Por Michel Adriano Szurkalo e Scarlett Rodrigues da Cunha (Imagem: reprodução / redes sociais)
A soberania nacional aparece como eixo de uma plataforma que conecta política externa, controle dos recursos estratégicos e defesa dos direitos dos trabalhadores. Ao confrontar privatizações, dependência financeira e ingerência externa, o PCO amplia o debate sobre os limites da autonomia brasileira diante das estruturas econômicas internacionais. O ponto decisivo está nos meios: transformar soberania política em capacidade tecnológica, produtiva e diplomática exige enfrentar as cadeias globais de valor e construir instrumentos concretos de inserção internacional.
Introdução
O Partido da Causa Operária, fundado em 1995 traz como candidato à presidência, Rui Costa Pimenta e tem como premissa básica o fortalecimento dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, tecendo sua proposta em torno de agendas que dialogam diretamente com a proteção social, direitos trabalhistas e valorização da força trabalhadora do Brasil como elemento chave da soberania nacional. Ao todo, são 15 pontos centrais do “Programa de luta” como é autodenominado a proposta de governo, dos quais foram selecionados os que dialogam diretamente com a Política Externa Brasileira, envolvendo acordos de cooperação, tratados internacionais, impactos socioeconômicos e territoriais e principalmente, relações entre países, instituições e empresas.
Propostas do programa de governo atreladas à política externa brasileira:
Cobrança de dívidas das empresas nacionais/internacionais
O Partido da Causa Operária (PCO) traz em seu “programa de luta” perspectivas que tocam na soberania econômica do Brasil, afetando consequentemente as relações diplomáticas do país. A discussão sobre as propostas de governo incluem a “cobrança de dívidas das grandes empresas, se necessário com a tomada do controle dessas empresas pelo Estado”, bem como a “taxação dos impostos de grandes fortunas a fim de garantir recursos necessários para aposentadorias e pensões”, como mencionado no documento. Essa discussão ultrapassa as fronteiras do debate econômico interno, para além de uma questão contábil e de arrecadação, a gestão da dívida ativa na União – coordenada pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), envolve segurança jurídica e atratividade internacional. Dentre os setores que mais possuem dívidas ativas com a União encontram-se a indústria (mais de R$236 bilhões de reais), seguida do setor de comércio (mais de R$163,5 bilhões de reais) e pelo sistema financeiro com R$89,3 bilhões de reais. O topo desse “ranking” de CNPJs devedores é composto por empresas nacionais, estatais e empresas em processos de falência. Apesar do Brasil executar a cobrança no território nacional, por meio de subsidiárias locais, o estoque de dívidas de empresas multinacionais está presente, especialmente no setor de tecnologia e telecomunicações – dois dos principais pontos de ataque do programa proposto pelo PCO.
Para além da cobrança das dívidas, o programa traz como foco a taxação de grandes fortunas, medida que, analisada sob as lentes de investidores externos, pode ser entendida como uma ameaça à segurança jurídica ou até mesmo um risco de investimento no país. A política externa brasileira atua intensamente na diplomacia econômica, em especial, para atrair recursos e capital para o país e um ambiente entendido como “hostil” com altas cobranças, enrijecimento do processo fiscal e taxações podem implicar na redução de investimentos externos em empresas brasileiras. O debate sobre a taxação dos super ricos no Brasil e o combate à suposta “evasão das multinacionais” do território brasileiro está em pauta nas agendas de discussões políticas globais, como no próprio Fórum do G-20, liderada pelo Brasil. Portanto, propostas de governo alinhadas à essa perspectiva se mostram contemporâneas e dialogam diretamente com temas que são fundamentais para a política externa.
Privatizações e “reestatização” do petróleo brasileiro
No que toca ao eixo de privatizações, o programa de governo trata essa perspectiva como “destruição da economia nacional” trazendo em suas propostas a retomada do controle e do poder de decisão sobre o patrimônio brasileiro diante da expressiva investida internacional, segundo o próprio documento. E o próprio texto explicita essa dimensão ao propor o “cancelamento das privatizações e “reestatização” das empresas como Eletrobrás, Vale, instituições bancárias, de telecomunicações e outras.” Para além, traz como proposta a nacionalização do petróleo brasileiro e das reservas minerais, construindo uma empresa totalmente estatal para controlar a exploração dos minérios, comandada pelos trabalhadores. O objetivo é que as riquezas extraídas do país sejam utilizadas à favor do próprio povo.
