Guerras de narrativa: imprensa brasileira e os conflitos da política externa americana no primeiro trimestre de 2026

Ano VII, nº 122, 10 de Abril de 2026

    

Por Abraão Marques Aguilera Leite, Ana Beatriz Aquino, Giovanna dos Santos Camargo, Julia Heloisa Giacomini Faria, Kalway da Silva Almeida, Maria Eduarda Carbinatto Carita, Pedro Zakimi de Souza, Rebeca Borges Rodrigues de Camargo, Yasmin Khiara Vaz dos Santos (Imagem: Unsplash)

      

A captura de Nicolás Maduro e os ataques ao Irã evidenciam distintos posicionamentos da imprensa brasileira sobre a política externa de Donald Trump, especialmente em temas relacionados à soberania nacional.

      

Introdução

     

Em janeiro de 2026, forças militares norte-americanas capturaram Nicolás Maduro em território venezuelano. Nos meses seguintes, Washington lançou ataques contra o Irã e iniciou uma nova guerra no Oriente Médio. Ambos os episódios geraram reações distintas na imprensa brasileira — e essas diferenças revelam disputas mais profundas sobre como interpretar tensões em torno de questões como a soberania, a ordem internacional e os limites da influência estadunidense na região.

       

O artigo analisa a cobertura destes temas por veículos de comunicação com distintos alinhamentos políticos. A amostra inclui, à esquerda, Le Monde Diplomatique e Brasil de Fato; no centro, a Folha de S.Paulo; e à direita, O Antagonista e Revista Oeste. A análise considera não apenas o conteúdo das reportagens, mas também os enquadramentos narrativos e as estratégias discursivas mobilizadas por cada veículo, compreendendo a cobertura jornalística como um campo de disputas políticas e simbólicas.

       

A expressão “guerras de narrativa” não é meramente retórica. O enquadramento midiático indica que a escolha de palavras, fontes e ênfases não apenas descreve a realidade, mas também a constitui discursivamente. No contexto brasileiro, essa disputa adquire contornos particulares: a fragmentação do ecossistema midiático em bases ideológicas faz com que eventos idênticos sejam processados segundo gramáticas políticas próprias. Analisar como a imprensa brasileira cobriu estes episódios é, portanto, investigar não apenas o jornalismo, mas também o próprio estado das disputas sobre os conceitos de soberania, ordem internacional e alinhamentos geopolíticos no Brasil.

         

O sequestro de Nicolás Maduro

      

A operação de 3 de janeiro resultou na captura de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. O episódio — descrito pela esquerda como “sequestro” e pela direita como “prisão” ou “captura” — evidenciou como um mesmo fato pode ser construído de maneiras radicalmente distintas conforme o posicionamento político do veículo.  Cada termo carrega uma teoria implícita sobre a legitimidade da ação, a soberania do Estado venezuelano e o papel dos Estados Unidos na região. A análise da cobertura revela como essas premissas estruturaram não apenas a linguagem, mas também os enquadramentos narrativos mobilizados por cada campo.

        

Perspectivas de direita

      

A cobertura da Revista Oeste, do Antagonista e da Crusoé sobre a prisão de Nicolás Maduro apontou para uma construção discursiva fundamentada em três operações analíticas: a criminalização do líder venezuelano, a legitimação da intervenção dos Estados Unidos e o estabelecimento de um contraponto ideológico com a esquerda brasileira. 

       

A criminalização de Maduro foi construída prioritariamente por meio de um enquadramento penal: termos como “narcoterrorismo”, “tráfico internacional” e “organizações criminosas” foram repetidos sistematicamente, enquanto a narrativa personalizou o poder ao destacar fortunas no exterior e o envolvimento de familiares e aliados, transformando o Estado venezuelano em uma rede de corrupção. Paralelamente, os Estados Unidos são reconhecidos como agentes legítimos da justiça. Decisões judiciais são descritas com termos que transmitem autoridade e firmeza, enquanto a operação de captura é apresentada como necessária e eficaz. A Crusoé levou esse enquadramento ao extremo por meio da dramatização: a descrição detalhada da cela, das algemas e dos gritos noturnos de Maduro no Centro Metropolitano de Detenção do Brooklyn foi contraposta aos luxos do Palácio de Miraflores, convertendo a prisão em um acerto de contas simbólico. O uso sistemático de “regime” em vez de “governo” reforçou a ilegitimidade do personagem ao longo de toda a cobertura. 

