Ano VII, nº 126, 4 de junho de 2026
Por Ana Beatriz Santos, Bárbara Vorussi, Ester Gonzalez de Souza, Giovanna Calegaretti, Guilherme Breyer, Natália Martins, Pedro Henrique Cação, Sarah Gomes, Leticia Lelis e Vivian Rocha (Imagem: Wikimedia Commons)
Em meio ao avanço do protecionismo e das tensões geopolíticas, China e Rússia reforçam a defesa de uma ordem econômica multipolar e do multilateralismo.
Na primeira semana de maio de 2026, Xi Jinping, a convite do presidente Vladimir Putin, viajou a Moscou para as celebrações do 80º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica da União Soviética. Em uma declaração feita por escrito, Xi destacou a verdadeira amizade entre Rússia e China e afirmou que a relação entre os países também contribui para a “manutenção da estabilidade estratégica global e para a promoção de um mundo multipolar igualitário e ordenado”. Dias depois, manifestações do gênero, que primam pela manutenção do multipolarismo, do multilateralismo econômico e da estabilidade nas relações comerciais e econômicas globais, se aprofundaram ainda mais, revelando a real intenção de ambos os atores no cenário internacional.
Apenas quatro dias após a visita de Donald Trump à China, o presidente russo chega a Pequim para uma nova rodada de negociações com Xi Jinping, reforçando o papel da parceria sino-russa como eixo estratégico em meio às atuais tensões geopolíticas e econômicas globais. Durante o encontro realizado em 20 de maio de 2026, os dois líderes reafirmaram o aprofundamento da cooperação bilateral em áreas consideradas estratégicas, como comércio, energia, logística, inteligência artificial, inovação tecnológica e integração produtiva euroasiática. Além disso, foram assinados mais de vinte acordos intergovernamentais e corporativos envolvendo infraestrutura ferroviária transfronteiriça, cooperação nuclear, desenvolvimento urbano, propriedade intelectual, comércio sustentável, educação e pesquisa científica. No plano político-diplomático, Rússia e China aprovaram uma declaração conjunta em defesa da construção de uma ordem internacional multipolar e de um “novo tipo de relações internacionais” baseado no direito internacional e nas disposições da Carta da ONU, reafirmando apoio ao livre comércio, ao multilateralismo e ao fortalecimento de mecanismos alternativos de governança internacional, como os BRICS, a Organização para Cooperação de Xangai (SCO) e a articulação entre a União Econômica Eurasiática e a Iniciativa Cinturão e Rota.
Nas declarações feitas à imprensa após as conversações, Xi Jinping e Vladimir Putin enfatizaram que as relações sino-russas atingiram um “novo marco histórico” e passaram a desempenhar um papel de “estabilidade” diante das transformações da ordem internacional contemporânea. Xi criticou diretamente o unilateralismo, o hegemonismo e as tentativas de restabelecer uma “lei da selva” nas relações internacionais, defendendo reformas na governança global e uma ordem mundial “mais justa e multipolar”. Putin, por sua vez, destacou que Rússia e China construíram um sistema de comércio bilateral “protegido de influências externas”, baseado crescentemente em transações realizadas em rublos e yuans, reduzindo a dependência do dólar e das estruturas financeiras ocidentais.
Embora evidenciem o desejo de aprofundamento da coordenação estratégica entre Moscou e Pequim, tais encontros destacam um movimento mais amplo e global: a tentativa de ambos os países de se posicionarem na ordem global como defensores do multilateralismo econômico, sem abandoná-lo, em um cenário marcado pelo avanço de medidas unilaterais, disputas tarifárias e não tarifárias, políticas de contenção tecnológica e crescente fragmentação da economia internacional. Isto é, defendem reformas baseadas em instituições e regras já existentes, porém, sob sua liderança.
Nesse contexto, em meio às tensões geopolíticas e às transformações recentes das cadeias produtivas globais, a Organização Mundial do Comércio (OMC) também tem defendido reformas, evidenciando a necessidade de uma “reglobalização, isto é, a diversificação das redes produtivas e comerciais para reduzir dependências excessivas de grandes potências e ampliar a participação de novas regiões na economia global. Essa declaração foi importante, pois revela que a própria Organização compreende o cenário de instabilidade global como sintoma da insegurança provocada pelas potências ocidentais nos últimos anos, sendo necessária uma reconfiguração.
Partindo dessa perspectiva, a produção, os investimentos e os fluxos comerciais estão sendo reorganizados por meio da formação de novos polos regionais, da digitalização da economia e da busca por maior resiliência das cadeias produtivas. Nesse sentido, ganha força a estratégia de diversificação de parceiros e fornecedores, reduzindo a concentração excessiva de dependências econômicas e ampliando a participação de novas regiões e economias emergentes nos circuitos globais de produção e comércio.