Ao mesmo tempo, a implementação dessas propostas produziria alguns custos e desafios, no que toca a política externa brasileira. A reversão das privatizações e nacionalização de ativos, podem reverberar em indenizações, quebra de contratos e eventuais mecanismos internacionais de proteção a investimentos, gerando tensões diplomáticas e econômicas entre países. No que toca à produção e ao preço dos combustíveis no Brasil, o programa de governo propõe tornar a Petrobrás 100% estatal e reduzir em 50% o preço dos combustíveis, além de dar um “fim na política de paridade com o dólar”. Isso ganha uma dimensão significativa quando falamos de um contexto marcado por conflitos, como a guerra no Oriente Médio. Guerras e tensões envolvendo produtores e rotas de transporte geram impactos na oferta, na volatilidade dos preços, o que recai na inflação, taxa de câmbio e demais custos, até mesmo em países que não estejam envolvidos diretamente no conflito. Para o Brasil, que possui produção relevante e significativa, ter o controle público da cadeia do petróleo pode ser entendida como uma estratégia de segurança e autonomia energética, reduzindo os impactos das oscilações do mercado internacional, ampliando a capacidade do Estado de utilizar a sua própria riqueza para objetivos nacionais. Contudo, não há como ter uma atuação isolada do mercado internacional, uma vez que o petróleo é uma commodity global que possui alta liquidez.
Ainda que a Petrobrás se torne totalmente estatal, ainda estará sujeita ao preço internacional e uma política que desvincule essa referência pode produzir efeitos sobre a capacidade de investimento da Petrobrás, nas contas públicas e até mesmo no comércio exterior. Isso porque embora o Brasil seja autossuficiente na produção do petróleo bruto (cru), o país possui déficit estrutural de refino, o que requer importar em grande quantidade derivados como o diesel. Logo, se o Brasil não operar com paridade de preço internacional, pode gerar prejuízos financeiros para empresas internacionais que vendem seus produtos no Brasil.
O desafio aqui é valorizar a abundância produzida no território nacional alcançando a autonomia energética, sem perder a capacidade de investimento, articulação e inserção internacional o que impacta diretamente na sustentabilidade econômica. E aqui, os esforços não são meramente econômicos, são geopolíticos também, fazendo movimentos e articulações multilaterais, como fortalecer o comércio bilateral entre os BRICS.
Ainda sobre privatizações e soberania nacional, o Brasil se coloca no centro da discussão sobre as terras raras – que são territórios compostos essenciais para a modernização da indústria tecnológica, militar, de energia e outros setores, o que implica no controle não só de produção, mas geopolítico. O Brasil detém 23% das reservas globais, ficando atrás apenas da China e isso atrai atenção e debates intensos sobre refino local e acordos de exportação. Contudo, a própria Constituição Federal de 1988 traz que as jazidas pertencem à União e ter uma empresa totalmente estatal responsável por essa gestão poderia controlar melhor o ritmo de extração e direcionar investimentos para pesquisas e até mesmo acordos internacionais. Entretanto, para isso, é fundamental que haja capital disponível, tecnologia, especialização e infraestrutura necessárias para transformar esses recursos naturais em poder econômico.
- Dívida externa e Banco central
O programa propõe a “redução imediata da taxa de juros, a estatização do sistema financeiro, o fim da independência do Banco Central e o cancelamento das dívidas externa e interna com bancos e grandes credores” sob a justificativa de que a dívida pública e os juros transfeririam recursos públicos para o sistema financeiro, prejudicando áreas como saúde, educação e moradia – que conforme mencionado o plano de governo “bancos roubam todos os dias o povo e ficam com quase 50% dos recursos arrecadados”. Aqui, o dado apresentado no programa está distorcido, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida. Isso porque confunde o dinheiro dos impostos com a rolagem da dívida, que é quando o governo pega novos empréstimos para pagar os antigos. Além disso, em tese, o dinheiro não vai apenas para os grandes bancos, mas também retorna para fundos de previdência e investimentos de cidadãos comuns.
