Ano VII, nº 124, 07 de Maio de 2026
Por Caio Vinicius Higa, Nicolás Alejandro Malinovsky, Thalita Santos Bernaldo e Robson SIlva (Imagem: Pixabay)
Introdução
Os impactos da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã vêm tendo efeitos cumulativos na produção e no fornecimento de petróleo, gás e seus derivados.Em análises anteriores, discutimos o uso das Reservas Estratégicas e os impactos do bloqueio do Estreito de Ormuz. No atual contexto, observa-se uma combinação de choques de oferta e respostas ce política energética para lidar com uma nova fase de instabilidade prolongada.
Em seu último relatório trimestral, divulgado em abril, a Agência Internacional de Energia (AIE) mostra como o choque na oferta – via interrupção parcial de fluxos somada à incerteza sobre volumes futuros – e os danos à infraestrutura – incluindo instalações de liquefação, terminais de exportação, dutos e ativos portuários – tem aumentado a volatilidade dos preços e adiado a estabilidade da oferta do gás.
No curto prazo, os impactos concentram-se em danos à infraestrutura energética e à segurança das rotas marítimas. O monitoramentos da IEA mostra elevação significativa no risco de transporte em chokepoints estratégicos, afetando custos de frete e seguros marítimos. O fluxo no Estreito de Ormuz saiu de uma média de 84 navios por dia entre janeiro e fevereiro de 2026 para apenas 5 navios em 26 de abril. Já no médio e longo prazo, os efeitos tendem a ser mais difusos, incluindo o redirecionamento de fluxos comerciais, investimentos em rotas alternativas e reconfiguração das cadeias de suprimento. Estimativas da Rystad Energy apontam que custos de reconstrução e restrições na cadeia de equipamentos podem elevar de maneira substancial os investimentos necessários para restaurar a capacidade produtiva na região, podendo ultrapassar os US$50 bilhões.
Por sua vez, a economia mundial está sendo abalada e os efeitos se manifestam principalmente por meio do sistema energético global. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que, se o conflito chegar a um termino a curto prazo, o crescimento mundial deverá ser de 3,1% em 2026, uma queda de 0,2% e um ligeiro aumento da inflação geral, que retomaria sua trajetória descendente em 2027 (FMI, 2026). No entanto, se o conflito se prolongar, o impacto poderá ser enorme: o pior cenário prevê um crescimento de somente 2% em 2026 e a inflação geral ficaria ligeiramente acima de 6% em 2027 (FMI, 2026), uma queda que lembra episódios de contração como a crise financeira de 2008 e a pandemia de 2020.
Outro elemento relevante é a heterogeneidade da dependência energética dos países que importam petróleo e gás do Oriente Médio que atinge de maneira mais severa países do sudeste asiático e África. Assim, os impactos do conflito afetam as regiões de maneira diversa que tem respondido com limites de preço, subsídios aos combustíveis, tributação, entre outras medidas. Ao mesmo tempo, mudanças institucionais no interior da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – com a sinalização de saída dos Emirados Árabes Unidos — tendem a produzir efeitos significativos no longo prazo ao alterar expectativas sobre coordenação da oferta.
Nesse contexto, a guerra ao Irã culmina em mudanças com potencial transformador na estrutura da economia política internacional do petróleo, com impactos na infraestrutura de produção e a necessidade de sua reconstrução no Oriente Médio, crise de abastecimento na Ásia e potencial de acelerar a transição energética na Europa.
