fica sem base para avaliar exequibilidade, e o eleitor ou o empresário que lê o documento não descobre o que se pretende fazer, mas fica impressionado com a ideia.

Proposta 11: Diplomacia econômica com metas e atração de investimento produtivo

O plano propõe atribuir a embaixadas e representações metas de exportação, investimento, tecnologia e abertura de mercados, com avaliação periódica, integrando Itamaraty, ApexBrasil, Camex, bancos e agências, com apoio especial a pequenas e médias empresas e carteira nacional de projetos de investimento. É a proposta mais executável do conjunto, e a única que descreve ao mesmo tempo mecanismo, atores, beneficiário prioritário e instrumento. Conversa com os indicadores de acompanhamento do Tema 24: exportações por destino e produto, número de empresas exportadoras (com atenção às pequenas e médias), diversificação medida por índices de concentração, investimento estrangeiro produtivo associado a pesquisa, fornecedores locais e exportação, e acordos comerciais concluídos, implementados e efetivamente utilizados pelas empresas. O último indicador é tecnicamente sofisticado. Ele desloca a métrica da assinatura de acordos para a taxa de aproveitamento de preferências, que é o problema real da política comercial brasileira, e sugere que quem formulou o capítulo conhecia a literatura sobre subutilização de acordos preferenciais.

Mas falta algo mais concreto, nenhuma meta numérica, nenhuma linha de base, nenhum cronograma, nenhuma consequência administrativa atrelada ao desempenho, nenhuma indicação de recursos orçamentários e de pessoal para a expansão da rede de postos que a proposta 6 pressupõe. Vale registrar também que gestão por desempenho no serviço exterior carrega riscos conhecidos. Ela pode distorcer incentivos em favor de metas mensuráveis de curto prazo, sacrificando funções não quantificáveis como negociação multilateral, assistência consular e análise política. E pode imputar a um posto resultados determinados por variáveis fora de seu controle, entre elas câmbio, ciclo de preços de commodities e política comercial de terceiros.

Mercosul e integração regional

O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é um dos principais destaques do Tema 24, sendo o protagonista de três delas (proposta 4, 5 e 12). Na proposta 4, por exemplo, o foco recai sobre o acordo recém firmado com a União Europeia (UE), visando consolidar e ampliar a integração de modo a permitir maior acesso de empresas e produtos brasileiros aos mercados mais dinâmicos do mundo mediante coordenação de políticas  econômica, industrial, tecnológica e de inovação. Segundo registros da Agência Senado e da Agência Brasil, o acordo foi assinado em janeiro de 2026 e já passou por todos os processos legais necessários para sua implementação comercial no Brasil. Argentina, Uruguai e Paraguai também já o ratificaram, enquanto o Parlamento Europeu pediu avaliação jurídica ao Tribunal de Justiça da UE e o Acordo Geral, relativo à cooperação política e à governança ambiental, ainda aguarda ratificação individual de cada Estado-membro europeu.

O que o plano propõe, portanto, é a implementação e aproveitamento de algo já existente. A ressalva final da proposta, ao subordinar a abertura à coordenação com política industrial e tecnológica, sinaliza liberalização gradualista e condicionada, o que a afasta de plataformas liberais mais ortodoxas, mas o restante do enunciado (“…ampliação da rede de acordos”) não nomeia nem os agentes em potencial nem os efeitos distributivos setoriais domésticos da liberalização, matéria que, na experiência brasileira, condiciona diretamente a formação de maiorias parlamentares em qualquer agenda comercial.

A proposta 5, por sua vez, afirma que o futuro do Mercosul não pode continuar sendo tratado como tema interditado e que o Brasil não pode seguir fugindo de uma discussão que se tornou inevitável – formulação deliberadamente assertiva e que coloca a revisão do bloco na mesa, rompendo com o tratamento protocolar que o Mercosul costuma receber nesse tipo de documento. O conteúdo propositivo que vem a seguir, no entanto, fica aquém da abertura que promete: reduzir barreiras internas, harmonizar procedimentos e reconhecer certificações é agenda de completar o mercado comum que o bloco já se propôs a ser, não de resolver a disputa que o texto acabou de declarar inevitável, dado que flexibilizar a União Aduaneira e autorizar Estados-Partes a negociar acordos extrabloco individualmente compõem o núcleo real do impasse, e sobre isso o plano não se posiciona. Além disso, nenhum Estado-Parte aparece uma única vez em todo o documento, tampouco ALADI, CELAC, Prosul, Parlasul, o sistema de solução de controvérsias do bloco, FOCEM ou o status da Venezuela. A ambiguidade preserva margem negociadora, e anunciar de antemão a posição brasileira numa disputa intrabloco teria custo diplomático real. Contudo, o efeito colateral é que a proposta abre um debate que ela mesma declara urgente e se retira dele ao mesmo tempo.

