O Império ataca pelas redes

Ano VII, nº 132, 10 de Setembro de 2026

Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva, Camila Furlan Patricio, Giovanna Camily Rossato Gomes, Júlia Almeida Reis, Rafael Antonio Novaes Bevilacqua (Imagem: Official White House Photo by Joiyce N. Boghosian)

A eleição brasileira de 2026 emerge não apenas como um pleito doméstico, mas como um ponto de inflexão para os rumos da influência estadunidense sobre a América Latina. A capacidade das instituições brasileiras de regular a atuação das big techs e de resguardar a integridade do processo eleitoral torna-se condição não apenas para a soberania democrática do país, mas para a manutenção de sua autonomia estratégica frente às pressões concorrentes das duas potências que disputam a ordem global.

Introdução

Nós últimos anos, a disputa pela soberania deixou de se restringir apenas às fronteiras físicas do Estado para atingir também o espaço digital. Enquanto os Estados Unidos avançam no entendimento das big-techs como braço do poder e segurança estatal, influenciando milhares de indivíduos via redes sociais em períodos cruciais, o Brasil replica com instrumentos de regulação às grandes plataformas e empresas de inteligência artificial em nome da proteção do processo democrático.

O embate entre EUA e China pela influência na América Latina insere o Brasil em um cenário de disputa da opinião pública, com marcadas interferências imperiais ligadas a imposição de tarifas, sanções, pressão tecnológica e apoio a candidaturas de direita em meio à chamada “Doutrina Donroe”.  

Nesse sentido, aposta-se na eleição de 2026 não somente como um pleito de repercussões internas, mas como uma oportunidade decisiva: o maior país da região se torna alvo do governo Trump, em meio à ofensiva extremista de direita na região.

Big techs, big business

Em 16 de agosto de 2026, o presidente Donald Trump emitiu o memorando intitulado “Expanding Capabilities to Combat Transnational Cyber-Enabled Crime”, formalizando uma política de engajamento operacional direto entre o governo dos EUA e as big techs. Sob a justificativa de combater ameaças cibernéticas transnacionais promovidas por Organizações Criminosas Facilitadas pelo Meio Cibernético (CE-TCOs, na sigla em inglês), a diretiva fundamenta-se na premissa de que a inovação, a escala e a celeridade das empresas privadas norte-americanas oferecem uma vantagem ofensiva estratégica que foi historicamente subaproveitada pela segurança nacional.

Gerido pelo National Coordination Center (NCC), o programa autoriza empresas privadas previamente qualificadas a realizarem Operações de Vigilância Cibernética (Cyber Surveillance Operations) e Operações de Efeitos Cibernéticos (Cyber Effects Operations) — isto é, ações direcionadas à neutralização, degradação ou interrupção de infraestruturas cibernéticas adversárias — sob a supervisão e o direcionamento direto do Departamento de Justiça e do Departamento de Segurança Interna.

A medida impõe uma salvaguarda rígida de controle pelo Estado hegemônico sobre os dados de terceiros que circulam pelas redes dos monopólios estadunidenses. De acordo com o memorando, as empresas devem firmar contratos específicos, sujeitar-se a processos de triagem e, se exigido, manter garantias financeiras de, no mínimo, um milhão de dólares em caução, passíveis de perda caso ocorra descumprimento contratual. Adicionalmente, as operações não podem apresentar “Resultados Críticos” (Critical Outcomes, como consta no documento), definidos como perda de vidas, lesões graves ou ações que configurem uso da força ou ataque armado conforme o direito internacional.

As normas brasileiras

Em contraposição ao modelo de regulação das big techs, que foca na delegação de capacidades organizativas operacionais, a abordagem brasileira adota uma perspectiva essencialmente regulatória, voltada à prevenção e contenção de danos ao ambiente democrático. Por meio da portaria assinada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques — editada em 29 de julho de 2026 e com prazo final de adequação estipulado também para 16 de agosto de 2026 —, a Justiça Eleitoral passou a exigir planos de conformidade detalhados para o pleito de 2026 de todas as provedoras de aplicação com mais de 5 milhões de usuários ativos (como Meta, Google, X, TikTok e Kwai) e fornecedoras de Inteligência Artificial (como OpenAI e Anthropic).

