Ano VII, nº 131, 13 de Agosto de 2026
Por Márcio Rocha da Silva Filho, João Victor Vieira de Almeida, Abner Carvalho e Souza, Karina Vieira de Melo, Iago Carriço dos Santos Abreu, Elias David Morales Martinez (Imagem: produção própria)
A Europa volta a se preparar para a guerra. Impulsionado pelo conflito na Ucrânia e pelas incertezas sobre o compromisso dos Estados Unidos, o continente amplia gastos, reestrutura suas forças armadas e fortalece sua indústria de defesa. Mas, ao buscar maior segurança, a remilitarização europeia pode alimentar uma nova corrida armamentista e tornar a região ainda mais instável.
A Remilitarização da Europa
O aumento dos orçamentos de defesa, a retomada da produção de munições, a ampliação das forças armadas e a criação de instrumentos comuns de financiamento indicam que a Europa ingressou em uma nova fase de militarização. Em 2025, os gastos militares cresceram 14% e chegaram a US$ 864 bilhões, no maior avanço anual da Europa desde o fim da Guerra Fria. Entre os países da União Europeia (UE), as despesas de defesa alcançaram € 418 bilhões em 2025 e devem chegar a € 454 bilhões em 2026, um crescimento de 75,3% em comparação com 2021. Esses números retratam que a segurança deixou de ser “assegurada” pelos Estados Unidos e voltou a ser o centro das estratégias nacionais europeias.
A dimensão dessa mudança aparece também no conjunto da OTAN. Em 2025, os membros europeus da aliança aumentaram seus gastos militares no ritmo mais acelerado desde 1953. Dos 29 países europeus integrantes da organização, 22 destinaram pelo menos 2% do PIB à defesa. Os dados indicam que a remilitarização deixou de estar concentrada em poucos governos e passou a constituir uma tendência mais ampla no continente, estimulada simultaneamente pela guerra na Ucrânia e pela pressão norte-americana por maior divisão dos custos da defesa coletiva.
Essa mudança na política externa europeia, no entanto, não começou com o retorno de Donald Trump à presidência. Sua origem remonta à anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, quando os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estabeleceram a meta de destinar 2% do PIB à defesa. Esse movimento escalou especialmente com a invasão da Ucrânia, em 2022. A guerra devolveu à Europa a perspectiva de um conflito interestatal prolongado, revelou a insuficiência dos estoques de munições e das capacidades de defesa aérea e expôs os limites de uma base industrial organizada para produzir em ritmo de paz. Assim, a resposta europeia passou de sanções e transferências de armamentos a Kiev, para uma ampla revisão de planejamento, indústria e das próprias forças armadas europeias.
O segundo governo Trump acelerou esse processo ao tornar o compromisso norte-americano com a Europa mais transacional e menos previsível, pressionando os aliados a assumirem parcela maior da defesa continental e questionando a alta participação dos Estados Unidos no financiamento do aparato militar da OTAN. Na Cúpula de Haia, em junho de 2025, a OTAN estabeleceu a meta de destinar, até 2035, 5% do PIB à defesa e à segurança – conforme a declaração oficial, seriam 3,5% para necessidades militares centrais e até 1,5% para proteger a infraestrutura crítica, defender redes, garantir a preparação civil e resiliência, estimular a inovação e fortalecer a base industrial de defesa. Assim, o presidente Trump conseguiu alterar o cálculo europeu ao questionar a proteção automática dos Estados Unidos, vinculando o tratado atlântico a uma maior participação dos países europeus nos custos.
A pressão de Washington produziu uma reação ambígua. Por um lado, os governos europeus passaram a defender com mais força a chamada “autonomia estratégica”, isto é, a capacidade de agir sem depender inteiramente dos Estados Unidos. Por outro, parte relevante do novo gasto militar pode aprofundar essa mesma dependência. Isso ocorre porque áreas essenciais – como inteligência, comando, logística, defesa antimísseis e dissuasão nuclear – ainda dependem de capacidades norte-americanas. Além disso, a urgência das compras favorece fornecedores dos Estados Unidos. O problema, portanto, não é apenas quanto a Europa gastará, mas como e onde esses recursos serão investidos.