      

Em vez de problematizar questões como soberania ou direito internacional, a cobertura enfatizou a ideia de que a intervenção foi moralmente justificável e amplamente aceita: a substituição de ministros por Delcy Rodríguez, o esvaziamento da representação de Maduro na ONU, o hasteamento da bandeira americana e um suposto apoio majoritário na América Latina foram apresentados pelos veículos de imprensa como prova da legitimidade da operação. Esse enquadramento foi reforçado por uma construção narrativa prévia, especialmente visível nas análises da Crusoé, que antecipou a escalada da atuação norte-americana como desdobramento esperado, contribuindo para naturalizar o evento antes mesmo de sua ocorrência. Esse processo contribuiu para naturalizar a ação externa e posicionar os EUA como árbitro legítimo da ordem regional. 

      

Por fim, a cobertura também utilizou o tema da segurança pública como instrumento para a construção de narrativas na política interna. Ao destacar que partidos de esquerda defendem a soltura de Maduro, criou-se uma associação simbólica com a conivência perante os crimes relacionados ao narcotráfico. Essa estratégia, recorrente nas análises do Antagonista, ampliou a conexão entre a política externa e a disputa doméstica, reforçando a clivagem ideológica interna. Esse movimento reforça o posicionamento dos atores políticos em uma narrativa moral. A estrutura geral das matérias seguiu uma lógica heroica: a queda do “tirano”; a exposição de seus crimes; e, por fim, a legitimação da nova ordem —  apresentando a intervenção externa como solução inevitável diante de um sistema descrito como intrinsecamente criminoso.

      

Perspectivas de Esquerda

      

Embora Brasil de Fato e Le Monde Diplomatique compartilhem o enquadramento soberanista e a rejeição à intervenção norte-americana, observamos lógicas editoriais distintas. O primeiro opera em um registro de crítica conjuntural e de solidariedade política imediata, enquanto o segundo opera em uma chave de análise estrutural da ordem internacional. 

      

O periódico “Brasil de Fato” retratou Nicolás Maduro como um cidadão comum, chamando-o pelo nome e sem construir uma imagem negativa do líder venezuelano.  O periódico acompanhou a situação com atualizações frequentes e destacou sistematicamente o apoio de outros atores ao líder venezuelano, construindo uma narrativa de resistência. O periódico apresentou um cenário de ataques à soberania e de crimes de guerra durante a movimentação de sequestro, e apresentou o governo estadunidense como um ator imperialista, opressor e ilegítimo. Ressaltou também que a ONU condenou o sequestro como violação dos princípios do direito internacional. Vale notar que, antes do sequestro, o periódico já havia publicado material que questionava  a cobertura midiática de Maduro, o que revelou uma preocupação prévia com a construção da narrativa do personagem.

      

O Le Monde Diplomatique operou em um registro distinto. Também enquadrou o evento como ataque à soberania venezuelana e agressão unilateral sem aval de organismos internacionais, descrita como “terrorismo psicológico”, um novo patamar de intervenção e destruição dos limites civilizatórios, mas sua análise ancorou-se numa leitura estrutural do sistema internacional. Maduro foi retratado como um chefe de Estado que foi sequestrado e cujo país foi submetido a um crime que viola o direito internacional. O interesse do governo Trump nas reservas de petróleo venezuelanas foi explicitado como motivação subjacente, e a operação foi interpretada como sintoma de uma normalização da exceção imposta pelos EUA à ordem regional. Após a invasão, o periódico voltou-se para a resistência institucional e popular na Venezuela — os protestos “Maduro Livre” e a mobilização de comunas e milícias —, criticando, por fim, os analistas de esquerda que aceitaram rapidamente a narrativa de cooptação do governo Rodríguez pelos EUA como leitura simplista de um processo mais complexo

     

Perspectivas de Centro

     

No caso da Folha de S.Paulo, o periódico adotou, para o episódio, uma linha editorial crítica à violação do direito internacional, de incerteza quanto a um futuro democrático do país invadido, além de preocupações com as repercussões geopolíticas do evento no Brasil. Os editoriais e os colunistas acompanharam — estes últimos com divergências pontuais —, o enquadramento da cobertura midiática do jornal sobre a pauta internacional. Na cobertura imediata do evento, associado à violação do direito internacional, o jornal sugeriu o surgimento de uma nova doutrina “Donroe” na política externa estadunidense para a América Latina, combinando o primeiro nome do presidente norte-americano, Donald, com a política externa intervencionista conhecida como Monroe.

       

Após a invasão, o jornal voltou-se para a resposta da política externa brasileira diante de uma posição geopolítica mais fragilizada. A reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, a retomada da exploração do petróleo venezuelano pelas petrolíferas norte-americanas e a posse de Delcy Rodríguez foram acompanhadas com atenção crescente, à medida que a motivação econômica da operação tornava-se mais legível. Houve também cobertura do embate ideológico interno protagonizado pela esquerda, crítica à invasão, e postura intervencionista norte-americana, e pela direita bolsonarista, que expressou apoio contundente à ação americana. A Folha criticou a intervenção pela via do direito internacional e da geopolítica, mas não adotou a solidariedade política da esquerda nem o entusiasmo intervencionista da direita.