A proposta poderia ampliar a capacidade do Estado de direcionar a política monetária e financeira para objetivos de investimento, emprego e financiamento de políticas públicas, gerando autonomia financeira e reduzindo a dependência de grandes credores, uma vez que aponta que essa dependência limita a capacidade de decisão do Estado. Contudo, pensar o fim da independência do Banco Central alteraria significativamente o arranjo institucional da política monetária e exigiria definir novos mecanismos de controle e tomada de decisão. Já o cancelamento unilateral de dívidas, especialmente, as dívidas externas, poderia gerar disputas jurídicas e financeiras, além de afetar a relação do Brasil com credores e instituições financeiras, dificultando o acesso à recursos no futuro. Além disso, seria necessário administrar possíveis efeitos sobre inflação, câmbio, crédito e confiança dos agentes econômicos nacionais e internacionais e o programa do PCO não detalha como seria realizada essas articulações.
- Soberania da amazônia
O programa traz que “a ingerência estrangeira da Amazônia deve ser veemente combatida: é preciso que o próprio país defenda seu território e o desenvolva”. Aqui, o programa é incisivo em não internacionalizar a Amazônia e, como mencionado no próprio documento, “combater o imperialismo na região”. Essa é uma das discussões mais significativas quando falamos de política externa, porque falar da Amazônia é falar de estratégia geopolítica, de valorização do saber ancestral dos povos originários, das comunidades tradicionais, dos povos das florestas, dos rios e dos quilombos e de suas tecnologias sociais, de preservação e, em especial, de direitos humanos. A agenda ultrapassa a dimensão territorial, uma vez que esbarra em cooperação internacional e governança ambiental.
Situar essa discussão na PEB ajuda a dimensionar o que o programa deixa em aberto. A literatura distingue três vertentes de autonomia na política externa brasileira: pela distância, marcante no período militar (1964–1985), quando o país evitava engajar-se em regimes internacionais para proteger sua soberania; pela participação, associada ao governo Fernando Henrique Cardoso (1995–2002), com adesão às normas internacionais para influenciá-las “de dentro para fora”; e pela diversificação, a partir de 2003, com o fortalecimento de alianças Sul-Sul. Nesse percurso, a inserção internacional do Brasil se construiu, em boa medida, na governança ambiental: o país sediou a Rio–92, que originou as convenções de Clima, Desertificação e Biodiversidade, e a Rio+20 (2012), ponto de partida dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; em 2015, teve papel decisivo na Agenda 2030 e no Acordo de Paris.
Para Audo Araújo Faleiro a interlocução com a sociedade civil se intensificou desde a Rio–92, com mecanismos de diálogo em torno da Rio+20, dos ODS e da agenda climática. Mais recentemente, a soberania vem sendo exercida dentro dos próprios regimes: a Cúpula da OTCA — a única organização internacional vinculada a um bioma, sediada em Brasília —, a iniciativa “Unidos por Nossas Florestas”, que reúne 18 países de florestas tropicais úmidas, a reativação do Fundo Amazônia e a nova NDC para 2035 apresentada na COP 29.
Entretanto, no programa essa parte é pouco desenvolvida, prevalecendo apenas a perspectiva de combate à ingerência estrangeira. Isto é, o programa enquadra a Amazônia como uma prioridade de soberania territorial, mas não traz elementos de como irá trabalhar a cooperação internacional, a pauta do clima e do meio ambiente e a promoção do desenvolvimento sustentável, que perpassa acordos e tratados internacionais, como o Acordo de Paris, a Convenção 169 da OIT, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, o Acordo de Escazú, entre outros. Conclui-se, então, que trazer essa agenda para o programa de governo demonstra compromisso com o território e dá visibilidade; contudo, falta materialização e conexão com ferramentas já existentes — e, no plano da inserção internacional, falta explicitar como a defesa da soberania se combina com os regimes de cooperação e governança ambiental que hoje estruturam a PEB.
- Plano de governo demonstra apoio e defesa aos países vizinhos e países “que se levantam contra o imperialismo”
O programa apresenta um avanço em um tema muito importante: a liderança brasileira na região diante dos interesses hegemônicos regionais dos EUA. Ao defender Cuba, Nicarágua, Venezuela e Bolívia contra “a ingerência dos EUA e da OEA”, como mencionado no próprio documento, o PCO toca em um ponto estratégico da crise hegemônica internacional dos EUA e dialoga diretamente com o papel de protagonista regional e internacional do Brasil — que não é uma leitura conjuntural deste plano de governo, mas um traço estrutural e de longa duração da política externa brasileira, reconhecido pela literatura especializada.
