Por Paulo Vitor Nascimento dos Santo e Pedro Henrique Thuler de Oliveira (Imagem: wgrassi/Instagram)
Entre oportunidades comerciais e lacunas estratégicas, que projeto de Brasil emerge da PEB de Wilson Grassi? O plano de governo reduz a política externa a uma agenda essencialmente comercial, centrada em reciprocidade, abertura de mercados e defesa dos interesses exportadores brasileiros. A proposta combina pragmatismo e alguns elementos desenvolvimentistas, mas deixa em segundo plano temas estratégicos da inserção internacional contemporânea.
Introdução
A corrida eleitoral brasileira em 2026 possui treze candidatos de diferentes posições no espectro ideológico representando os seus respectivos partidos políticos. No entanto, este artigo como parte do projeto “PEB nas Urnas 2026” está comprometido com a análise das propostas do Plano de Governo relacionadas à inserção internacional do Brasil da chapa de candidatos Wilson Grassi e Suêd Haidar (Democrata),
O presente artigo analisa as propostas para política externa brasileira (PEB) e de inserção internacional contidas no plano de governo “Brasil em Primeiro Lugar”, da chapa do partido Democrata (35), composta pelos candidatos Wilson Grassi e Suêd Haidar para as eleições presidenciais de 2026. A pesquisa insere-se no âmbito do projeto “Política Externa Brasileira nas Urnas 2026”, do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).
O estudo examina as diretrizes internacionais propostas no plano de governo. Constata-se que a proposta de política externa omite uma doutrina diplomática complexa e orienta-se por um pragmatismo comercial estrito e liberal de mercado. Suas diretrizes prioritárias centram-se na diplomacia e defesa sanitária — pautadas pela formação do candidato na medicina veterinária —, na exigência de reciprocidade a barreiras comerciais, em contrapartidas tecnológicas para investimentos estrangeiros e na cooperação operacional de fronteiras. Conclui-se que o projeto externo da chapa é simplificado e focado em ganhos comerciais imediatos, refletindo as fragilidades políticas e estruturais do partido para projetar uma inserção internacional mais elaborada
De acordo com registros oficiais da Justiça Eleitoral mantidos no sistema Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a chapa presidencial do partido Democrata para as eleições de 2026 é composta por Wilson Grassi Júnior e Suêd Haidar Nogueira.
Candidato ao cargo de Presidente da República, Wilson Grassi Júnior nasceu em São Paulo (SP) em 13 de março de 1970. É brasileiro nato, divorciado e atua profissionalmente como médico-veterinário. Sua trajetória na política partidária teve início em 2006, quando disputou uma vaga de deputado estadual em São Paulo pelo Partido da Frente Liberal (PFL). Anos mais tarde, concorreu a deputado federal pelo Partido Verde (PV) em 2022 e a vereador da capital paulista pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) em 2024. Em 2026, teve seu registro de candidatura formalizado junto ao TSE para disputar o Palácio do Planalto.
Compondo a chapa na condição de candidata a Vice-Presidente, Suêd Haidar Nogueira é natural de São Luís Gonzaga do Maranhão (MA), onde nasceu em 30 de novembro de 1958. Empresária brasileira nata, destaca-se como fundadora e presidente nacional do partido Democrata — agremiação fundada sob a denominação de Partido da Mulher Brasileira (PMB). Com histórico político concentrado no estado do Rio de Janeiro, disputou os cargos de deputada federal em 2018, prefeita da capital fluminense em 2020, senadora em 2022 e vereadora carioca em 2024. Em 2026, teve sua candidatura à vice-presidência oficializada pelo TSE.
A PEB no Plano de Governo do Partido Democrata 35: “O Brasil em Primeiro Lugar”
O plano de governo “Brasil em Primeiro Lugar” traz, no tocante à PEB, uma série de tópicos limitada, cinco ao todo, com um adendo referente à cooperação internacional fronteiriça no combate ao crime organizado. Esses tópicos, que serão apresentados com maior profundidade adiante, representam a totalidade do tema internacional dentro do documento, que introduz a seção declarando que temas acerca de doutrina e diplomacia devem ser pautados juntamente do Itamaraty, após a posse e em vista do cenário internacional específico daquele momento, portanto não seria cabível tratar dessas questões dentro do plano de governo.
A partir disso, o plano apresenta os supracitados tópicos: Rejeitar acordos que não abrem mercados para produtos brasileiros; reciprocidade à barreiras sanitárias ou tarifárias impostas à exportações brasileiras; investimento estrangeiro em setores estratégicos precisam vir acompanhados de capacitação, transferência tecnológica, e criação de emprego; posicionamento em foros internacionais definidos por conveniência, e não por alinhamento automático; diplomacia comercial e sanitária, com presença permanente de técnicos nos países importadores de produtos brasileiros. Ademais, tratando diretamente da questão da segurança e combate ao crime organizado, o plano de governo menciona cooperação internacional acerca de policiamento fronteiriço, também de forma bastante sucinta.
O primeiro tópico, “Acordo comercial que não abre mercado para produto brasileiro não é assinado. Acesso se troca por acesso”, exemplifica de forma bem clara a voga principal da política internacional do candidato, pelo menos na maneira que esta se manifesta dentro do plano de governo, que é uma noção vaga e reduzida de pragmatismo comercial, isto é, toda a negociação comercial deve favorecer as mercadorias brasileiras, que seria, em primeira análise, a praxe mais básica de uma negociação comercial livre de constrangimentos, que ao mesmo tempo que é passível de críticas por sua simplicidade.
