Ano VII, nº 131, 13 de Agosto de 2026
Por Gabriel Rodrigues Gesteira, Isabella Werneck Zanon e Nathalia Andrade Costa (imagem: reprodução/ Siphiwe Sibeko)
Entre memórias do apartheid, pretensões de liderança regional e a recente escalada xenófoba, o isolamento da seleção sul-africana expôs as fissuras políticas que desafiam o ideal de solidariedade pan-africana.
Contexto político do que a África do Sul representava antes para os países do continente.
Em 11 de junho de 2010, a África do Sul deu início à 19ª edição da Copa do Mundo da FIFA em Joanesburgo, tornando-se o primeiro Estado africano a sediar o torneio. A escolha da sede pela entidade em 2004 buscava projetar a imagem de uma integração continental. Contudo, a reação de governos e populações vizinhas revelou resistências acumuladas desde as décadas finais do século XX (ALDEN; SCHOEMAN, 2015). A análise das relações diplomáticas sul-africanas expõe a origem do ressentimento regional que acompanhou o evento.
Entre 1948 e 1994, o regime do apartheid aplicou uma política de agressão direta e ingerência contra os países da África Austral. Sob a doutrina da Estratégia Total, formalizada pelas Forças de Defesa da África do Sul (SADF) no final da década de 1970, Pretória financiou grupos paramilitares como a Unita em Angola e a Renamo em Moçambique (DÖPCKE, 1998). O objetivo militar consistia em neutralizar as bases do Congresso Nacional Africano (ANC) e da Organização do Povo da África do Sudoeste (SWAPO).
A dependência logística dos países vizinhos em relação aos portos e ferrovias sul-africanos serviu como instrumento de pressão econômica. Essa vulnerabilidade motivou a criação da Conferência de Coordenação do Desenvolvimento da África Austral (SADCC) em 1980, com a meta de reduzir a sujeição regional a Pretória. Na mesma época, a Organização da Unidade Africana (OUA) e o governo da Nigéria assumiram custos financeiros diretos para subsidiar os movimentos de libertação do sul do continente (BRAGA; MILANI, 2019).
A posse de Nelson Mandela em 1994 reorientou a diplomacia sul-africana para a defesa dos direitos humanos e do multilateralismo. Essa postura garantiu ao país acesso imediato aos fóruns do Grupo dos Sete (G7) e elevado prestígio nas capitais ocidentais. O ativismo normativo de Pretória gerou atritos no continente. Durante a cúpula da Commonwealth de 1995, Mandela defendeu sanções internacionais contra o governo militar do general Sani Abacha, na Nigéria, após a execução do ativista Ken Saro-Wiwa. Lideranças de Lagos e de outros Estados africanos classificaram a atitude sul-africana como presunçosa e contrária ao princípio tradicional de não ingerência da OUA (BRAGA; MILANI, 2019). Para esses governos, Pretória agia como porta-voz de interesses do Ocidente, desconsiderando o apoio histórico prestado pela Nigéria ao combate ao apartheid.
O presidente Thabo Mbeki assumiu o poder em 1999 com a proposta da “Renascença Africana”, liderando a transição da OUA para a União Africana (UA) em 2002 e o lançamento da Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD) (AFFONSO; LENGRUBER, 2020). Enquanto diplomatas sul-africanos apresentavam o projeto como uma iniciativa de emancipação, analistas e governos regionais apontavam contradições na expansão das empresas de Pretória. Setores corporativos sul-africanos de telecomunicações, mineração, finanças e varejo estabeleceram posições dominantes na África Subsaariana durante a década de 2000. Essa presença gerou déficits comerciais crescentes nos países receptores e alimentou acusações de conduta extrativista (ALDEN; SCHOEMAN, 2015; DÖPCKE, 1998). Críticos conceituaram essa postura como uma hegemonia sub-imperial, amparada no poder de mercado e em acordos internacionais. Paralelamente, a mediação diplomática de Mbeki na crise do Zimbábue dividiu opiniões entre aqueles que cobravam sanções ao regime de Robert Mugabe e os que temiam intervenções paternalistas no país vizinho (SILVA, 2024).
