Ano VII, nº 132, 27 de Agosto de 2026
Por Cecília Fantini; Isabela Morais; Isadore Domingos; Jaziele Brito; Kimberly Guimarães Aguiar; Marcelly Vieira; Maria Clara Godoi; Nataly Silva; Rafaela Castilho; Teodora Alvisi; Vitor Gabriel Silva; Luis Felipe Aires Magalhães e Roberta Peres (Imagem: Governo do Paraguai)
Notícias recentes têm apontado um movimento migratório de brasileiros ao Paraguai: a revista Forbes, por exemplo, traz a reflexão do porquê esse movimento está acontecendo nessa fronteira. Essa etapa mais recente da emigração brasileira para o Paraguai deve ser compreendida, no entanto, no contexto mais amplo da intensificação da saída de brasileiros após 2014, período marcado por crise econômica, instabilidade política e reconfiguração das expectativas de mobilidade social. Embora a pergunta sobre emigração de brasileiros tenha sido retirada do Censo Demográfico de 2022, levantamentos do Ministério das Relações Exteriores (MRE) apontam que, como em outros períodos recessivos, a emigração brasileira se expandiu após 2014.Ao mesmo tempo, os destinos historicamente preferenciais da emigração brasileira, Estados Unidos e países europeus, passaram a combinar atração econômica com barreiras crescentes à entrada e à permanência de migrantes. Nos Estados Unidos, isso aparece no aumento de detenções e deportações de brasileiros, associado à “crimigração”, a aproximação entre política migratória e controle penal. Na União Europeia, os controles também se intensificaram: em 2025, 2.910 brasileiros foram impedidos de entrar no bloco, principalmente em Portugal e na Irlanda, por irregularidades em vistos, falta de comprovação financeira e inconsistências documentais (OBSERVATÓRIO DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA, 2026). Diante desse cenário, o Paraguai passou a ocupar um lugar estratégico para parte dos brasileiros que buscam alternativas de residência, negócios e reorganização familiar. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o país concedeu 40.600 residências a estrangeiros em 2025, das quais 23.526 foram destinadas a brasileiros, o equivalente a 58% do total; no início de 2026, a própria instituição destacou a continuidade da tendência, relacionando o aumento das solicitações a “políticas públicas definidas”, sistema tributário favorável, custo de vida competitivo e processos de residência mais acessíveis (DIRECCIÓN NACIONAL DE MIGRACIONES, 2026).
A atratividade paraguaia também deve ser situada em sua configuração política recente. O país é marcado pela hegemonia histórica do Partido Colorado, legenda que governa o Paraguai, com breve interrupção, há mais de sete décadas e que sustentou a ditadura de Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989 (OBSERVATÓRIO DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA, 2023). Desde a redemocratização, os governos paraguaios têm sido predominantemente conservadores, e a eleição de Santiago Peña, em 2023, representou a continuidade dessa hegemonia colorada: o então candidato venceu com 42,7% dos votos e passou a governar com uma agenda liberal na economia e conservadora nos costumes. Esse ambiente político-econômico reforça a imagem do Paraguai como destino atrativo para brasileiros identificados com pautas de menor intervenção estatal, baixa tributação e maior autonomia familiar na educação. Nesse sentido, o debate sobre o homeschooling aparece como parte do repertório político-educacional valorizado por setores conservadores brasileiros, enquanto a baixa carga tributária e os incentivos à instalação de empresas funcionam como atrativos concretos para empresários e investidores. O regime de “Maquila”, por exemplo, prevê tributo único de 1% sobre o valor agregado nacional ou sobre a fatura de exportação, além da suspensão de tributos aduaneiros, o que ajuda a explicar por que empresas brasileiras se tornaram maioria entre as firmas estrangeiras instaladas nesse regime.