Esses planos devem trazer cronogramas e metodologias explícitas sobre como as empresas atuarão no combate à propaganda irregular, na remoção de conteúdos notoriamente falsos e na identificação de perfis falsos, robôs e redes de comportamento inautêntico. O regramento eleitoral também estabelece parâmetros rigorosos para o cumprimento ágil de decisões da Justiça Eleitoral, como ordens de remoção e suspensão de contas, e obriga as plataformas de IA generativa a implementarem barreiras para evitar a produção de conteúdos de recomendação de voto ou que configurem violência política de gênero contra candidatas.

Diante disso, deve-se destacar que a portaria insere-se em um contexto mais amplo de modulação do comportamento eleitoral brasileiro. Segundo Britto (2026), a aplicação intensiva de mecanismos de coleta de dados e microtargeting  (técnica de marketing e comunicação política baseada na coleta e análise maciça de dados de agrupamentos individuais em segmentos específicos)  viabiliza o “lobby hipnótico”. Este fenômeno consiste na exploração de vulnerabilidades individuais dos usuários por algoritmos treinados, a fim de moldar comportamentos e preferências do eleitorado de maneira sutil e discreta, impedindo que o eleitor perceba interferências no processo decisório (Britto, 2026).

Conforme pontua o autor, o alcance do poder das big techs expressa-se também na capacidade de intervenção ostensiva no Poder Legislativo, conforme demonstrado pelas ações de corporações digitais contra projetos de regulamentação como o PL nº 2.630/2020. Durante tais procedimentos, as Big Techs valeram-se de disparos em massa e centralização de seus mecanismos de busca para influenciar a opinião pública e criar demanda da população para pressionar o Congresso Nacional em defesa de seus próprios interesses econômicos (Britto, 2026).

Ademais, de acordo com Araújo e Poças (2026), o avanço recente de novas ferramentas digitais — como a Inteligência Artificial generativa, os conteúdos sintéticos manipulados (deepfakes) e a denominada “IA afetiva” — representa um risco elevado para a autenticidade e a integridade dos pleitos eleitorais. Esta última, em especial, atua como um elemento agravante na modulação do eleitorado, visto que seus sistemas algorítmicos são desenhados para interagir continuamente com os usuários, construindo laços de confiança e intimidade ao longo do tempo. A mão pesada do Império 

Os Estados Unidos conquistaram alianças na extrema-direita de quase toda a América Latina e Caribe. O Brasil é ainda um dos poucos países da região a não possuir um governo diretamente alinhado a eles. 

A doutrina Donroe faz referência direta a chamada doutrina Monroe de 1823, uma estratégia de política externa dos Estados Unidos que tinha como máxima “A américa para os americanos” e visava manter o continente longe das influências européias . Com o retorno de Trump à presidência, o governo norte americano deixou claro que a região seria prioridade na sua política de segurança. 

As ações começaram de fato em Janeiro de 2026, após o sequestro ao ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, primeira intervenção direta dos Estados Unidos em território latino-americano. Nos meses seguintes, a estratégia da Casa Branca utilizou o pretexto do narcotráfico para justificar interferências na região. Neste contexto, em agosto último foi criada uma força-tarefa para o Cone Sul, a fim de combater supostos cartéis de drogas . Em seguida, houve a classificação do PCC e do CV como grupos terroristas pelo Departamento de Estado, o que tensiona as relações políticas e diplomáticas entre os EUA e o Brasil. 

Com a posse de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, também em agosto, vimos o cerco de influência norte-americana se fechar contra o Brasil. 

Neste sentido, a China aparece como o principal desafio e motivo de intervenções de Washington. Desde o início dos anos 2000, o gigante asiático consolidou-se como uma das principais parceiras comerciais dos países da região, aumentando sua presença econômica e ocupando espaços que historicamente ocupados pelos Estados Unidos. No diagnóstico feito por Marco Rubio,dias antes de assumir o cargo de Secretário de Estado, a China representa a maior ameaça à hegemonia regional estadunidense na região. 

Assim, a atuação Washington no continente não pode ser compreendida apenas como uma estratégia de combate ao narcotráfico ou de proteção da segurança regional. Ela está inserida em uma disputa geopolítica mais ampla, na qual a Casa Branca busca recuperar sua influência sobre uma região considerada historicamente como seu quintal. 

A opinião pública em relação a disputa EUA China

A disputa entre Estados Unidos e China também começa a repercutir na percepção da sociedade brasileira sobre a inserção internacional do país. Uma pesquisa do PoderData, realizada entre 18 e 20 de julho de 2026, mostra que 52% dos brasileiros preferem que o Brasil se aproxime comercialmente da China, enquanto 35% optam pelos Estados Unidos. O resultado representa uma inversão em relação a 2025, quando 59% defendiam uma maior aproximação com Washington e apenas 32% preferiam Pequim. A mudança ocorre em um contexto de deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos, marcado pela adoção de tarifas e pelo aumento das pressões políticas de Washington sobre Brasília.