Em concordância, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que a “globalização não está morta, está se reconfigurando” e explica em sua análise baseada nos dados de Comércio em Valor Agregado (Trade in Value Added – TiVA) que as cadeias globais de valor permanecem fortemente integradas, em razão da participação de insumos estrangeiros na produção mundial, que continua elevada. Ao mesmo tempo, observa-se que a redução da concentração excessiva em poucos parceiros comerciais e o surgimento de novas conexões produtivas entre diferentes regiões do mundo estão em curso. Tal dinâmica, por conseguinte, reflete a busca de empresas e governos por maior resiliência diante de crises geopolíticas, interrupções logísticas e disputas comerciais.
Essas reações se explicam diante das medidas dos EUA e da União Europeia, que se mantêm impondo barreiras tarifárias e não tarifárias, resultando em um baixo nível de cooperação real e prejudicando sistematicamente as economias (desenvolvidas e em desenvolvimento), seja por meio da eclosão de conflitos com impactos sobre as cadeias logísticas internacionais, seja pela instabilidade gerada pela aplicação recorrente de tarifas, sanções e outras barreiras ao comércio.
A intensificação de uma conduta hostil e competitiva entre as potências, materializada em 2026 pela guerra deflagrada pelos EUA e Israel contra o Irã, promoveu uma disrupção imediata de setores essenciais da economia global. O epicentro dessa crise, hoje, é o Estreito de Ormuz, rota parcialmente bloqueada pelo conflito e por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Para países agroexportadores, como o Brasil, o impacto desse conflito tem sido devastador, pois o Irã é um fornecedor crucial de gás natural e ureia, matérias-primas insubstituíveis para os fertilizantes nitrogenados. O agronegócio brasileiro, em particular, por ser estruturalmente dependente de fertilizantes estrangeiros, importando cerca de 85% do total que utiliza, foi gravemente impactado pelo risco de desabastecimento para as safras de 2026/2027. A escassez mundial provocou um salto drástico nos custos de produção, com a ureia encarecendo mais de 46% em apenas três semanas de conflito, diminuindo as margens de lucro dos produtores do Sul Global.
Além dos significativos impactos causados por guerras e conflitos internacionais, o comércio internacional enfrenta um cenário de incerteza devido à frequente instabilidade e às constantes ameaças na aplicação de tarifas, sobretudo lideradas pelo protecionismo dos Estados Unidos. Como forma de coerção política, o governo de Donald Trump aplicou um “tarifaço” de 50% sobre os produtos brasileiros a partir do segundo semestre de 2025. Apesar dos esforços diplomáticos, como a viagem do presidente Lula aos EUA, o governo estadunidense não eliminou totalmente essas barreiras, concedendo apenas isenções estratégicas a cerca de 694 itens (como peças de aviação e celulose) dos quais a sua própria indústria necessitava urgentemente, mantendo a punição sobre o restante da pauta nacional.
Essa beligerância comercial se intensificou em 2026. Mesmo após a Suprema Corte dos EUA derrubar a base legal do primeiro tarifaço em fevereiro, Trump invocou a Lei do Comércio de 1974 para instituir rapidamente novas tarifas globais (entre 10% e 15%), culminando nas taxas do chamado “Dia da Libertação” aplicadas em abril. Paralelamente à agressão direcionada a parceiros emergentes e europeus, os EUA intensificaram sua guerra comercial contra a China, aplicando tarifas que chegaram a 145%, enquanto tentam, unilateralmente, forçar acordos que isentem e beneficiem a inserção de seus próprios produtos agrícolas no mercado asiático. Essa dinâmica dupla de taxar os parceiros e proteger a própria agricultura gera reflexos diretos e prejudiciais para o Sul Global e para os países agroexportadores, que perdem competitividade e espaço no mercado.
Contudo, essa postura protecionista não se restringe à agressividade tarifária dos EUA. A União Europeia tem adotado uma estratégia distinta, mas com impactos igualmente prejudiciais aos países em desenvolvimento: a imposição de severas barreiras não tarifárias. A UE frequentemente recorre a exigências regulatórias rigorosas que acabam atuando como um protecionismo velado, blindando sua economia doméstica contra os produtos mais competitivos do Sul Global. Essa estratégia regulatória afeta diretamente as tentativas de aproximação birregional, um cenário que se torna evidente ao analisarmos o marco mais emblemático das relações entre a Europa e o Cone Sul: o Acordo Mercosul-UE.
O Acordo Mercosul-UE, que entrou em vigor em primeiro de maio de 2026, constitui-se como uma das maiores áreas de integração econômica do mundo. Contudo, a efetividade do acordo, negociado durante mais de 20 anos, depende também das condições de acesso aos mercados dos dois blocos e, apesar das previsões otimistas para o Mercosul e a economia brasileira, a constante implementação de barreiras não tarifárias pela UE tem apresentado um desafio para a implementação do acordo.