O Dilema da Segurança no Bloco Europeu
Como já mencionado, após a invasão russa na Ucrânia, as despesas dos Estados-Membros da União Europeia com a defesa aumentaram acentuadamente entre 2021 e 2026, cerca de 75,3%. A UE tomou uma série de iniciativas para complementar e amplificar os esforços individuais dos Estados-Membros e para impulsionar a competitividade.
O plano ReArm Europe/Readiness 2030 pretende impulsionar o financiamento da defesa, dando aos países da UE mais flexibilidade financeira. Para alcançar esse objetivo, algumas ações devem ser tomadas. Em primeiro lugar, a ativação da cláusula de escape nacional do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que permite que os Estados-Membros aumentem as despesas com a defesa. Em segundo lugar, o aumento de 1,5% do PIB nos orçamentos de defesa poderia criar quase € 650 bilhões de euros em espaço orçamental ao longo de quatro anos. Em terceiro lugar, o lançamento de um instrumento de empréstimo de € 150 bilhões de euros – a Ação de Segurança para a Europa (SAFE) – para ajudar os países a investir em áreas-chave da defesa, como a defesa antimíssil, drones e cibersegurança. Os fundos para essa iniciativa serão angariados nos mercados de capitais e desembolsados aos Estados-Membros interessados, mediante pedido, com base nos planos nacionais. Adotado pelo Conselho da UE em maio de 2025, o SAFE incentivará os Estados-Membros a gastarem melhor, em conjunto e em “espírito europeu”. Em quarto lugar, apoiar o Grupo Banco Europeu de Investimento na ampliação do seu financiamento a projetos de defesa e segurança e acelerar a união de poupança e investimento para mobilizar capital privado, de modo que a indústria de defesa europeia não dependa exclusivamente do investimento público.
Seguindo o plano ReArm Europe/Readiness 2030, o roteiro de prontidão de defesa é uma iniciativa que visa fortalecer as capacidades de defesa europeias. Ele define objetivos claros e marcos concretos para: reduzir lacunas de capacidade; acelerar os investimentos em defesa em todos os Estados-Membros; e alcançar plena prontidão de defesa até 2030. O roteiro propõe quatro projetos emblemáticos: a Iniciativa Europeia de Defesa contra Drones, a Vigília do Flanco Leste, o Escudo Aéreo Europeu e o Escudo Espacial Europeu. Essas medidas reforçarão a capacidade da Europa de dissuadir e defender-se em terra, ar, mar, ciberespaço e espaço, contribuindo diretamente para as metas de capacidade da OTAN.
O roteiro também insta os Estados-Membros a concluírem as Coligações de Capacidades em nove áreas-chave e a colmatarem as lacunas críticas de capacidades através do desenvolvimento e aquisição conjuntos. Estas áreas são: defesa aérea e antimíssil; facilitadores estratégicos; mobilidade militar; sistemas de artilharia; cibersegurança, inteligência artificial e guerra eletrônica; mísseis e munições; drones e contradrones; combate terrestre; e assuntos marítimos. Já no âmbito do fortalecimento da base industrial de defesa da UE, a inovação na área da defesa deve ser plenamente aproveitada, incluindo soluções provenientes da Ucrânia. A resiliência das cadeias de suprimentos da defesa também precisa ser fortalecida, reduzindo a dependência de matérias-primas e outros insumos críticos.
Todos esses planos e gastos em defesa observados na União Europeia, principalmente após a invasão da Ucrânia, ilustram o dilema de segurança na prática. Como a UE enxerga a Rússia como uma ameaça potencial, o dilema de segurança postula que os esforços de um Estado para ampliar sua segurança podem levar outros Estados a aumentarem suas capacidades militares em resposta. Ainda que um Estado buscasse apenas segurança e não tivesse intenções hostis, Waltz (1979) recorda que outros Estados permaneceriam inseguros, pois os meios de segurança de um país são os meios pelos quais os outros países são ameaçados. Portanto, assim como a UE se sente insegura pelas investidas russas, nações do norte global e Leste Europeu também se sentem ameaçadas e ampliam seus orçamentos militares, o que pode gerar uma corrida armamentista sem precedentes.