O fosso político atingiu a sociedade civil por meio da consolidação de uma mentalidade de excepcionalismo cultural na África do Sul. O aumento dos fluxos migratórios vindos do Zimbábue, Moçambique, Nigéria e República Democrática do Congo coincidiu com índices elevados de desemprego e gargalos nos serviços públicos das áreas periféricas (townships). Em maio de 2008, uma onda de violência xenófoba deixou ao menos 62 mortos, sendo 41 estrangeiros africanos, e provocou o deslocamento forçado de mais de 100 mil pessoas (BRAGA; MILANI, 2019). As agressões transmitidas pela televisão geraram forte repúdio em capitais da África Ocidental e Austral. A lentidão das autoridades em conter os ataques enfraqueceu o discurso de solidariedade panafricana antes da Copa de 2010.
A indisposição de parte do público continental em relação à seleção sul-africana em 2010 refletiu tensões históricas acumuladas entre a projeção econômica de Pretória e as demandas de seus vizinhos. O ponto central a acompanhar nos próximos anos é a capacidade da África do Sul de operacionalizar as diretrizes da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) de forma equilibrada. Cabe monitorar se o governo sul-africano revisará barreiras comerciais internas, reduzirá o superávit nas trocas com a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e implementará políticas públicas eficazes contra a violência xenófoba em seu território.
Contexto do que representa agora, com as imigrações, protestos, agressões e repatriações
A Constituição de 1996 da África do Sul encerra um regime de segregação racial do apartheid e inaugura um marco simbólico de uma democracia que constitucionalizou a dignidade humana, a liberdade e a igualdade racial. Desde então, vem se consolidando como um país de boa vontade diplomática ao liderar importantes debates para os direitos humanos no Conselho de Direitos Humanos da ONU e também como mediador de conflitos no continente, como no caso do Burundi e da República do Congo. Representando para o continente um farol de admiração e esperança de cooperação mútua.
Contudo, internamente, a persistência da desigualdade estrutural vem dando palco para episódios de violência xenofóbica. Em julho deste ano, manifestantes sul-africanos começaram a ocupar as ruas, com o grito “Abahambe” (que em Zulu significa “Eles devem ir”), exigindo que imigrantes ilegais fossem expulsos de seu país. Dentre esses, o grupo anti-imigração ilegal March and March vem exigindo a deportação em massa. Suas alegações são de que os imigrantes ilegais são a causa do aumento do desemprego e da criminalidade e sobrecarregam os serviços públicos.
A imigração no país não é um elemento novo em sua política, passando a ser mais frequente em movimentos intra-africanos com o aumento de instabilidades no continente. O maior aumento da imigração ocorreu quando Nelson Mandela assumiu a presidência em 1994. Desde então, de 1996 a 2022, estima-se que a população do país tenha triplicado, chegando a 2,4 milhões. O perfil desses imigrantes normalmente são de residentes de países vizinhos, como Zimbábue, Moçambique e Malaui, motivados pela busca de trabalho e refúgio econômico.
Além disso, as frustrações dos manifestantes não se justificam, pois muitos imigrantes ilegais são sujeitos a empregos informais exploratórios, além de que o pouco da sua renda é o que acaba contribuindo para uma maior dinamização da economia local. Esses imigrantes também evitam acessar serviços que exigem registros prévios, como o de hospitais e escolas, com medo de serem descobertos. E com o aumento das tensões, de fato, vem se observando um aumento da violência, principalmente contra os imigrantes; que vêm sendo alvos de diversas pressões para que saiam do país, como com furtos de pertences, violência física, destruição de patrimônio e até mortes, já registrados pelo governo sul-africano.
Em registros desde julho, cerca de 108.360 cidadãos do Zimbábue retornaram ao seu país. Do Malaui foi anunciada a repatriação de mais de 46.890 de seus cidadãos por meio de 699 ônibus. E em Moçambique foram mais de 1360 repatriados, fora a contabilização de vários mortos entre seus cidadãos. Após as inúmeras críticas à resposta do governo, permanecem alegando tratar de uma discussão mais ampla que envolva toda a África para a resolução da crise migratória. Trata-se, portanto, do desmascaramento de uma sociedade que ainda não conseguiu se curar de seu passado de desigualdade social e segregacionista, derivado do apartheid.
Torcida contra a África do Sul na copa
Com o contexto do que a África do Sul simbolizava antigamente para o continente e o que ela representa hoje, é possível compreender a postura dos outros países quanto à participação da “nação do arco-íris” na Copa do Mundo 2026. Com a ideia de “Temos que dar uma lição neles!” Uma boa parcela de torcedores africanos torceu contra a África do Sul durante os jogos em que ela participou, por se opor ao que está sendo apoiado pelos sul-africanos recentemente na visão do resto do continente: a violência xenófoba (Torcedores […], 2026).