Andrés Malamud demonstra que a diplomacia brasileira há muito concebe a liderança regional como trampolim para o reconhecimento global, ainda que registre o descompasso entre o desempenho regional e o global, sintetizado na fórmula “líder sem seguidores”. Maria Regina Soares de Lima e Mônica Hirst descrevem o país como potência intermediária e regional que preserva uma voz independente e busca ampliar os papéis que exerce na política regional e nas instituições multilaterais; e, Detlef Nolte e Luis L. Schenoni situam a origem desse projeto na primeira cúpula de presidentes sul-americanos, em 2000, que abriu caminho para a criação da UNASUR em 2008 e serviu de plataforma para a atuação de Lula na Rodada de Doha, no sistema ONU e na fundação do BRICS. É nesse repertório consolidado — que Gabriel Cepaluni e Tullo Vigevani nomeiam como autonomia pela diversificação, isto é, a construção de alianças Sul-Sul voltadas a ampliar o poder de barganha do país frente às potências desenvolvidas — que o PCO se inscreve ao reivindicar protagonismo regional, e não em uma novidade isolada.
O plano de governo do PCO finaliza o seu documento com uma espécie de manifesto, intitulado “Abaixo a política de conciliação, por um governo dos trabalhadores”, no qual manifesta apoio e defesa dos povos que se “levantam em todo mundo contra o imperialismo” como a Palestina e o Irã. Aqui é possível explicitar de que maneira essas posições se conectam com a inserção internacional brasileira: elas se alinham ao eixo do universalismo e da autonomia pela diversificação, que orienta o país a atuar em agendas normalmente reservadas às grandes potências e a não restringir sua diplomacia ao entorno regional. Há precedentes concretos nesse sentido na própria trajetória brasileira — a mediação conjunta com a Turquia que resultou na Declaração de Teerã, em 2010, quando o país buscou protagonismo como negociador do programa nuclear iraniano, e o reconhecimento do Estado da Palestina no mesmo ano —, assim como a defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção, inscritas como princípios das relações internacionais brasileiras no artigo 4º da Constituição, e a postura que a diplomacia brasileira define como “não intervenção sem indiferença”, com iniciativas como o Grupo de Amigos da Venezuela e a atuação na crise boliviana, inclusive bloqueando tentativas de censura na OEA sob o argumento de que se tratava de assunto interno.
Em contrapartida, a materialização desse tipo de apoio incide justamente sobre a ambiguidade estruturante dessa inserção: a política externa brasileira é caracterizada por uma busca pragmática de equidistância, que maximiza possibilidades econômicas e laços estratégicos sem alinhamento integral a nenhum bloco, e o engajamento brasileiro em causas vistas como distantes dos interesses ocidentais já provocou reações adversas das grandes potências, como no caso da Declaração de Teerã. Aqui, a depender de como se materializaria esse apoio, pode influenciar e impactar no tensionamento dos princípios democráticos, polarizações e parcerias estratégicas entre os blocos econômicos — tensionamento que a literatura regional já observa nas cláusulas democráticas do MERCOSUL: o Protocolo de Ushuaia, de 1998, criou instrumentos de monitoramento e sanção entre os sócios, mas a dinâmica de sua aplicação, inclusive na suspensão da Venezuela em 2017, produziu o efeito não pretendido de enfraquecer o regionalismo sul-americano, a autonomia regional e a própria proteção da democracia na região. Contudo, é de extrema importância que os planos de governo demonstrem preocupação com os cenários de guerra existentes e se posicionem diante desses conflitos, mostrando que é uma nação atenta e capaz de participar de debates internacionais nessa escala.