A Polônia, por exemplo, apresentou as maiores despesas relativas em defesa da Europa, chegando a 4,5% do PIB, além de ter tido o percentual mais elevado entre os membros da OTAN em 2025. Países bálticos, como a Letônia, apareceram em seguida, com cerca de 3,6%. Outras nações ficaram acima da média europeia, como a Estônia, com 3,4%, a Noruega, com 3,3%, a Lituânia, com 3,1%, a Finlândia, com 2,6%, e a Suécia, com 2,5%. Mesmo que tais aumentos possam ser vistos como uma resposta defensiva ao conflito, poderiam igualmente ser interpretados por outros, incluindo a própria Rússia, como uma postura agressiva. Além disso, buscar reduzir a segurança de um adversário pode reduzir a própria segurança, ampliando o valor que o adversário atribui à expansão e, consequentemente, tornando-o mais complexo de dissuadir. De outro modo, tornar um rival mais inseguro provavelmente aumentará seu interesse em expansão, já que a expansão muitas vezes é vista como um meio de ampliar a segurança.
Como resultado, o cenário atual é um clássico de dilema de segurança, no qual a segurança de um Estado leva outros a intensificarem seus próprios programas militares, criando uma corrida armamentista suscetível a conflitos em grande escala na Europa. Embora os gastos militares pretendam expandir a segurança e dissuadir agressões, eles acabam contribuindo para um estado de insegurança acentuado em toda a região, evidenciando a natureza paradoxal do dilema de segurança.
A “Nova” Política de Defesa da Alemanha
Para melhor compreender a militarização em curso na Europa, se torna um exercício valioso apresentar o processo e dilemas que a maior potência da União Europeia vivencia Passando por duas derrotas em Guerras Mundiais, a Alemanha chega a meados do século XX sendo repartida em três partes: Saarland deixou o país em 1947, e o restante do território foi dividido em Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental em 1949, tendo, cada lado, um sistema socioeconômico distinto e ficando com uma parte da cidade de Berlim. Em 1990, o país, que pouco mais de quatro décadas antes havia instaurado um conflito generalizado que mudou os rumos da história mundial, finalmente concluiu sua reunificação.
Desde sua reunificação, a posição internacional da Alemanha foi marcada por sua condição de ser uma das maiores economias do mundo, com grande influência no cenário global, especialmente na Europa. Militarmente, a Alemanha se apoiou numa imagem relativamente pacifista, mesmo figurando, desde antes da reunificação, entre os dez países com maiores orçamentos militares, tendo despendido um total de US$ 52,8 bilhões para o setor em 2020, por exemplo. Entretanto, conforme apresentado anteriormente, a invasão russa ao território ucraniano, decorrida em fevereiro de 2022 e perdurando até a atualidade, modificou consideravelmente o tabuleiro europeu e o mundial.
À luz da ofensiva russa, em 27 de fevereiro de 2022, Olaf Scholz, então chanceler da Alemanha, discursou no Bundestag (parlamento alemão) lamentando a situação, demonstrando empatia pelo povo ucraniano e reconhecendo que o início do conflito representava uma mudança relevante na segurança continental: havia uma guerra na Europa. Em seguida, Scholz apresentou cinco caminhos que a Alemanha deveria seguir nesse contexto: apoiar a Ucrânia, o que incluiria o fornecimento de armas; desviar Putin do “caminho da guerra”, através de um pacote de sanções; impedir que a guerra se espalhe por outros países; buscar o fortalecimento militar e da soberania energética da Alemanha, construir novos armamentos em parceria especial com a França), o que inclui um investimento de € 100 bilhões extras na Bundeswehr (forças armadas unificadas alemãs), e buscar saídas diplomáticas para a crise, apostando na união dos países europeus e na solução pacífica de conflitos.