Os impactos sobre a infraestrutura no Oriente Médio e a busca por novas rotas
A infraestrutura energética do Oriente Médio sofreu danos físicos e operacionais extensos decorrentes da agressão perpetrada por EUA e Israel e a consequente resposta iraniana, o que comprometeu substancialmente a capacidade de produção e escoamento na região. Nas primeiras semanas do conflito, mais de 60 ativos estratégicos foram atingidos. No Catar, bombardeios ao complexo de Ras Laffan destruíram os trens de liquefação 4 e 6, cortando 17% da capacidade exportadora de GNL (12,8 Mt/ano). A recuperação dependerá da disponibilidade global de turbinas e componentes críticos, com cronograma estimado de 3 a 5 anos. Na Arábia Saudita, ataques à estação de bombeamento do oleoduto Leste-Oeste reduziram em 700 mil b/d o escoamento terrestre alternativo, enquanto paralisações parciais em Manifa e Khurais retiraram 300 mil b/d da produção de cada campo.
O território iraniano também registrou perdas estruturais severas. Diversas fases do campo de South Pars foram atingidas, resultando na paralisação de 944 mil boe/d. Instalações de processamento em Assaluyeh sofreram danos que comprometem cerca de 12% da produção de gás natural do país. Paralelamente, depósitos de distribuição de combustíveis, como os terminais de Shahid Dolati e Shahr-e Rey, tiveram dezenas de tanques de armazenamento destruídos. Em outros países do Golfo, os impactos variaram em escala. O Bahrein enfrentou avarias críticas na refinaria de Sitra, inutilizando metade de sua capacidade de processamento de 448 mil b/d, um ativo que havia sido recém-modernizado com um projeto de US$ 7 bilhões. Nos Emirados Árabes Unidos, o campo de gás de Shah e o complexo de processamento de Habshan relataram incêndios e interrupções operacionais. O Iraque, por sua vez, lidou com a paralisação do campo de Rumaila e reduziu sua produção em 1 milhão b/d, uma retração motivada por ataques aéreos e pela saturação dos limites de armazenamento decorrente da impossibilidade de exportação pelo Golfo Pérsico.
A soma dos custos diretos para o reparo da infraestrutura energética danificada em toda a região do Golfo foi projetada em US$ 58 bilhões. Este valor não abrange os danos contínuos e não contabiliza as receitas cessantes acumuladas pelas nações produtoras. O Irã, individualmente, possui estimativa de US$ 19 bilhões em necessidades de reparos. O Catar projeta perdas de receitas que podem atingir US$ 20 bilhões em decorrência do longo período de inatividade de seus trens de liquefação. Além das perdas físicas, a obstrução da passagem marítima e os danos portuários forçaram cortes de produção regionais massivos. O Iraque reduziu drasticamente sua produção nacional devido à ausência de vias de exportação, o que prejudicou os fluxos de receita fundamentais para o orçamento estatal. A crise logística deixou centenas de navios retidos e multiplicou os prêmios de seguro contra riscos de guerra em 300%. A instabilidade transbordou para os fluxos regionais de gás, com Israel interrompendo preventivamente as operações dos campos de Karish e Leviathan no início do conflito, o que reduziu drasticamente as exportações de gás por gasoduto para o Egito e forçou este último a ampliar suas importações marítimas de gás natural liquefeito (GNL) para sustentar sua matriz elétrica.
A asfixia do tráfego pelo Estreito de Ormuz impulsionou a busca emergencial por rotas alternativas de escoamento para garantir o fluxo de hidrocarbonetos aos mercados globais. Os países com infraestrutura de desvio passaram a utilizá-la em sua capacidade máxima. A Arábia Saudita ampliou o redirecionamento de seus fornecimentos através do oleoduto Leste-Oeste, transferindo o escoamento de exportação para terminais no Mar Vermelho, como Yanbu. Os Emirados Árabes Unidos intensificaram as exportações de petróleo bruto por meio de dutos terrestres até o porto de Fujairah, que se localiza geograficamente fora da área de bloqueio principal. O Iraque, que contava com altíssima dependência da rota do Golfo, buscou escoar volumes residuais pelo oleoduto Kirkuk-Ceyhan e firmou contratos logísticos rodoviários para transportar 50 mil b/d em caminhões até o porto sírio de Banias. No entanto, essas opções de desvio provaram ser insuficientes para acomodar o volume massivo outrora movimentado pelo estreito.