Propostas ausentes ou pouco desenvolvidas sobre a atuação brasileira à nível global
Analisando o conteúdo do programa de governo do PCO, é possível identificar uma assimetria interessante: apesar de não mencionar diretamente, há uma presença da política externa, mas concentrada na soberania nacional, anti-imperialismo e fortalecimento do próprio território brasileiro. Contudo, várias agendas que hoje atravessam a atuação internacional brasileira aparecem pouco ou não aparecem, ou seja, demonstra algumas lacunas significativas:
Agenda | Presença no programa? | O que faltou apresentar? |
Direitos Humanos | Indireta | O programa aborda direitos sociais e trabalhistas, mas não apresenta uma política externa de direitos humanos, em especial de Empresas e Direitos Humanos. |
Migração e refúgio | Praticamente ausente | Falta uma política para migração e refúgio que inclua o acolhimento e integração de migrantes e refugiados, cooperação internacional, proteção de brasileiros no exterior. |
Clima e transição energética | Parcial | A Amazônia aparece principalmente pela perspectiva da soberania territorial. Contudo, faltou abordar a dimensão internacional da agenda climática: negociações climáticas, financiamento climático, justiça climática, biodiversidade e transição energética. A própria discussão sobre petróleo e terras raras poderia ser articulada nesse sentido. |
Relação Brasil–EUA | Parcial | O programa apresenta forte oposição à ingerência dos EUA e ao que denomina imperialismo, mas não detalha uma estratégia para a relação bilateral entre os países. Faltam respostas para relações comerciais, tarifas e medidas protecionistas, cooperação e conflitos de interesses entre os dois países. Apesar de uma resistência de interlocução com os EUA, o Brasil tem acordos e relações comerciais e políticas que precisam ser discutidos e considerados em um programa de governo presidencial. |
BRICS e Sul Global | Indireta | A perspectiva anti-imperialista se aproxima de uma defesa de maior autonomia do Sul Global, mas falta explicitar como o Brasil atuaria no BRICS, G20 e em outras coalizões, e quais estratégias seriam adotadas para ampliar a capacidade de negociação e influência internacional. |
Tecnologia, comunicação e Big Techs | Parcial | O programa aborda a concentração dos meios de comunicação, monopólios de telecomunicações e controle da Internet, mas não enfrenta especificamente o poder das Big Techs e plataformas digitais globais, pauta que está em alta no Brasil e no mundo. Faltam propostas que abarquem a inteligência artificial, regulamentação das plataformas digitais, combate às fakes news e à desinformação. |
Trabalho escravo contemporâneo e cadeias globais de produção | Ausente | Faltam propostas que dialoguem com a promoção do trabalho decente e o combate ao trabalho escravo contemporâneo, especialmente em cadeias globais de valor. Aqui, poderiam ter propostas de responsabilização empresarial e até mesmo cooperação internacional. O tema é fundamental e está sendo considerado em negociações internacionais, como na relação Brasil-EUA, por exemplo. |
CONCLUSÃO
O Programa de Luta – Eleições 2026 do Partido da Causa Operária trata a política externa como prolongamento direto da luta de classes interna, deslocando-a do eixo diplomático para o eixo da soberania econômica e da confrontação anti-imperialista. Em termos de síntese das propostas, o documento reúne diretrizes de efeito internacional direto: o fim da política de paridade com o dólar e a redução de 50% do preço dos combustíveis; a estatização do sistema financeiro e o fim da independência do Banco Central, com cancelamento das dívidas externa e interna; a nacionalização do petróleo e das reservas minerais, com “reestatização” de empresas como Eletrobrás, Vale e operadoras de telecomunicações; a criação de empresa estatal para explorar e administrar as terras raras; o combate à ingerência estrangeira na Amazônia; e o apoio declarado a países “que se levantam contra o imperialismo”.
Distinguindo dessa síntese as interpretações que a análise permite extrair, três limitações estruturais se destacam: (i) a centralidade atribuída à financeirização, que não é acompanhada de uma análise mais ampla das dimensões da dependência econômica internacional brasileira. O programa identifica juros, bancos e dívida como problemas, mas não desenvolve outras dimensões da financeirização; (ii) o eixo de soberania sobre os recursos naturais não é acompanhado de uma estratégia explícita de agregação de valor, tecnologia e inserção em cadeias produtivas internacionais; e (iii) a frágil conexão entre a solidariedade declarada a Cuba, Palestina, Irã e Rússia e a arquitetura econômica regional disponível para sustentá-la. O programa declara apoio, mas não apresenta instrumentos econômicos, comerciais, financeiros ou institucionais para sustentar essas relações.
Em termos de avaliação, o programa incorpora a autonomia e a soberania nacional como pilar estratégico — posição que dialoga com a tradição da “autonomia pela diversificação” da política externa brasileira, e não com uma novidade isolada. A questão analítica que se coloca, contudo, é se essa orientação se converteria em ruptura material e os dados disponíveis apontam para o risco de uma recomposição da dependência, e não de sua superação. Em 2017, 72% das exportações da América Latina e do Caribe para a China eram commodities, contra apenas 27% das exportações da região ao resto do mundo, enquanto 91% das exportações chinesas para a região consistiam em produtos manufaturados de baixa, média e alta tecnologia.