          

Os ataques ao Irã

          

Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã representaram o segundo grande episódio de política externa norte-americana, com repercussão expressiva na imprensa brasileira, no primeiro trimestre de 2026. Além da disputa narrativa em torno da soberania e da ilegalidade da operação e da flagrante violação do Direito Internacional, a cobertura do conflito com o Irã introduziu uma dimensão adicional: o posicionamento da esquerda brasileira diante de um regime que reprime violentamente sua própria população. Essa tensão entre antiamericanismo e crítica aos direitos humanos produziu enquadramentos mais heterogêneos do que os encontrados na análise anterior.

        

Perspectiva da ‘Esquerda’

      

O Le Monde Diplomatique Brasil adotou um posicionamento crítico à ofensiva militar contra o Irã, ao mesmo tempo em que inscreveu o conflito numa leitura estrutural da ordem internacional. O periódico interpretou o conflito como parte de uma crise mais ampla da ordem global, marcada pelo retorno do uso da força como instrumento político, pela transição da ordem internacional e pela emergência de dinâmicas multipolares. O periódico também enfatizou os impactos humanitários do conflito, destacando os efeitos sobre a população civil, o que reforça uma crítica à naturalização da violência. 

      

A análise foi crítica em relação aos Estados Unidos e a Israel, e a ideia de mudança de regime foi tratada como irrealista e historicamente ineficaz, com potencial de gerar instabilidade prolongada, além de ignorar a resiliência institucional do Estado iraniano. Na visão do periódico, o uso da força estaria associado à tentativa dos Estados Unidos de preservar sua influência em um contexto de declínio relativo de sua hegemonia, enquanto Israel busca manter sua superioridade estratégica na região. Por outro lado, não houve defesa editorial do regime iraniano. O Irã foi reconhecido como uma teocracia marcada por tensões internas e contradições políticas, incluindo protestos sociais e disputas pelo poder. No entanto, esses desafios não foram utilizados como justificativas aceitáveis para intervenções externas, o que estabeleceu uma distinção clara entre a crítica ao regime e a rejeição ao uso da força como instrumento de mudança política.

     

O Brasil de Fato operou sob registro distinto, com maior foco na postura brasileira. O periódico analisou a nova crise no Oriente Médio em duas publicações, ambas as quais priorizaram o posicionamento do Brasil em relação aos acontecimentos. O conflito foi abordado sob a perspectiva da política externa brasileira e do posicionamento do campo progressista global. A primeira matéria abordou eventos pré-conflito, destacando a declaração de Donald Trump instigando a população iraniana e ameaçou com sanções países que comercializassem com o Irã. Em seguida, incluiu o posicionamento brasileiro, citando a nota do Itamaraty de que caberia apenas aos iranianos decidir sobre o destino do país, o que entrou em conflito com a política de intervenção dos EUA e reafirmou o papel de mediador do Brasil e defensor de soluções pacíficas. A segunda matéria analisou as reações globais aos ataques, começando pelo Brasil, pela Rússia, pela China e por Cuba, com ênfase na reação brasileira e na nota do Itamaraty, o que confirmou o foco do jornal no cenário nacional.

      

Perspectiva do ‘Centro’

     

A cobertura da Folha de S.Paulo sobre os ataques ao Irã organizou-se em duas frentes complementares: o acompanhamento informativo dos desdobramentos do conflito e a tematização do posicionamento dos atores políticos brasileiros diante do episódio e das redes sociais. No primeiro, a cobertura concentrou-se na reação imediata do Itamaraty ao início do conflito, expressa por meio de uma nota de repúdio, e nas projeções sobre o impacto sistêmico do conflito. A reportagem destacou a preocupação do Itamaraty com uma possível proliferação de arsenais nucleares como estratégia de autodefesa. A análise levantou temores quanto à possibilidade de novas operações de mudança de regime sob a administração Trump, como uma potencial ameaça a Cuba. Além disso, a análise reforçou a certeza de um cenário internacional mais vulnerável.