Diante da insuficiência das alternativas imediatas, o debate sobre o desenvolvimento de novas infraestruturas definitivas para substituir ou contornar o Estreito de Ormuz ganha centralidade nas estratégias geopolíticas. Mas, o planejamento e a eventual construção de uma nova malha de oleodutos demandam prazos longos, estendendo-se por anos de obras e exigindo vultosos aportes financeiros, com custos que inevitavelmente seriam transferidos para o consumo. Além do aspecto financeiro, é imprescindível acrescentar à análise o fato de que novas rotas terrestres não eliminam as vulnerabilidades de segurança. O conflito em curso evidencia que dutos, estações de bombeamento e portos costeiros permanecem altamente expostos a ataques de mísseis e drones. As incursões bem-sucedidas contra a infraestrutura de desvio da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes atestam que a diversificação de rotas não garante inviolabilidade operacional. A limitação das vias de desvio atuais em absorver todo o fluxo energético mantém o Oriente Médio sob intensa instabilidade e exige arranjos logísticos complexos que estão pressionando os grandes importadores asiáticos a reestruturar suas cadeias de suprimento e a acelerar a busca por fontes e corredores menos vulneráveis.
O sudeste asiático
O sudeste asiático, que iniciou o ano de 2026 com uma posição econômica sólida, já está sofrendo os impactos da guerra no Oriente Médio. Segundo levantamento da AIE, em 2024 por exemplo, cerca de 80% do petróleo consumido pelo Japão e Paquistão tinham origem da região. A crise no abastecimento está elevando a inflação, enfraquecendo as balanças externas e limitando as opções políticas, o que ressalta a dependência da região do petróleo e do gás importados.
Numa visão agrupada, o sudeste asiático consome cerca de 38% do petróleo e 24% do gás natural mundial, sendo o principal comprador de petróleo e gás transportados através do Estreito de Ormuz. Além disso, constitui o principal polo de refino de petróleo bruto, representando aproximadamente 36% da capacidade mundial (OPEP, 2026) concentrado na China, Índia, Coreia e Cingapura.
Deste modo, o sudeste asiático não é apenas o principal consumidor global de energia, mas também detém a maior parcela do processamento industrial de hidrocarbonetos, se posicionando como o eixo central das perturbações nos fluxos energéticos internacionais. O prolongamento do conflito pode afetar esta capacidade de refino, reduzindo por exemplo de forma dramática a oferta de combustível de aviação e outros derivados.
Esta alta dependência de importação, leva a adoção de medidas de emergência voltadas para a economia de energia. Políticas que vão desde esquemas de racionamento e restrições ao consumo até intervenções estatais para conter os preços e garantir o abastecimento. Em Mianmar, foram implementados mecanismos de racionamento de combustíveis para veículos particulares por meio de sistemas de circulação alternada. Em Bangladesh, foi decretado o fechamento temporário de instituições de ensino e restrições no transporte, enquanto na Tailândia foram promovidas medidas de eficiência energética, como o teletrabalho, a regulamentação do uso de ar-condicionado, o incentivo ao transporte compartilhado e a flexibilização dos códigos de vestimenta para reduzir o consumo associado à climatização.
Em outros casos, as respostas incluíram medidas de austeridade e redução da atividade econômica, como no Sri Lanka e na Índia, onde a escassez de combustíveis afetou tanto o setor industrial quanto o de serviços. Por sua vez, países como Vietnã – que enfrenta restrições de abastecimento no curto prazo – e Filipinas intervieram por meio de subsídios ou reduções fiscais para amenizar o impacto do aumento dos preços, esta última tendo declarado estado de emergência energética. Também as economias mais desenvolvidas, como Coreia do Sul e o Japão implementaram estratégias preventivas baseadas em campanhas de economia de energia e no uso de reservas estratégicas (BBC, 2026). Em conjunto, essas medidas refletem não apenas a magnitude do impacto imediato da crise energética, mas também a vulnerabilidade estrutural do sudeste asiático diante de interrupções nos fluxos de hidrocarbonetos em particular aqueles que transitam pelo Estreito de Ormuz, bem como a fragilidade do sistema global de refino.