Como discorrido por Rhys Jenkins em “Latin America and China—a new dependency?”, no comércio Brasil–China, a cadeia siderúrgica revela tendência de “primarização”, com exportações cada vez mais concentradas em minério de ferro e ferro-gusa, e não em aço e produtos siderúrgicos. Dados de comércio em valor adicionado mostram que o Brasil passou a depender da economia chinesa tanto “para frente” quanto “para trás” em sua produção doméstica, e que parte desse crescimento decorre de insumos de baixa transformação industrial e baixo conteúdo tecnológico, como o minério de ferro.
Estudos sobre reprimarização identificam que Brasil e Peru apresentam indícios de uma dinâmica reprimarizadora inclusive de sua estrutura interna. Uma parte da literatura é explícita: o padrão comercial regional reforçaria a dependência latino-americana por meio de uma superespecialização em commodities — advertência que outra vertente relativiza, ao argumentar que o papel da China é frequentemente superestimado e que a reprimarização já estava em curso antes de sua penetração comercial.
Os dados sobre minerais críticos reforçam a mesma advertência: a China detém 85% da capacidade global de processamento de terras raras e mais de 90% dos ímãs permanentes de alta resistência, enquanto a inserção brasileira nessas cadeias permanece concentrada nas etapas iniciais de exploração mineral, evidenciando descompasso entre abundância de recursos e domínio tecnológico, com ausência de política nacional de gestão estratégica de minerais críticos e prevalência dos esquemas tradicionais de exportação de commodities na falta de política industrial. A hipótese interpretativa que a análise sustenta, portanto, é que, sem controle das etapas de maior valor agregado, a substituição de uma dependência por outra pode não configurar uma ruptura com a lógica da dependência, mas a sua recomposição geográfica.
Quanto à atualidade das propostas, a análise oferece base empírica para situá-las: o programa responde a um contexto em que a soberania econômica e territorial se tornou objeto explícito de disputa. Como exemplo, tem-se o ataque dos EUA à Venezuela, liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em janeiro de 2026. Especialistas e até mesmo políticos do Brasil , classificaram a ação como um ataque direto à soberania latinoamericana e uma grave violação dos direitos internacionais. Vale mencionar que o Brasil integra o Parceiros pelo Multilateralismo, que diante da abertura da 81ª Edição da Assembleia Geral da ONU, que aconteceu essa semana em Nova York, emitiu um comunicado à comunidade internacional defendendo a soberania dos países e a integridade territorial. O manifesto foi divulgado pelo Ministério das Relações Internacionais e demonstram a preocupação do Brasil em garantir a sua soberania diante do cenário global. Essas perspectivas podem justificar a presença forte da defesa da soberania brasileira presente nas propostas do plano de governo do PCO, demonstrando atualidade diante de severos ataques globais à soberania de alguns países.
As propostas, além disso, distribuem-se de modo desigual: a soberania tratada como objetivo jurídico-territorial está mais desenvolvida do que a soberania material, entendida como domínio de tecnologia e de cadeias produtivas — e é justamente esta última que a literatura associa à capacidade efetiva de defesa da soberania, que “depende da economia, oficinas, laboratórios, indústria e tecnologia”, e ao domínio dos processos tecnológicos críticos.
Cabe registrar que o documento assume, em seus próprios termos, o propósito de defender a soberania nacional, valorizar as riquezas brasileiras e combater as privatizações, o que configura um programa de orientação declaradamente popular e não uma pauta neutra. Contudo, a análise pode concluir que o plano de governo apresentado, não menciona detalhes de execução de suas propostas, inclusive de financiamento, execução e articulação internacional, o que limita a sua materialidade. Persiste, ainda, uma assimetria relevante: o programa é mais explícito nos pontos de confronto, como anti-imperialismo, nacionalização, cancelamento de dívidas e menos nos meios de inserção como cooperação, regimes internacionais e governança ambiental, de modo que boa parte de suas propostas depende de arranjos internacionais, que o documento não detalha.
Por fim, retomando os principais achados: o programa amplia o repertório da política externa brasileira ao tratar a soberania econômica como questão de classe, mas mantém em aberto a passagem da ruptura política à ruptura material, sobretudo na relação com a China e no controle das cadeias de valor agregado. O que a análise sugere é que a defesa da soberania, para ser consistente, precisaria vir acompanhada de explicitação sobre como o país converteria recursos naturais em capacidade tecnológica e de como o apoio declarado a outros países se sustentaria na arquitetura econômica regional disponível.
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