Já a proposta 12 foca na integração sul-americana a níveis físicos, energéticos e econômicos, priorizando corredores rodoviários, ferroviários, hidroviários e portuários, interconexões elétricas, gás e telecomunicações a fim de conectar as regiões brasileiras ao Pacífico e aos mercados vizinhos. Esta é uma concepção funcionalista de integração, que conecta primeiro o que é físico e comercial e deixa a institucionalidade para depois. 

A cláusula de viabilidade e governança aferidas caso a caso funciona como salvaguarda explícita contra o modelo de financiamento de grandes obras regionais sem avaliação de retorno, e responde tacitamente aos passivos fiscais e reputacionais que esse tipo de política acumulou na experiência brasileira recente. Novamente, falta tudo o que converteria orientação em projeto: nenhum corredor, rota ou obra recebe nome; nenhuma fonte de financiamento aparece, nem BNDES, nem bancos multilaterais, nem CAF ou FONPLATA; nada sobre instrumentos de garantia, coordenação regulatória transfronteiriça ou consulta a populações afetadas. A conexão ao Pacífico, objetivo mais concreto enunciado, vem sem traçado, sem parceiro e sem horizonte temporal. Sem dinheiro definido e sem contraparte nomeada, a proposta 12 fica na condição de declaração de prioridade.

Segurança econômica em um contexto geopolítico turbulento

O plano de governo do candidato não assume um posicionamento econômico tão explícito; torna-se necessário certo pragmatismo e distanciamento para, enfim, delimitar que a doutrina de política externa defendida poderia ser sintetizada como um Nacional-Desenvolvimentismo Pragmático com ancoragem verde e certo enfoque na resiliência da inserção nacional nas cadeias econômicas globais. 

Diferentemente das visões liberais clássicas, que defendem uma integração aberta e alinhamentos automáticos, o plano evidencia que o sistema internacional passa por uma fragmentação geoeconômica estrutural, que é marcada pela ruptura das cadeias de valor, guerras comerciais e uma corrida tecnológica indissociável do protecionismo regulatório. Diante de todas essas questões que emergem, a proposta do candidato visa, sobretudo, o fortalecimento da segurança econômica brasileira a partir da sobreposição das vantagens comparativas estruturais da economia nacional (o agronegócio e uma matriz energética limpa) a uma capacitação tecno-industrial autônoma, entendida em seu plano de governo como a habilidade soberana de um país de criar e dominar tecnologias críticas para não depender de potências externas. A indução estatal regulatória e financeira é, portanto, o principal instrumento que torna isso viável, com o Estado utilizando crédito de longo prazo, mitigação de riscos, encomendas públicas e regras estratégicas para direcionar o investimento privado. 

Quatro eixos interligados de segurança econômica operacionalizam essa estratégia:

  • Autonomia estratégica: busca a mitigação de chokepoints geopolíticos a partir da redução de dependências, assumidas como críticas, de insumos externos por meio da exploração de minerais estratégicos voltados à transição energética, do avanço na pesquisa e desenvolvimento de bioinsumos e da execução do Plano Nacional de Fertilizantes.
  • Política comercial e antialinhamento: prevenção do risco de concentração mediante o estímulo à diversificação de mercados — com enfoque na Ásia, Oriente Médio e África — e o combate ao “protecionismo disfarçado”, visando a salvaguardas ESG contra o dumping e ao estímulo à validação do “Selo Brasil Sustentável” como ferramenta de rastreabilidade e garantia de conformidade via CAR.
  • Soberania tecnológica e digital: reposicionamento do país como um hub verde para atração de data centers; associado ao fortalecimento da cibersegurança, o Brasil pode se projetar via uma diplomacia tecnológica multilateral voltada à exportação de infraestruturas públicas digitais (como o Gov.br e o PIX), evitando seu aprisionamento na rivalidade tecno-hegemônica global e seus ruídos decorrentes de guerras comerciais.
  • Resiliência logística e territorial: ampara-se na conclusão de corredores multimodais, no desenvolvimento da indústria de defesa de uso dual e na autonomia aeroespacial em Alcântara, garantindo redundância operacional e redução do Custo Brasil para sustentar o poder nacional frente a choques externos.