Logo na partida de abertura da copa, que foi protagonizada pelo México e África do Sul, o sentimento comum de solidariedade Pan-Africana que sempre marcou o torneio estava ausente. Ao invés de torcer para seu vizinho continental, a África do Sul, os países africanos torceram para o México. Na Internet, o público adotou a iconografia Mexicana para torcer, como utilizar sua bandeira e o idioma espanhol. Além disso, se utilizaram de memes e adotaram uma postura mais brincalhona nesse movimento de oposição. Porém o tom supostamente leve não deixa de carregar a dura resposta do resto da população africana às políticas praticadas na África do Sul (Karikari, 2026). Um torcedor chegou a comentar que todas as equipes africanas estão sendo apoiadas, menos a sul-africana, pois eles têm que entender as consequências de seus atos (Torcedores […], 2026).
Ainda no jogo de abertura, internautas teceram comentários contra a nação arco-iris e sua política de imigração. Um afirmou que não dá para convencê-los a apoiar a África do Sul só porque eles são africanos, enquanto maltratam imigrantes. Já outro afirmou de maneira irônica que torcia contra o país para que eles pudessem voltar mais cedo e “proteger seus empregos”, em alusão ao fato dos sul-africanos culparem os estrangeiros pela alta taxa de desemprego (Karikari, 2026). O criador de conteúdo Wode Maya brincou com o fato de todo o continente ter se tornado “afro-mexicano” e pediu para seus seguidores o responderem em espanhol. A repercussão chegou a envolver até mesmo Ibrahim Sannie Daara, membro da Confederação Africana de Futebol (CAF) que afirmou em relação a seleção sul-africana, que é chamada de ‘Bafana Bafana’, que não se pode esperar uma benção em escala mundial após maltratar a África. Depois, ele teve que suavizar seus comentários sobre a seleção, convocando todos a vestir a camisa sul-africana, porém isso mostra que o descontentamento com a África do Sul vai para além do nível popular (Torcedores […], 2026).
Ainda assim, mesmo com todas polêmicas, há figuras que decidiram torcer pela África do Sul, seja levantando o fato de que não se deve julgar o país por uma minoria xenófoba, e há esse entendimento de que o movimento anti-imigração representa uma pequena parte do país. Outros fatores como manter o sentimento de orgulho africano, ou valorizar a história da África do Sul de enfrentamento do Apartheid, que gera identificação em outros países, como no Sudão do Sul, independente há menos de 2 décadas, que devido a essa identificação continua a torcer pela África do Sul. Já dentro da África do Sul, a Federação Sul-Africana de Futebol denunciou como inaceitáveis o “assédio online” e “mensagens ofensivas” dirigidas aos jogadores. O capitão do time, Ronwen Williams lamentou ser envolvido em política, um lugar em que não está afim de estar e que o desfoca de seu verdadeiro trabalho: ser jogador de futebol. Nas redes da África do Sul, eles se mantiveram orgulhosos de sua seleção, minimizando a retaliação de outros países e alguns internautas chegaram inclusive a defender as políticas migratórias do país (Karikari, 2026; Torcedores […], 2026).
Por fim, apesar de toda torcida negativa, a África do Sul se classificou para a segunda fase da copa do mundo, a primeira fase do “mata-mata”. Porém, nessa fase, a nação arco-íris perdeu de 1×0 para o Canadá. Uma onda de comemoração se estendeu por toda a África, que continuou torcendo por todas as outras nações africanas que se classificaram da fase de grupos, mas que em relação a África do Sul celebrou abertamente na internet a sua retirada do torneio. Zombaria e memes foram veiculados com intensidade na internet africana. A derrota para o Canadá era só pretexto para uma vingança digital muito esperada nos demais países africanos. A torcida da África do Sul se gabava com certa arrogância de superioridade no futebol perante ao continente devido ao estilo único de jogo de sua seleção e uma campanha com resultados expressivos. Então, a derrota da seleção sul-africana pelo Canadá, considerada uma seleção “menor”, foi ainda mais satisfatória para os opositores da África do Sul (Bamba, 2026).
A Copa do Mundo e a inédita falta do apoio pan-africano e orgulho continental mostra as fissuras causadas pelo problema socioeconômico na África do Sul, revelando a dificuldade de separar a realidade política dos eventos esportivos. A frustração de diferentes africanos com a pretensa “superioridade” dos sul-africanos é um sintoma disso. Um internauta chegou a afirmar que a África é sim como um só país, mas se um país persegue os outros, ele não faz mais parte da família de países africanos. Essas afirmações, assim como outras contidas no texto, mostra que enquanto o cenário político não se alterar, veremos manifestações contrárias a África do Sul em outras esferas sociais, sendo nesse caso o futebol, mas com potencial para desdobrar para outras áreas onde a população africana sentir como um espaço para o protesto (Karikari, 2026; Torcedores […], 2026).