Ainda em maio de 2026, o bloco europeu aplicou vetos a produtos que apresentam inadequação às normas da UE, como o recente veto à carne brasileira por infringir medidas sanitárias. Frisa-se que medidas como essas se intensificam em períodos pré-eleitorais ou de instabilidade interna, o que repercute na cooperação internacional entre os blocos econômicos.
As barreiras não tarifárias assumem papel relevante no curso da liberalização comercial, pois exigências sanitárias, fitossanitárias, ambientais e técnicas podem limitar a entrada de produtos do Mercosul no mercado europeu. Embora sejam justificadas pela proteção da saúde pública, da segurança alimentar e do meio ambiente, essas medidas podem elevar os custos de adequação dos exportadores e reduzir parte dos benefícios comerciais previstos pelo acordo.
Esse movimento está inserido em uma tendência mais ampla de transformação da política comercial internacional. Segundo estudo do Federal Reserve Bank of St. Louis, governos têm substituído instrumentos amplos, como tarifas generalizadas, por restrições mais direcionadas a setores estratégicos, utilizando controles regulatórios, exigências técnicas e licenças específicas. Essas medidas são frequentemente justificadas por preocupações relacionadas às cadeias de suprimento, transferência de tecnologia e tensões geopolíticas, mas acabam concentrando seus impactos em setores de alto valor econômico e tecnológico.
Assim, apesar de as barreiras não tarifárias serem empregadas sob justificativa, elas também podem expressar uma relação de protecionismo disfarçado, para proteger a economia doméstica da concorrência estrangeira. Essa aplicação também pode estar em linha com uma frequente e duradoura oposição política de grupos específicos no seio dos 27 países-membros da UE, tais como França, Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda. Parte dos agricultores europeus desses países, por exemplo, mantém-se crítica ao acordo alegando concorrência desleal com a abertura do mercado para produtos produzidos na América do Sul, pois estes apresentam um custo de produção reduzido e normas de produção mais brandas. Isso suscitaria, por exemplo, a aplicação mais rígida de medidas sanitárias, como as sobre a carne brasileira já citadas, mesmo que atendam a protocolos e regras internacionalmente pactuados, o que, no fundo, se mostra mais restritivo que o necessário e, portanto, uma barreira injustificada ao comércio.
Além dos vetos sanitários já aplicados a produtos brasileiros, novas exigências regulatórias da União Europeia vêm ampliando os desafios para a implementação do acordo Mercosul-UE. Em maio de 2026, um levantamento do Ministério da Agricultura identificou que 147 pesticidas autorizados no Brasil são proibidos no mercado europeu, além de registrar 306 casos em que resíduos químicos presentes em produtos brasileiros ultrapassavam os limites de detecção aceitos pela UE. O próprio governo brasileiro avaliou que esse cenário representa uma vulnerabilidade para as exportações nacionais, devido ao endurecimento das exigências sanitárias e fitossanitárias europeias.
Esse contexto evidencia como a União Europeia permanece praticando esse tipo de medida e postura, mesmo reforçando seu compromisso com a liberalização comercial, cujo maior exemplo recente é o da entrada em vigor do Acordo Mercosul-UE, que pode ser afetado com a adoção de regras mais rígidas de acesso ao mercado europeu.
Assim sendo, diante da crescente fragmentação e instabilidade do sistema internacional, China e Rússia buscam liderar ativamente o processo de transição para uma nova governança global (embora não estejam isentas de contradições em seus comportamentos em outras esferas). Esse esforço conjunto ultrapassou a esfera retórica e assumiu um caráter formal em maio de 2026, quando os líderes de ambos os países aprovaram, em Pequim, uma declaração conjunta documentando o compromisso de construir uma ordem multipolar e defender o multilateralismo econômico. Trata-se de uma resposta estratégica e direta à postura dos países
desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos e a União Europeia, cujas ações recentes permanecem ancoradas em nacionalismos e protecionismos.
Note-se que tanto as afirmações da China e da Rússia quanto as da OMC e da OCDE aduzem que novos atores assumam protagonismo, para que haja maior estabilidade nos fluxos do comércio global e na aplicação das regras internacionais. Isso significa que mesmo duas organizações internacionais construídas sob a liderança dos países do Norte global (Estados Unidos e países europeus) defendem uma mudança de cenário, uma deconcentração do comércio global nesses atores e que a solução que deve ser vislumbrada virá tanto por atores estatais quanto não estatais. Nesse sentido, a instabilidade gerada por conflitos bélicos, bem como medidas tarifárias e não tarifárias capitaneadas pelos atores tradicionais responsáveis pela ordem global construída pós-1945 tem suscitado um rearranjo nas relações econômicas globais no século XXI, a ser liderado por outros atores, o que denota a atual disputa por quem capitaneará esse processo.