Entretanto, a imagem do Paraguai como espaço de oportunidades convive com importantes contradições sociais e trabalhistas. Embora o país seja apresentado por muitos migrantes como alternativa de menor tributação, menor custo de vida e maior liberdade econômica, seus indicadores revelam vulnerabilidades estruturais. Em 2025, a pobreza monetária total atingiu 16,0% da população, chegando a 22,1% nas áreas rurais, enquanto a pobreza extrema foi estimada em 2,4% (INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA, 2026). A informalidade laboral também permanece elevada: em 2025, 60,1% dos trabalhadores ocupados não agropecuários estavam em ocupações informais, com incidência ainda maior entre mulheres e trabalhadores rurais (INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA, 2026). Além disso, a menor incidência de encargos e direitos trabalhistas, como a inexistência de mecanismos equivalentes ao FGTS e ao seguro-desemprego, ajuda a explicar tanto o interesse empresarial brasileiro quanto os limites sociais do modelo paraguaio. Assim, a recente emigração brasileira para o Paraguai revela não apenas uma mudança de destino migratório, mas também a busca, por determinados grupos, de um modelo político-econômico percebido como mais favorável, ainda que assentado sobre desigualdades, informalidade e formas frágeis de proteção social.
Embora o recente crescimento da migração brasileira para o Paraguai tenha recebido maior atenção, esse movimento está presente significativamente desde as décadas de 1960 e, sobretudo, de 1970, em que milhares de agricultores brasileiros atravessaram a fronteira em direção ao leste paraguaio, estimulados pela disponibilidade de terras a baixo custo, pela expansão da fronteira agrícola e por políticas de incentivo implementadas durante as ditaduras militares de ambos países. Esse movimento é intrínseco ao avanço do agronegócio brasileiro, especialmente da produção de soja, e contribuiu para uma intensa concentração fundiária no território, alterando a estrutura econômica e social das regiões fronteiriças, ao mesmo tempo em que alimentou conflitos envolvendo acesso à terra, soberania nacional e relações entre comunidades locais e migrantes. O movimento se dá, portanto, em um contexto de expansão subimperialista (MARINI, 2000) brasileira no Paraguai, que se expressa sobretudo no controle fundiário e de produção de energia hidrelétrica no país.
Em meio a esse processo, emergiu o conceito de brasiguaios, que define os brasileiros e seus descendentes em solo paraguaio que mantém fortes traços culturais e linguísticos do Brasil – mas também paraguaios fortemente integrados à cultura brasileira, especialmente nas regiões fronteiriças. Contudo, apesar da integração cultural e da construção de identidade híbrida, a forte presença brasileira no território também tem sido fonte de tensões com movimentos sociais e camponeses paraguaios, que muitas vezes veem os produtores brasileiros como latifundiários que exercem excessivo poder político, somado ao temor de perda de controle sobre áreas estratégicas do território nacional.
Contudo, o que destaca a atual onda migratória das anteriores não é apenas o contexto econômico, mas também a forma como ela vem sendo compartilhada em meio a era digital, em que as plataformas digitais e redes sociais passaram a desempenhar um papel central na promoção do Paraguai como destino migratório. Nichos de influenciadores especializados em migração, planejamento tributário e abertura de empresas propagam diariamente conteúdos que apresentam o país como referência de liberdade econômica, baixa tributação, segurança patrimonial e menor intervenção estatal. Para empresários e investidores, o atrativo é mais direto: o regime de “Maquila” cobra um tributo único de 1% sobre o valor agregado nacional ou sobre a fatura de exportação, além de suspender tributos aduaneiros, fator que explica porquê empresas brasileiras hoje são maioria entre as firmas estrangeiras instaladas nesse regime.
Dentro desse cenário, para parte dos migrantes da nova onda, a mudança representa uma forma de reposicionamento identitário, deixando de ser motivada exclusivamente por oportunidades econômicas, mas incorporando valores políticos e culturais. Sendo assim, temas como homeschooling, redução do papel do Estado, menor regulação econômica e rejeição a determinadas agendas educacionais ou de direitos humanos aparecem com frequência nos discursos de influenciadores e consultores especializados em migração, para atrair este público. Dessa maneira, o Paraguai é frequentemente apresentado não apenas apenas como um país mais barato ou menos tributado, mas como um espaço de afinidade ideológica para determinados segmentos da direita brasileira.