     

As matérias opinativas do periódico exploram, por sua vez, o posicionamento da esquerda brasileira sobre o Irã em dois momentos distintos: durante a repressão aos protestos no Irã, que ocorreu antes dos ataques, e no período posterior. Na primeira, apenas PCdoB, Erika Hilton e Glauber Braga responderam, convergindo na crítica aos EUA, com Erika Hilton sendo a única a criticar diretamente o regime teocrático por violações de direitos humanos. Após o início do conflito, a Folha voltou o olhar para os setores que evitaram se posicionar sobre Teerã — como o MST — e para os que o defenderam ativamente — como o PCO. Um analista político citado pelo jornal descreveu esse padrão como “raciocínio dicotômico” entre imperialismo e não imperialismo, atribuindo à esquerda radical um antiamericanismo como princípio organizador. Houve também uma análise das reações nas redes sociais de diversos setores da sociedade no início da guerra no Irã. 

    

Perspectiva da ‘Direita’

    

A cobertura da Revista Oeste, do Antagonista e da Crusoé compartilhou o apoio às iniciativas dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a crítica ao posicionamento do Itamaraty, considerado excessivamente tímido. Mas, como no caso venezuelano, cada veículo ocupou essa posição comum por vias distintas.

    

A Crusoé concentrou sua crítica na omissão da diplomacia brasileira. Diante da nota do Itamaraty — que se absteve de condenar o regime iraniano pela repressão violenta aos protestos, responsável por mais de 43 mil mortos, segundo fontes internacionais —, o veículo classificou o posicionamento como um “crime sem autor”. O argumento central foi que a defesa da soberania pelo direito internacional é incoerente quando a própria população do país é alvejada pelo próprio governo, o que constituiu uma defesa da interferência externa como instrumento de proteção de direitos humanos — moldura que o veículo já havia utilizado, de forma análoga, na cobertura do caso venezuelano. O Antagonista privilegiou a instrumentalização doméstica. A entrevista com o senador Hamilton Mourão serviu de veículo para associar o governo Lula à cumplicidade com regimes ditatoriais: Mourão classificou o presidente como “protetor e admirador” de teocracia e descreveu o humanitarismo de esquerda como retórica para “enganar” a opinião pública. O padrão é o mesmo identificado na cobertura venezuelana — a política externa como extensão da disputa política interna.

    

A Revista Oeste operou num registro mais geopolítico, apresentando uma narrativa de defesa desta operação, classificando-a como uma “oportunidade histórica” para derrubar o regime iraniano e promover uma mudança estrutural capaz de ‘pacificar’ o Oriente Médio, com o objetivo de pôr fim a décadas do que chamam de extorsão e terrorismo patrocinados pelo Estado. Simultaneamente, a revista criticou o que chamou de “vitória da desinformação”, ao afirmar que Teerã já está completamente rendido aos inimigos, mas que utiliza a manipulação da narrativa para convencer seu povo de que está vencendo a guerra, mantendo o apoio e o controle da população. A crítica da Revista focou-se também na postura iraniana no conflito, destacando que os EUA enviaram a Teerã uma proposta de cessar-fogo nas últimas semanas. O Irã, por sua vez, respondeu com uma contraproposta que condicionava o fim do conflito a uma série de exigências. O periódico considerou essa contraproposta uma tentativa de “redesenhar as regras do jogo” com termos inaceitáveis, classificando-os como chantagens que o Ocidente não deveria aceitar em momento algum.

     

Considerações finais

    

A análise da cobertura dos dois episódios — a captura de Maduro e os ataques ao Irã — revela um padrão consistente: a política externa norte-americana funcionou, no noticiário brasileiro, menos como objeto de análise do que como espelho das clivagens políticas domésticas. À direita, os eventos foram sistematicamente enquadrados como vitórias da ordem contra o caos, legitimando a intervenção dos EUA e instrumentalizando o tema para atacar o campo progressista nacional. À esquerda, prevaleceu o vocabulário da soberania, do imperialismo e da ilegalidade, com ênfase nas violações do direito internacional. No centro, a Folha de S.Paulo oscilou entre a crítica normativa às ações norte-americanas e a cobertura das reações dos atores políticos internos, revelando uma posição menos coesa e mais sensível às pressões do debate doméstico. Em todos os casos, o referente empírico — o acontecimento internacional — foi rapidamente subordinado às predileções  narrativas de cada veículo.

A análise do GT Imprensa e Política Externa sugere que a fragmentação das narrativas sobre política externa é um componente ativo da disputa política interna, ao construir versões radicalmente distintas dos mesmos eventos. Os veículos analisados revelam que o debate sobre os interesses do Brasil no mundo é indissociável das disputas ideológicas domésticas. Os episódios examinados demonstram que o alinhamento editorial dos veículos funciona como uma variável explicativa consistente dos enquadramentos adotados, independentemente do tema em pauta. Esse padrão reforça a pertinência de uma agenda sistemática de monitoramento da cobertura da política externa brasileira

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