REFERÊNCIAS
AFFONSO, Luiza; LENGRUBER, Vitor. African Union: Mbeki’s South Africa policy for Africa. Brazilian Journal of African Studies, Porto Alegre, v. 5, n. 9, p. 169-187, jan./jun. 2020. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/rbea/article/download/97993/58864/446438. Acesso em: 11 ago. 2026.
ALDEN, Chris; SCHOEMAN, Maxi. South Africa’s symbolic hegemony in Africa. International Politics, v. 52, n. 5, p. 239-254, 2015. Disponível em: https://repository.up.ac.za/items/c034542e-db79-4ee7-9156-411756a53206. Acesso em: 11 ago. 2026.
BAMBA, Malick. 2026 World Cup: Why is Africa celebrating South Africa’s elimination? Sport News Africa, Senegal, 29 jun. 2026. Disponível em: https://sportnewsafrica.com/en/posts/2026-world-cup-why-is-africa-celebrating-south-africas-elimination. Acesso em: 9 ago. 2026.
BRAGA, Pablo de Rezende Saturnino; MILANI, Carlos R. S. Direitos humanos e política externa no Brasil e na África do Sul: o mito da democracia racial, o apartheid e as narrativas da redemocratização. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 29, p. 7-44, maio/ago. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcpol/a/9DG98wPQ684JHGdg88BJNYt/. Acesso em: 11 ago. 2026.
COCKS, Tim. Entenda o que está por trás dos protestos anti-imigração na África do Sul. CNN Brasil, 27 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-esta-por-tras-dos-protestos-anti-imigracao-na-africa-do-sul/. Acesso em: 11 ago. 2026.
DÖPCKE, Wolfgang. Uma nova política exterior depois do apartheid? Reflexões sobre as relações regionais da África do Sul, 1974-1998. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 41, n. 1, p. 133-161, 1998. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbpi/a/7wQxskTrr9nFdsSnnLmC4pt/. Acesso em: 11 ago. 2026.
G1. Mais de 160 mil estrangeiros deixam a África do Sul após protestos e violência contra imigrantes. G1, 21 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/21/mais-de-160-mil-estrangeiros-deixam-africa-do-sul-apos-protestos-e-violencia-contra-imigrantes.ghtml. Acesso em: 11 ago. 2026.
KARIKARI, Nana. 2026 World Cup opener exposes geopolitical tensions as African fans turn against South Africa. Ghana Online, Acra, 13 jun. 2026. Disponível em: https://www.gbcghanaonline.com/sports/2026-world-cup-opener-exposes-geopolitical-tensions-as-african-fans-turn-against-south-africa/2026/. Acesso em: 9 ago. 2026.
SAVAGE, Rachel. Beaten, robbed and driven out: violent demonstrations target immigrants in South Africa. The Guardian, 26 jul. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/jul/26/violent-demonstrations-target-immigrants-south-africa. Acesso em: 11 ago. 2026.
SILVA, Mariana Ribeiro. Dinâmicas da política externa sul-africana (1999-2024): as relações com Angola, Moçambique e Zimbábue e o impacto político na região da África Austral. 2024. Monografia (Bacharelado em Relações Internacionais) – Universidade Federal do Pampa, Santana do Livramento, 2024. Disponível em: https://repositorio.unipampa.edu.br/items/c61b7138-8011-44f9-8a94-e9b981c58455/full. Acesso em: 11 ago. 2026.
TORCEDORES africanos viram as costas à África do Sul na Copa do Mundo após violência xenófoba. UOL, São Paulo, 19 jun. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/06/19/torcedores-africanos-viram-as-costas-a-africa-do-sul-na-copa-do-mundo-apos-violencia-xenofoba.amp.html. Acesso em: 9 ago. 2026.
VERGOLA, Lusa. África do Sul pede diálogo sobre migração devido a crise continental. Ver Angola, 5 ago. 2026. Disponível em: https://www.verangola.net/va/pt/082026/Sociedade/49733/%C3%81frica-do-Sul%C2%A0pede-di%C3%A1logo-sobre-migra%C3%A7%C3%B5es%C2%A0devido-a-crise-continental.htmr. Acesso em: 11 ago. 2026.