No entanto, aspectos relevantes da realidade paraguaia são omitidos na propaganda, como as limitações da proteção social, a elevada informalidade do mercado de trabalho, as dificuldades enfrentadas por trabalhadores estrangeiros e as especificidades da legislação migratória. Forma-se, assim, um mercado da migração, no qual a decisão de emigrar é resultado de estratégias de marketing digital e discursos que frequentemente confundem informação, publicidade e posicionamento ideológico.
O país convive com índices expressivos de pobreza e informalidade, realidade que contrasta com a imagem de prosperidade vendida a quem chega em busca de menor tributação e maior liberdade econômica (INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA, 2026). Essa informalidade atinge de forma ainda mais intensa mulheres e trabalhadores do meio rural, evidenciando que o modelo paraguaio distribui de maneira desigual os benefícios que atraem os brasileiros. Além disso, se trata de um mercado de trabalho com poucas garantias: a ausência de mecanismos equivalentes ao FGTS ou ao seguro-desemprego reduz encargos para as empresas, mas também retira a proteção que trabalhadores locais e migrantes poderiam acionar em momentos de instabilidade. Isto é, menos regulação, menos custos, menos proteção; o que, do lado empresarial, funciona como atrativo, do lado social, se revela como tragédia. A recente emigração brasileira para o Paraguai está no centro deste conflito, mais que uma mudança nos projetos e percursos migratórias, ela resulta de um modelo político-econômico e ideológico montado para ocultar as desigualdades, a informalidade e a proteção social frágil reinantes no país.
Nesse contexto, a recente intensificação da emigração brasileira para o Paraguai representa não apenas uma mudança nos destinos migratórios, mas a continuidade histórica de relações transfronteiriças que desafiam as concepções tradicionais de cidadania. Torna-se, portanto, indispensável que Brasil e Paraguai fortaleçam mecanismos de cooperação regional e desenvolvam políticas migratórias orientadas pela garantia de direitos, pela proteção social e pela promoção do trabalho digno, tanto para brasileiros residentes no Paraguai quanto para paraguaios que vivem e trabalham no Brasil. Além disso, muitos brasileiros residentes no Paraguai deslocam-se constantemente para o Brasil em um movimento migratório pendular, em busca da efetivação de direitos e benefícios sociais. O objetivo é acessar os serviços públicos brasileiros porque o Estado paraguaio não garante direitos sociais básicos a esta população fronteiriça (ALBUQUERQUE, 2015).
Diante desse quadro, percebe-se que as migrações contemporâneas não podem ser compreendidas apenas a partir de uma motivação isolada, como incentivos econômicos ou menor carga tributária. Trata-se, na verdade, de um processo complexo que demonstra a necessidade da promoção de políticas públicas voltadas à proteção dos migrantes e à garantia de seus direitos sociais. Nesse sentido, deve-se entender que o espaço da fronteira deve ser compreendido como um recurso social e político (ALBUQUERQUE, 2015), capaz de produzir formas específicas de circulação, pertencimento e acesso a direitos.
REFERÊNCIAS
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MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis – RJ: Editora Vozes, 2000.
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OBSERVATÓRIO DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA. Eleições no Paraguai: a hegemonia colorada e a história recente. OPEB, 2 maio 2023. Disponível em: OPEB. Acesso em: 30 jun. 2026.
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VILLELA, Flávia. Paraguai: ouro de tolo ou paraíso liberal para migrantes? Rádio Sputnik. Notícias Brasil, 19 maio de 2026. Disponível em: <https://noticiabrasil.net.br/20260519/paraguai-ouro-de-tolo-ou-paraiso-liberal-para-migrantes-50513255.html> Acesso em: 2 jul. 2026