Os dados mais recentes mostram que a Zeitenwende (expressão alemã para “mudança de era”) deixou de ser apenas uma formulação política. Em 2025, a Alemanha tornou-se o quarto país com maior gasto militar do mundo e o maior entre os membros europeus da OTAN: foram US$ 114 bilhões, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez desde a reunificação, as despesas militares ultrapassaram o patamar de 2% do PIB, alcançando 2,3%. A trajetória deve continuar nos próximos anos, uma vez que o governo alemão assumiu o objetivo de elevar os gastos militares para 3,5% do PIB até 2029, além das despesas relacionadas à infraestrutura e à segurança consideradas pela nova meta da OTAN.
Um anúncio público de um crescimento da política armamentista alemã teria causado apreensão entre países europeus 30 anos atrás, entretanto, a invasão da Ucrânia e o afastamento dos EUA do sistema de defesa europeu parecem ter criado uma demanda regional pelo aumento das forças militares da Alemanha. E, assim, o país vem promovendo diversas mudanças em sua política de defesa desde aquele discurso proferido pelo chanceler Scholz. A mudança estratégica alemã inclui alguns sucessos como o investimento na produção doméstica de equipamentos militares e a desburocratização para agilizar processos, como para a construção de bases militares. A política externa vem desempenhando um papel relevante neste contexto: a Alemanha atua em parceria com outros países, principalmente da Europa, na produção de seu aparato militar, como no caso da Iniciativa Europeia de Proteção do Céu, proposta por Scholz. A atualização do armamento se faz especialmente importante, uma vez que este se encontra desatualizado e em mau estado.
Ademais, outras dificuldades também ocorrem na execução da política de defesa alemã. O caça Eurofighter Typhoon, por exemplo, teve sua operação reduzida durante um bom tempo por falta de peças. Outro problema é a questão da urgência dos prazos, uma vez que há questionamentos sobre se os sistemas de defesa e aparatos militares estarão operantes a tempo de conformidade com as novas necessidades. Para 2027, o orçamento militar aprovado da Alemanha ficou em mais de € 110 bilhões, porém, este valor precisa considerar prioridades para ser gasto de forma eficaz, tendo em mente o tempo que cada equipamento e sistema leva para ser produzido, qual o melhor produtor ou fornecedor de insumos e qual a urgência de uso.
Retomando os investimentos de € 100 bilhões para a Bundeswehr, para além de renovações em sistemas militares e armamentos, um dos objetivos do governo alemão é atrair mais cidadãos para atuar nas forças armadas. Os gastos militares relacionados à atração de novos membros à Bundeswehr vêm aumentando desde o início da guerra na Ucrânia – de € 35,2 milhões em 2022 para € 58 milhões em 2025. Para o alistamento militar de 2026, prevê-se € 70,5 milhões apenas em anúncios, com propagandas da organização se tornando cada vez mais comuns nas mídias alemãs e focalizadas em um público mais jovem, o que vem despertando desaprovação social. Além disso, outro ponto que gerou grandes críticas na nova política de defesa alemã é a volta do alistamento militar obrigatório para homens de 18 anos, onde a prioridade é dada aos que têm o interesse em se alistar, mas, em caso de o número de interessados ser menor do que o almejado pelas autoridades, mais jovens podem ser convocados a servir compulsoriamente.
Assim, a nova política de defesa da Alemanha é baseada numa forte remilitarização acompanhada de um grande investimento governamental, que, por sua vez, busca renovar o arsenal da Bundeswehr, ao mesmo passo que busca atrair, ou forçar, novos talentos a se juntarem à estratégia nacional de segurança. Embora a política represente uma oportunidade de reforçar a posição central da Alemanha no continente, é importante ressaltar que as medidas também são acompanhadas de críticas e de falhas.
Gastos Militares no Continente Americano
Ponderando se esse contexto de acirramento de conflitos e aumento de despesas militares na Europa se expandiu para outras regiões do mundo, no continente americano, a tendência predominante foi de retração nos gastos militares, influenciada pela redução do apoio militar do governo Trump aos aliados da OTAN. A América do Sul, geograficamente distante do conflito Rússia-Ucrânia, foi a única sub-região do continente a registrar aumento nas despesas com defesa, com crescimento de 3,4% em 2025. Ainda assim, permanece entre as regiões com menor expansão dos investimentos militares do mundo.