Multilateralismo, OCDE e ausências

O plano de governo apresenta uma proposta específica visando o multilateralismo (proposta 14), novamente dando continuidade ao histórico de atuação da PEB. Há, porém, um destaque: a retomada da aproximação com a OCDE. Este enfoque em especial não é observado nos demais mecanismos multilaterais presentes na proposta (ONU, OMC, BRICS e G20).

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), voltada à cooperação econômica entre membros e ao alinhamento de políticas públicas a padrões internacionais, iniciou relações com o Brasil em 1994, mesmo o país não sendo um Estado membro. Em 2017, o Brasil formalizou seu interesse na acessão (adesão) a membro pleno da OCDE e, em 2022, teve esse pedido aceito, dando início a um longo processo de reformas na política doméstica brasileira para cumprir com os requisitos de integração à Organização. Esse processo foi interrompido na terceira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva e o plano de governo de Caiado planeja retomá-la. 

Bortoletto e Gonçalves (2024) argumentam que há pontos positivos na acessão à Organização como, a nível internacional, uma melhoria no comércio internacional com os demais Estados membros e em investimentos internacionais, e, a nível doméstico, a realização de reformas legislativas em áreas como tributação, educação e meio ambiente. Em contrapartida, o elevado custo para a acessão é tido como um dos maiores malefícios do processo, bem como custo político e ideológico relacionado ao papel brasileiro frente aos países emergentes. Esse segundo se daria em razão do alinhamento que os países-membros têm com os Estados Unidos e com a Europa, o que poderia atrapalhar a imagem do Brasil como líder dos países emergentes, especialmente na diplomacia multilateral exercida pelo país e no status brasileiro no cenário internacional.

Por mais que haja aspectos positivos da aproximação brasileira com a OCDE e seus membros, a ênfase na Organização em detrimento dos demais mecanismos multilaterais contradiz o princípio anunciado no sumário executivo do Tema 24, o qual alega que o Brasil buscará relações simultâneas com todos os polos, sem alinhamentos automáticos ou hierarquias por “afinidades ideológicas”. Na proposta 14, descreve-se uma “participação ativa” por parte da delegação brasileira na ONU, OMC, BRICS e G20, mas sem maiores detalhamentos. Ou seja, dar tratamento privilegiado à reaproximação com a OCDE – cuja composição é majoritariamente ocidental – sem conceder tratamento equivalente ao BRICS, por exemplo, é, na prática, estabelecer uma hierarquia, mesmo que o texto não a reconheça como tal. Nesse sentido, o detrimento da imagem do Brasil como liderança entre países emergentes é justamente o preço dessa hierarquia não declarada. O plano trata a aproximação com a OCDE como continuidade técnica de um processo interrompido, não como escolha com implicações geopolíticas, e, ao evitar essa discussão, deixa de enfrentar a tensão entre o discurso de autonomia que o próprio documento adota e a prioridade que efetivamente atribui a um bloco específico.

Já outro aspecto preocupante do plano é a omissão da China, que desde 2009 é o principal parceiro comercial do país e o principal destino das exportações do agronegócio. O texto fala em fortalecer as relações com “Estados Unidos, União Europeia, América Latina, África, Ásia e Oriente Médio” (proposta 3), tratando a Ásia como um bloco homogêneo. Ao mesmo tempo, o documento possui uma ampla seção detalhando os planos governamentais para o agronegócio (Tema 7), mas também sem mencionar propostas de estreitamento da relação comercial com o principal país comprador de matérias-primas brasileiras. A única exceção é uma citação nominal na proposta 14 do tema Energia, no qual elenca-se a necessidade de ampliação de parcerias em prol da obtenção de novos mercados de energia limpa, combustíveis de baixa emissão e produtos industriais associados. 