O dado é particularmente relevante porque ocorre enquanto a China amplia sua centralidade nas relações econômicas brasileiras. Segundo a mesma pesquisa, entre agosto e novembro de 2025, as exportações brasileiras para a China cresceram 28,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as destinadas aos Estados Unidos recuaram 25,1%. Nesse cenário, a preferência por uma maior aproximação com Pequim pode ser compreendida não necessariamente como defesa de um alinhamento automático, mas como expressão da percepção de que a diversificação das relações comerciais oferece ao Brasil maiores margens de autonomia diante da crescente rivalidade entre as duas potências. Assim, a disputa pela influência sobre o Brasil ultrapassa as relações entre governos e alcança também a opinião pública. A preferência registrada pelo PoderData reforça a percepção de que o país deve preservar sua autonomia e evitar um alinhamento automático com qualquer uma das duas potências.

Considerações finais

O texto revela que a soberania brasileira em 2026 não está sendo disputada apenas nas urnas, mas em um terreno mais amplo e menos visível: o das plataformas digitais, dos fluxos comerciais e da formação de alianças regionais. A Doutrina Donroe é a formalização de um método em que a intervenção militar direta não é mais necessária para produzir efeitos sobre a autodeterminação de um país. Tarifas, sanções regulatórias, capilaridade das big techs e apoio político explícito a candidaturas alinhadas cumprem, hoje, a função da intervenção de forma menos explícita, mas mais eficiente.

A comparação entre os modelos de resposta às big techs expõe duas concepções distintas sobre o papel do Estado diante do poder corporativo digital. Enquanto o memorando de Trump transforma as plataformas em braços auxiliares da segurança nacional estadunidense, a portaria do TSE busca justamente o oposto: conter a capacidade dessas mesmas empresas de interferir no processo democrático, impondo-lhes obrigações de transparência e responsividade perante a Justiça Eleitoral. Essa assimetria reflete a posição estrutural que cada Estado ocupa na arquitetura de poder das big techs: os Estados Unidos como sede e beneficiário direto dessas corporações, o Brasil como mercado consumidor e, portanto, como território a ser regulado externamente. 

A eleição brasileira de 2026 emerge não apenas como um pleito doméstico, mas como um ponto de inflexão para os rumos da influência estadunidense sobre a América Latina. A capacidade das instituições brasileiras de regular a atuação das big techs e de resguardar a integridade do processo eleitoral torna-se condição não apenas para a soberania democrática do país, mas para a manutenção de sua autonomia estratégica frente às pressões concorrentes das duas potências que disputam a ordem global.

É sintomático que a mesma retórica de “defesa da soberania nacional”, mobilizada pelo campo bolsonarista e por seus aliados regionais, sirva justamente para legitimar a interferência que supostamente combate. Milei ataca instituições brasileiras em nome de uma suposta liberdade que o próprio establishment conservador latino-americano relativiza sempre que a pressão vem de Washington. Essa inversão não é acidental: ela nos mostra que a soberania, nesse discurso, não é um valor universal, mas um instrumento seletivo, acionado contra adversários e descartado quando o interesse é geopolítico e favorece o próprio campo.

O Brasil segue como a última economia de peso na região a manter relações multilaterais sem alinhamento automático a Washington. Essa posição decorre de um cálculo estratégico que incomoda tanto o governo Trump, que vê no país o obstáculo final para fechar o cerco continental contra a influência chinesa, quanto os setores internos que apostam na chegada de um governo mais alinhado aos EUA como atalho para vantagens tarifárias e políticas. Os números da pesquisa Quaest tornam esse incômodo mensurável: quase metade da população já desconfia da interferência externa no processo diante de pressões externas, e a maioria do eleitorado bolsonarista não apenas antecipa a interferência, como a deseja, torcendo abertamente para que ela beneficie seu candidato. Isso inverte a lógica tradicional de defesa da soberania popular já que não se teme a interferência, aposta-se nela. 

Assim, a eleição de outubro de 2026 não decidirá apenas quem governará o Brasil pelos próximos anos, mas testará até que ponto a arquitetura de pressão econômica, tecnológica e discursiva construída por Washington ao longo do ano é capaz de moldar, por vias indiretas, o resultado de uma democracia que resiste em ser mais uma peça no tabuleiro da Doutrina Donroe.

Referências

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