Embora distante do conflito europeu, parte desse crescimento também reflete preocupações com a deterioração do ambiente de segurança regional. A modernização e o fortalecimento das capacidades militares têm sido impulsionados pelo aumento das tensões envolvendo alguns países sul-americanos, como entre Guiana e Venezuela.
Após a intensificação das disputas com a Venezuela, a Guiana ampliou seus gastos militares em 16%. Entre os fatores que contribuíram para entender o governo de Nicolás Maduro como ameaça potencial, declarações de inclusão da região de Essequibo nas eleições regionais venezuelanas fomentaram a insegurança do país. A Guiana Essequiba, território administrado pela Guiana, mas reivindicado por Caracas, corresponde a cerca de 70% do território guianense e concentra expressivas reservas de petróleo.
O Brasil ampliou seus gastos militares em 13% em termos reais em 2025, chegando a US$ 23,9 bilhões e mantendo-se como o maior investidor em defesa da América do Sul em termos absolutos. O aumento ocorre em um contexto de deterioração das relações com o atual governo Trump, marcado pela imposição de tarifas e outras medidas comerciais pela administração Trump desde julho de 2025. Em paralelo, o ambiente diplomático tornou-se mais tenso após declarações do Itamaraty indicando que consideravam a possibilidade de ações militares por parte de Washington em solo brasileiro. Em resposta, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos classificou a hipótese como “absurda”.
A ampliação dos gastos militares brasileiros ocorre de forma indireta, à medida que o setor de defesa foi incorporado à estratégia de desenvolvimento econômico e reindustrialização promovida pelo atual governo. Nesse contexto, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) e a política da Nova Indústria Brasil (NIB) estipulam aproximadamente R$ 165 bilhões para projetos estratégicos, desenvolvimento de tecnologias e fortalecimento de sua Base Industrial de Defesa. Os recursos financiam programas voltados à produção e modernização de blindados, fragatas, aeronaves de combate e outros sistemas militares considerados essenciais para a soberania nacional.
Até o momento, não há registros de manifestações oficiais de governos sul-americanos em resposta ao aumento de gastos militares brasileiros. A ausência de reações públicas sugere que a ampliação dos investimentos em defesa não tem sido percebida pelos países vizinhos como um fator de desestabilização regional, permitindo ao Brasil dar continuidade aos seus projetos sem gerar indícios de uma corrida armamentista na América do Sul.
Por fim, é evidente que a invasão russa ao território ucraniano em 2022 causou mudanças significativas na Europa. Países da União Europeia aumentaram significativamente seus gastos militares, redesenhando estratégias e investindo em novos equipamentos, o que pode, por outro lado, vir a ser um problema, conforme a lógica do dilema de segurança. Conforme observado anteriormente, um país em que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia provocou importantes mudanças estratégicas foi na Alemanha. Em sua posição de maior economia da União Europeia, o país aumentou bruscamente suas despesas militares, buscando fortalecer seu arsenal e as capacidades da Bundeswehr. Entretanto, essas mudanças não vieram sem críticas e falhas de execução, o que levanta dúvidas em meio às expectativas lançadas pelo governo alemão. Ademais, os aumentos de gastos em defesa, devido ao conflito na Europa, não necessariamente são um fenômeno observado em todo o mundo.
Trazendo o debate para as Américas, onde se encontra o Brasil, houve um aumento de gastos militares na América do Sul, mas que não parecem estar relacionados às ações russas e europeias. O Brasil, que vem ampliando seu orçamento militar, não parece ter despertado preocupações aos vizinhos, indicando que o dilema de segurança não necessariamente se faz presente no subcontinente. Na América do Norte, a redução dos gastos militares dos Estados Unidos ocorre em um contexto de revisão dos compromissos internacionais assumidos por Washington. Em relação à OTAN, o ceticismo de Donald Trump quanto ao grau de dependência dos europeus ao poder militar norte-americano colocou em dúvida a continuidade do apoio militar dos Estados Unidos no continente europeu.
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