Enquanto isso, a Europa busca acelerar a eletrificação
A União Europeia é o maior bloco importador de energia do mundo e já vinha sofrendo um grande impacto da guerra na Ucrânia, o que a obrigou a reestruturar e repensar sua dependência e as rotas de importação. Diante do impacto do fechamento do estreito de Ormuz, a Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, tornou público, em 22 de abril. o programa AccelerateEU. A iniciativa reúne medidas de curto, médio e longo prazo para enfrentar os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz, proteger os cidadãos europeus da crise e acelerar a implantação de energia renovável no continente.
O programa é dividido em cinco pilares: o primeiro visa ampliar a coordenação entre os países da União Europeia tanto no mercado único europeu quanto no trato com fornecedores de combustíveis fósseis – esta coordenação é essencial para a implementação do Plano de Ação para a Eletrificação, que visa a aceleração da transição energética na Europa; o segundo, busca defender os consumidores finais e as indústrias europeias, incluindo programas de apoio à renda direcionados, vouchers de energia e regimes de arrendamento social; o terceiro, foca na aceleração da energia renovável produzida na própria Europa, reduzindo as importações de petróleo e gás ao encorajar as empresas a ampliarem sua capacidade e investimento em renováveis, além de remover barreiras para sua implementação nos setores industrial, de transporte e de construção; o quarto, busca intensificar a fiscalização do sistema energético europeu, garantindo o cumprimento rigoroso das medidas em vigor; o quinto e último pilar visa aumentar o investimento público e privado na transição energética. Ao mesmo tempo países europeus individualmente tomam várias medidas específicas. Assim a França, e um perspectiva de médio-longo prazo, reforça seu aposta tradicional em nuclear. Alemanha decidiu no final de abril por uma redução significativo temporária nos impostos sobre combustíveis (diesel e gasolina).
A Comissão Europeia aposta na aceleração da transição energética, ”A transição para energia limpa é um imperativo econômico, de competitividade e de segurança que exigirá um forte compromisso de todas as partes envolvidas’’. A necessidade da transição energética não é uma novidade aos países europeus, mas devido ao conflito no Oriente Médio ela vem sendo estimulada para rápida adoção, buscando diminuir os danos causados aos países membros da União Europeia.
Conclusão
Para além do impacto imensurável na vida dos povos que habitam a região, com perdas humanas que já passa de milhares, a agressão de EUA e Israel ao Irã vêm desencadeando consequências gravíssimas para os povos de todo o mundo e expondo as vulnerabilidades da economia política internacional da energia do petróleo e gás.
Particularmente no Oriente Médio, a destruição da infraestrutura existente exigirá investimentos de dezenas de bilhões de dólares apenas para sua reconstrução, por outro lado, a busca por rotas alternativas ao conflito pode reconfigurar a dinâmica regional. No sudeste asiático, altamente dependente das importações do Oriente Médio e principal processador do petróleo bruto do Oriente Médio, a crise tem impulsionado medidas de curto prazo dos governos para diminuir os impactos na população e pode servir para outras medidas que visem a redução da dependência de importação. Neste sentido, a União Europeia parece buscar na aceleração da transição energética uma forma de diminuir suas vulnerabilidades.
O conflito, que já ultrapassa os dois meses, se prolongado ainda mais pode decorrer na retração do crescimento global e aumento da inflação em episódios comparáveis a crise de 2008 e a pandemia de 2020. O que revela como os povos ainda estão muito distantes de alcançar uma economia política internacional da energia que, de fato, busque o desenvolvimento e harmonia entre os homens e a natureza como muitas vezes prometido por suas lideranças nos diversos fóruns internacionais das últimas décadas.