O segundo tópico, “Barreira sanitária ou tarifária imposta ao nosso produto é respondida com reciprocidade, pelos instrumentos que o direito internacional já oferece, e não com nota de repúdio” Neste ponto, o candidato apresenta uma postura de negociação que, ainda pragmática, apresenta uma doutrina mais combativa, indiretamente expondo também uma confiança nos sistemas regulatórios internacionais como adequados para a resolução de controvérsias comerciais, e uma defesa do princípio da reciprocidade, que é um mecanismo comercial e diplomático tradicional da diplomacia brasileira.
O terceiro tópico, “Investimento estrangeiro em setor estratégico vem acompanhado de contrapartida em conteúdo nacional, transferência de tecnologia e emprego no Brasil”, já demonstra um conteúdo desenvolvimentista de política externa, incentivando o intercâmbio tecnológico e a geração de emprego como chancela de investimentos externos em setores estratégicos. O plano de governo não apresenta a sua definição de setor estratégico, mas esse tópico apresenta uma preocupação com o Brasil superar a condição de primário exportador através de uma via comercial.
O quarto tópico, “Posição brasileira em foro multilateral definida caso a caso, por conveniência nacional declarada, e não por alinhamento automático”, novamente joga luz a uma condução da PEB totalmente pautada pelo pragmatismo. De forma simples, o candidato reforça a centralidade do interesse nacional em seu plano, sem maiores detalhes.
Por fim, o quinto e último tópico “Diplomacia sanitária e comercial a serviço do produtor brasileiro, com presença técnica permanente onde estão os compradores da nossa carne, do nosso grão e do nosso minério”. Possivelmente o ponto mais objetivo em sua exequibilidade, o candidato estipula a presença permanente de técnicos e especialistas brasileiros nos países compradores dos nossos produtos, como um representante dos interesses comerciais do Brasil, criando uma base maior de transferência, negociação, e possível contestação de barreiras comerciais impostas. É uma medida interessante que exigiria um grau considerável de investimento e capacitação no curto prazo, mas com a possibilidade de mitigar perdas consideráveis em médio e longo prazo.
Adicionalmente, como mencionado, o projeto também cita muito brevemente um ponto de cooperação fronteiriça acerca do combate ao crime organizado, em um trecho intitulado “fronteira com presença permanente”, a sessão relevante na íntegra é “Cooperação operacional com os países vizinhos, porque fronteira se fecha dos dois lados ou não se fecha.”. De forma congruente com o resto das propostas para a PEB, a cooperação com países vizinhos para o controle da fronteira é uma noção que não peca pela razoabilidade nem pela exequibilidade, mas sim pela simplicidade com a qual é apresentada.
Conclusão
Em vista do exposto, que abrange a totalidade da política externa exposta no plano de governo de Wilson Grassi, observa-se um projeto marcado pela economia de detalhes e pela simplicidade, esquivando-se de questões referentes à doutrina e diplomacia para dar ênfase a pontos específicos de atuação comercial, com um adendo referente a cooperação fronteiriça no combate ao crime organizado. Os pontos em si, de maneira resumida, denotam as preocupações centrais do candidato, elencadas aqui como: reciprocidade em negociações de abertura de mercado, reciprocidade à imposição de barreiras tarifárias e sanitárias aos produtos brasileiros, intercâmbio tecnológico e geração de emprego a partir de investimento externo, ruptura com lógicas de alinhamento automático em foros multilaterais, em prol de uma condução pragmática; e por fim, a já mencionada cooperação fronteiriça. Essas preocupações são, de maneira geral, coerentes com a ideia de “Brasil em Primeiro Lugar” através de uma lógica comercial, e a centralidade do interesse brasileiro dentro das negociações é aparente.
Por um viés crítico, a simplicidade do projeto e a centralização de uma abordagem comercial, distanciam-se de questões de grande relevância para o cenário internacional contemporâneo e para o caso brasileiro em particular. O texto não trata com profundidade acerca da negociação de minerais críticos e terras raras, não trata da posição internacional do Brasil como um grande polo de negociação ambiental em frente à crise climática, não situa o país no contexto global de transição energética, e por fim, não discorre sobre questões de soberania nacional e autodeterminação. Ou seja, mesmo através de uma visão comercial, pontos específicos e de grande relevância para a atuação comercial do Brasil se encontram ausentes.
Em suma, o plano de governo privilegia uma visão de Brasil específicamente comercial, e pauta a inserção internacional através de suas capacidades de negociação e articulação econômica, com a notável ausência de temas caros a esses processos, e sem se debruçar acerca de características específicas da economia brasileira.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais: Veterinário Wilson Grassi (2024). Brasília, DF: TSE, 2024. Disponível em: <https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/sp/2045202024/2500021 71011/202/71072> Acesso em: 14 de setembro de 2026.
_______. Tribunal Superior Eleitoral. Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais: Suêd Haidar (2020). Brasília, DF: TSE, 2020. Disponível em:
<https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/2030402020/190000 946166/2020/60011> Acesso em: 14 de setembro de 2026.
GRASSI, Wilson; HAIDAR, Suêd. Brasil em primeiro lugar: plano de governo 2027-2030. Brasília, DF: Partido Democrata, 2026. 58 p. Disponível em:
<https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Plano_gov_Wilson_Grassi_2026.pdf> Acesso em: 31 de agosto de 2026.