Entretanto, essa omissão não implica necessariamente em um afastamento do Brasil com a China, dado que, se esse fosse o caso, o plano também indicaria um afastamento do Brasil do BRICS. O documento, porém, não permanece neutro em relação à China, adotando uma postura reticente ao mencionar na proposta 9 a necessidade do Brasil “mapear dependências críticas” e se recusar a exercer o papel de “mero fornecedor de matérias-primas”, categorias essas associadas ao desequilíbrio comercial brasileiro em relação ao seu principal parceiro asiático.

Uma explicação para essa ausência parece se encontrar na economia, não na geopolítica, pois nomear a China, de qualquer forma que fosse, teria um custo político, principalmente com a base agroexportadora que sustenta boa parte da candidatura de Caiado. Por outro lado, evitar o nome também evita um desgaste com os Estados Unidos, parceiro citado repetidamente ao longo do Tema 24 e cuja gramática de segurança econômica (proposta 9) o plano parece adotar sem reservas. De qualquer forma, o plano não atribui à China o papel de parceiro nem de rival e essa indefinição é, ela mesma, uma escolha retórica que integra a concepção de inserção internacional proposta, na medida em que evita comprometer o documento inteiro, não apenas o Tema 24, com qualquer posicionamento sobre a relação bilateral mais relevante da pauta comercial brasileira.

Por fim, outra ausência relevante nas propostas de política exterior e inserção internacional brasileiras é a falta de uma diplomacia ambiental e climática o que gera mais uma contradição, visto que o sumário executivo apontou a “abundância de recursos naturais estratégicos, matriz energética relativamente limpa e biodiversidade única” como vantagens comparativas brasileiras na nova ordem internacional, mas que não foram convertidas em ações diplomáticas a serem exploradas no plano de governo. Essa omissão parece motivada pela mesma lógica de não comprometer a pauta agroexportadora, ainda que pudesse ser explorada em chaves econômicas, como mercados de carbono ou financiamento climático internacional.

Considerações finais

Em sintese, a proposta de política externa delineada pelo plano de governo de Ronaldo Caida projeta uma ambiciosa inflexão geoeconômica ao subordinar a diplomacia quase que integralmente às condições de manutenção e fomento da produtividade, inovação e proteção das cadeias de valor do setor pordutivo doméstico. Ao desenhar as diretrizes da inserção internacional brasielira sob a gramática da segurança econômica e autonomia estratégica, a proposta acerta no diagnóstico das pressões protecionistas e fraturas no sistema internacional, porém, incorre em falhas estrutuais que fragilizam sua aplicabilidade. Existe uma tenção entre o discurso formalizado de despolitização e universilismo e as opções veladas do texto – Ex: patentes na priorização pró-ocidental em deterimento do BRICS, na omissão retórica e evasiva com a China e na subordinação da agenda climatica aos interesse do agronegócio -, tais condições revelam que a busca por autonomia convive com escolhas geopolítcas entendidas como assimetrias e não declaradas. 

* Gabriel de Castro Soares é pesquisador e monitor do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB), concentrando suas análises em política externa brasileira, relações Brasil–Oriente Médio e na inserção político-econômica do Sul Global. Graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas e Bacharel em Ciências e Humanidades pela UFABC, também é coordenador do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI-UFABC) e pesquisador bolsista do CEFAVELA-UFABC.

**Isabella Werneck Zanon é mestranda em Relações Internacionais pela UFABC e bacharel em Ciências e Humanidades e Relações Internacionais, concluindo bacharelado em Políticas Públicas pela mesma instituição. Especialista em Oriente Médio e Norte da África (MENA), nos recortes de Memória, Epistemicídio e Direitos Humanos. Coordenadora do Centro de Estudos Árabes e Islamicos CEAI-UFABC, pesquisadora no Grupo de Estudos de Direitos Humanos e Relações Internacionais e Colaboradora Discente da Cátedra Sérgio Vieira de Mello.

***Jéssica Regina Guerra de Souza é mestranda em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). É bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pesquisadora do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB) e do Observatório de Relaciones Internacionales (ORI). Atua nas linhas de pesquisa: Economia Política Internacional, Política Externa e Desenvolvimento Econômico.

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